<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3c.org/TR/1999/REC-html401-19991224/loose.dtd">
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<DIV><FONT color=#ff0000 size=7 face=Forte><FONT size=6><FONT size=7>Carta O
Berro</FONT></FONT><FONT
size=4>..................................................................repassem</FONT></FONT></DIV>
<DIV><FONT size=2></FONT> </DIV>
<DIV style="FONT: 10pt arial">----- Original Message -----
<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><B>From:</B> <A
title=vilemarfc@gmail.com
href="mailto:vilemarfc@gmail.com">vilemarfc@gmail.com</A> </DIV>
<DIV> </DIV></DIV>
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<P style="TEXT-ALIGN: center" class=MsoNormal align=center><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt"><STRONG><FONT
size=5>MÁRIO<SPAN> </SPAN>ALVES</FONT></STRONG></SPAN></P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" class=MsoNormal align=center><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt"><IMG border=0
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<P style="TEXT-ALIGN: center" class=MsoNormal align=center><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt"></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">As praias do Rio de
Janeiro encheram-se de velas no dia 3l de dezembro de 1969. </SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">O sol rompeu forte
no ano novo e avisou que até o calor seria de amargar. Às 20 horas do dia 14 de
janeiro, Bruno Maranhão esperava na rua Brás Pina, conforme o combinado. Lá
adiante, avistou Mário Alves. O jornalista explicou que não comparecera ninguém
no ponto dele às 18 horas. Mário faria parte da primeira turma a entrar no local
da reunião e sabia do ponto de Bruno porque fora ele que passara a outro
companheiro e estava ali para trocar opiniões sobre o desencontro. Bruno cismou,
mas Vila ponderou que o pessoal deveria estar com dificuldade para arranjar o
aparelho onde seria realizada a reunião do Comitê Central. Por medida
de</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">segurança saíram do
local e caminharam trocando idéias sobre a prisão do militante na fuga do
assalto no Souto Maior e posteriormente de alguns simpatizantes.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Eram necessárias
medidas para estancar o problema e garantir a compartimentação da estrutura
organizativa do partido. Mário Alves lembrou que havia a alternativa de pontos
para os dois.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">No outro dia, Bruno
estava lá e nada dos companheiros chegarem. Mário Alves surgiu do meio do povo e
disse mais uma vez que também não aparecera ninguém no ponto marcado com ele. A
cisma no pernambucano aumentou. Ainda assim, o jornalista lembrou que ele tinha
uma última alternativa, um ponto de recuperação que era acionado quando todos os
outros furavam. Seria no outro dia, 16 de janeiro, e entregou a Bruno Maranhão
um documento que denunciava aulas práticas de tortura uma prisão de Linhares, em
Minas Gerais. A denúncia era muito importante e grave: os irmãos Pezzuti
relatavam que um oficial das forças armadas norte-americanas estava ensinando a
policiais brasileiros novos métodos de interrogatório em aulas práticas com
tortura em prisioneiros políticos. Segundo Bruno Maranhão, o tal oficial foi
identificado mais tarde como sendo Dan Mitrione, seqüestrado posteriormente
pelos Tupamaros, no Uruguai. Na época, a ditadura militar uruguaia recusou-se a
negociar com o grupo guerrilheiro e Dan Mitrione foi justiçado. Bruno ficou com
a tarefa de encaminhar a denúncia a um companheiro que ia viajar à Paris para
que fosse amplamente divulgada. Saíram caminhando e retomaram a conversa da
noite anterior. Mário pediu para entrar numa lanchonete porque precisava beber
leite, dieta para consolidar o tratamento da úlcera que tinha curado com a
alimentação macrobiótica receitada por Dilma.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Conversaram mais
algum tempo e Bruno combinou de reencontrar Mário Alves, dois dias depois, em 17
de janeiro. Despediram-se na estação de Cascadura.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Mais tarde, quando
Mário Alves voltou para casa, Dilma também cismou. Afinal, pela segunda vez
consecutiva o marido saía avisando que ficaria fora por alguns dias e retornava
horas depois porque o encontro não se realizara. A mulher não era militante do
PCBR e o marido, por medida</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">de segurança, não
conversava os assuntos internos do partido. Neste dia, no entanto, ele falou
sobre as divergências no partido.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Por isso insistia em
cobrir todas as alternativas de ponto, inclusive a última, no dia seguinte. A
reunião do Comitê Central era muito mportante e ele, o principal dirigente, não
poderia faltar.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Aquela noite de
espera também foi a última que Dilma e Mário ficaram juntos.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">O dia amanheceu e
permaneceu calorento naquele 16 de janeiro de 1970. Mário Alves vestia camisa de
mangas curtas quando saiu de casa para cobrir o derradeiro ponto de sua vida.
