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<DIV><FONT color=#ff0000 size=7 face=Forte>Carta O Berro<FONT
size=3>.....................................................................................................</FONT></FONT></DIV></DIV>
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<TD class=textorub bgColor=#e7e7e7 height=30 colSpan=2
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<P><STRONG><FONT size=5><SPAN class=art_cham>DO GOLPE À
REDEMOCRATIZAÇÃO</SPAN><BR></FONT></STRONG><SPAN
class=art_tit>Ventos da mídia na tormenta de 1964</SPAN></P>
<P><SPAN class=art_autor>Por Luiz Cláudio Cunha </SPAN></P>
<DIR><SPAN class=art_olho2>Capítulo de <I>A Ditadura de
Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): História
e Memória</I>, 4 volumes, 40 autores, co-edição Escola do
Legislativo "Deputado Romildo Bolzan" e Departamento de
História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
Porto Alegre, 2010; título original "Máximas e mínimas: os
ventos errantes da mídia na tormenta de 1964", intertítulos do
<I>OI</I></SPAN></DIR></TD></TR>
<TR>
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<TR>
<TD colSpan=2><SPAN class=art_texto>
<P>Rio 40 graus. </P>
<P>O mundo inteiro sabe que o verão carioca é tórrido. Assim,
o leitor mais atento da primeira página do <I>Jornal do Brasil
</I>daquele sábado, 14 de dezembro de 1968, estranhou o quadro
da previsão do tempo, publicado no canto superior esquerdo, ao
lado do logotipo do mais influente jornal do país naqueles
idos tão estranhos:</P>
<DIR>
<DIR>
<P>"Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está
irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos.
Máx.: 38º, em Brasília. Mín.: 5º, nas
Laranjeiras."</P></DIR></DIR>
<P>No canto superior direito, outra informação inusitada:
"Ontem foi o Dia dos Cegos". A explicação para tal cegueira
estava abaixo, na manchete sobre o fato do dia: "Governo baixa
Ato Institucional e coloca Congresso em recesso por tempo
ilimitado". </P>
<P>Acontecera na véspera o golpe dentro do golpe de 1964, com
a edição do AI-5, que escancarou a ditadura no Brasil. O
locutor Alberto Curi, sentado ao lado do ministro da Justiça,
Gama e Silva, no Palácio das Laranjeiras, no Rio, leu o texto
do ato em cadeia nacional de rádio. A fala do locutor ainda
ecoava no ar quando cinco oficiais uniformizados do Exército –
um major e quatro capitães – invadiram a redação do <I>JB
</I>no Rio de Janeiro para censurar o noticiário. </P>
<P>Diante da ocupação, o editor-chefe Alberto Dines começou a
trabalhar com o chefe de redação Carlos Lemos para encontrar
maneiras de driblar o controle militar. O editorial censurado
da página 10 foi substituído por uma foto vertical de arquivo
em que um enorme campeão mundial de judô, numa brincadeira
familiar, se deixava derrubar pelo filho pequeno e franzino.
Uma fina alegoria que enganou a tesoura do censor. Mas Dines
queria mais, para contornar o bloqueio da primeira página.
Chamou o copidesque Roberto Quintaes e lhe pediu que recriasse
a previsão do tempo com dois números cabalísticos: o 38,
número do Ato Complementar que fechou o Congresso, e o 5,
marca do ato que enterrou a liberdade. E assim nasceu, para a
história do jornalismo brasileiro, a curiosa previsão de
tempos em que o Brasil daquele verão esquisito oscilava dos
38º em Brasília para os 5º das Laranjeiras, sede do palácio
carioca onde foi anunciado o AI-5. A nova versão do clima
turbulento foi enxertada nas oficinas, quando o jornal já
tinha sido censurado e a nota cifrada escapou da revisão dos
militares para ganhar um espaço eterno na memória da luta
contra a ditadura. </P>
<P>No dia seguinte, domingo, 15 de dezembro, Dines nem
precisou se ocupar da edição. O <I>Jornal do Brasil</I> não
foi impresso, como protesto pela ordem de prisão contra um de
seus diretores, embaixador José Sette Câmara, ex-governador da
Guanabara e aliado de Juscelino Kubitscheck. Era uma edição
gorda de Natal, cheia de anúncios, que nem saiu da gráfica.
Solidários, os anunciantes transferiram toda a propaganda para
as edições seguintes [DINES, Alberto. AI-5, quarenta anos. Uma
história para não esquecer. <I>O Estado de S. Paulo</I>, São
Paulo, 15 dez. 2008]. </P><B>
<P>Fim da censura?</P></B>
<P>A meteorologia política do país piorou muito. O AI-5 durou
10 anos e, do olho do furacão autoritário, ventaram mais 12
atos institucionais, 59 atos complementares e oito emendas
constitucionais. "Salvamos a democracia, voltando às origens
do poder revolucionário", discursou o general Arthur da Costa
e Silva, falando ao país em cadeia no réveillon de 1968. Duas
semanas mais tarde, em 13 de janeiro de 1969, o então coronel
João Batista Figueiredo, mais tarde também presidente da
República, foi bem mais sincero e preciso. Escrevendo ao
capitão Heitor Ferreira, anos depois secretário particular dos
generais Geisel e Golbery no Palácio do Planalto, Figueiredo
chegou a antecipar o julgamento da história: "Os erros da
Revolução [de 64] foram se acumulando e agora só restou ao
governo partir para a ignorância" [Portal <I>Folha de
S.Paulo</I> – <I>Especial 40 anos do AI-5</I>. Si<EM>te
produzido pelos integrantes da 46ª. turma do</EM><I> </I><A
class=art_leia onclick="NovaJanela(this.href);return false;"
href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/">Programa
de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha </A><EM>.
Dezembro, 2008</EM>].</P>
<P>O peso maior da ignorância militar golpeou a classe
política. O Congresso ficou fechado até outubro de 1969,
quando reabriu para chancelar a escolha pelo Alto Comando das
Forças Armadas do general Garrastazú Médici como sucessor do
general Costa e Silva, vítima de um derrame. Cassou para isso
quase três centenas de mandatos (111 deputados federais, cinco
senadores, 162 deputados estaduais, 22 prefeitos, 23
vereadores), além de 28 funcionários do Poder Judiciário.
Antes de completar um mês, o AI-5 decapitou três ministros do
Supremo – Hermes Lima, Vítor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva
– e aposentou até um dos conspiradores de 64, o general Pery
Constant Bevilacqua, ministro do Superior Tribunal Militar:
"Dava <I>habeas-corpus</I> demais", justificou uma fonte do
Palácio do Planalto. Sessenta e seis professores foram
expulsos das universidades, entre eles Caio Prado Jr.,
Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. </P>
<P>A primeira vítima da área cultural, sempre visada nos
surtos autoritários, apareceu no dia seguinte à edição do
AI-5. Na noite de sábado, 14 de dezembro, o comediante Ary
Toledo fez uma piadinha no final do seu espetáculo, o show
<I>A criação do mundo segundo Ary Toledo, </I>que estreava no
Teatro de Arena, em São Paulo<I>.</P></I>
<P>– Pessoal, este é um espetáculo subdesenvolvido. Não tem
garotas de bunda de fora. No palco, somos eu e meu
violãozinho, e só. Como diz o ditado popular: "Quem não tem
cão, caça com gato. Quem não tem gato, cassa com o ato..."</P>
<P>Todo mundo riu, menos dois homens da platéia, que foram até
o camarim pedir explicações. Eram agentes do DOPS, o
Departamento de Ordem Política e Social, que levaram Toledo
para a delegacia, na Praça da Luz. Ali ficou detido durante
cinco horas, até ser liberado por um delegado que era seu fã,
mas que antes lhe passou uma descompostura pela gracinha.
Ditadura, como se sabe, é coisa séria. </P>
<P>A censura desembarcou com mais força nos jornais e revistas
de Rio e São Paulo, centro político e econômico do país. No
lugar de notícias, comentários e editoriais, começaram a
proliferar versões de Camões n´<I>O Estado de S.Paulo</I>,
receitas de bolo no <I>Jornal da Tarde</I> e imagens de diabos
e da árvore símbolo da Editora Abril nas páginas da revista
<I>Veja. </I>Era proibido deixar espaços em branco, a censura
censurava a revelação sobre a censura. Preferia versos,
receitas e imagens diabólicas nas páginas esquartejadas. O
semanário <I>Opinião </I>sentiu a violência antes mesmo de
estrear nas bancas. Em novembro de 1972, quando preparava seu
número zero, a edição experimental, bastou a notícia do
lançamento para alertar o governo. O decreto-lei 1.077, de 26
de janeiro de 1970, estabelecia a censura prévia para matérias
ofensivas "à moral e aos bons costumes". Não reconhecia a
censura política, que era inconstitucional. Ela existia apenas
nos telefonemas discretos ou nos bilhetinhos sem assinatura
enviados pelos funcionários quase anônimos do Sigab, o Serviço
de Informação do Gabinete do Ministro da Justiça, um órgão
secreto que fazia a ligação direta entre o ministro e a
Polícia Federal. </P>
<P>Um telefonema do Sigab convocou o editor do <I>Opinião,
</I>Fernando Gasparian, à sede da Polícia Federal no Rio. O
major Braga tentou despistar:</P>
<P>– Eu quero avisar ao Sr. que aqui no Brasil não existe
censura prévia, a não ser por problemas morais. O Sr. pode
publicar o que quiser. </P>
<P>E tirou da gaveta uma lista com 210 assuntos que a imprensa
não podia publicar – por censura prévia ou autocensura.
Gasparian pediu uma cópia para avaliar, o major negou.</P>
<P>– Ela é secreta. [PINHEIRO MACHADO, José Antônio.
<I>Opinião x Censura. Momentos da luta de um jornal pela
liberdade. </I>Porto Alegre: L&PM, 1978. p. 23] </P>
<P>Assim, secretamente, o regime asfixiou o semanário a partir
do oitavo número. Primeiro, mandando recados. Depois, com o
censor dentro da redação. Por fim, exigindo a remessa do
jornal impresso para Brasília, antes de liberar a venda nas
bancas. Em quatro anos e meio, <I>Opinião </I>sofreu ameaças,
prisões, apreensões de edições inteiras, processos judiciais,
o lançamento de uma bomba na redação e um decreto
presidencial, baseado no AI-5, ratificando a censura prévia
que o jornal tinha derrubado, como ilegal, no Tribunal Federal
de Recursos. Foram publicadas 5.796 páginas, mas quase o dobro
– 10.548 páginas – precisou ser produzido para suprir a falta
do material vetado. Gasparian cansou da censura e, em 1° de
abril de 1977, mandou para as bancas uma edição diferente da
que enviara a Brasília para revisão. Corajosamente, incluía um
editorial avisando ao regime que aquele seria o último número
sob censura. Na semana seguinte, na edição nº 231, com uma
ilustração do presidente e a manchete "Geisel, o AI-5 de novo"
na primeira página, o jornal trazia um carimbo abaixo do
título de <I>Opinião</I>: "Livre". A primeira edição sem
censura foi apreendida. O jornal nunca mais voltou às bancas.
</P><B>
<P>Telefones grampeados</P></B>
<P>Estes são alguns dos momentos dignos de reação da imprensa
brasileira à violência da ditadura, exacerbada a partir do
AI-5. Mas o passado condena, na remissão das origens da
conspiração que levou ao golpe de Estado de 1964. Nele está a
digital da mídia que ajudou, por atos, fatos e versões, na
criação do clima político que aguçou posições e lançou o país
num abismo autoritário de 21 anos. A revisão da imprensa, a
partir da radicalização do AI-5, que a fez engolir versos e
receitas de bolo, não apaga seu envolvimento original no golpe
militar. Ninguém dissecou isso melhor do que o professor
uruguaio René Armand Dreifuss (1945-2003), doutor em Ciências
Políticas pela Universidade de Glasgow, Reino Unido. Em 1981,
aos 36 anos, ele publicou no Brasil sua tese de doutorado
produzida nos cinco anos anteriores na Escócia. O livro
<I>1964: A conquista do Estado. Ação política, poder e golpe
de classe </I>(Ed. Vozes) é um trabalho literalmente de peso.
