<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
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<BODY style="BACKGROUND-COLOR: #fff" bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT color=#ff0000 size=6 face=Forte><FONT size=7>Carta O
Berro</FONT><FONT
size=3>...........................................................................................................................<FONT
face=Georgia>repassem</FONT></FONT></FONT></DIV>
<DIV><FONT color=#ff0000 face=Georgia></FONT> </DIV>
<DIV><FONT size=2>----- Original Message -----
<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><B>From:</B> <A
title=mariomalbuquerque@gmail.com
href="mailto:mariomalbuquerque@gmail.com">Mario Miranda de Albuquerque</A>
</DIV></FONT></DIV>
<DIV style="FONT: 10pt arial">
<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><!--~-|**|PrettyHtmlEnd|**|-~--></DIV></DIV>
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<P>
<HR>
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<DIV>
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<BLOCKQUOTE style="BORDER-LEFT: #6868cc 2px solid">
<P><FONT size=2 face=Arial></FONT> </P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" class=MsoNormal align=center><STRONG><SPAN
style="FONT-SIZE: 20pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN></STRONG> </P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" class=MsoNormal align=center><STRONG><SPAN
style="FONT-SIZE: 20pt"><SPAN style="FONT-FAMILY: Calibri">O Brasil ou a
ditadura</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><STRONG><EM><SPAN style="FONT-SIZE: 12pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN></EM></STRONG> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><EM><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">O episódio da contestação ao conteúdo do 3º PNDH
(Programa Nacional dos Direitos Humanos) tem suas raízes profundas. Há nele um
recado no qual os comandantes militares são meros instrumentos de uma ordem há
muito consagrada. </SPAN></SPAN></EM></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><STRONG><EM><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Da filiação original ao exército colonial
português à reverente subserviência ao moderno intervencionismo dos EUA, o
Exército brasileiro afirmou uma relação simbiótica com o poder político — do
qual se julga fiscal e guardião —, com o imperialismo e com o sistema da
grande propriedade territorial, o velho e truculento latifúndio.
</SPAN></SPAN></EM></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-FAMILY: Calibri"><STRONG><EM><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt">Daí a insuportável e malcheirosa ocorrência deste
prolongado funeral do regime militar, que já se estende por um quarto de
século desde o seu epílogo oficial, em 1985.</SPAN></EM></STRONG></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><STRONG><EM><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">E que, não resolvido, poderá enterrar o próprio
Brasil. </SPAN></SPAN></EM></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><STRONG><EM><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN></EM></STRONG> </P>
<P style="TEXT-ALIGN: right" class=MsoNormal align=right><STRONG><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN style="FONT-FAMILY: Calibri">Luiz Carlos
Antero*</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><STRONG><EM><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN></EM></STRONG> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"><SPAN> </SPAN>Este pensamento faz o
contraponto mais contraditório às suas raízes patrióticas — da Batalha de
Guararapes à campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na II Grande
Guerra. E explica também seu desaforado desacato às determinações do
presidente da República —constitucional comandante supremo das Forças Armadas.
</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">O exame da História do Exército
Brasileiro</SPAN><A href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftn1"
name=126b81b0fd1cb913_12651a3550907f73__ftnref1
target=_blank><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN>[1]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"> (HEB) é pródigo em elementos úteis à compreensão
do posicionamento dos comandantes militares—pateticame<WBR>nte secundados pelo
ministro da Defesa, Nelson Jobim, que os acompanhou na recente “ameaça de
renúncia”. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Armado árbitro da
democracia</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">A HEB foi publicada pela primeira vez em 1972,
durante o governo Médici, que ficou conhecido como período emblemático dos
“anos de chumbo”.</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Antes disso não havia nenhuma obra com esse
sentido historiográfico produzida no meio castrense. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">O Exército publicou uma segunda versão em 1998,
sempre sem autoria definida, com o patrocínio da Organização Odebrecht, quando
há 13 anos os militares já não controlavam o Poder Executivo.
