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<DIV>S<A>exta-Feira, 05 de Março de 2010</A></DIV></DIV>
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<P class=data>05/03/2010</P>
<P class=titulo><STRONG><FONT size=6>A miséria moral de
ex-esquerdistas</FONT></STRONG></P>
<P class=corpo><STRONG>Alguns sentem satisfação quando alguém que foi de
esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de direita – como se dissessem:
“Eu sabia, você nunca me enganou”, etc., etc. Outros sentem tristeza, pelo
triste espetáculo de quem joga fora, com os valores, sua própria dignidade – em
troca de um emprego, de um reconhecimento, de um espaçozinho na
televisão.<BR><BR>O certo é que nos acostumamos a que grande parte dos
direitistas de hoje tenham sido de esquerda ontem. O caminho inverso é muito
menos comum. A direita sabe recompensar os que aderem a seus ideais – e
salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo convencimento dos seus
ideais.<BR><BR>O ex-esquerdista ataca com especial fúria a esquerda, como quem
ataca a si mesmo, a seu próprio passado. Não apenas renega as idéias que
nortearam – às vezes o melhor período da sua vida -, mas precisa mostrar, o
tempo todo, à direita e a todos os seus poderes, que odeia de tal maneira a
esquerda, que já nunca mais recairá naquele “veneno” que o tinha viciado. Que
agora podem contar com ele, na primeira fila, para combater o que ele foi, com
um empenho de quem “conheceu o monstro por dentro”, sabe seu efeito corrosivo e
se mostra combatente extremista contra a esquerda.<BR><BR>Não discute as idéias
que teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações
possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos
incautos sobre a dependência que geram a “dialética”, a “luta de classes”, a
promessa de uma “sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado”. Denunciar,
denunciar qualquer indicio de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação em
relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as políticas
de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um presidente
legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do “socialismo”,
do “totalitarismo”, do “stalinismo”. <BR><BR>Viraram pobres diabos, que vagam
pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes
emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora
superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais,
revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de
ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e
salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral
deprimente.<BR><BR>Aderem à direita com a fúria dos desesperados, dos que
defendem teses mais que nunca superadas, derrotadas, e daí o desespero. Atacam o
governo Lula, o PT, como se fossem a reencarnação do bolchevismo, descobrem em
cada ação estatal o “totalitarismo”, em cada política social a “mão corruptora
do Estado”, do “chavismo”, do “populismo”.<BR><BR>Vagam, de entrevista a artigo,
de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo ímpeto que um
dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a “democracia” contra
os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com suposto tempero acadêmico,
em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que o “perigo comunista” – sem
o qual não seriam nada – está vivo, escondido detrás do PAC, do Minha casa,
minha vida, da Conferência Nacional de Comunicação, da Dilma – “uma vez
terrorista, sempre terrorista”.<BR><BR>Merecem nosso desprezo, nem sequer nossa
comiseração, porque sabem o que fazem – e os salários no fim do mês não nos
deixam mentir, alimentam suas mentiras – e ganham com isso. Saíram das
bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para espaços
na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da
ditadura.<BR><BR>Vagam como almas penadas em órgãos de imprensa que se
esfarelam, que vivem seus últimos sopros de vida, com os quais serão enterrados,
sem pena, nem glória, esquecidos como serviçais do poder, a que foram reduzidos
por sua subserviência aos que crêem que ainda mandam e seguirão mandado no mundo
contra o qual, um dia, se rebelaram e pelo que agora pagam rastejando junto ao
que de pior possui uma elite decadente e em vésperas de ser derrotada por muito
tempo. Morrerão com ela, destino que escolheram em troca de pequenas glórias
efêmeras e de uns tostões furados pela sua miséria moral. O povo nem sabe que
existiram, embora participe ativamente do seu enterro.</STRONG></P>
<P class=autor><STRONG>Postado por Emir Sader às
02:11</STRONG></P></DIV></DIV></DIV></DIV>
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<P></P></BODY></HTML>