Como em “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso estava sem lenço, sem documento,
nada nos bolsos ou nas mãos. No local e hora marcada a fúria do inimigo, na
tocaia, o alcançou. No quartel do Exército, na rua Barão de Mesquita, na Tijuca,
os</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">torturadores
agitaram-se, comemoraram e disseram uns aos outros que era preciso avisar ao
coronel Alcyone Portela, na época comandante do DOI-CODI que acabara de ser
inaugurado no Rio de Janeiro e funcionava naquele quartel. “O preso é calado,
franzino e não agüentará muito tempo”, imaginavam os militares.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">“Não se enganem”,
avisou o chefe de todos eles: “trata-se de comunista convicto, o mais perigoso e
bem preparado dos intelectuais subversivos do antigo partidão, aquele que
enfrentou Prestes, fundou um partido revolucionário e é um dos líderes da
rebelião que quer derrubar o governo pelas armas. Será preciso dobrálo,
desmoralizá-lo”. Não conseguiram.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Na sala de
interrogatório, Mário enfrentou o inimigo. Durante oito horas seguidas foi
espancado com cassetetes de borracha, pendurado que nem morcego no pau-dearara
recebeu choques elétricos em todas as partes do corpo e foi afogado na masmorra
da brutalidade. Aquele homem de físico</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">débil, que começou
suas andanças ainda menino e escolheu seu próprio destino, não cedia e conseguia
dominar até seu instinto animal de conservação. Embora amarrado, completamente
imobilizado e a mercê de</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">seus carrascos,
Mário aceitava o combate e desafiava a morte que se anunciava.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Naquela noite, que
varou pela madrugada do dia seguinte, os presos da cela que ficava ao lado da
câmara de tortura ouviram tudo no espaço vazio deixado pela meia parede. Estavam
ali, sem conseguir dormir, o advogado Raimundo José Barros Teixeira Mendes, o
tenente da Revolução</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">de 1930 Augusto
Henrique Maria D’Aurrelli, o líder operário Manoel João</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">da Silva e Antônio
Carlos Carvalho, eleito posteriormente vereador pelo MDB carioca. Também
torturados, eram testemunhas, para o futuro, do horror que Mário Alves passava.
Raimundo Teixeira Mendes não se conteve: subiu na cama de beliche que ficava
junto ao teto e pela fresta viu o jornalista pendurado no
pau-de-arara.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">O torturado
recusava-se a dar qualquer informação aos inquisidores. Mesmo quando o inquiriam
afirmativamente sobre seu verdadeiro nome e a função que exercia de
secretário-geral, dirigente máximo do PCBR, ário confirmava sarcástico: “vocês
já sabem”. Naquele dia daquela noite o guerreiro aplicou ele mesmo as regras que
havia escrito no segundo semestre de 1969 sobre o comportamento que o militante
deve ter diante da polícia, dos torturadores e dos juizes:</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">“Quando um
revolucionário se acha em poder do inimigo enfrenta uma das situações mais duras
de sua vida. É o momento que põe à prova sua firmeza ideológica, suas qualidades
morais, sua dignidade pessoal... É preciso ter profunda convicção
revolucionária, confiança na causa que defende e disposição para enfrentar todos
os sacrifícios... O medo surge quando o prisioneiro se sente sozinho, isolado e
impotente diante do inimigo... Mas o revolucionário consciente nunca se sente
só... Sabe que além dos muros do cárcere estão seus companheiros, está o povo
que luta... Ele se sente parte dessa grande força que há de vencer o regime de
exploração e opressão.<SPAN> </SPAN>Dessa compreensão retira energia para
enfrentar com coragem seus algozes”.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Mário Alves nunca
foi levado diante do juiz. Não houve tempo para isso. Naquele dia daquela noite
de horror o guerreiro do sem medo, humano, sentiu dor e um gemido ecoou pelas
celas do quartel da rua Barão de Mesquita. Mas de nada adiantaram todos os
métodos de tortura aplicados. Negava-se a responder as perguntas sobre seus
companheiros e sua organização. Tentaram pressioná-lo pelo lado familiar e
falavam no paradeiro da menina Lúcia: “Nós já sabemos que ela está em Minas
Gerais”, disse o interrogador. “Então vão buscá-la”, respondeu Mário Alves em
tom de desafio.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Os ratos de porrete
e pêlo cor de oliva queriam, sobretudo que ele revelasse o endereço de seu
aparelho, de sua residência, onde estava Dilma. Nesse instante Vila silenciou. O
segredo era só seu, lhe pertencia.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Naquele final de
