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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT color=#ff0000 size=7 face=Forte>Carta O Berro<FONT 
size=3>..........................................................................................................repassem</FONT></FONT></DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV>
<P><SPAN class=tit_art><A name=1499><IMG border=0 hspace=0 alt="" align=baseline 
src="cid:10602356D4A649E0BF44FA8C297FB2C4@vcaixe"></A></SPAN></P>
<P><SPAN class=tit_art></SPAN>&nbsp;</P>
<P><SPAN class=tit_art><STRONG><FONT size=5>Para onde vai a 
Argélia?</FONT></STRONG> <BR></P></SPAN><SPAN class=pret_art>
<BLOCKQUOTE><IMG border=1 alt="" align=right 
  src="http://www.odiario.info/b2-img/ARGEL%20-%20UMA%20PRACA.jpg"><BR><BR><BR>Miguel 
  Urbano Rodrigues conheceu Argel em 1953 quando era a capital de uma colónia 
  mascarada de parcela da França. Neste artigo, após uma breve visita, escreve 
  sobre a Argélia do início do século XXI, um país atormentado mas fascinante 
  cujo presente não corresponde à esperança suscitada por uma luta heróica pela 
  independência.<BR><BR><BR></BLOCKQUOTE></SPAN><SPAN class=firma_art>Miguel 
Urbano Rodrigues </SPAN>- <SPAN class=pret_portgris>02.03.10 <BR></SPAN>
<P></P>
<P class=text_art>O fascínio que Argel exerce há séculos sobre os estrangeiros 
que ali chegam é inseparável do cenário.<BR><BR>O casario, predominantemente 
branco, sobe pelas encostas que a encerram em gigantesca taça, moldura de uma 
baía deslumbrante, apenas superada em grandeza pela Guabanara e 
Nápoles.<BR><BR>O Colóquio Internacional de Homenagem a Georges Labica 
proporcionou-me em Fevereiro o reencontro com a cidade, por onde tinha passado 
em 1953 quando a Argélia era ainda uma colónia mascarada de parcela da 
França.<BR><BR><IMG border=1 alt="" align=right 
src="http://www.odiario.info/b2-img/ARGEL%20-%20MESQUITA%20E%20LARGO.jpg">Dessa 
breve visita guardava na memória imagens de uma cidade onde a grande maioria dos 
moradores era de origem francesa. Recordo ter percorrido então a Casbah, o 
núcleo urbano anterior à conquista onde residiam muitas dezenas de milhares de 
muçulmanos, definidos como indígenas pela administração colonial.<BR><BR>Achei a 
Casbah actual quase irreconhecível.<BR><BR>Agora Argel é uma cidade muçulmana 
onde os europeus são uma minoria insignificante. Na Casbah não há gendarmes nem 
bandeiras francesas, o árabe substituiu a língua de Voltaire como idioma 
nacional, mas a modernidade aparente da era da globalização impõe-se nos ruídos 
das ruas, nas cores de cartazes publicitários, e no desaparecimento do vestuário 
tradicional.<BR><BR>Declarada património da humanidade, a cidade velha não se 
assemelha a qualquer outra do Islão. Nos 45 hectares que restam da antiga 
capital amuralhada da época da conquista, concentram-se 1.200 casas, labirinto 
de ruelas, becos, escadas tortuosas, numa malha urbana onde se destacam 
mesquitas e palácios do período da dominação turca, santuários, museus, <B>um 
medersa</B> (universidade corânica) e minúsculas lojas.<BR><BR>Com alguma 
surpresa, recordando cidades asiáticas do Islão como a antiga Cabul, achei a 
Casbah limpa.<BR><BR>Percorrendo o dédalo das suas ruas, a minha imaginação 
viajou pelo tempo. Revivi a gesta da resistência de 18 anos do emir Abdel Kader 
à invasão francesa de 1830 e, com emoção, a luta travada na Casbah pelos 
patriotas da FLN contra os paraquedistas de Massu, imortalizada em «A Batalha de 
Argel», o filme de Pontecorvo.<BR><BR>Pisando aquele solo milenar, com o olhar 
descendo para o mar azul das escarpas nuas que fecham o horizonte, subiu em mim 
naquela tarde fria um sentimento de respeito e admiração pelos povos da Argélia 
que ao longo de 20 séculos se bateram com heroísmo contra todos os invasores 
desde Roma à ocupação francesa.<BR><BR><B>UM PAÍS MILITARIZADO </B><BR><BR>As 
Forças Armadas Argelinas, avaliadas em 180.000 homens (as mulheres são escassas 
no exército), constituem hoje talvez o corpo militar mais numeroso no Continente 
africano, superando as do Egipto.<BR><BR>Esse gigantismo não resulta de qualquer 