Em suas 814 páginas, Dreifuss produziu um clássico de pesquisa
histórica que confirma uma tese dos golpistas: 1964 não foi
uma simples quartelada, muito menos um movimento improvisado
de um general impulsivo que de repente botou os tanques nas
ruas de Juiz de Fora, na madrugada de 31 de março. </P>
<P>Como na loucura de Hamlet, havia método na ditadura. E
muita organização, preparo, cálculo, frieza, tática,
estratégia – e dinheiro, muito dinheiro. A história do golpe
remonta ao fracasso do golpe anterior, o de 1961, quando os
ministros militares tentaram vetar a posse constitucional do
vice-presidente João Goulart, alçado ao poder pela renúncia de
Jânio Quadros. A reação popular e a firme resistência do
governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, quebrando a
unidade militar, fizeram vitoriosa a "Campanha da Legalidade".
Jango tomou posse e os generais compreenderam que, sem o apoio
da opinião pública, o golpe não passaria. Três anos antes dos
tanques rolarem sobre Juiz de Fora, os militares começaram a
tramar com os recursos e a organização do empresariado
brasileiro o golpe final que os levaria ao poder por duas
décadas. E a grande imprensa estava lá, na trincheira da
conspiração. </P>
<P>A releitura de Dreifuss, mais do que revelar, permite
relembrar fatos decisivos que o tempo e a memória vão
apagando. Em novembro de 1961, três meses após a renúncia de
Jânio, nasceu no Rio o IPES, Instituto de Pesquisas e Estudos
Sociais. Reunia a nata do empresariado, nacional e
multinacional, com todos os nomes, sobrenomes e siglas que
ainda hoje enfeitam as listas das maiores empresas do país. Um
empresário de origem americana no Rio, Gilbert Huber Jr., dono
das Listas Telefônicas, articulou-se com um empresário de uma
multinacional em São Paulo, João Batista Leopoldo Figueiredo,
ex-presidente do Banco do Brasil no Governo Jânio e tio do
futuro presidente Figueiredo. Acabaram recrutando militares da
reserva, um deles o general Golbery do Couto e Silva. </P>
<P>Parecia um inocente clube de homens de negócios. Mas, na
sua face oculta, sob siglas e codinomes, o IPES concentrava a
execução metódica de um pensado plano da burguesia nacional
para combater, de forma clandestina, os seus três principais
inimigos: o Governo Jango, a aliança nacionalista do PTB e o
comunismo, que aparentemente resumia tudo aquilo. O braço
político ostensivo do IPES era o IBAD, Instituto Brasileiro de
Ação Democrática, que apesar do nome tinha ligações com o MAC,
Movimento Anticomunista, e com a organização da direita
católica Opus Dei. O fundador do IBAD em 1959 foi o
integralista Ivan Hasslocher, dono da Promotion, uma agência
de publicidade que promovia o <I>lobby</I> do IBAD e seu braço
parlamentar, a ADP – Ação Democrática Popular, um núcleo
conservador de 160 parlamentares da centro-direita no
Congresso reunido em torno da UDN, PSD e PSP. A ADP fazia
contraponto à Frente Parlamentar Nacional, que orbitava no
universo do PTB e dos aliados da esquerda. Segundo Dreifuss, a
ADP tinha sua ação política patrocinada pela estação no Rio de
Janeiro da CIA, a agência de inteligência americana focada em
campanhas políticas e grupos de pressão [DREIFUSS, René
Armand. <I>1964: a conquista do Estado: ação política, poder e
golpe de classe. </I>3. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 1981,
p.103]. </P>
<P>Homens da mesma linha de pensamento e com igual propósito
juntaram, a partir de 1962, as duas entidades: nascia o
complexo IPES/IBAD, matriz ideológica e operacional da
conspiração que daria o golpe e, depois, forneceria os quadros
e dirigentes do aparato estatal que sustentou o regime
militar. O IPES operava como centro estratégico, e o IBAD,
como uma unidade tática. O gaúcho Raul Pilla, líder do Partido
Libertador que integrava a ADP, definiu o complexo: "Duas
instituições muito úteis foram organizadas... levando-as a
cumprir seus deveres patrióticos" [PILLA, Raul. A influência
do dinheiro. <I>O Globo</I>,<I> </I>Rio de Janeiro, 24 ago.
1963]. O monstro crescia junto com a conspiração. Em 1963, os
80 membros originais do IPES pularam para 500. Eram sócios 26
dos 36 líderes da FIESP, a maior federação industrial do país.
A entidade se espalhava pelas capitais do país. Em Porto
Alegre, a versão local tinha o nome de IPESUL e sobrenomes
ilustres como o lojista Fábio Araújo Santos, da rede JH
Santos, José Zamprogna e Ary Burger, diretor do Grupo Gerdau.
</P>
<P>A articulação dos empresários com os militares era feita
pelo Grupo de Levantamento da Conjuntura (GLC) do IPES,
comandado pelo general Golbery, que atuava sobre o I (Rio) e
III (Porto Alegre) Exércitos. A "ordem de serviço com
calendário" do GLC, que definia a estratégia de ação, tinha
uma edição limitada de 12 exemplares, que não eram registrados
nas atas do IPES. A equipe de Golbery distribuía nos quartéis
uma circular bimestral mimeografada, sem citação da fonte,
avaliando a atividade "comunista" no país, apontando o dedo
para subversivos infiltrados no governo e mapeando suas ações.
Só no Rio de Janeiro o GLC de Golbery tinha três mil telefones
grampeados [DREIFUSS, op. cit., p. 188]. O grupo do general
ocupava quatro das 13 salas que o IPES havia alugado no 27°
andar do Ed. Avenida Central, na av. Rio Branco, no centro da
cidade. A conta do telefone era faturada em nome do general da
reserva Henrique Geisel, irmão de Ernesto. Em Porto Alegre, o
IPESUL operava no quarto andar do Ed. Palácio do Comércio, na
Praça da Alfândega. </P><B>
<P>Três frentes</P></B>
<P>O GLC escrutinava a produção diária da imprensa do país, um
total de 14 mil edições no ano, e produzia mensalmente cerca
de 500 artigos, disseminados pelos jornais ou divulgados em
forma de palestras. O Grupo de Atuação Parlamentar (GAP) do
IPES tinha vergonha do que fazia. Proibia qualquer menção à
sigla, que era camuflada como "Escritório de Brasília". Ele
coordenava a campanha anti-Jango na capital, mas quem aparecia
publicamente era o IBAD e o fazendeiro baiano João Mendes,
deputado udenista e líder ostensivo da Ação Democrática
Parlamentar. O plano era simples e mortal: o IPES, através do
IBAD e da ADP, emparedava o governo no Congresso, criando um
beco sem saída parlamentar e um ponto morto do Executivo. A
inércia legislativa levaria ao clamor popular pelo poder
"moderador" das Forças Armadas, única instituição capaz de
tirar o país daquele atoleiro fabricado pela conspiração no
Parlamento. </P>
<P>Neste trabalho era fundamental manipular a expressão da
sociedade. O objetivo central do Grupo de Opinião Pública
(GOP) do IPES era disseminar seus objetivos na imprensa falada
e escrita. Dissimulado, o grupo evitava o nome "opinião
pública", preferindo as expressões "divulgação" e "promoção".
O GOP era "a base de toda a engrenagem", definia o general
Heitor Herrera, um dos líderes do IPES. José Luís Moreira de
Souza, dono da Denison Propaganda, dizia que "conquistar a
opinião pública" era a essência da ação política do grupo. O
principal articulador do GOP era um ex-comissário de polícia,
José Fonseca, que estreara como "tira" no 16° Distrito
Policial de São Cristóvão, um subúrbio operário da zona norte
do Rio, no réveillon de 1952. </P>
<P>Ele tomava um copo de leite em Copacabana na noite de 5 de
agosto de 1954 quando ouviu a cerca de 100 metros o som de
tiros. Por pouco não viu o tiroteio da rua Toneleros, o
atentado que deu um tiro no pé de Carlos Lacerda, matou o
major Rubens Vaz e 19 dias depois disparou a bala fatal do
suicídio de Getúlio Vargas. Quatro anos depois trocou a
delegacia por um cargo de relações públicas da Light, a
empresa americana de energia que se tornaria uma das líderes
do IPES e da conspiração. Em 1963, um ano antes do golpe, o
ex-comissário José Rubem Fonseca deu aos 38 anos seu primeiro
tiro certeiro na literatura: lançou o livro de contos <I>Os
prisioneiros </I>com o nome literário de Rubem Fonseca. O
festejado autor de <I>Feliz Ano Novo, A grande arte</I> e
<I>Bufo & Spallanzani</I> tornou-se nas décadas seguintes
o maior contista vivo do país, ganhador em 2003 do Prêmio
Camões, uma espécie de Nobel para escritores da língua
portuguesa. </P>
<P>Outros destaques do GOP no Rio eram os jornalistas Glauco
Carneiro e Wilson Figueiredo, este do corpo editorial do
<I>Jornal do Brasil</I>. Em São Paulo, o GOP atuava com
Geraldo Alonso, dono da Norton Propaganda, e nomes ilustres de
<I>O Estado de S.Paulo, </I>como<I> </I>Ênio Pesce e Flávio
Galvão. Contava ainda com Jorge Sampaio e Alves de Castro, os
dois nomes centrais do <I>Repórter Esso</I> da TV Tupi, o
equivalente ao <I>Jornal Nacional</I> de hoje, patrocinado
pela Esso do Brasil, membro importante do IPES. </P>
<P>Em tempos sem e-mail ou twitter, o GOP se valia da
tecnologia da época: enviava milhares de cartas e telegramas e
fazia chamadas telefônicas, antecipando em décadas o advento
do infame telemarketing. Em novembro de 1962 chegava a três
mil nomes a lista de organizações de rádio e TV mobilizadas
pelo GOP. Aliado a ele funcionava o GPE, Grupo de
Publicações/Editorial, que disseminava material impresso pelo
país. Esta campanha de guerra psicológica era tarefa do
ex-comissário e contista Rubem Fonseca, que incluía
intelectuais respeitados como Augusto Frederico Schmidt, Odylo
Costa Filho e Rachel de Queiroz, prima do general Castello
Branco, líder do golpe que derrubou Jango. Dez anos antes de
Fonseca, a cearense Rachel foi a primeira mulher a ganhar o
Prêmio Camões, reconhecimento a uma obra consistente que
começou em 1930, aos 20 anos, com <I>O Quinze, </I>romance
realista que mostra a luta do povo do sertão nordestino contra
a miséria e a fome. Dois anos antes, antecipando seu viés
literário, ela formava o primeiro núcleo do Partido Comunista
em Fortaleza. Rachel de Queiroz foi presa no golpe do Estado
Novo, em 1937, acusada de subversiva, e teve seus livros
queimados. Um quarto de século depois, a comunista de
Fortaleza era uma intelectual engajada na equipe de propaganda
de direita de Rubem Fonseca no IPES. O primo Castello Branco,
já ex-presidente, morreu num acidente aéreo em 1967 quando
retornava de um passeio à fazenda da prima Rachel. </P>
<P>Os propagandistas do GOP atuavam em três frentes: artigos
para jornais e revistas, panfletos para circular entre
estudantes, militares e operários, e livros que comparavam a
democracia com a empresa privada. Em comum, eram todos
anticomunistas, antitrabalhistas e antipopulistas. Nomes
fortes do mercado editorial, como Saraiva, Cia. Editora
Nacional e GRD Editora, colaboravam na publicação da chamada
"literatura democrática". </P><B>
<P>Sinal verde</P></B>
<P>Em janeiro de 1963 a demanda por recursos era tão grande
que o comando do IPES decidiu aprovar uma contribuição anual
padrão de meio por cento do capital de cada sócio. O caixa 2
ou "contabilidade paralela" da entidade já somava US$ 4
milhões. O orçamento oficial do ano anterior estabelecia
despesas mensais de 10 milhões de cruzeiros (US$ 300 mil na
época, cerca de R$ 580 mil hoje) só no IPES carioca. A
projeção do novo ano previa o dobro das despesas. Nesse total
não estava incluído o gasto com atividades encobertas e
sigilosas. Os valores eram bem mais respeitáveis. A CPI que
investigou a ligação do IPES com o IBAD apurou que, nas
eleições gerais de outubro de 1962, a ADP do complexo
IPES/IBAD injetou algo entre 5 bilhões e 20 bilhões de
cruzeiros (em termos atuais, uma fornida soma que varia de 260
milhões a 1 bilhão de reais) para financiar 250 candidatos.