noite e início de seu derradeiro dia, Mário Alves de Souza</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Vieira foi
sentenciado na câmara do horror.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Impotentes para
quebrar a vontade daquele homem franzino, mas determinado, os carrascos pegaram
o cassetete de madeira dentado com estrias de aço e sangraram por dentro o
revolucionário. Mário Alves foi</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">empalado e teve os
intestinos perfurados.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">No suplício medieval
do empalamento, Eduardo II, da Inglaterra, urrou como um animal. Mário lutou
quando os ratos roeram as entranhas dele. Gritou, gemeu e depois calou para
sempre.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">O dia 17 de janeiro
de 1970 amanheceu mais cedo para os presos da cela ao lado.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Três deles - Manoel
João, Augusto Henrique e Antônio Carlos – foram escolhidos para limpar a sala de
tortura. No chão banhado em sangue, e também em coragem, restava o corpo de
Mário Alves.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Ainda vivia
moribundo, cheio de hematomas, sangrando pelo nariz e pela</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">boca. Arquejava e
não se mexia. Balbuciou pedindo água que não conseguiu beber.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Antes dos policiais
retirarem o jornalista da sala, Manuel e Augusto o reconheceram.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Outro preso, José
Carlos Brandão Monteiro, posteriormente deputado do</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">PDT, foi levado por
engano à cela naquela manhã do dia 17 de janeiro e também viu Mário Alves caído
no chão, ensangüentado. Depois, os soldados rasos que serviam no quartel
comentaram que Mário Alves havia morrido.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">A reunião do Comitê
Central do PCBR nunca se realizou. Entre os dias 12 a 20 de janeiro daquele ano,
a maior parte da direção do partido foi presa. As quedas começaram depois que
Salatiel Teixeira Rolim, ex-dirigente nacional e um dos fundadores do PCBR foi
preso dentro de um cinema da Baixada Fluminense durante uma batida policial e
entregue ao quartel</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">do Exército, na rua
Barão de Mesquita.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Fazia meses que
Salatiel não mantinha contato com o partido. No livro “Combate nas Trevas”,
Jacob Gorender relata o que aconteceu: “Por norma de segurança clandestina, os
aparelhos que ele conhecia</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">precisavam ser
desativados, o que não se fez devido à evidente negligência. Depois de muito
torturado, Salatiel abriu a localização de aparelhos do PCBR e também dos dois
sítios comprados no Paraná. A partir de 12 de janeiro começaram as prisões que
arrastaram Apolônio, Miguel Batista e outros membros da direção”...) “Nas
semanas seguintes, novas quedas no Rio. Prisões de René de Carvalho (também da
direção</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">nacional) e de
Álvaro Caldas. Crivado de balas num apartamento de Copacabana, morte do marujo
Marco Antônio. Salatiel conhecia ligações em São Paulo e aí as prisões começaram
no dia 16”.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Entre outras
pessoas, foram presos na capital paulista Aytan, Helenita, Valdizar, Sônia,
Sérgio Sister e finalmente Gorender, no dia 20 de janeiro. Bruno Maranhão
acrescenta outra informação: no aparelho onde aconteceria a reunião do Comitê
Central, no Rio de Janeiro, também foi</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">preso o motorista do
partido que usava o nome de Jurandir e era uma das pessoas que conheciam o
local, dia e horário do tal ponto de recuperação onde Mário Alves foi feito
prisioneiro. Sob tortura Jurandir abriu o local. Bruno foi um dos poucos que
escapou: cobriu o ponto que havia marcado</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">com Mário Alves no
dia 17 de janeiro, repetiu seis vezes, mas Vila nunca</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">apareceu, mas também
não entregou o encontro. Oito anos depois, quando Suzana, a mulher de Bruno deu
à luz um menino, os pais decidiram chamá-lo de Mário, em homenagem a
Vila.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Depois que Vila foi
trucidado, Dilma assumiu a luta, percorreu as prisões</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">da ditadura, bateu
em todas as portas dos comandantes militares, que negavam a morte e até a prisão
de Mário. Dilma e a filha Lúcia souberam logo que o tinham matado. Choraram.