ameaça externa previsível. O exército cresceu como resposta do Estado à onda de 
violência desencadeada na sociedade argelina pela Frente Islâmica de Salvação – 
FIS.<BR><BR>Não cabe neste artigo comentar a situação criada pelo desafio do 
radicalismo islamista ao Poder detido pelos herdeiros do movimento que dirigira 
a luta pela independência nacional.<BR><BR>Registo somente que a mensagem do FIS 
encontrou de início receptividade entre as camadas mais desfavorecidas de uma 
população misérrima, que perdera a esperança suscitada pela independência e as 
promessas do «socialismo argelino».<BR><BR>Enquanto a população do país 
quadruplicou desde meados do século passado – hoje supera os 30 milhões – a 
anunciada revolução não se concretizou e o êxodo total da população europeia 
provocou o desmoronamento do sistema económico preexistente.<BR><BR>A anulação 
das eleições ganhas pelo FIS, que beneficiava do descontentamento geral, 
traduziu-se numa vaga de violência irracional (150.000 mortos e centenas de 
milhares de exilados). O Grande Medo contribuiu decisivamente para a perda de 
popularidade da organização.<BR><BR>A resposta do Estado foi a militarização do 
país.<BR><BR>Argel é hoje uma cidade muito mais «segura» do que a maioria das 
capitais da América Latina. A FIS foi militarmente esmagada.<BR><BR>Mas o preço 
social da derrota infligida à organização islamista foi muito alto. A densidade 
do policiamento e a visibilidade do dispositivo militar impressionam o 
forasteiro.<BR><BR>Às seis da tarde não se encontra uma mulher nas praças e ruas 
do centro; às oito, a cidade, deserta, parece adormecida. A vida nocturna é 
praticamente inexistente.<BR><BR>O contraste com o dia perturba o visitante 
porque a grande metrópole (talvez uns três milhões com os subúrbios, mas as 
estatísticas argelinas não inspiram muita confiança) é um formigueiro de gente 
desde a manhã ao pôr-do-sol.<BR><BR>Na própria Residência oficial onde se 
realizou o Colóquio Labica, reservada aos participantes e convidados, não se 
podia entrar sem passagem por um detector de metais similar ao dos 
aeroportos.<BR><BR>Um cordão de militares cerca a capital à noite. Mas nas três 
vezes que saímos para jantar em restaurantes do centro, distante meia dúzia de 
quilómetros dos bairros altos, os carros oficiais em que seguíamos foram 
submetidos a numerosos controlos em postos militares. Com os táxis, a inspecção 
é mais rigorosa.<BR><BR><B>UMA ECONOMIA FRÁGIL </B><BR><BR>Durante a nossa breve 
permanência em Argel, a minha companheira e eu tivemos a oportunidade de manter 
prolongados encontros com velhos combatentes da guerra de independência. Essas 
conversas proporcionaram-me uma informação importante, embora superficial sobre 
a conjuntura argelina, tal como a sentem e vivem intelectuais revolucionários 
distanciados do Poder.<BR><BR>Falei também com jornalistas que esboçaram um 
panorama da comunicação social.<BR><BR>Uma realidade indesmentível: a 
dependência da Argélia dos combustíveis é preocupante. O petróleo e o gás 
fornecem, segundo as estatísticas oficiais, quase 98% das exportações do país e 
representam 40% do Produto Interno Bruto. As reservas comprovadas garantem a 
extracção no nível actual até 2030, o que suscita inquietação quanto ao futuro 
de uma sociedade na qual o sector produtivo é de uma insuficiência 
transparente.<BR><BR>A agricultura atravessa uma crise profunda, agravada pela 
política neoliberal ortodoxa imposta no início dos anos 90. Um punhado de 
multimilionários monopoliza as importações de cereais, leite e carne, com a 
cumplicidade de personalidades destacadas do Exército. A consequência dessa 
estratégia foi desastrosa para os produtores nacionais, incapazes de suportar a 
concorrência dos preços internacionais. Aliás, as cooperativas estatais formadas 
após a independência não puderam corresponder às esperanças nelas depositadas 
por falta de apoio do Poder central.<BR><BR>Essa grande burguesia, que acumulou 
fortunas colossais, possui casas no estrangeiro, onde passa largas temporadas. 