</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">No livro, o Exército se interpreta como elo
fundamental de união entre o colonizador das caravelas, os povos indígenas
nativos e os africanos. Nesse rumo, entrelaça as origens da nacionalidade
brasileira e do próprio Exército no momento de sua fundação, considerando
indissociáveis as duas histórias. Essa união na defesa do território daria
origem ao “povo em armas”, com início oficializado em Guararapes.
</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Assim, ao expor a concepção de seu papel na
sociedade, o Exército se estabelece como “guardião da nacionalidade”<WBR>. É o
nascedouro do espírito chauvinista que o levou a se considerar acima da
Constituição e a se imiscuir na vida do País como se fosse o soberano
magistrado capaz de interromper, a seu juízo, o processo
democrático.</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Em busca das “Novas
Ameaças”</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">A cientista social Amanda Pinheiro Mancuso, que
examinou numa tese de mestrado a relação castrense com a FEB e com a Guerrilha
do Araguaia, observou que “esse caráter civilizador do Exército como uma
espécie de ‘professor da nação’ era uma visão típica da época da ditadura
militar que foi transmitida na sua produção historiográfica”<WBR>.
</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">E acrescentou que, em 1998, a publicação se deu
nas circunstâncias de uma crise de identidade, em busca de um conflito
sucedâneo aos padrões da Guerra Fria: “Neste quadro, desenvolvia-<WBR>se, à
época, um panorama de discussão sobre ‘Novas Ameaças’, que tinha como
componente principal a pressão exercida pelos EUA sobre os países da América
Latina no sentido de um envolvimento mais efetivo de suas Forças Armadas em
operações de combate aos chamados ilícitos transnacionais, com destaque para o
problema do narcotráfico”</SPAN><A href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftn2"
name=126b81b0fd1cb913_12651a3550907f73__ftnref2
target=_blank><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN>[2]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">União do ”povo em armas” contra o
invasor</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Na versão castrense, até a nossa efetiva
independência, “o exército brasileiro será esse entremeado de brasileiros e
portugueses, os últimos, ensinando aos primeiros a difícil arte das armas, e
estes aos lusitanos, dando demonstrações de amor pela terra dadivosa, talhada
pela Providência para crisol de raças e dos ideais
democráticos”.<BR> </SPAN></SPAN></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><SPAN style="FONT-SIZE: small">Nesta versão, o
Exército incorpora a plena influência da estrutura militar instalada pelo
colonizador português, na qual foram relevantes as invasões estrangeiras no
litoral brasileiro. A consciência do espaço territorial e da importância de
sua integração e unidade decorreu de uma pré-condição: lutar primeiro contra o
invasor estrangeiro antes de lidar com as questões internas. </SPAN></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><SPAN style="FONT-SIZE: small">Assim, a
construção do Exército se deu pela união “patriótica” com o “povo em armas” —
inadmitida nas circunstâncias da resistência à sua indevida intervenção na
vida do País com o golpe militar de 1964. </SPAN></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><SPAN></SPAN> </P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Times New Roman">Berço nas
capitanias</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Entretanto, esse fator positivo foi neutralizado,
num aspecto de fundo, quanto ao advento do sistema de capitanias — que ainda
hoje remanesce o bastião latifundiário no País. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Ao tempo que valorizava a organização política
colonial atrelada à sua organização militar como elemento de defesa do
território conquistado, o sistema de capitanias, instituído 32 anos após o
descobrimento, é descrito como a primeira organização militar terrestre.
</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">As capitanias constituíam porções do território
doadas em usufruto aos “capazes” de povoar, explorar e defender as terras com
recursos próprios, “e os proveitos eram divididos com a fazenda real como meio
de solucionar os problemas de invasões e pilhagens”. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Nessa “divisão de responsabilidades”<WBR>, as
autoridades coloniais forneciam armas, munições e oficiais, aos quais cabia
armar, instruir e comandar as forças que organizassem, cabendo aos donatários
empregá-las para a manutenção da ordem e para a defesa. É o berço do
Exército.</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Nasce aí, nas raízes mais remotas desta umbilical
gestação, o contemporâneo, visceral e congênito ódio compulsivo ao MST — que,
mais de cinco séculos depois, seria em seu imaginário o fulcro da rebeldia a
ameaçar o leito nascituro: o velho sistema sesmarial remanescente.
