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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT color=#ff0000 size=7 face=Forte>Carta O Berro<FONT
size=3>................................................................................................................................................<FONT
face="Arial Black">repassem</FONT></FONT></FONT></DIV>
<DIV><FONT size=2></FONT> </DIV>
<DIV><FONT size=2></FONT> </DIV>
<DIV style="FONT: 10pt arial">----- Original Message -----
<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><B>From:</B> <A
title=soniaugusto@uol.com.br href="mailto:soniaugusto@uol.com.br">Augusto
Buonicore</A> </DIV>
<DIV> </DIV></DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV><FONT size=2 face=Arial>
<DIV align=center><B class=titulo1><FONT color=#800000 size=6>Gildo Marçal
Brandão</FONT></B></DIV><BR>
<DIV align=right><B>Marco Antônio Coelho</B> - Fevereiro 2010 </DIV>
<DIV class=pontos> </DIV>
<DIV align=right><A
href="javascript:openWinCenter('texto_impressao.php?id=1196','gramsci', 580, 600,'1')"></A><A
href="javascript:openWinCenter('texto_email.php?id=1196','gramsci', 420,560)"></A> </DIV><BR>
<DIV style="WORD-SPACING: 1px" align=left>
<P>Amigos e companheiros,<BR>Simone, Joana, Carolina e Lucas,<BR>Dona Eva, dr.
Brandão e demais parentes de Gildo</P>
<P><STRONG>Aqui estamos para prantear o desaparecimento de um personagem
singular. É interessante assinalar que Gildo antes de tudo era um sobrevivente
na batalha pela sua existência. Segundo o relato de sua mãe, dona Eva, na
infância os médicos não acreditavam que o primogênito daquela família, nascido
no inóspito sertão de Mata Grande, iria sobreviver. Os diagnósticos eram
irrefutáveis. O garoto padecia com a chamada tetralogia di Fallot que afetava de
forma total seu sistema cardíaco. </STRONG></P>
<P><STRONG></STRONG>
<P><STRONG>Todavia, dona Eva, com o apoio total de seu esposo, não se curvou
diante desse prognóstico. Recorreu a tudo que a medicina naquela época poderia
fazer para salvar seu filho. Assim, teve início uma batalha que durou quase
sessenta anos, porque exatamente hoje Gildo completaria 61 anos de
idade.</STRONG></P>
<P><STRONG>Mas essas seis décadas foram sobretudo uma sequência de sofrimentos e
sacrifícios inauditos desse alagoano fisicamente fraco, mas com fibra de aço.
Volta e meia era internado em hospitais e sempre estava preso a dietas
intoleráveis. Duas vezes seu músculo cardíaco teve de ser aberto e na primeira
delas sua vida dependeu da perícia do doutor Zerbini. Recentemente, recorreram à
implantação de um marca-passo, que, afinal, não impediu o enfarte que o derrotou
anteontem. Sua grande amiga, cardiologista do Incor, a doutora Ana Maria Braga,
sempre nos advertiu: “Fiquem preparados para o que pode acontecer com
Gildo”.</STRONG></P>
<P><STRONG>Então, na verdade, o sucedido anteontem foi um fato absurdo, mas
anunciado, pois a falência de seu sistema cardíaco fora adiada durante seis
décadas. Em primeiro lugar pelo extremo cuidado recebido na infância e na
mocidade, graças ao carinho de seus familiares. </STRONG></P>
<P><STRONG>Outros fatores básicos foram essenciais na formação dessa figura
excepcional como teórico e militante político em nosso país. Em segundo lugar
contribuiu decisivamente seu profundo amor à vida, ao trabalho que realizava
como cientista político, sua convicção de que suas pesquisas seriam de enorme
importância para o futuro do país. Note-se que fugiu de São Paulo para uma praia
a fim de poder terminar a aula que deveria prestar na segunda semana de março.