Não se conhece o nível das suas contas em bancos suíços, mas é certamente 
elevadíssimo. Num patamar inferior, formou-se uma burguesia próspera, 
enriquecida também através de negócios escuros.<BR><BR>Mas muitos milhões de 
argelinos vivem abaixo do nível da pobreza.<BR><BR>A crise económica e social 
assumiu tamanhas proporções que o governo sentiu a necessidade de reconhecer o 
fracasso da chamada economia de mercado cuja apologia fizera durante anos. No 
seu discurso de Junho de 2008, o Presidente Bouteflika anunciou uma viragem de 
estratégia. Mas a condenação da política neoliberal não foi acompanhada da 
formulação de uma alternativa. Não basta reconhecer que as transnacionais que 
tinham prometido realizar investimentos grandiosos trataram de saquear o país, 
tripudiando sobre os compromissos assumidos. A nova lei de finanças suprimiu os 
privilégios de que gozava o capital estrangeiro; mas o Poder não elaborou um 
projecto nacional.<BR><BR>O Presidente Boumedienne, após o golpe que derrubou 
Ben Bella, ainda utilizou durante algum tempo a expressão «socialismo argelino». 
Mas a fórmula, retórica, não travou a marcha do país rumo a um capitalismo 
dependente.<BR><BR>A indústria metalúrgica, que gerou esperanças graças a uma 
siderurgia nacional que viabilizou a produção de tractores e a montagem de 
veículos de transporte, é hoje pouco mais do que uma recordação.<BR><BR>O PIB 
per capita não excede 2.300 dólares.<BR><BR>A Argélia é territorialmente um 
gigante com mais de 2.350.000 quilómetros quadrados (grande parte no Deserto do 
Sahara, onde se concentram o petróleo e o gás). Mas enormes extensões de terras 
férteis permanecem incultas.<BR><BR><B>TEMOR DO FUTURO </B><BR><BR>Uma 
implantação débil da Internet facilita a compreensão de um absurdo aparente: as 
grandes tiragens dos jornais argelinos num Continente onde se lê 
pouquíssimo.<BR><BR>O maior diário do país, em língua árabe, tem uma tiragem que 
ronda os 400.000 exemplares. O principal dos diários de língua francesa atinge 
os 80.000.<BR><BR>Oficialmente não existe censura. Mas jornalistas com quem 
falei disseram-me que a auto-censura é rotineira na maioria das 
redacções.<BR><BR>Como a corrupção é considerada um flagelo nacional, os 
editoriais e reportagens sobre grandes escândalos são tolerados e por vezes 
incentivados. Mas desde que neles não seja transparente o envolvimento de altas 
personalidades das Forças Armadas.<BR><BR>Oficialmente, estas apresentam-se 
unidas no apoio ao regime. Mas a realidade desmente a imagem difundida. No corpo 
de oficiais, mesmo nos escalões superiores, manifestam-se tendências 
contraditórias quanto ao rumo do país.<BR><BR>Na área internacional a imprensa é 
anti-sionista e, com o apoio oficial, solidária com a luta dos povos da 
Palestina e do Líbano. O Hamas e o Hezbollah não são satanizados, ao contrário 
do que ocorre noutros países muçulmanos. As críticas às guerras de agressão dos 
EUA no Iraque e no Afeganistão e às campanhas contra o Irão são aliás 
frequentes.<BR><BR>Mas no tocante às relações internacionais do governo 
Bouteflika as surpresas são muitas para o visitante desconhecedor dos meandros 
sinuosos da estratégia do Poder.<BR><BR>A economia está orientada para a União 
Europeia (aproximadamente 60% do comércio externo), mas o alto comando do 
Exército aprofunda a cooperação militar com a China e mantêm relações cordiais 
com Washington. É inquietante que a CIA tenha sido autorizada a funcionar 
discretamente em Argel. O governo Obama, invocando a necessidade de «combater o 
terrorismo» no Continente iniciou negociações – segundo a revista web de Michel 
Collon – tendentes à utilização pelos EUA da nova base militar instalada em 
Tamanrasset, no extremo sul.<BR><BR><IMG border=1 alt="" align=left 
src="http://www.odiario.info/b2-img/ARGEL%20-%20UMA%20PRACA.jpg">Com o governo 
de Sarkozy as relações são hoje marcadas por uma tensão inocultável. A França 
foi forçada pela luta do povo argelino a aceitar a independência do país. Mas os 
seus sucessivos governos nunca assumiram uma atitude responsável no 
relacionamento com a República da Argélia. Não somente recusaram sempre debater 