<SPAN> </SPAN></SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Vence a Escola das
Américas</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Modernamente, no desfecho da polêmica que
envolveu o 3º PNDH (Programa Nacional dos Direitos Humanos), saíram vitoriosos
o regime militar e seus torturadores treinados na Escola das Américas
</SPAN><A href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftn3"
name=126b81b0fd1cb913_12651a3550907f73__ftnref3
target=_blank><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN>[3]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"> — e oficialmente qualificados pela impunidade:
com o apoio do ministro da Defesa, Nelson Jobim, lograram apagar de um
documento oficial a referência à “repressão política” ocorrida naquele
período, novamente anistiando-se ao arrepio da lei. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Saem derrotadas, pagando um elevado preço
consentido, as Forças Armadas, agora forçadas a assumir perante a sociedade
brasileira, a ampla, geral e irrestrita solidariedade dos seus comandantes aos
violadores de todos os códigos e convenções castrenses e internacionais, além
da ruptura da ordem constitucional que qualifica como seu comandante supremo o
presidente da República. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Admitem agora publicamente que o banditismo
promovido pela ditadura, que ainda hoje mantém 140 “desaparecidos”<WBR>, não
foi um episódio isolado: até que o nosso povo determine que seus filhos
militares mudem o rumo da prosa, torna-se o vandalismo traço essencial do seu
perfil e de toda a sua história. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Medo dos filhos e do
espelho</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Tudo isso em contraponto à tendência de sua
fração patriótica que empolgou a FEB (Força Expedicionária Brasileira) como
força aliada na Campanha da Itália, em 1944-45; além disso, valorizando os
genocídios promovidos na Guerra do Paraguai, em Canudos, no Caldeirão, no
Contestado e em todos os episódios de participação militar pródiga em
massacres, torturas, sevícias e degolas.</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Entre todas as questões que pipocaram neste
início de 2010, algumas sangraram Brasil afora. Uma delas veio de Hildegard
Angel, irmã do jovem Stuart Angel, trucidado pelo CISA (Centro de Informações
da Aeronáutica) na Base Aérea do Galeão: “Que medo é esse de se revelar a
Verdade? Medo de não poder mais olhar para seus próprios filhos? Ou medo de
não poder mais se olhar no espelho?” </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Tal justa contundência apenas verifica a
determinação da elite brasileira — de seus latifundiários, grandes empresários
que financiaram o aparelho repressivo e militares — de manter a ferro e a fogo
em nossa tradição política a ocultação da verdade, bem mais que a prática da
tortura e da degola de prisioneiros indefesos. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Ocultação da vergonha</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">É o rito (ausente de seus manuais) que consiste
em apagar suas ações vergonhosas até o extremo de inundá-las, como aconteceu
com as terras de Canudos, onde hoje está o açude Cocorobó; como quase
aconteceu na região da Guerrilha do Araguaia, onde se construiria uma represa
da Usina Santa Isabel, destinada à produção de minérios para exportação. Numa
torrencial onda de relatos, tratou-se de reunir cadáveres de prisioneiros
executados e dispersos na mata e, segundo o coronel Pedro Correia Cabral, que
participou da macabra operação pilotando um helicóptero, levá-los à
incineração com pneus e gasolina na Serra das Andorinhas após o encerramento
oficial da mesma Guerrilha. Ou, ainda, no estilo da denúncia contida no livro
de Taís Morais</SPAN><A href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftn4"
name=126b81b0fd1cb913_12651a3550907f73__ftnref4
target=_blank><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN>[4]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">, um agente secreto descreve, minucioso, como se