Foram eleitos 110. [O embaixador americano no Brasil Lincoln
Gordon, bem mais modesto, disse que o valor investido não
superara US$ 5 milhões (cerca de 10 milhões de reais hoje).
DREIFUSS, op. cit., p. 330.] </P>
<P>No Rio Grande do Sul, a aliança de centro-direita da ADP
era integrada por PSD, UDN, PL, PDC e PRP. O vitorioso Ildo
Meneghetti, um dos oito governadores apoiados pelo IPES/IBAD
no país, enfatizou que a indústria e o comércio locais – "sob
a égide do IPESUL" – garantiram o resultado das urnas. Dois
dos deputados eleitos pelo IPESUL eram Peracchi Barcellos
(PSD) e Euclides Triches (PDC), mais tarde nomeados
governadores do Rio Grande na safra de eleições indiretas da
ditadura. </P>
<P>A escolha dos agraciados com o apoio financeiro obedecia a
uma regra rígida, quase um contrato de compra e venda. Quem se
habilitava a integrar a lista de "democratas convictos e
anticomunistas de primeira ordem" passava pelo crivo dos
analistas do complexo IPES/IBAD. Mais importante do que a
filiação partidária era a orientação das ideias. Cada
candidato era compelido a assinar um "ato de compromisso
ideológico", pelo qual prometiam lealdade ao IBAD acima da
fidelidade ao seu partido, comprometendo-se ainda a lutar
contra o comunismo e a defender o investimento estrangeiro. E
eram compulsoriamente alistados na ADP liderada por João
Mendes [DREIFUSS, op. cit., p. 324]. </P>
<P>Mas a mercadoria custava caro. O chefe do GAP (Grupo de
Ação Parlamentar) do IPES, o banqueiro Jorge Oscar de Mello
Flores, avaliava os candidatos pelo coeficiente eleitoral. De
início, ele calculava que cada deputado "custaria" cerca de 6
milhões de cruzeiros (cotação atual: R$ 317 mil), mas percebeu
que esta seria a conta de nomes da Paraíba e outros Estados
menores. O preço aumentava no Ceará e ainda mais na Bahia. "Os
candidatos de Rio e São Paulo eram muito mais caros", explicou
Mello Flores a Glycon de Paiva, ao avaliar a conta <I>per
capita </I>dos deputados no balcão do IPES: 15 milhões de
cruzeiros (cotação atual: R$ 792 mil). Paiva recomendava a
escolha de "indivíduos de caráter, bons anticomunistas",
enquanto Mello Flores imaginava um pacote inicial de 50
deputados [Ibid., p. 328]. O orçamento de um candidato
"apagado", isto é, pouco conhecido e de limitada agressividade
eleitoral, incluía despesas com equipamento de som, 40 mil
cartazes, 600 faixas, fotografias, espaço em jornais,
mensagens no rádio e TV, discos de jingle, gasolina,
correspondência e pessoal de apoio... Tudo isso ao custo de
uns 10 milhões de cruzeiros, o que não era pouca coisa. Dez
milhões, que hoje valem R$ 528 mil, equivaliam então à renda
diária de 20 mil trabalhadores de salário mínimo [Ibid., nota
243, p. 356]. </P>
<P>Outras empresas ligadas ao IPES colaboravam com seus
serviços, como no caso das passagens aéreas gratuitas
liberadas pela Panair, Cruzeiro do Sul e Varig, que faziam a
conspiração voar alto pelo país. Uma única empresa
estrangeira, a Deltec, do americano David Beaty III, sócio do
IPES, abriu uma "caixinha" de US$ 7 milhões de um fundo
originário das ilhas Nassau. O IPES recebeu apoio financeiro
de 297 corporações americanas. Passavam o chapéu entre
empresas britânicas, suecas, alemãs. A Fundação Konrad
Adenauer, órgão do Partido Democrata Cristão alemão,
canalizava recursos pelo sólido complexo siderúrgico
Mannesmann e pela gigante Mercedes Benz. O general Golbery
encarregou-se pessoalmente do contato com o presidente da
Mercedes. </P>
<P>A presença americana se faria sentir no momento dramático
da troca de poder. Na noite de 2 de abril de 1964 em que o
senador Auro de Moura Andrade declarou vaga a presidência da
República, quando Jango ainda estava em Porto Alegre
aguardando a evolução dos acontecimentos, alguns parlamentares
golpistas foram ao Planalto. O palácio estava na escuridão,
causada por um corte de energia. Eles acompanhavam o ato que
reconheceria Ranieri Mazzili, presidente da Câmara, como
sucessor de Jango. Quando acenderam os fósforos naquele
ambiente, o deputado baiano Luiz Viana Filho (UDN) viu ao seu
lado Robert Bentley, o jovem secretário da Embaixada americana
em Brasília [VIANA FILHO, Luiz. <I>O governo Castello
Branco.</I> Rio de Janeiro: José Olympio, 1975. p. 46].</P>
<P>Dois anos antes, os chefes supremos de Bentley já mostravam
intimidade com o tema brasileiro em Washington. O presidente
John Kennedy entrou no Salão Oval na segunda-feira, 30 de
julho de 1962, e ligou pela primeira vez seu novo
brinquedinho, instalado no fim de semana: o sistema secreto de
gravação de voz da Casa Branca. A estréia prometia: era uma
conversa cabeluda de Kennedy com o seu embaixador no Brasil,
Lincoln Gordon, pavimentando o caminho para o golpe militar
que derrubaria João Goulart dois anos depois. Começava pelo
gasto não contabilizado de US$ 8 milhões nas eleições de 1962,
adubando secretamente candidatos apoiados pela CIA e
simpáticos aos EUA. A conexão do mundo político com os
militares golpistas era feita pelo discreto adido militar da
embaixada, coronel Vernon Walters, que chegaria a vice-diretor
da CIA no auge do Caso Watergate, que derrubou Nixon.</P>
<P>A transcrição das fitas mostra, numa frase de Gordon para
Kennedy, que o alvo central da conspiração era o próprio
Jango:</P>
<P>– Para expulsá-lo, se necessário – disse o embaixador,
esclarecendo:</P>
<P>– O posto da CIA no Brasil deixará claro, discretamente,
que não somos necessariamente hostis a qualquer tipo de ação
militar, em absoluto, se ficar claro que o motivo da ação
militar é...</P>
<P>– ... Contra a esquerda – completou o presidente Kennedy,
dando o sinal verde para o golpe que aconteceria vinte meses
depois. [WEINER, TIM. <I>Legado de Cinzas. Uma história da
CIA. </I>Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 219] </P><B>
<P>Rezas e cânticos</P></B>
<P>Na véspera da eleição de 1962, a Promotion de Ivan
Hasslocher, líder do IBAD, arrendou o jornal carioca <I>A
Noite</I> por 90 dias, ao custo mensal de 2 milhões de
cruzeiros (cerca de R$ 100 mil no câmbio atual) para
propaganda direta. A revista <I>Repórter Sindical</I> também
era operada pela entidade. O órgão oficial do IBAD, <I>Ação
Democrática, </I>circulava mensalmente com 250 mil exemplares
e textos de gente como o economista Eugênio Gudin e o líder
udenista Aliomar Baleeiro. Era gratuita e, ainda assim, não
tinha um único anúncio. No início de 1963, um manifesto de 500
profissionais de prestígio, organizados pelo Centro
Democrático de Engenheiros, ligado ao IPES, foi publicado no
<I>Jornal do Brasil </I>e em <I>O Estado de S.Paulo.
</I>Manifestos variados, todos "democráticos", proliferavam na
imprensa e eram retransmitidos pela dupla IPES/IBAD. Eles
tinham uma agência de notícias, a Planalto, que redistribuía o
material a 800 emissoras de rádio e jornais do país. Tudo
gratuito, tudo pela pátria, tudo pela democracia. </P>
<P>Um milhão de cópias da <I>Cartilha para o Progresso</I>,
feita pelo IPES, exaltando os benefícios da Aliança para o
Progresso do governo americano, foi encartada como suplemento
da <I>Fatos&Fotos</I>, revista de grande circulação da
Editora Bloch. Em janeiro de 1963, na Faculdade de Direito de
São Paulo, 22 mil pessoas se reuniram durante uma semana para
o I Congresso Brasileiro para Reformas de Base, uma resposta
da elite econômica ao que se discutia no governo de Jango.
Dali nasceram 80 propostas de diretrizes que redefiniam o país
no plano político, social e econômico. Mais do que uma
proposta para chegar ao poder, era um autêntico programa de
governo organizado pelos grupos de estudo do IPES de Rio e São
Paulo. Oficialmente promovido pelos jornais <I>Correio da
Manhã</I> e <I>Folha de S.Paulo</I>, o congresso teve seus 23
documentos finais publicados pelo <I>Jornal do Brasil.</P></I>
<P>Num país de elevado analfabetismo, os golpistas perceberam
a importância do rádio e da nascente televisão. O IPES gastou
10 milhões de cruzeiros para produzir 15 programas de TV para
três canais diferentes. Eram entrevistas de questionários
preparados pela entidade, com jornalistas de confiança e gente
selecionada para responder sobre reforma agrária, custo de
vida, democracia. Estavam escaladas neste time algumas
personalidades gaúchas como o senador Mem de Sá, os deputados
Daniel Faraco, Egydio Michaelsen e Raul Pilla, o prefeito
Loureiro da Silva e o arcebispo dom Vicente Scherer. Em 1962,
o IBAD operava diariamente mais de 300 programas de rádio no
horário nobre das principais cidades do país. A rede de mais
de 100 estações ligadas a ele formava a "Cadeia da
Democracia", sob o comando do senador João Calmon, dos Diários
Associados, que tinha o cuidado de ir ao ar no mesmo horário
das transmissões do líder trabalhista Leonel Brizola, que os
derrotara um ano antes com a "Cadeia da Legalidade". </P>
<P>O maior produtor de filmes comerciais do país, Jean Manzon,
foi contratado pelo IPES para produzir filmes como <I>Que é a
democracia</I>, <I>Deixem o estudante estudar</I>, <I>Uma
economia estrangulada</I>,<I> Criando homens livres. </I>Eram
filmetes de 10 minutos, projetados antes do vibrante faroeste
exibido nas matinês do interior do país, onde se espalhavam
três mil salas de cinema. As cópias ficavam sob guarda de Luiz
Severiano Ribeiro, o maior distribuidor e proprietário de
salas do Brasil. Quando a platéia não aparecia, o cinema ia
até o público. O IPES montou o projeto do "cinema ambulante"
em caminhões abertos e ônibus com chassis especiais, que
percorriam favelas, bairros populares e cidades distantes. Era
um mutirão democrático: a Mesbla fornecia os projetores, a
Mercedes Benz emprestava os caminhões e a CAIO montava a
carroceria dos ônibus. </P>
<P>O IPES jogava seu charme também sobre as mulheres.