Todos sentiam como seus deveres como professor o consumiam, embora sempre
apreciasse as coisas boas da vida. Não por acaso seu último de vida foi um
passeio maravilhoso numa praia.</STRONG></P>
<P><STRONG>O outro fator básico que permitiu essa atividade espantosa foi o
apoio absoluto, total e vigilante de Simone, sua companheira que tudo fazia para
que Gildo pudesse viajar, tomar parte na vida social e manter em sua residência
um afetuoso e acolhedor clima de amizade com inúmeros amigos, com estudantes
estrangeiros que ali se hospedavam, e auxiliando os pós-graduandos orientados
por Gildo. A contribuição de Simone também foi essencial para garantir um melhor
padrão de vida da família.</STRONG></P>
<P><STRONG>Pois bem, esse alagoano travou essa batalha sem se submeter às normas
impostas a uma pessoa fisicamente frágil. Sua vida é um exemplo de um
envolvimento permanente com toda a sorte de dificuldades financeiras, políticas,
policiais, e de extremo amor a diversas instituições de pesquisa,
particularmente a Universidade de São Paulo. Agora a fatalidade o derruba quando
dentro de um mês iria disputar o mais alto posto na academia, a função de
professor titular da USP.</STRONG></P>
<P><STRONG>O ponto de partida de Gildo na universidade foi o estudo sistemático
de filosofia, o que lhe deu uma base teórica que sempre lhe permitiu fazer
análises profundas na ciência política e na sociologia. Daí suas posições ao
lado dos que no movimento comunista assumem uma atitude firme na defesa do valor
universal da democracia e da firme disposição de aprofundar a correção dos erros
cometidos pelos que se engajam na luta por uma sociedade mais
justa.</STRONG></P>
<P><STRONG>Com orgulho Gildo Marçal Brandão relatava sua qualidade de militante
comunista. Relembro sua disposição de participar ativamente da rearticulação da
direção comunista em São Paulo, quando a repressão policial assassinou diversos
dirigentes comunistas em 1974 e 1975. Naquele ambiente de absoluto terror, Gildo
cuidou de reorganizar a direção estadual dos comunistas e participou do
lançamento do semanário <EM>Voz da Unidade</EM>, que circulou durante vários
meses. Essa atuação criou um problema para ele, porque o afastou durante vários
meses da vida acadêmica. Assumiu o compromisso de uma participação teórica mais
intensa no lançamento da revista <EM>Temas de Ciências Humanas</EM>, abordando
aspectos essenciais da atividade comunista no Brasil e no mundo. Para sobreviver
viu-se forçado a trabalhar em várias publicações, na qualidade de
<EM>free-lancer</EM>, inclusive na <EM>Folha de S. Paulo</EM>, quando foi
acolhido por Cláudio Abramo.</STRONG></P>
<P><STRONG>Retornando à atuação na academia, Gildo jamais deixou de lado sua
atuação destacada como um dos teóricos que dedica parte de seu tempo à
elaboração programática do ideário comunista no Brasil e no mundo. </STRONG></P>
<P><STRONG>Comecei meus contatos com Gildo depois da minha saída da prisão, em
1979. De início era um relacionamento distante, mas que foi se estreitando cada
vez mais. Com o passar dos anos diariamente debatíamos problemas e desafios.
Tudo o que eu fazia submetia a ele. E ele sempre exigia minhas opiniões.
Raramente discordávamos. Agora fico meio perdido sem saber como vou trabalhar
sem antes ouvir suas observações.</STRONG></P>
<P><STRONG>Assim minha sensação é de perplexidade e de insegurança.</STRONG></P>
<P><STRONG>Mas tenho clareza em relação a um ponto. A contribuição de Gildo foi
poderosa e profunda, deixando dois importantes legados. De um lado, foi sua
colaboração intensa para a criação na USP — principalmente nos Departamentos de
Ciência Política e de Sociologia — de um clima de renovação entre os
professores, visando o <EM>aggiornamento</EM> do ensino superior no Brasil nas
ciências humanas. De outro lado, pode-se medir a repercussão de seu trabalho na
USP através da formação de um grupo de doutores e mestres que leva em conta suas
análises críticas. </STRONG></P>
<P><STRONG>Encerro minhas palavras fazendo um apelo para que esforços sejam
feitos a fim de ser publicado o memorial preparado por ele para o concurso de
professor titular da USP. Documento que, no dizer dele, é um resumo de suas
opiniões. Assim, a divulgação dessa derradeira reflexão será a maior homenagem a
um mestre cujo exemplo é um orgulho para a comunidade acadêmica
brasileira.</STRONG></P>
<P><STRONG></STRONG> </P>
<P><STRONG>Fala de </STRONG><A href="mailto:macoelho@that.com.br"><FONT
color=#93150c><STRONG>Marco Antônio Coelho</STRONG></FONT></A><STRONG>,
