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<P class=titulo>Da miséria ideológica à crise do capital</P>
<P class=linhafina>O livro da cientista social Maria Orlanda Pinassi emerge, em 
tempos de ilusões pós-modernas, na oposição da apologética acadêmica niilista. 
Pinassi reflete sobre a incidência do conceito de decadência ideológica na 
atualidade, principalmente diante das ideologias que pregam o “fim da história”, 
o “fim da ideologia”, o “fim do trabalho”. O grande mérito da autora foi 
resgatar a categoria decadência ideológica como um dos mais férteis instrumentos 
da crítica marxiana-lukacsiana. A resenha é de Ricardo Lara, professor da 
Universidade Federal de Santa Catarina.</P>
<P class=headline-link>Ricardo Lara (*)</P>
<P class=texto><I>RESENHA<BR><BR>PINASSI, M. O. Da miséria ideológica à crise do 
capital: uma reconciliação histórica. São Paulo, Boitempo, 2009, 140p. (Coleção 
Mundo do Trabalho) </I><BR><BR>O livro da cientista social Maria Orlanda Pinassi 
emerge, em tempos de ilusões pós-modernas, na oposição da apologética acadêmica 
niilista. A teoria social articulada em seus ensaios alimenta-se na tradição 
ontológica materialista e dialética que se agarra a práxis revolucionária. 
Aliada ao conceito de decadência ideológica – “um dos mais férteis instrumentos 
da ciência marxiana da história” (PINASSI, 2009, p. 16) –, a autora oferece 
contundente arsenal de críticas as ideologias irracionais que se instauraram no 
pensamento social após a consolidação da hegemonia burguesa.<BR><BR>O conceito 
de decadência ideológica, elaborado por Georg Lukács (1885 – 1971) designa a 
crise espiritual da burguesia após 1848. Para Lukács (1968, p. 52) o que temos, 
com a evolução do pensamento social burguês, é a: <BR><BR><I>liquidação de todas 
as tentativas anteriormente realizadas pelos mais notáveis ideólogos burgueses, 
no sentido de compreender as verdadeiras forças motrizes da sociedade, sem temor 
das contradições que pudessem ser esclarecidas; essa fuga numa pseudo-história 
construída a bel prazer, interpretada superficialmente, deformada em sentido 
subjetivista e místico, é a tendência geral da decadência 
ideológica.</I><BR><BR>Pinassi reflete sobre a incidência do conceito de 
decadência ideológica na atualidade, principalmente diante das ideologias que 
pregam o “fim da história”, o “fim da ideologia”, o “fim do trabalho”. O 
pensamento burguês contemporâneo, na maioria dos casos, apresenta tendências que 
não se preocupam em construir conhecimentos que levam em consideração a 
materialidade social. O pensamento social faz das ciências sociais e humanas um 
mecanismo irracional que nega o desenvolvimento sócio-histórico e evita produzir 
conhecimentos que têm como pressuposto o mundo da atividade concreta e sensível 
do homem.<BR><BR>Nos tempos presentes a irracionalidade burguesa avança a passos 
vastos, as concepções científicas de todas as áreas do saber mostram-se 
capacitadas para responder as ânsias de um modo de vida que sobrevive entre a 
plena realização da coisa (fetiche do capital) e a barbárie social. As possíveis 
respostas para os fenômenos sociais e naturais que afligem a humanidade estão 
presentes em todas as ciências, mas os abismos entre a realidade social e suas 
percepções científicas geram concepções caóticas.<BR><BR>Os “paradigmas” 
científicos explicam o homem tentando buscar sua essência, mas não compreendem 
que a essência humana deve ser encontrada no conjunto das relações sociais, pois 
“a essência humana não é uma abstração intrínseca ao indivíduo isolado. Em sua 
realidade, ela é o conjunto das relações sociais”. (MARX; ENGELS, 2007, p. 534). 
<BR><BR>A trajetória DA MISÉRIA IDEOLÓGICA À CRISE DO CAPITAL delongou 
aproximadamente 130 anos para sua RECONCILIAÇÃO HISTÓRICA, composta pelo ponto 
de partida, as “origens do processo da consolidação da hegemonia burguesa, 
momento pós-revolucionário que impõe uma enorme transfiguração das ideologias 
clássicas do século XVIII em ideologias apologéticas” (PINASSI, 2009, p. 11), e 
o ponto de chegada, a crise estrutural do capital iniciada nos anos de 1970, com 
seus limites absolutos, crônicos e implacáveis. O livro é uma denúncia 
imprescindível, um chamado para a consciência crítica e revolucionária, uma arma 
em potencial para combater as delirantes abstrações e aberrações ideológicas da 
atualidade. O grande mérito de Pinassi foi de resgatar a categoria decadência 
ideológica como um dos mais férteis instrumentos da crítica marxiana-lukacsiana. 
A autora indica com radicalidade teórica o vínculo e a coexistência da ideologia 
apologética com a eficiência da produção material capitalista. <BR><BR>A 
decadência ideológica desvenda o “racionalismo burguês”, justificador do 
desenvolvimento capitalista do final da segunda metade do século XIX, que se 
ancora no período imperialista, e concretiza-se nas crises cíclicas do século 
XX. Nessa processualidade social surgem os causídicos do sistema, com suas 
teorizações do “pleno emprego”, do “estado de bem estar social”, sustentadores 
da inconsciência burguesa. Pinassi expõe o poder da ideologia, revestida de 
apologética, que oferece sustentação para a acumulação capitalista. O conceito 
de decadência ideológica revela a crítica da totalidade social, revela a conexão 
entre força material e construção ideológica do sistema do capital, oferece a 
possibilidade da crítica, genuína e fecunda, que resgata a perspectiva 
ontológica. <BR><BR>Os ensaios que compõem o livro depositam confiança na 
alternativa socialista como a única opção para a sobrevivência da humanidade. 