Custeava, organizava e orientava politicamente as duas
organizações femininas mais importantes do país: a Camde,
Campanha da Mulher pela Democracia, no Rio de Janeiro, e a
UCF, União Cívica Feminina, de São Paulo. O MAF, Movimento de
Arregimentação Feminina, na capital paulista, tinha 6 mil
filiadas em São Paulo e era presidido por Antonieta
Pellegrini, irmã de Júlio de Mesquita Filho, dono de <I>O
Estado de S.Paulo</I> e um dos principais patronos do IPES.
Com um rosário nas mãos e um afiado discurso anticomunista na
língua, as donas de casa foram à luta para mobilizar as
esposas de militares, sindicalistas e funcionários públicos.
Mais de 50 mil cartas atulharam o correio dos parlamentares no
Congresso, em Brasília. </P>
<P>A primeira reunião da Camde no Rio realizou-se no auditório
de <I>O Globo, </I>que garantia espaço no jornal e na rádio
para a agitação das mulheres. E, apesar dos colares de
pérolas, dos penteados elegantes e do ar de velhinhas
recatadas, elas sabiam agitar. Em janeiro de 1964, ao saber de
um iminente congresso da CUT da América Latina em Belo
Horizonte, a Limde, Liga da Mulher Democrata, ameaçou invadir
o aeroporto da Pampulha e deitar as militantes na pista para
impedir a reunião subversiva. O encontro foi transferido para
Brasília. Em fevereiro, quando Leonel Brizola passou por lá
para defender as reformas, o auditório da Secretaria da Saúde
na capital mineira foi invadido por um pelotão de mulheres,
com o terço nas mãos, slogans contra o belzebu vermelho e
orações para exorcizar o anticristo do PTB. Brizola teve que
se calar, diante do tumulto e dos objetos voando pelo salão,
num episódio conhecido como a "Noite das Cadeiradas". </P>
<P>No comício da Central do Brasil no Rio de Janeiro, em 13 de
março, duas semanas antes do golpe, Jango mirou nas mulheres:
"Não podem ser levantados os rosários da fé contra o povo, que
tem fé numa justiça social mais humana e na dignidade das suas
esperanças", discursou, ao lado da mulher, Maria Tereza. O
IPES traduziu calculadamente o ato como uma bofetada nas
mulheres e em Nossa Senhora. Uma semana depois, 19 de março, a
UCF paulista reagiu no dia de São José, santo protetor da
família, com uma marcha na Praça da Sé com cerca de 500 mil
pessoas, uma multidão cinco vezes maior do que o comício da
Central. Eram puxadas pela reza fervorosa do padre americano
Patrick Peyton, financiado pelo IPES, e bradavam sua graciosa
palavra de ordem: "Vermelho bom, só batom". O sucesso da
"Marcha da Família com Deus pela Liberdade", que originalmente
deveria se chamar "Desagravo ao Santo Rosário", inflamou o
movimento. Marcaram outra, maior ainda, para o Rio de Janeiro
em 2 de abril. Mas o general Olympio Mourão Filho sacou
primeiro em Juiz de Fora, 48 horas antes da marcha do Rio. E o
ato de protesto virou a "Marcha da Vitória": quase um milhão
de pessoas, lideradas pelo Camde e pelo IPES, tomaram a av.
Rio Branco em transe cívico, pontuado por rezas e cânticos,
para saudar a nova ordem vitoriosa e a queda de Jango. </P><B>
<P>"Infame líder"</P></B>
<P>Na medida em que avançava a conspiração, crescia a presença
militar sobre a base parlamentar. Era hora de sair do discurso
para a prática. O IBAD cede seu lugar de destaque para outra
sigla – a ESG, da Escola Superior de Guerra, de onde provinha
o núcleo fardado do golpe. O novo complexo IPES/ESG alinhava
330 oficiais, de majores a generais de Exército, fazendo a
ligação do mundo empresarial com os quartéis. Sempre sob a
liderança de Golbery, lá estavam nomes que, mais tarde, fariam
parte do poder revolucionário, como ministros ou até
presidentes. Orlando Geisel, Mário Andreazza e Walter Pires
formulavam planos com Castello Branco, Ernesto Geisel e João
Figueiredo.</P>
<P>Um grupo que Dreifuss nomeia como "Extremistas de Direita"
tem como destaque o coronel (depois brigadeiro) João Paulo
Moreira Burnier, veterano da fracassada revolta de Aragarças
no Governo JK. São definidos como fanáticos anticomunistas e a
favor da modernização industrial conservadora. Curiosamente, o
grupo era mais ligado ao jornalista Júlio de Mesquita Neto,
expoente da "linha dura" paulista que pregava uma forte
mensagem anticorrupção e contra a esquerda. Com Mesquita
estavam seu irmão Ruy e os deputados Roberto Abreu Sodré e
Paulo Egydio Martins, depois governadores indicados pelos
quartéis em São Paulo. Foi Burnier quem montou o plano de
proteção ao Palácio Guanabara do governador Carlos Lacerda, no
dia do golpe, onde se refugiaram figuras como o homem de TV
Flávio Cavalcanti e o jornalista Hélio Fernandes, diretor do
jornal lacerdista <I>Tribuna da Imprensa</I>.</P>
<P>No início de 1962 oficiais das Forças Armadas, falando em
nome de um trio histórico de conspiradores – o marechal Denys,
o almirante Heck e o brigadeiro Grun Moss –, foram a São Paulo
para um encontro com Júlio Mesquita Filho, a quem entregaram
um documento sobre as normas que iriam orientar o governo
militar após a queda de Jango. O grupo, integrado pelos
generais Cordeiro de Farias e Orlando Geisel, foi mais
explícito com o dono do <I>Estadão</I>: o regime
discricionário teria de ficar no poder por pelo menos cinco
anos. Animado com a conversa, Mesquita chegou ao ponto de
sugerir oito nomes para o futuro ministério revolucionário,
incluindo entre eles Mem de Sá, Roberto Campos, Dario de
Almeida Magalhães e Milton Campos. Todos os quatro chegaram
lá. Com o jurista Vicente Rao, advogado da mineradora
americana Hanna, Mesquita chegou a fazer o rascunho de um Ato
Institucional para fechar Senado, Câmara e Assembléias e
cassar mandatos – o mesmo instrumento de força que a ditadura
anos depois faria seu jornal engolir com o AI-5, na forma de
versos e receita de bolo [STACCHINI, José. <I>Março 64: a
mobilização da audácia.</I> São Paulo: Cia. Editora Nacional,
1965]. "Até ali [o AI-5], nós vínhamos divergindo em caso e
número, mas não em gênero, porque sabíamos que o processo
tinha que ser aquele, achávamos que devia ser aquele",
reconheceria anos depois Ruy Mesquita, irmão de Júlio e também
diretor de <I>O Estado de S. Paulo</I> [VENTURA, Zuenir,
<I>1968: o ano que não terminou.</I> Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1988].</P>
<P>A velocidade da conspiração dava maior desenvoltura e
ousadia aos golpistas. Em abril de 1963 o comando do complexo
IPES/IBAD enviou um convite aberto para uma reunião pública no
estádio do Pacaembu. Cerca de 400 figuras importantes do
movimento anti-Jango estavam lá. Uma outra reunião, mais
reduzida, aconteceu horas depois no apartamento de Júlio
Mesquita Filho, encarregado de coordenar o apoio aos ativistas
através da mídia. No final de junho, o encontro no estádio
evoluiu para um comício, conhecido como "Convenção do
Pacaembu". Levaram sindicalistas e estudantes de onze Estados,
com uma platéia de quase 4 mil pessoas, todos conspiradores.
Entre os líderes maiores, lá estavam os governadores Carlos
Lacerda (Rio) e Adhemar de Barros (SP). A festa acabou
produzindo um efeito decisivo sobre os militares, que se viram
abertamente apoiados pelo que imaginavam ser um bloco de
trabalhadores, estudantes e classe média. Era o povo, enfim,
que lhes faltara no fiasco golpista de 1961. </P>
<P>No Rio Grande do Sul, quartel-general da maior concentração
de tropas do Exército brasileiro e foco principal da
resistência de Brizola na "Campanha da Legalidade", dois
terços da oficialidade já estavam engajados na rebelião. O
deputado Peracchi Barcelos (PSD), coronel da Brigada Militar
eleito pela lista do IPESUL, tratava de sublevar a força
pública do Estado. O general da reserva Armando Cattani
organizava grandes fazendeiros no interior em unidades
paramilitares que seriam acionadas na hora precisa. Tudo sob
as bênçãos do governador Ildo Meneghetti, membro ilustre da
lista vitoriosa do complexo IPES/IBAD. </P>
<P>Na dura expressão de René Dreifuss, "o IPES conseguiu
estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública" pela
relação especial com os principais veículos da mídia nacional.
Um de seus alvos centrais era Assis Chateaubriand – o dono dos
Diários Associados, então a maior cadeia de imprensa do país,
era mais poderoso que o Roberto Marinho do Sistema Globo que
floresceu depois do golpe. No início da década de 50,
Chateaubriand foi citado pelo <I>The New York Times </I>como o
<I>Cidadão Kane </I>brasileiro, versão tupiniquim do magnata
americano William Randolph Hearst, que inspirou o filme
clássico de Orson Welles e carimbou na primeira metade do
século 20 a chamada "imprensa marrom", formada por veículos
sensacionalistas e de baixo padrão ético. O americano não era
páreo para o brasileiro. Diante dos 28 jornais e 18 revistas
de Hearst, Chateubriand ostentava um rosário midiático de 34
jornais, 36 emissoras de rádio e 18 de TV integrantes da rede
Tupi, a revista <I>O Cruzeiro</I> (a maior tiragem do país,
700 mil exemplares no auge dos anos 50, a mesma do lançamento
de <I>Veja </I>duas décadas depois, em 1968), uma revista
mensal (<I>A Cigarra</I>), uma agência de notícias e várias
revistas infantis. [<I>Veja </I>penou até se consolidar. A
tiragem caiu para 500 mil na segunda semana, 300 mil na
terceira, 150 mil na quarta, 100 mil na quinta. Durante 20
semanas, a revista não vendeu mais que 16 mil exemplares. Em
1972, a redação de São Paulo, sede da revista, tinha definhado
de 46 para 10 repórteres. Apesar da censura prévia, <I>Veja
</I>encontrou o tom para revelar os bastidores do regime
militar. Acabou o ano superando a marca dos 100 mil
exemplares, uma escalada de vendas que nunca mais parou.<I>
</I>ALMEIDA, Maria Fernanda Lopes. <I>Veja sob censura:
1968-1976. </I>São Paulo: Jaboticaba, 2009. p. 39-51.]</P>
<P>Esperto e inimigo mortal de comunistas, Chateaubriand
cravou seu diretor-geral, Edmundo Monteiro, num dos postos de
comando do IPES carioca. Outro prócer da mídia, Octávio Frias,
dono da <I>Folha de S.Paulo</I>, ingressou no IPES paulista. O
empresário Herbert Levy, que mantinha os filhos operando
dentro da conspiração, lançou o jornal <I>Notícias Populares
</I>para conquistar o público de baixa renda. A coluna
política "Seção Livre", assinada por Pedro Dantas (pseudônimo
de Prudente de Morais Neto), era publicada em <I>O Estado de
S.Paulo </I>seguindo a cartilha ideológica do IPES. A
escritora Nélida Piñon, secretária do IPES do Rio, ajudava
também nos esforços de propaganda contra o governo. </P>
<P>A derrocada de Jango explodiu, com euforia, nos editoriais
da grande imprensa:</P><FONT color=#ff0000>
<P>**</FONT> "Multidões em júbilo na Praça da Liberdade.