Enxugaram as lágrimas e continuaram valentes. Dilma escreveu para deputados,
senadores, ministros de estado, juizes e diversas outras autoridades
constituídas e denunciou o desaparecimento e assassinato do marido.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Processou o governo
e com base nos depoimentos daqueles presos que estavam na cela ao lado da sala
de tortura onde Mário foi empalado, a mulher conseguiu provar em juízo sua
prisão e assassinato.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Em 21 de outubro de
1981, a juíza Tânia de Melo Heine, da Primeira Vara Federal, responsabilizou a
União pelo seqüestro, tortura, morte e ocultação do cadáver do jornalista:
“Mário Alves de Souza Vieira</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">faleceu em
conseqüência de maus tratos sofridos nas dependências do DOICODI”.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Foi o primeiro e
único caso de reconhecimento na Justiça da prisão e</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">morte de um
“desaparecido político”. O corpo não foi localizado. Por conta disso, Dilma e
Lúcia insistiram no direito de enterrar Mário Alves. Todos os anos, no dia 16 de
janeiro, depositavam uma palma de flores na estátua de Tiradentes, em frente à
Assembléia Legislativa do Rio Janeiro.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Os herdeiros da
determinação de Mário Alves continuam buscando os restos mortais do jornalista.
Em dezembro de 1987, o Tribunal Federal de Recursos confirmou a sentença da
juíza Tânia Heine e responsabilizou a União pelo assassinato de Mário Alves nas
dependências do DOICODI, no quartel da rua Barão de Mesquita. Mas não foi um
carimbo final no seu dossiê. Em setembro de 1995, o então presidente da
República Fernando Henrique Cardoso enviou e aprovou no Congresso Nacional um
projeto que reconhece a morte de 136 presos políticos desaparecidos durante o
governo militar e estabelece uma indenização para os familiares. Mário Alves
está na lista. Mas o governo não esclarece as circunstâncias das mortes, não diz
nada sobre onde estão os restos mortais desses brasileiros e deixou de fora do
projeto os nomes de outras pessoas reconhecidamente assassinadas nos tempos da
ditadura.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Até hoje, os
arquivos do CENIMAR, CIEX E CISA continuam secretos . Mas nós insistimos
<SPAN> </SPAN>e repetimos o que escreveu Pablo Neruda no seu poema “Os
inimigos”:</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt"></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Por esses mortos, os
nossos mortos,</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">peço castigo. Para
os que salpicaram a</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">pátria de sangue,
peço castigo. Para o</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">verdugo que ordenou
esta morte, peço</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">castigo. Para o
traidor que ascendeu</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">sobre o crime, peço
castigo. Para o que</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">deu a ordem de
agonia, peço castigo.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Para os que
defenderam este crime,</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">peço castigo. Não
quero que me dêem</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">a mão empapada de
nosso sangue,</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">peço castigo. Não
vos quero como</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">embaixadores,
tampouco em casa</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">tranqüilos. Quero
ver-vos aqui</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">julgados nesta
praça, neste lugar.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Quero castigo!
“</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt"></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Quando isso
finalmente acontecer, ouviremos emocionados os sinos da catedral em “Reqüiem”, a
missa para os mortos, derradeira e inacabada composição de Amadeus Mozart e nos
lembraremos da história contada em versos por outro guerreiro de outro
tempo:</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">“Cheguei às cidades
num período de desordens, quando aqui a fome</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">reinava. Vim para o
meio do povo quando imperava a revolta, e cresci</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">com ela. Assim
passou-se o tempo que me foi concedido nesta Terra (...) Mas vós, que
renascereis do dilúvio no qual nós nos afogamos, pensai também, quando falardes
de nossa fraqueza, na sombria época de que haveis escapado.</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">Nós caminhamos,
mudando de país mais do que de sapatos, através da luta de classes, confundidos,
quando havia apenas injustiça e não protesto. E ainda assim sabemos: o ódio,
mesmo contra a degradação, contorce as feições. A ira, mesmo contra a injustiça,
torna a voz áspera. Ah, nós que queríamos preparar o chão da amizade, não
pudemos, nós mesmos, ser amigos. Mas, vós quando tudo estiver tão perfeito que o
homem ajude o homem, lembrai-vos de tudo isto, quando pensardes em
nós”<SPAN> </SPAN><SPAN> </SPAN>(Bertold Brecht, “Aos que virão
depois de nós”).</SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt"></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt">* OTTO FILGUEIRAS
<SPAN> </SPAN>- <SPAN> </SPAN>jornalista e está preparando um livro
sobre a organização de esquerda Ação Popular.</SPAN><SPAN
style="FONT-FAMILY: 'Bookman Old Style'; FONT-SIZE: 12.5pt"></SPAN></P><BR
clear=all><BR>-- <BR>-----------------------------------<BR>A POLITICA CRIA A
CIVILIZAÇÃO. A AÇÃO CRIA A HISTÓRIA.<BR><PRE>***********************************************************
</PRE>
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