crematório da Vila Alpina em São Paulo, 17 de fevereiro de 2010. Uma das últimas
intervenções públicas de Gildo Marçal Brandão, uma das figuras centrais deste
sítio, é a entrevista sobre </STRONG><A
href="http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=1114"><FONT
color=#93150c><STRONG>Gramsci e a esquerda brasileira,
hoje</STRONG></FONT></A><STRONG>. </STRONG></P>
<P><STRONG></STRONG> </P>
<DIV align=center><B class=titulo1><FONT color=#ff0000 size=3>Gramsci e a
esquerda brasileira, hoje</FONT></B></DIV>
<P> </P>
<DIV align=right><B>Gildo Marçal Brandão</B> - Julho 2009 </DIV>
<DIV class=pontos><BR> </DIV>
<DIV style="WORD-SPACING: 1px" align=left>
<BLOCKQUOTE><EM>De acordo com Gildo Marçal Brandão, professor do
Departamento de Ciência Política da USP e pesquisador do Cedec, a partir
dos anos 1980 e 1990 Gramsci passou a ser uma referência importante no
Brasil, propagado por autores ligados ao velho Partido Comunista Brasileiro. O
pesquisador ressalta que Gramsci teve influência na construção da
esquerda em nosso país, porque justificava, delineava e trazia elementos de
reflexão para uma esquerda que tentava fazer uma política de frente
democrática contra o regime militar. Entretanto, Brandão ressalta que a
análise das classes como motor das mudanças sociais, critério chave do
marxismo e do próprio Gramsci, “é ultrapassada”. A entrevista foi realizada
por telefone. <BR><BR>Brandão é graduado em Filosofia pela Universidade
Federal de Pernambuco e doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São
Paulo (USP). É pós-doutor pela University of Pittsburgh. De sua obra
bibliográfica, destacamos </EM>A esquerda positiva: as duas almas do Partido
Comunista, 1920-1964<EM> (São Paulo: Hucitec, 1997)</EM><EM> e </EM><A
href="http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=942"><FONT
color=#93150c>Linhagens do pensamento político</FONT></A><EM> (São Paulo:
Hucitec, 2007).</EM></BLOCKQUOTE>
<P><B>Qual é a importância de Gramsci na construção da esquerda
brasileira?</B></P>
<P>Gramsci foi influente no Brasil a partir dos anos 1970. O Brasil foi um dos
primeiros países que traduziu sua obra. Num determinado momento, ele passou em
“brancas nuvens”. Depois, a partir dos anos 1980 e 1990, se tornou um autor
importante, propagado no Brasil, em geral, por autores ligados ao velho Partido
Comunista Brasileiro: Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Luiz Werneck
Vianna, Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques. Alguns liberais e
pessoas de extrema-esquerda também interpretaram as obras de Gramsci, de maneira
diferente. Gramsci foi importante na construção da esquerda, porque justificava,
delineava e trazia elementos de reflexão para uma esquerda que tentava fazer uma
política de frente democrática contra o regime militar. Várias categorias de
Gramsci e do eurocomunismo foram usadas no Brasil por uma parte da esquerda que
estava se reconciliando com a democracia e que achava que não se devia lutar
pela derrubada da ditadura, mas sim pela derrota da ditadura. A ideia era fazer
uma política de frente para isolar o regime militar. Então, categorias de
Gramsci, como a <A
href="http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=869"><FONT
color=#93150c>guerra de posição</FONT></A> e a ideia de que o País já era
ocidentalizado e não oriental, comportavam a luta política institucional, luta
de massa, reivindicação da democracia. Esse foi o Gramsci importante para a
reconstrução da esquerda brasileira. Isso influenciou no começo o velho
comunismo e depois se propagou pelo petismo, que tinha muitos elementos em
contradição com a velha esquerda comunista. Mas Gramsci foi particularmente
influente nos dois casos, porque, em ambos, a atenção à luta democrática,
institucional e eleitoral, era importante. </P>
<P><B>Hoje, que reflexos de sua obra sobrevivem nos partidos de esquerda do
Brasil?</B> </P>
<P>Eu não conheço bem os partidos de esquerda que sobrevivem no Brasil. Mas eu
tenho impressão de que a obra de Gramsci deixou algum resquício intelectual. Por
exemplo, existe um site chamado <I>Gramsci e o Brasil</I>, que reúne
intelectuais que ainda são ligados a uma posição de esquerda democrática, de
esquerda gramsciana, no Brasil. Mas Gramsci como elemento de direção política,
de definidor de estratégias, não existe mais. A influência dele na esquerda
brasileira é muito pequena. É claro que ficou a marca de um certo setor da
esquerda democrática, da esquerda que considera a democracia um valor universal.