Ovacionados o governador do Estado e os chefes militares. O
ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo
Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela
democracia, foi, sem dúvida, a concentração popular defronte
ao Palácio da Liberdade", comemorou o <EM>Estado de Minas.
</P></EM><FONT color=#ff0000>
<P>**</FONT> "Desde ontem se instalou no país a verdadeira
legalidade... A legalidade está conosco e não com o caudilho
aliado dos comunistas... Aqui acusamos o Sr. João Goulart de
crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, na
desordem social e na corrupção generalizada", atacou o
<EM>Jornal do Brasil.</EM> </P><FONT color=#ff0000>
<P>**</FONT> "Vive a nação dias gloriosos. Porque souberam se
unir todos os patriotas [...] para salvar o que é essencial: a
democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo
das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo
irresponsável, que insistia em arrastá-lo para os rumos
contrários à sua vocação e tradições... Salvos da comunização
que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer
aos bravos militares, que os protegem de seus inimigos",
agradeceu <EM>O Globo.</P></EM><FONT color=#ff0000>
<P>**</FONT> "Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o
poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João
Belchior Marques Goulart, infame líder dos
comunos-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores
gatunos que a história brasileira já registrou, o Sr. João
Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos
grandes covardes que ela já conheceu", tripudiou a <EM>Tribuna
da Imprensa.</P></EM><B>
<P>Sem autocrítica</P></B>
<P>O apoio da mídia a 1964 foi quase unânime no país, até por
suas ligações ideológicas e operacionais com os mentores do
complexo IPES/IBAD. Com exceção da <EM>Última Hora</EM> de
Samuel Wainer, fiel até o fim a Jango e ao PTB que financiou
seu jornal, todos os grandes veículos foram ostensivamente
partidários do golpe, antes e depois. Pelo menos até a ruptura
violenta do AI-5, que transformou velhos companheiros da
conspiração em vítimas da truculência da ditadura. </P>
<P>Em alguns casos, mais do que apoio da mídia, houve adesão
ao novo regime, chegando ao extremo da colaboração. Essa tese
explosiva, que remete ao abjeto colaboracionismo do governo
títere de Vichy com as tropas de ocupação de Hitler na França,
é levantada pela pesquisadora Beatriz Kushnir, autora de um
trabalho inquietante, pouco comentado na mídia, publicado pela
Boitempo Editorial em 2004: <EM>Cães de guarda: jornalistas e
censores, do AI-5 à Constituição de 1988</EM>. Trabalhando em
cima do arquivo do Departamento de Censura e Diversões
Públicas do regime e do material da Academia Nacional de
Polícia, que treinava os censores, Kushnir avançou uma grave
conclusão: "A maioria da grande imprensa colaborou com o
regime. Quando digo "colaborou", quero dizer que foi mais que
um pacto. Eles se engajaram mesmo". [KUSHNIR, Beatriz. A
estreita união entre imprensa e ditadura.<I> Portal
Vermelho</I>, entrevista a André Cintra, em 22 abr. 2009. <A
class=art_leia onclick="NovaJanela(this.href);return false;"
href="http://www.vermelho.org.br/">Disponível aqui</A>. Acesso
em: 10 jul. 2009] Ela explica melhor o título de seu livro:
"Os jornalistas e donos de jornal, ao apoiar os governos
militares naquele momento, optaram por estar ao lado do poder,
se tornaram tanto agentes como vítimas dessa autocensura.
Permanecer no palco das decisões era mais importante que a
busca e a publicação da verdade. Por isso, esses jornalistas
colaboracionistas são aqui vistos como cães de guarda"
[KUSHNIR, Beatriz. <I>Cães de guarda: jornalistas e censores,
do AI-5 à Constituição de 1988.</I> São Paulo: Boitempo, 2004,
p. 48].</P>
<P>Dos anos 50 até a Constituição de 1988, ela apurou, o
Brasil teve 220 censores, com a missão de percorrer todo o
país para checar jornais, revistas, as artes e a propaganda.
Havia jornais, diz Kushnir, que declaradamente optaram por uma
posição cínica, defendendo nos anos 70 uma "censura
inteligente", feita por profissionais política e
intelectualmente mais bem preparados. Era o tempo da censura
transmitida por telefones e bilhetinhos, apócrifos, já que
nenhuma lei autorizava a violência. A origem dos recados, o
Serviço de Informação do Gabinete (Sigab) do Ministro da
Justiça, bastava para impor a ordem. Sem a autocensura, a
alternativa era a censura prévia. </P>
<P>Assustados com a zoeira anticomunista, setores da sociedade
cobravam do governo mais rigor no controle da mídia. Em 1972,
um certo "Movimento de Recuperação da Juventude Brasileira"
enviou ao Ministério da Educação um apelo para endurecer a
censura. A divisão de segurança do MEC repassou a proposta à
Polícia Federal. Para demonstrar sua tese da colaboração, a
pesquisadora usa o exemplo da <I>Folha de S.Paulo</I>. O
jornal de 1962 que tinha o editor Octávio Frias de Oliveira
como membro militante do IPES e da conspiração é o mesmo
jornal de 2009 que tem o editor Octávio Frias Filho pilotando
um editorial onde a ditadura de 64 ganhava o honroso
neologismo de "ditabranda".</P>
<P>O objeto de estudo de Kushnir é um diário do Grupo Frias, a
<EM>Folha da Tarde</EM>, que mudou de lado dramaticamente com
a edição do AI-5. Até 1968 era um jornal de esquerda, mais
inquieto, que concorria diretamente com o irmão mais novo do
<EM>Estadão</EM>, o <EM>Jornal da Tarde</EM>. No comando da
redação estava um jornalista egresso da <EM>Última Hora</EM>
janguista, Jorge Miranda Jordão, que tinha sob seu comando
alguns jornalistas ligados à Ação Libertadora Nacional (ALN),
grupo da luta armada liderada por Carlos Marighella. O advento
do AI-5 deixou o ar irrespirável, como advertia a previsão do
<EM>JB</EM>. Houve uma limpeza na redação e, a partir de julho
de 1969, a <EM>Folha da Tarde</EM> converteu-se num diário que
o jornalista Cláudio Abramo resumiu numa palavra: "Sórdido".
Os antigos militantes de esquerda foram substituídos por
policiais que escreviam, mantendo até o duplo emprego entre
redação e repressão. </P>
<P>Frias botou no lugar de Jordão um jornalista especializado
em cobertura policial, Antônio Aggio Jr. "Ele veio de Santos e
trouxe dois companheiros, um deles com forte influência nas
forças de repressão", diz Kushnir. Um redator da editoria de
"Mundo" cumpria dupla jornada: trabalhava à tarde no jornal e,
de manhã, no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social),
comandado pelo delegado Sérgio Fleury, o mais ilustre nome da
máquina de tortura brasileira. "Muitos jornalistas andavam
armados na redação. O Aggio mesmo circulava com uma maleta em
forma de violino. Era uma carabina turca", acusa Kushnir. (Ela
está sendo processada na Justiça por estas denúncias, que
Aggio rebate.)</P>
<P>Por tudo isso, a <EM>Folha da Tarde</EM> paulista era
conhecida como "o jornal de maior tiragem" – uma piada lúgubre
sobre a taxa de "tiras" (policiais) que infestavam sua
redação, também conhecida como "delegacia". Com acesso
privilegiado ao poder, o jornal sabia antes dos outros sobre o
que acontecia nos porões da ditadura. Kushnir lembra que os
militantes da esquerda presos pela ditadura morriam antes nas
páginas do jornal: em 17 de abril de 1971, a <EM>Folha da
Tarde</EM> anunciou em primeira mão o fim do matador do
industrial dinamarquês Henning Albert Boilesen, 55 anos,
naturalizado brasileiro e alto executivo do Grupo Ultra.
"Morto o assassino do industrial Boilesen", dizia a manchete,
horas antes do metalúrgico Joaquim Alencar de Seixas, codinome
Roque, aparecer morto nas celas do DOI-CODI do II Exército.
Como a maioria da grande imprensa, diz Kushnir, o jornal de
Frias engolia a versão policial de que Roque morrera vítima de
uma troca de tiros na rua. </P>
<P>Na ótica da guerrilha, Boilesen fora "justiçado", como
financiador do aparato repressivo reunido em torno da OBAN
(Operação Bandeirante) que integrava militares e o DOPS no
combate à guerrilha. Ele foi morto em 15 de abril em seu Ford
Galaxie, numa rua de São Paulo, por guerrilheiros de dois
grupos de esquerda – a Aliança Libertadora Nacional (ALN) de
Carlos Marighella e o Movimento Revolucionário Tiradentes
(MRT). Era um ilustre membro do IPES que construiu o golpe,
nos dez anos anteriores. Além disso, era alto dirigente do
Ultra, um dos maiores grupos petroquímicos do país
(faturamento em 2006 de R$ 5 bilhões e lucro de R$ 230
milhões), com destaque para a Ultragas, líder na distribuição
de gás de cozinha e presidida por Boilesen. No início da
década de 60, Pery, o filho do fundador do Grupo Ultra,
Ernesto Igel, aproximou-se de duas figuras fundamentais para
seus negócios petroquímicos: Hélio Beltrão e Ernesto Geisel,
nomes influentes do IPES e da conspiração. </P>
<P>"Pery Igel era intuitivo, arrojado", lembrava o empresário
Olavo Monteiro de Carvalho, presidente do grupo Monteiro
Aranha, que testemunhou seu entusiasmo pela nova ordem
militar. Igel deu todo o gás ao golpe. Uma de suas empresas, a
Supergel, abastecia os órgãos da repressão com marmitas de
comida congelada, e a Ultragas de Boilesen, suspeita-se, teria
emprestado caminhões de sua frota a órgãos de segurança
[CASTANHEIRA, Joaquim. A química de Paulo Cunha. <I>Istoé
Dinheiro, </I>São Paulo, 8 nov. 2006]. Por pouco Igel não teve
a mesma sorte de seu executivo Boilesen, que segundo a lenda
tinha como distração visitar os porões da OBAN para ver os
torturadores em ação. Em abril de 2009, Carlos Eugênio Paz, o
chefe do GTA (Grupo Tático Armado) da ALN, a temida ala
militar da organização de Marighella, confirmou: "A ALN tinha
conhecimento de vários financiadores da OBAN. Entre eles
estavam o sr. Frias, presidente do Grupo Folha, o presidente
da Ultragas, Henning Albert Boilesen, o presidente do Grupo
Ultra, Pery Igel, o presidente do Bradesco, Amador Aguiar, e o
presidente da FIESP, Theobaldo de Nigris, que cedia a sede da
Federação das Indústrias de São Paulo para reuniões de
arrecadação de fundos. Havia provas cabais e contundentes".
[PAZ, Carlos Eugênio. Entrevista a Rodrigo Vianna. <I>O
Escrevinhador. </I>17 abr. 2009. <A class=art_leia
onclick="NovaJanela(this.href);return false;"
href="http://www.rodrigovianna.com.br/">Disponível aqui</A>.