Aborda questões fundamentais da transição socialista. Desmistifica a 
irracionalidade burguesa e abre o caminho para a teorização da revolução 
socialista, pois a história da humanidade não é algo dado e acabado como ampara 
o pensamento burguês apologético. A luta de classes e a constituição da classe 
revolucionária é o principal tema perquirido ao longo das páginas. Os textos 
abordam as principais polêmicas do projeto verdadeiramente socialista, Pinassi 
não teme em deixar evidente sua postura radical contra as ilusões irracionais 
acadêmicas pós-modernas.<BR><BR>Para isso ela inquieta-se com a universalização 
do capital e suas absurdas e cruéis formas de irracionalismo. Para levar a êxito 
tal posicionamento, nota-se, no livro, a atenta interlocução com as obras de 
Marx, Lukács e Mészáros, ganhando evidência a percepção audaz de extrair os 
debates nodais da crítica ontológica expirada na ciência da história marxiana. 
As interlocuções com os clássicos do pensamento marxiano rejuvenesce as críticas 
impenitentes ao capitalismo. Sem rodeios apologéticos, a autora vai a questão 
essencial: só é possível liberdade e democracia numa sociedade para além do 
irracionalismo burguês, da propriedade privada e da alienação. <BR><BR>O 
principal fundamento da crítica marxiana foi a descoberta de quê a produção e 
reprodução da vida social burguesa se estabelece pela dialética da propriedade 
privada e do trabalho estranhado. Nos onze ensaios do livro, observamos a 
crítica ontológica que orienta a humanidade na suprassunção da propriedade 
privada em busca da emancipação humana. <BR><BR>Temas e categorias teóricas – 
transição socialista, emancipação humana, revolução, propriedade privada, luta 
de classes, criminalidade, ecletismo, reforma agrária, consciência de classe, 
movimentos sociais – hesitados pelos cientistas sociais contemporâneos, ou 
criminalizados pelo irracionalismo burguês, ressurgem com autenticidade e 
necessidade histórica nos textos da autora. Esses assuntos são colocados na 
história e ganham significados ontológicos e transitórios. Observe a seguinte 
afirmação em relação a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra 
(MST): <BR><BR><I>o que poderia constituir uma debilidade – ou seja, a 
particularidade histórica da luta pela reforma agrária – pode ser um dos seus 
maiores triunfos. Ou seja, da bandeira que evoca velhas contradições nacionais 
não resolvidas pode aflorar a consciência para as mais atuais formas assumidas 
pela exploração de classe e pela dominação imperialista. (PINASSI, 2009, p. 71). 
</I><BR><BR>Pinassi destaca a importância de analisar o MST como um movimento 
que luta pela transitoriedade, pela superação do sistema de funcionamento do 
capital. O MST é considerado uma base fundamental para compreender a práxis das 
atuais organizações alternativas constituídas no mundo do trabalho 
latino-americano. <BR><BR>A autora, ao abordar as temáticas polêmicas, questiona 
o medo dos homens contemporâneos, o temor que vem transvestido de mais 
alienação. A teoria social tem medo de questionar a realidade e colocar em xeque 
o metabolismo social do capital. Perante isso, evidencia-se a generosa crítica 
aos anticapitalistas românticos que não questionam a exploração da mais-valia e 
a propriedade privada, e aos que levantam a bandeira visionária dos “direitos 
das minorias”. A racionalidade pseudo-crítica não questiona as raízes das 
contradições da sociedade burguesa, ignora a luta de classes e não resgata a 
crítica a barbárie social imposta pela ordem do capital. Depois de ler o livro, 
percebemos o quanto e o porquê as ciências sociais e humanas estão tão distantes 
da realidade social.<BR><BR>Enfim, na contemporaneidade, muito se escreve e 
muito se lê sobre a sociedade humana e suas relações sociais submetidas à lógica 
do capital, mesmo aqueles que se pautam na crítica da sociabilidade burguesa 
acabam, em alguns casos, reproduzindo estilos acadêmicos oriundos da decadência 
ideológica. Pinassi diverge da maioria da intelectualidade atual, afronta o 
“tema” da emancipação humana como prioridade no debate das ciências sociais e 
humanas. O destemido livro representa a imprescindível crítica radical às 
ideologias apologéticas e, por conseguinte, irracionais. A leitura é uma 
interlocução, segura, com Marx, Lukács e Mészáros, na melhor maneira da 
aspiração ontológica, as análises são sobre determinadas condições de existência 
reais, históricas e transitórias, as críticas teóricas são sobre as relações de 
produção e reprodução da vida humana sob as contradições inconciliáveis do 
sistema do capital. <BR><BR><B>Referências bibliográficas</B><BR><I>LUKÁCS, G. 
Marxismo e teoria da literatura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968, 
288p. <BR><BR>MARX; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo, Boitempo, 2009, 
614p. (Coleção Marx e Engels)<BR><BR>PINASSI, M. O. Da miséria ideológica à 
crise do capital: uma reconciliação histórica. São Paulo, Boitempo, 2009, 140p. 
(Coleção Mundo do Trabalho) </I><BR><BR><I>(*) Professor Adjunto do curso de 
Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina –</I></P></DIV></DIV>
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