É aí que Gramsci sobrevive como influência intelectual. </P>
<P><B>Por que os ensinamentos de Gramsci se perderam nos partidos de
hoje?</B></P>
<P>Primeiro porque o marxismo saiu do cenário, ou seja, ele foi fortemente
abandonado e superado. O desprestígio das ideias marxistas afetou muito os
teóricos latinos. Gramsci, deles todos, talvez seja um dos que melhor resista,
justamente porque tem o marxismo muito voltado para a análise de situações e
processos políticos. Nesse ponto, Gramsci tem muito o que dizer. Boa parte do
pensamento marxista, hoje, não é nem muito considerada. Por exemplo, um
critério-chave do marxismo e do próprio Gramsci é a análise das classes como
motor das mudanças sociais. Ora, se observarmos a sociologia moderna, dos
últimos 20 anos, se percebe que há um abandono quase generalizado da teoria das
classes para explicar as mudanças sociais. Muitos sociólogos tomavam a teoria
das classes como o principal vetor que explicava a mudança social. Hoje, não se
tem mais nenhuma teoria nesse estilo. Não se tem mais, nas ciências sociais,
teorias que explicam o conjunto. Existem, sim, teorias que explicam partes, de
alcance médio, mas não globais. Há um desprestígio que afetou o marxismo, o
funcionalismo, o estruturalismo. Toda essa influência recente do pós-modernismo
jogou teóricos como Gramsci em segundo plano. Isso não quer dizer que não
sobrevivam ou existam intelectuais marxistas de primeira categoria, com posições
divergentes. </P>
<P><B>Carlo Rosselli referiu-se a Gramsci como um gênio. Quais são suas
principais contribuições à ciência política atual?</B> </P>
<P>Gramsci sempre se recusou a separar a política da sociologia, da
economia, da cultura. Ele sempre pensou globalmente. Hoje, as ciências sociais
são muito fragmentadas e segmentadas. Então, ele batia de frente com isso.
Apesar de ser um marxista, e ser contra qualquer tipo de elitismo, ele sempre
achou que as ciências sociais tinham que estudar e abarcar o conjunto de
atividades pelas quais as classes dirigentes não só mantêm como justificam seu
domínio e tentam obter o consentimento passivo dos governados. Para ele, o
problema político central era superar a divisão entre governantes e governados,
isto é, transformar os governados, que constituem a classe subalterna, em
capazes de serem governantes. Por isso, ele acreditava que não bastava vencer;
era necessário convencer. Era possível que um grupo político, mesmo sem estar no
poder, se transformasse numa classe dirigente da sociedade, desde que soubesse
transformar os seus interesses em interesses universais desta sociedade. Por
esse caminho, Gramsci cunhou a razão da hegemonia, que é fundamental para as
ciências políticas. Essa ideia de hegemonia, ao meu ver, é a principal
contribuição que ele deu às ciências sociais. </P>
<P><B>Como Gramsci pode contribuir para fortalecer a democracia brasileira?</B>
</P>
<P>Do jeito que entendo, Gramsci nos ajuda a pensar em como construir
democraticamente a democracia, e construir o socialismo, no qual ele acreditava.
Gramsci aposta nesse caminho democrático e tende a ver essas duas coisas como um
mesmo processo. Nesse sentido, ele é bastante coerente e reforça a capacidade
que se tem de refletir e atuar no sentido de construir uma direção política que
não apenas vença o adversário, mas convença. </P></DIV>
<P><BR><BR> </P>
<DIV align=right><B>Fonte: </B><I>IHU On Line</I>, 296, 8 jun. 2009</I> &
<I>Gramsci e o Brasil</I></DIV></DIV><BR><BR>
<DIV align=right><B>Fonte: </B>Especial para <I>Gramsci e o
Brasil</I>.</DIV><BR></FONT></DIV>
<P>
<HR>
<P></P><BR></BODY></HTML>