Acesso em: 19 set. 2009<EM>]</P></EM>
<P>Era comum, também, a versão sobre a colaboração material
que o Grupo Folha dava à repressão naqueles tempos
irrespiráveis. As peruas Chevrolet C-14, da frota que
transportava jornais para as bancas, muitas vezes foram usadas
para levar ou trazer gente torturada na OBAN. Paz, o chefe do
GTA, reforça: "A ALN queimou vários carros da <EM>Folha</EM>
como represália à participação do Grupo Folha no financiamento
da repressão e ao uso de seus carros na repressão direta. Ao
fazer isso, atuando na guerra, o Grupo Folha era passível de
sofrer as sanções e as represálias da guerra. O Grupo Folha
apoiou o golpe de estado, financiou, participou diretamente da
repressão e jamais fez autocrítica disso" [Ibid. Acesso em: 7
abr. 2009].</P><B>
<P>Hostilidade previsível</P></B>
<P>Em 18 de abril de 2009, Beatriz Kushnir lembrava alguns
desses detalhes constrangedores no Memorial da Resistência em
São Paulo, num auditório com 150 pessoas ali reunidas para
debater o papel da mídia na democracia e na ditadura. Dez
presentes da platéia pediram a palavra, três reafirmaram ter
sido conduzidas aos centros de tortura em peruas do Grupo
Folha. Rui Veiga, jornalista e ex-preso político, fez uma
acusação ainda mais grave: "Um repórter da Folha acompanhou
meu transporte da OBAN até o DOPS e me aconselhou a não
esconder nada, a colaborar com o regime", denunciou. </P>
<P>No Rio Grande do Sul, nunca se soube de tal envolvimento
material. Mas sobraram conivência e complacência da imprensa
gaúcha com o golpe, antes e depois de 1964. A razão é simples.
O alinhamento dos jornais com a conspiração e com o regime
militar era natural. O <EM>Diário de Notícias</EM>, de
Chateaubriand, tinha orientação do dono para bater no governo
e apoiar a oposição empresarial e militar. <EM>Zero Hora</EM>
já nasceu depurada e lavada ideologicamente em 4 de maio de
1964, um mês e quatro dias depois do levantamento militar do
general Olympio Mourão. Herdou as máquinas e a antiga sede na
rua Sete de Setembro, no centro de Porto Alegre, do jornal
<EM>Última Hora</EM>, mas livrou-se rapidamente do logotipo,
da cara e da comprometedora fidelidade ideológica de seu
antecessor nas bancas e de seu dono no expediente, Samuel
Wainer.</P>
<P>Amigo pessoal de Getúlio Vargas e ex-repórter do
conspirador Chateaubriand, Wainer arrumou dinheiro do Banco do
Brasil, na volta do getulismo ao poder, e fundou em 1955 a
edição da <EM>Última Hora</EM> no Rio de Janeiro. Tinha um
nobre propósito, segundo seu fundador: "Romper com a formação
oligárquica da imprensa brasileira e dar início a um tipo de
imprensa popular e independente". O jornal conquistou novos
leitores na área trabalhista e sindical e cresceu. Em 1961,
quando Jango chegava ao poder e o IPES nascia para derrubá-lo,
a <EM>UH</EM> de Wainer era uma vibrante, crescente e ágil
rede nacional diária que, além de Rio e São Paulo, já
publicava edições simultâneas em outros nove centros
importantes do país – Belo Horizonte, Recife, Niterói,
Curitiba, Campinas, Santos, Bauru, a emergente região sindical
do ABC paulista (Santo André, São Bernardo do Campo e São
Caetano) e, finalmente, Porto Alegre. Na capital do Rio Grande
do Sul, berço de Getúlio, Jango e Brizola e centro da
resistência mais forte ao golpe, circulava a edição mais
jacobina da rede de jornais de Samuel Wainer [BARROS,
Jefferson. Golpe mata jornal. Desafios de um tablóide popular
numa sociedade conservadora. Porto Alegre: JÁ, 1999. p. 156].
Era natural, portanto, que herdasse também todos os inimigos e
a santa ira da nova ordem militar. </P>
<P>A <EM>UH</EM> de Porto Alegre sentiu o golpe, literalmente.
Tentou manter a linha editorial e o sonho de uma resistência
de Jango ao levante militar até o dia 5 de abril. Resfolegou
numa impossível neutralidade por mais três semanas e, afinal,
sucumbiu em 25 de abril do ano da graça de 1964. O diretor da
edição gaúcha, Ary de Carvalho, ainda procurou manter a
equipe, a marca e a estrutura do velho jornal. Viajou ao Rio,
para uma conversa de negócios com Wainer, então exilado na
Embaixada do México. Carvalho fez a proposta, e Wainer topou
vender as máquinas de escrever, as oito máquinas fotográficas,
as quatro lambretas, os dois carros e o arquivo de fotos – mas
não aceitou vender o título do jornal [Morre o jornalista e
empresário Ary de Carvalho. <I>O Dia</I>, Rio de Janeiro, 4
jul. 2003]. </P>
<P>Wainer mandou fechar o jornal. Com outros três empresários,
Carvalho comprou máquinas e equipamentos da redação, segurou
alguns membros da equipe e tratou de fundar um novo diário em
maio de 1964. Pediu ao chefe da diagramação, o argentino de
nascimento Aníbal Bendatti, uma logomarca para o novo jornal –
"parecida, mas diferente da <EM>Última Hora</EM>" [BARROS, op.
cit., p. 158]. Bendatti datilografou a palavra <EM>Zero
Hora</EM>, ampliou os tipos da máquina de escrever, livrou o
título antigo do retângulo e cravou a nova marca num quadrado
comportado. Preservou apenas o azul dos velhos tempos na cara
do diário que já nascia simpático ao regime de 1964. A
simpatia dos conspiradores foi ainda maior. </P>
<P>Ary de Carvalho trazia ligações de família decisivas desde
Birigui, cidade do interior paulista onde se iniciou em 1926 a
carreira de sucesso de um antigo office-boy de uma agência
local do Banco Noroeste chamado Amador Aguiar. Décadas depois,
Aguiar tinha um emprego novo e o seu próprio banco, o
Bradesco, ambos engajados de corpo e alma no projeto golpista
do IPES. Nada mais natural, assim, do que ajudar o velho amigo
de um jornal que já nascia amigo dos vitoriosos de abril de
64. Com o dinheiro do Bradesco, Carvalho livrou-se dos antigos
sócios e cresceu. Ganhou anos depois um novo parceiro, o
radialista Maurício Sirotski, que em 1962 criara a TV Gaúcha,
então filiada à Rede Excelsior. Juntos compraram em Chicago,
EUA, a moderna máquina de impressão em <EM>off set</EM> que
tornou a <EM>Zero Hora</EM> o segundo jornal do país a adotar
a novidade (o primeiro tinha sido a <EM>Folha de S.Paulo</EM>
de Frias). </P>
<P>O esforço fez o jornal cambalear financeiramente, e, em
abril de 1970, seis anos após o golpe, Carvalho vendeu as
ações que tinha ao sócio e retirou-se para o Rio de Janeiro.
Sirotski, agora o único dono de <EM>Zero Hora</EM>, fizera em
1965 um movimento tático decisivo: trocou a Excelsior pela
Globo de Roberto Marinho, a organização jornalística que mais
cresceria sob a ditadura. No vácuo deste sucesso nasceu,
cresceu e apareceu a RBS, a Rede Brasil-Sul de Sirotski, hoje
o grupo de mídia mais poderoso do sul do país, nascido dos
escombros da <EM>Última Hora</EM> esmagada pelos tanques de
64.</P>
<P>Até aparecer a RBS, a empresa jornalística mais influente e
rica do Rio Grande do Sul era a Caldas Júnior, que editava o
jornal mais importante do Estado, o <I>Correio do Povo</I>,
operava a rádio mais ouvida, a Guaíba, e mantinha um
vespertino de larga penetração, a <I>Folha da Tarde</I>.
Atravessou sem sobressaltos a turbulência de 1964 porque era
uma empresa conservadora, mantida sob o rígido controle de seu
dono, Breno Caldas. Tinha apenas 25 anos quando assumiu o
jornal, em 1935. O pai, fundador do <I>Correio do Povo</I>
meio século antes, morrera prematuramente aos 45 anos, em
1913, mergulhando a empresa numa crise financeira que durou
até a chegada de Breno Caldas. </P>
<P>Breno Caldas cultivava uma previsível hostilidade contra as
reformas de base de João Goulart e antipatia ainda maior
contra o cunhado do presidente, Leonel Brizola – que na crise
de 1961 requisitou a sua rádio Guaíba para montar em torno
dela a "Rede da Legalidade" que brecou o golpe militar e
garantiu a posse de Jango. </P><B>
<P>Nota discreta</P></B>
<P>Nos idos de 1962, o líder do IPES carioca José Luiz Moreira
de Souza, dono da Denison Propaganda, viajou a Porto Alegre
para botar a Caldas Júnior no balaio da conspiração. Ganhou as
graças de Arlindo Pasqualini, irmão de Alberto, ideólogo do
trabalhismo que o IPES combatia. Arlindo, diretor da <I>Folha
da Tarde </I>e o sucessor natural do dono da empresa, Breno
Caldas, recebeu a missão de produzir uma série de artigos
contra Leonel Brizola, que já não tinha a simpatia da casa
desde a Campanha da Legalidade do ano anterior [DREIFUSS,
op.cit., p. 233]. </P>
<P>A animosidade cresceu no governo Jango. Brizola pegou gosto
pelo microfone e batia regularmente em Breno Caldas às
sextas-feiras, no seu programa noturno na rádio Farroupilha,
que curiosamente fazia parte da rede dos Diários Associados do
golpista Chateaubriand. O ex-governador adotava um tom
coloquial e direto ao falar na rádio: "Dr. Breno, eu sei que o
senhor está me ouvindo aí no seu iate ancorado no Guaíba...".
A chicotada vinha em seguida: "O <I>Correio do Povo, </I>que
já foi jornal do povo, hoje não é. Agora é um órgão da
oligarquia, dos monopólios, dos trustes internacionais...",
batia Brizola [PINHEIRO MACHADO, José Antônio. <I>Breno
Caldas. Meio século de Correio do Povo. Glória e agonia de um
grande jornal.</I> Porto Alegre: L&PM, 1987, p. 72]. A
resposta vinha na primeira página da <I>Folha da Tarde,
</I>nos artigos assinados por seu diretor, Arlindo Pasqualini,
o homem do IPES dentro da Caldas Júnior. Como bom fazendeiro e
criador de cavalos, Breno tinha afinidades campeiras com
Jango, a quem chamava por "tu", expressão de intimidade entre
gaúchos. (Para manter a distância, Breno sempre tratava
Brizola pelo cerimonioso "doutor"). Quando o golpe aconteceu,
acabaram as cerimônias. </P>
<P>No editorial da primeira edição do jornal, no longínquo 1°
de outubro de 1895, Caldas Jr. tinha definido um lema e uma
linha para o jornal que se tornaria centenário: "Independente,
nobre e forte – procurará sempre sê-lo o <I>Correio do
Povo</I>, que não é órgão de nenhuma facção partidária, que
não se escraviza a cogitações de ordem subalterna." Nos
primeiros editoriais após o golpe de 1964, o jornal abandonou
sua histórica divisa, aderiu à facção vitoriosa e adotou uma
postura subalterna à nova ordem militar. E escancarou seu
apoio em editoriais didáticos para explicar por que os
revolucionários de 31 de março estavam certos: "Aquele era o
único caminho para salvar o Brasil", dizia o jornal que se
anunciava independente, nobre e forte, fazendo coro com a
grande imprensa golpista do centro do país [GALVANI, Walter.
<I>Um século de poder: os bastidores da Caldas Júnior.