eclipsava com as vítimas das chacinas, retalhando-as nas juntas e
pendurando-as em ganchos de açougue até o completo sumiço — a exemplo de David
Capistrano. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Proteção dos verdugos</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Nesta tradição, um dos ícones da ocultação
histórica da barbárie foi o pioneiro Rui Barbosa: pediu que fossem queimados
os arquivos da escravidão. A truculência antipopular promovida nos anos 1920
pelo governo de Arthur Bernardes contra o povo e seus filhos militares de
berço tenentista e revolucionário — infinitamente mais dignos que tais
padrinhos de bestas humanas — foi igualmente obscurecida</SPAN><A
href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftn5"
name=126b81b0fd1cb913_12651a3550907f73__ftnref5
target=_blank><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN>[5]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">. Os arquivos da ditadura estadonovista
(1937-1945) não emplacaram a longevidade do nazista tupiniquim Felinto Muller
— o mesmo que remeteu Olga Benário às cremalheiras de Hitler. E lembremos que,
após essa ditadura, até um deputado e general chamado Euclydes Figueiredo, da
UDN antivarguista empenhada em se vingar dos maus tratos desse passado, propôs
a criação na Constituinte de 1946 de uma frustrada Comissão que julgaria os
seus atos, inclusive a situação dos presos políticos de 1934 a 1945.
</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Na ordem contemporânea, as nossas forças armadas
contrariam a experiência de Portugal, Espanha, Grécia, Chile, Argentina ou
Uruguai, onde os militares abandonaram à própria sorte os verdugos das
ditaduras extintas. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Na vigência da ilegalidade — e apenas de 1964 e
1979 — milhares de civis foram condenados nos tribunais militares pelo crime
de se opor ao arbítrio. Mas, após cinco eleições diretas, sete presidentes
empossados e 25 anos após o fim do golpe de 1964, ratificando a vigência da
ditadura, o velho arcabouço golpista veda a abertura dos arquivos secretos e
esteriliza os crimes de uma horda que ceifou inúmeras vidas nos porões de um
regime sanguinário.</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Escola das Américas: velha campana
golpista</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><BR><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Mas o especial perigo da insurgência militar
reside na sua reconhecida relação com a agressiva política belicista dos EUA,
que fortalece as posições dos setores mais entreguistas das Forças Armadas —
animados pelos rígidos dogmas da Doutrina da Segurança Nacional, berço
intocado das ameaças antidemocráticas.</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Barack Obama, sem objeções de fundo, atua
submisso ao aparelho conservador dos falcões, que dá rumo à ofensiva da
direita no continente instalando bases militares na Colômbia, apoiando o golpe
hondurenho, as investidas internas contra Evo Morales na Bolívia, Fernando
Lugo no Paraguai, Cristina Kirchner na Argentina; alimentando o terror
biliardário nas eleições chilenas. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">É essa instabilidade que anima o seleto clube dos
descendentes da Escola das Américas, onde se abrigam especialistas (e seus
solidários comandantes) nada indignados com a atual ofensiva.
</SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Arrebentar os grilhões</SPAN></SPAN></STRONG></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Entretanto, não obstante os novos arreganhos da
velha ordem, emergimos do episódio mais convictos de que o atual desafio, que
enquadra o tema Direitos Humanos, requer, sem ilusões ou contemplações, a
atualização da luta contra a ditadura. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">E sob a convicção de que uma política de Estado
libertária passa hoje pela determinação política do Presidente mais popular da
História — o único que não brotou do berço da elite mais corrosiva do planeta.