a legitimidade de reparações materiais ao povo da sua antiga colónia (centenas 
de milhares de argelinos foram mortos durante os oito anos da guerra que 
provocou enormes destruições materiais) como, sobretudo desde que Sarkozy chegou 
à Presidência, insistem em reescrever a História, apresentando a colonização 
como globalmente positiva. <BR><BR><B>UM GOVERNO DESPRESTIGIADO </B><BR><BR><IMG 
border=1 alt="" align=right 
src="http://www.odiario.info/b2-img/ARGEL%20-%20VISTA%20PARA%20O%20MEDITERRANEO.jpg">A 
FLN, o partido do governo, é hoje uma caricatura do movimento de libertação que 
dirigiu a luta pela independência numa guerra de oito anos. Como não dispõe de 
uma base eleitoral que lhe garanta maioria no Parlamento montou uma heterogénea 
coligação, a Aliança Presidencial. Os seus parceiros são a União Nacional 
Democrática (RND), um partido de tecnocratas cuja bandeira é a modernização do 
país, e o Movimento Social Popular (ex-Hamas), organização populista.<BR><BR>A 
ideologia está ausente da teoria e da prática da Aliança e do governo por ela 
apoiado.<BR><BR>O Presidente Bouteflika mantém-se no poder pela inexistência de 
uma alternativa a curto prazo. Mas perdeu o escasso prestígio que tinha ao ser 
eleito em 1999. Na opinião de observadores internacionais o FIS, não obstante 
inspirar hoje mais temor e repulsa do que simpatia, venceria as próximas 
eleições se elas fossem normais. Seria essa uma forma de castigar Bouteflika e 
os seus aliados.<BR><BR>Para se avaliar a complexidade da reacção popular 
perante o Poder e aqueles que para o enfrentar optaram por uma orgia de 
violência é útil esclarecer que o analfabetismo real na Argélia deve rondar os 
50%, o que desmente as estatísticas oficiais.<BR><BR>O fosso que separa uma 
intelectualidade brilhante (na Universidade o francês predomina sobre o árabe) e 
as massas é muito profundo.<BR><BR>Mas é importante registar que houve um enorme 
progresso no campo da Educação. Antes da independência apenas umas centenas de 
argelinos tinham acesso ao ensino universitário, reservado quase exclusivamente 
a europeus. Hoje, o total de estudantes nas numerosas universidades existentes 
ultrapassa os 250.000. Lamentavelmente, o diploma, concluídos os cursos, não 
assegura trabalho a dezenas de milhares, cuja frustração é legítima.<BR><BR>Os 
sindicatos são hoje de pura fachada, e o desemprego, elevadíssimo, dificulta a 
luta dos trabalhadores cuja combatividade é escassa pela ausência de uma 
organização revolucionária com implantação entre a classe operária, capaz de a 
mobilizar em defesa dos seus direitos, uma organização que pudesse desempenhar o 
papel assumido durante a guerra pelo Partido Comunista Argelino.<BR><BR>Num país 
onde o salário mínimo equivale a 150 euros, e o médio oscila entre os 250 e os 
300, o custo de vida é comparável ao de Portugal com a peculiaridade de os 
hotéis e os restaurantes serem caríssimos.<BR><BR>Para onde caminha a 
Argélia?<BR><BR>Não me sinto em condições de esboçar uma resposta. <BR><BR>Nos 
meus breves dias de Argel encontrei-me me num país desconhecido que perdeu a 
grande esperança que mobilizou a nação numa guerra de libertação épica. 
<BR><BR>A juventude actual nasceu após a guerra da independência, tal como a 
geração anterior. Sente uma enorme frustração pela ausência de perspectivas. Um 
veterano do combate dos anos 50 dizia-me, com tristeza: «Milhares de jovens 
emigram todos os anos, principalmente para a França e o Quebec, no Canadá. 
Acredito que se não fosse a extrema dificuldade de obtenção de vistos para 
entrar na Europa e na América, nove entre cada dez jovens argelinos, deixaria o 
país».<BR><BR>O futuro próximo parece sombrio. Mas a história heróica dos povos 
da Argélia demarca-me de uma atitude pessimista.<BR><BR>Conheci ali neste 
reencontro homens cuja lucidez e firmeza reforçaram a minha confiança no amanhã 
da terra milenarmente martirizada da Argélia, berço de grandes pensadores e 
sábios e de revolucionários que se impuseram ao respeito da 
humanidade.<BR><BR><BR><I>Serpa, Fevereiro de 2010</I><BR></P></DIV>
<P>
<HR>

<P></P><BR></BODY></HTML>