</I>Porto Alegre: Mercado Aberto, 1995, p. 411].</P>
<P>Falando, Breno Caldas tentava matizar o que era mais
explícito nos editoriais. Em 1987, dois anos antes de morrer,
em entrevista ao jornalista José Antônio Pinheiro Machado, ele
reconhecia: "A Revolução de 1964, de certo modo, contou com a
nossa participação, ou pelo menos com a nossa simpatia. O
pessoal que foi ao poder em 1964... não é que fosse ligado a
nós – não tínhamos ligações políticas com ninguém –, mas eram
pessoas afinadas conosco, estávamos no mesmo caminho. Quando
houve a tal conspiração do Castello Branco, eu não sabia de
nada oficialmente. Até que o general Adalberto Pereira dos
Santos, que comandou o movimento por aqui, fez um contato
comigo, me disse que a situação era crítica, que iria
acontecer alguma coisa. "Fique atento a uma manifestação do
general Castello Branco", me disse ele" [PINHEIRO MACHADO,
op.cit., p.78]. </P>
<P>A intimidade de Breno Caldas com o regime militar tinha uma
explicação cavalar. Dono do Haras do Arado, um dos mais
qualificados do Estado, nas redondezas de Porto Alegre, Breno
ganhou fama como renomado criador de cavalos puro-sangue
inglês de corrida, entre eles <I>Estensoro</I>, o maior
campeão da história do turfe gaúcho. O general Costa e Silva,
primeiro ministro do Exército da ditadura e sucessor de
Castello Branco na presidência, adorava corridas de cavalo – e
sempre conversava com Breno sobre o assunto. Quando o filho de
Breno, Francisco Antônio, prestou o serviço militar, foi
requisitado por Costa e Silva, então comandante da III Região
Militar de Porto Alegre, para ser seu motorista particular. "A
idéia do Costa e Silva não era se aproximar do <I>Correio do
Povo</I>, mas sim ter por perto alguém ligado ao turfe!...",
desconfiava Breno, orgulhoso porque o filho era um soldado
raso que almoçava na mesa generosa do poderoso general e de
sua mulher, dona Yolanda Costa e Silva. O chefe do
Estado-Maior do III Exército, na época, era outro amante de
cavalos: o general Emílio Garrastazú Médici, futuro comandante
da tropa no sul e sucessor de Costa e Silva no Planalto. </P>
<P>Estas eqüinas relações de amizade não ajudaram Breno Caldas
a evitar os arreios da censura. Em 1972, quatro anos após a
edição do AI-5, <I>O Estado de S.Paulo </I>que ajudara a
montar o golpe vivia sob forte censura, que o obrigava a
cobrir os espaços em branco com versos de Camões. O regime não
permitia a exposição da censura e disparava cortes por
telefones ou bilhetinhos, sem assinatura, ordens atribuídas ao
ministro Alfredo Buzaid, da Justiça. Em 19 de setembro de
1972, a redação do <I>Estadão </I>recebeu outro papelucho
proibindo "a publicação de notícias, comentários, entrevistas
ou críticas de qualquer natureza sobre a abertura política ou
democratização, ou assuntos correlatos, anistia a cassados ou
revisão parcial dos seus processos, críticas ou comentários ou
editorais desfavoráveis sobre a situação econômico-financeira
ou problema sucessório e suas implicações". Apenas isso, nada
além disso. </P>
<P>O diretor do <I>Estadão, </I>Ruy Mesquita, perdeu a
paciência com os velhos companheiros de conspiração de 1964 e
disparou um telegrama violento para Buzaid: "Sr. Ministro, ao
tomar conhecimento dessas ordens emanadas de V.Excia., o meu
sentimento foi de profunda humilhação e vergonha. Senti
vergonha pelo Brasil, degradado à condição de uma república de
Uganda qualquer por um governo que acaba, de forma incrível,
de decretar o ostracismo dos próprios companheiros de
Revolução, que ocuparam ontem os cargos em que se encontram
hoje, e não cogitam cinco minutos do julgamento da História. O
senhor, Ministro, deixará de sê-lo um dia. Todos os que estão
hoje, no poder, dele baixarão um dia, e, então, Sr. Ministro,
como aconteceu na Alemanha, na Itália ou na Rússia, o Brasil
ficará sabendo a verdadeira história deste período, em que
abandonaram os rumos traçados pelo seu maior líder, marechal
Castello Branco". </P>
<P>O petardo de Mesquita foi lido da tribuna do Senado pelo
líder da oposição, o senador Franco Montoro, do MDB paulista.
Foi contestado pelo líder governista, o senador Filinto
Müller, ex-chefe de polícia da ditadura do Estado Novo
getulista: "Não há nenhum ato ou documento do Ministério da
Justiça disciplinando as matérias publicáveis nos jornais do
país", mentiu o líder da ARENA, alegando que notícias de
censura eram "campanha organizada para perturbar a vida
pública brasileira". O <I>Correio do Povo</I> queria publicar
esta notícia, com a denúncia da oposição e a mentira do
governo, numa nota discreta na página 8, em duas colunas
enxutas na edição festiva de 20 de setembro, data de mais um
aniversário da Revolução Farroupilha. A Revolução de 64 sacou
primeira.</P><B>
<P>Cautela exagerada</P></B>
<P>Na véspera do feriado dos farrapos, na tarde de
terça-feira, 19 de setembro, adentrou a redação do <I>Correio
do Povo</I> um jovem de cabelos compridos e encaracolados,
grossas costeletas emoldurando um par de óculos grande e de
armação pesada, que contrastava com o sorriso simpático.
Poderia ser um freqüentador retardatário do festival
<I>hippie</I> de Woodstock, não fosse o traje de sempre, terno
escuro e gravata, e a mensagem habitual da censura. Roque
Gilberto Chedid desviou-se ao final do curso de Direito para a
rotina torta da Delegacia de Censura da Polícia Federal no
sul. Ele só se materializava pessoalmente em graves ocasiões.
Preferia sempre se manifestar pelo telefone, mais discreto e
imperceptível. Sua voz, educada e um tanto constrangida,
atingia a <I>Zero Hora</I> pelo ouvido sensível de Lauro
Schirmer, diretor de redação entre 1970 e 1990, a quem cabia
ouvir as ordens inoportunas e castradoras da ditadura. </P>
<P>O jornalista Elmar Bones da Costa, gaúcho de Santana do
Livramento, lembra bem de Chedid. De volta a Porto Alegre em
1972 após uma passagem por <I>Veja </I>em São Paulo, ele
acabava de assumir a chefia de redação da <I>Folha da
Manhã</I>, o jornal mais novo e rebelde da pacata Caldas
Júnior. O ex-motorista de Costa e Silva, Francisco Antônio,
filho de Breno, tentava uma última cartada para salvar o
jornal, que agonizava com uma rala redação de duas dezenas de
jornalistas e uma tiragem minguada de sete mil jornais. Junto
com Elmar vinha da capital paulista um respeitado repórter da
revista <I>Realidade</I>, José Antônio Severo, gaúcho de
Caçapava do Sul, que assumiria a direção da <I>Folha da Manhã
</I>em sua fase mais brilhante<I>. </I>Conta Elmar [depoimento
ao autor em 3 set. 2009]: </P>
<DIR>
<DIR>
<P>Havíamos decidido também não aceitar censura por telefone.
Nos primeiros meses não houve problema, não tivemos notícia do
censor. No final de 1972, talvez por causa do embate pela
sucessão do general Médici, a censura recrudesceu. Um dia fui
comunicado pela direção que um agente da Polícia Federal viria
à redação com orientação sobre assuntos que não deveriam ser
noticiados. </P>
<P>Apresentou-se, então, um jovem estudante de Direito,
simpático, compreensivo, um tanto sem jeito. Chamava-se Roque
Chedid. Disse que cumpria ordens e revelou total inexperiência
no assunto. Expliquei que, por princípio profissional, eu era
contra qualquer censura, mas que era empregado e a orientação
da empresa era acatar as determinações. Falei da nossa
orientação de não aceitar censura por telefone, até para
evitar trotes, e ele concordou. Ele disse que não iria
interferir na redação, nem ler matérias, nem nada. Viria
apenas quando houvesse algum assunto proibido.</P>
<P>E passou a comparecer periodicamente. Uma ou duas vezes por
semana ele aparecia. Não trazia ordens escritas, nem
determinações detalhadas. Puxava um papelzinho do bolso e lia
o que estava anotado, geralmente apenas o tema a ser
suprimido. Por exemplo: "Protestos e manifestações de rua no
Rio e em São Paulo". "Movimento de guerrilha no Araguaia".
</P>
<P>Muitas vezes, era ele que nos trazia a notícia, uma vez que
a censura exercida na origem junto às agências de notícias que
nos abasteciam com o noticiário nacional já suprimia os tais
assuntos proibidos. Ele também não sabia direito do que se
tratava. Lia o que estava anotado no papel.</P>
<P>Um dia, ele apareceu para proibir qualquer notícia sobre o
incidente daquela manhã no Rio de Janeiro. Ninguém sabia do
que se tratava. Chedid contou que eram os protestos pela
presença na cidade do secretário de Estado de Nixon, William
Rogers. Chedid nem sabia ao certo quem era. "É a visita do
Rogers, Rogers..." Não conseguia lembrar do primeiro nome do
visitante. Alguém da redação ajudou: "Ah, o Roy Rogers?". Ele
agradeceu: "É, isso mesmo, o Roy Rogers", respondeu, sem
atentar para a diferença entre o secretário americano e o
velho herói dos filmes de faroeste. Assim era a nossa censura.
</P>
<P>Como a minha mesa ficava no fundo, ele tinha que atravessar
toda a redação e muitas vezes, quando o pessoal estava de bom
humor, era saudado com uma salva de palmas quando se retirava.
Ele saía ruborizado, constrangido.</P>
<P>De repente, assim como veio, Roque Chedid desapareceu.
Nunca mais o vi. Há uns dois anos li uma notícia na <I>Zero
Hora</I> sobre sua aposentadoria como desembargador ou algo
assim. A nota de poucas linhas não mencionava a sua
experiência como censor. </P></DIR></DIR>
<P>Naquela terça-feira de setembro de 1972, a grave missão de
Chedid exigia sua presença na redação do <I>Correio do Povo.
</I>Exasperado como Ruy Mesquita, Breno Caldas reagiu à
proibição para publicar o telegrama do diretor do
<I>Estadão.</I> Ele engrossou a voz e pediu a ordem de censura
por escrito. Chedid insistiu com o recado verbal, mas não
adiantou. Breno saiu do jornal à noite, deixando uma
determinação clara ao chefe de redação, Adail Borges
Fortes:</P>
<P>– Se não vier a ordem escrita, vamos publicar!</P>
<P>O impensável iria acontecer. O provecto e conservador
<I>Correio do Povo </I>batendo de frente com o regime militar.