Ou ele, ainda na vigência do atual mandato, encerra de modo esclarecedor esse
capítulo das trevas, com o amplo apoio da população, da sociedade organizada e
de seus militares dignos — que nada tem a perder além dos grilhões que os
acorrentam a um passado sujo e pervertido —, ou sua vigência se perpetuará
como uma permanente ameaça aos filhos e netos do Brasil. </SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">Boa parte sobrevivente da nossa geração gastou
sua mocidade enfrentando — alguns tentando compreender — o terror emergente
das casernas e das cavernas. Agora se vê na contingência de confrontá-lo para
que nem os que tombaram possam se envergonhar do Brasil.<SPAN>
</SPAN></SPAN></SPAN></P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 12pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"></SPAN></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal><SPAN style="FONT-SIZE: 12pt"><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri">*Sociólogo, jornalista,
escritor</SPAN></SPAN></P>
<DIV><BR><SPAN style="FONT-FAMILY: Calibri">
<HR SIZE=1>
</SPAN>
<DIV>
<H2><A href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftnref1"
name=126b81b0fd1cb913_12651a3550907f73__ftn1
target=_blank><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN>[1]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN>
</SPAN><SPAN style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif">Historia do Exercito
Brasileiro; perfil militar de um povo. Edição do Estado Maior do Exército.
Brasília, 1972</SPAN></SPAN><SPAN style="FONT-FAMILY: Calibri"><SPAN
style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif"> </SPAN></SPAN></SPAN><A
href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftnref2"
name=126b81b0fd1cb913_12651a3550907f73__ftn2 target=_blank><SPAN><SPAN
style="FONT-SIZE: 10pt"><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN
style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif">[2]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN
style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif"> <BR>Entre terra e mar:
história e política na narrativa oficial das forças armadas brasileiras - os
casos do Exército e da Marinha. Mancuso, Amanda Pinheiro. <A
href="https://www.defesa.gov.br/espaco_academico/biblioteca_virtual/teses/ciencias_humanas/amanda_pinheiro_mancuso_entre_terra_mar_historia.pdf"
target=_blank>https://www.<WBR>defesa.gov.<WBR>br/espaco_<WBR>academico/<WBR>biblioteca_<WBR>virtual/teses/<WBR>ciencias_<WBR>humanas/amanda_<WBR>pinheiro_<WBR>mancuso_entre_<WBR>terra_mar_<WBR>historia.<WBR>pdf</A><BR></SPAN></SPAN><SPAN
style="FONT-FAMILY: Calibri"><SPAN style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif"> </SPAN></SPAN></SPAN><A
href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftnref3"
name=126b81b0fd1cb913_12651a3550907f73__ftn3
target=_blank><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif">[3]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN
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style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif"> C<SPAN
style="COLOR: black">entro de especialização de técnicas de tortura dos EUA,
onde foram amestrados mais de 62 mil oficiais militares latino-americanos,
entre os quais torturadores que violaram direitos humanos em países como
Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai. Criado no Panamá, em 1946, foi
transferido em 1977 para o Fort Benning, na Geórgia, denominando-<WBR>se
Instituto de Cooperação para a Segurança
Hemisférica.<BR></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN><A
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style="FONT-SIZE: x-small"><SPAN style="FONT-FAMILY: Calibri"><SPAN
style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif"> Sem Vestígios – Revelações
de um agente Secreto da ditadura militar brasileira. São Paulo : Geração
Editorial, 2008<BR></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN><A
href="http://forward/?uid=MTExNDI#_ftnref5"
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target=_blank><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN><SPAN style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif">[5]</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></A><SPAN><SPAN
style="FONT-SIZE: x-small"><SPAN style="FONT-FAMILY: Calibri"><SPAN
style="FONT-SIZE: xx-small"><SPAN
style="FONT-FAMILY: arial, helvetica, sans-serif"> Leitura imprescindível para
quem quer conhecer o Brasil em sua formação: o livro “As Noites das Grandes
Fogueiras”, de Domingos Meirelles (Rio de Janeiro: Editora Record, 1995), que
percorre minuciosamente este período da República marcado pela Revolta do
Forte de Copacabana, pela Rebelião de 1924 e pela Coluna
Prestes</SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></SPAN></H2></DIV></DIV>
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