Chedid alertou o comando gaúcho da Polícia Federal, que
repassou a notícia espantosa a Brasília. E o governo do
general Médici, que tinha o gaúcho Carlos Fehlberg como seu
secretário de imprensa, deu a ordem final:</P>
<P>– Apreendam!</P>
<P>A tropa de choque do Exército cercou o jornal, na rua
Caldas Júnior, esperando o jornal sair da boca das rotativas,
a partir das 4h da madrugada. O comandante da operação queria
que a edição apreendida fosse transportada nos caminhões do
próprio jornal até a sede da Polícia Federal, na avenida
Paraná. Breno Caldas vetou a proposta indigna, e os militares
tiveram que requisitar caçambas que trabalhavam no cais do
porto, a três quadras de distância, para cumprir a missão da
censura. Para não perder a viagem, os militares levaram, junto
com o <I>Correio do Povo, </I>a edição da quarta-feira, 20 de
setembro, da <I>Folha da Manhã</I> de Severo e Elmar, que
também publicava o telegrama maldito de Ruy Mesquita. A rara
trombada com o regime e a brava reação de Breno Caldas é uma
exceção que confirma a regra de plácida convivência da
imprensa gaúcha com a censura e a conseqüente autocensura, que
nivelava tudo por baixo. </P>
<P>Seis anos depois já se falava em abertura, em anistia, e
não havia mais censura prévia – mas o fantasma da autocensura
ainda sobrevoava gabinetes ilustres da imprensa gaúcha em
1978. Uma norma não escrita da mídia do Rio Grande diz que,
onde há gaúcho, tudo fica mais importante e prioritário. Um
terremoto no Cazaquistão ganha a primeira página, por exemplo,
se existe gaúcho entre as vítimas. </P>
<P>Este dogma foi atropelado impiedosamente no caso do
sequestro dos uruguaios Universindo Díaz, Lílian Celiberti e
seus dois filhos, Camilo e Francesca, em novembro de 1978 em
Porto Alegre. Era uma incursão binacional do Brasil e Uruguai
no âmbito da Operação Condor, o "Mercosul do Terror"
engendrado pelas ditaduras que infestavam o Cone Sul na década
de 70. O jurista francês Jean Louis Weil passou uma semana na
capital gaúcha investigando o caso e, pouco antes do deixar o
país, deu uma contundente entrevista coletiva no Rio dando
nomes aos bois – os militares uruguaios e os policiais
brasileiros envolvidos no sequestro. O delegado gaúcho Pedro
Seelig, apontado por Weil, era a mais reluzente estrela da
repressão no sul. Merecia, portanto, todas as manchetes que
sua condição de filho da terra lhe garantia. O que aconteceu
acabou sendo uma página vergonhosa de submissão da imprensa
gaúcha ao aparato repressivo da ditadura, um caso explícito de
autocensura que eu retrato no livro <I>Operação Condor: o
Sequestro dos Uruguaios</I> [CUNHA, op. cit., p. 143-152].
</P>
<P>No aeroporto do Galeão, Jean Louis Weil falou à imprensa na
segunda-feira, 11 de dezembro. O francês identificou os
autores do sequestro nos dois lados da fronteira. A sigla de
lá que ninguém ainda conhecia aqui era o OCOA, Organismo
Coordinador de Operaciones Antisubversivas. A de cá era o
velho DOPS de guerra. Weil denunciou o nome do militar
uruguaio a quem estava subordinado o OCOA, o general Amaury
Prantl. E apontou o chefe brasileiro do sequestro: o notório
delegado Pedro Seelig, um gaúcho famoso o bastante para
garantir qualquer manchete na imprensa local. </P>
<P>No dia seguinte, terça-feira, 12 de dezembro, os jornais da
província reagiram com exagerada cautela à acusação contra o
temido Seelig. Inexplicavelmente suprimiram do texto da
matéria o nome do delegado gaúcho denunciado pelo jurista
francês. Precavidos, os jornais de Porto Alegre se eximiram de
responsabilidade, identificando a Agência Jornal do Brasil
(<I>AJB</I>) como a fonte da notícia em que os nomes pareciam
mais constrangedores do que os fatos.</P><B>
<P>Lembrar e contar</P></B>
<P>Na Caldas Júnior, nenhum de seus três jornais publicou a
grave acusação de Weil. O principal jornal do trio, o
<I>Correio do Povo, </I>publicou uma nota envergonhada no meio
do noticiário de polícia, na página 5, com uma manchete que
escondia mais do que revelava: "Advogado francês denunciou as
autoridades responsáveis". Teve o cuidado de não dar no texto
nenhum nome brasileiro. Disse que o sequestro tinha sido
realizado por um comando do OCOA uruguaio, "comandado pelo
general Amaury Prantl, com a participação de policiais
brasileiros do DOPS de Porto Alegre". O mesmo embuste foi
cometido pelos outros dois jornais da casa, a <I>Folha da
Manhã </I>e a <I>Folha da Tarde. </I>Só 48 horas depois, na
quarta-feira, 13, o vespertino atreveu-se a escrever o nome do
delegado, em uma notícia sob outra manchete camuflada na
página interna: "Sequestro. Advogado faz novas acusações
contra os integrantes da polícia gaúcha".</P>
<P>No texto acovardado da <I>Folha da Tarde,</I> o nome de
Seelig só aparece no sexto parágrafo. Ainda assim dedica
quatro linhas à acusação e quinze à defesa do delegado, em que
ele mesmo desdenha da denúncia. O jornal <I>Zero Hora</I> teve
um tropeço ainda mais visível na edição de terça-feira, 12.
Estampou sua falta de coragem na primeira página, com uma
manchete igualmente medrosa: "Advogado francês acusa general
uruguaio pelo sequestro". O surdo e cego editor do jornal não
ouviu nem leu o nome de Seelig na denúncia.</P>
<P>O tal general "teria contado com o auxílio de policiais
brasileiros", desinformava o vago subtítulo do jornal. Lá
dentro, em matéria secundária da página central, <I>Zero Hora
</I>continuava escondendo a informação essencial sobre o nome
do primeiro agente brasileiro denunciado. A coragem que sobrou
para identificar o general Prantl faltou vergonhosamente na
hora de nomear Seelig. Era a segunda vez que <I>Zero Hora
</I>tropeçava clamorosamente diante do sequestro.</P>
<P>Treze dias antes, na noite de quarta-feira, 29 de novembro,
o jornal tinha nas mãos um material explosivo: o depoimento de
Camilo, o garoto de oito anos, filho de Lílian Celiberti,
apontando o prédio do DOPS gaúcho como seu local de cativeiro
na capital. Era um material exclusivo enviado de Montevidéu
pelos repórteres da Agência CooJornal, da Cooperativa dos
Jornalistas de Porto Alegre. A reportagem havia sido comprada
também por outros dois jornais, um paulista e outro
brasiliense. O editor-chefe do jornal, Carlos Fehlberg,
secretário de Imprensa do Palácio do Planalto no governo
Médici (1969-1974) – o período mais truculento e repressivo da
ditadura –, só baixou a reportagem para a oficina com uma
insólita ressalva na abertura do texto: </P>
<DIR>
<DIR>
<P>Esta matéria, redigida pelo repórter Tomás Pereira, da
CooJornal, está sendo publicada hoje simultaneamente nos
jornais <I>Folha de S.Paulo </I>e <I>Jornal de
Brasília.</P></DIR></DIR></I>
<P>Não adiantou nada. Durante a madrugada a reportagem
desapareceu misteriosamente na boca da rotativa. Foi
substituída na manhã seguinte, quinta-feira, 30, por
explicações pouco convincentes do editor-chefe aos irritados
editores da redação. O leitor gaúcho, ao contrário dos outros
brasileiros que leram jornal naquele dia, não ficou sabendo
que sua própria polícia estava envolvida no sequestro
binacional. A notícia só saiu na <I>Zero Hora </I>do dia
seguinte, sexta-feira, 1° de dezembro, assim mesmo
reverberando cautelosamente a reação no Legislativo gaúcho.
"Debate na Assembléia sobre o envolvimento do DOPS no
seqüestro", dizia a cuidadosa chamada na primeira página do
jornal. Jogava a denúncia na boca do deputado Waldir Walter,
do MDB, "baseando-se em matéria publicada no jornal <I>Folha
de S.Paulo</I>" – esclarecia o diário gaúcho, lavando as mãos
com a própria incompetência jornalística.</P>
<P>Afinal, o jornal paulista tinha publicado sem ressalvas e
sem medo a mesma reportagem da Agência CooJornal que a <I>Zero
Hora </I>tinha comprado com exclusividade e esquecido na
gaveta. Mais estranho ainda: Carlos Fehlberg era um jornalista
experiente e um calejado editor político. Deixou a assessoria
de imprensa do Planalto no final do governo Médici, em 1974,
para assumir por 17 anos o comando do jornal que, sob sua
chefia, tornou-se o mais importante do estado. Diante do
sequestro, porém, ele parecia um iniciante.</P>
<P>Fehlberg voltou a tropicar feio em janeiro de 1979, quando
a missão da OAB rastreava corajosamente o sequestro lá mesmo
em Montevidéu. Dessa vez, a hesitação do editor-chefe foi
denunciada por um subordinado direto, João Aveline, seu
secretário de redação, que 20 anos depois revelou toda sua
frustração num texto carregado de melancolia a partir do
título: "A notícia não saiu. Velório na redação" [AVELINE,
João. <I>Macaco preso para interrogatório: retrato de uma
época.</I> Porto Alegre: AGE, 1999. p. 64-65].</P>
<P>Aveline lembrava que, após um doloroso período de censura,
os jornais se atiravam em cima do caso do sequestro como se
quisessem "recuperar o tempo perdido e ganhar a credibilidade
dos leitores". Até o velho <I>Correio do Povo</I> disputava
notícias, tanto que publicou um "furo de reportagem" com as
andanças da comissão da OAB gaúcha na capital uruguaia. Outra
vez, graças à ousadia do <I>CooJornal</I>, que tinha um
repórter ao lado dos advogados para repassar suas reportagens
aos jornais brasileiros. Fehlberg resolveu combater o
concorrente da Caldas Júnior com suas próprias armas: mandou
comprar, com exclusividade, o material do repórter Tomás
Irineu Pereira. Era uma nova denúncia do <I>CooJornal</I>, a
partir da identificação de outros policiais do DOPS pelos
filhos de Lílian Celiberti. O texto e as três fotos foram
comprados por <I>Zero Hora, </I>com exclusividade para o Rio
Grande do Sul (o mesmo material seria publicado também no Rio
e em São Paulo). Conta Aveline:</P>
<DIR>
<DIR>
<P>A edição estava quase fechando quando o estafeta da
cooperativa chegou com a preciosíssima encomenda, que foi logo
encaminhada à oficina pelas mãos do diretor do jornal,
jornalista Lauro Schirmer. Como eram momentos de grande
expectativa vividos nas redações dos jornais, todos sabiam que
no outro dia <I>Zero Hora </I>tinha novidades exclusivas sobre
o sequestro dos uruguaios. </P>
<P>Mas nesse mesmo "outro dia" a redação parecia um velório.
Na face de cada um, a máscara da tristeza. Em cada gesto, um
total desânimo. A tal matéria-bomba não saíra. <I>Folha de
S.Paulo </I>e <I>O Globo </I>publicaram. E com chamada de
capa. Parece até que nós havíamos comprado a matéria para
garantir sua ausência nos jornais do Rio Grande do Sul.
</P><I>
<P>Zero Hora </I>deu no dia seguinte ao dia seguinte.
Provavelmente porque a responsabilidade, na ótica de quem
vetou, seria de quem divulgou primeiro. </P></DIR></DIR>
<P>Não parece, mas a história narrada pela imprensa é uma
lenta, articulada sucessão de dias que se sucedem, um dia
seguinte ao outro. O fio caprichoso que une fatos, cenas,
pessoas e motivações variadas acaba tecendo o relato que
define tempos, homens e biografias. Mais cedo ou mais tarde,
apesar dos atos de força, dos surtos de violência, das
vacilações de caráter e das razões subjacentes e subalternas
de uns e outros, a verdade acaba aflorando e prevalecendo.
</P>
<P>A mesma imprensa que hesita, vacila e tropeça pode, no dia
seguinte, reparar erros, remediar falhas, recontar momentos e
resgatar a ética de sua função essencial – contar o que é, por
que é, como é.</P>
<P>A crônica de máximas e mínimas da imprensa brasileira –
antes, durante e depois do golpe de 1964 – mostra que sempre
há o dia seguinte. </P>
<P>Contra todas as previsões, nossa obrigação é lembrar e
contar. </P>
<P>Não importa o tamanho da treva, o sufoco do tempo, o chumbo
do ar, a força da ventania. </P>
<P>Sempre haverá o dia seguinte. </P>
<P>O dia para lembrar. E
contar</P></SPAN></TD></TR></TBODY></TABLE></TD></TR></TBODY></TABLE></TD></TR></TBODY></TABLE></DIV>
<P>
<HR>
<P></P></BODY></HTML>