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<DIV><FONT size=7 face=Forte><FONT color=#ff0000>Carta O Berro<FONT
size=3>...................................................................................................repassem</FONT></FONT></FONT></DIV>
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<DIV>----- Original Message ----- </DIV>
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<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><B>From:</B> <A
title=anuia@yahoo.com.br href="mailto:anuia@yahoo.com.br">MArco Antonio da
Silva</A> </DIV></DIV><BGSOUND balance=0 volume=0 loop=infinite
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<DIV>----- Original Message ----- </DIV>
<DIV style="FONT: 10pt arial">
<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><B>From:</B> <A
title=paulo.abrao@mj.gov.br href="mailto:paulo.abrao@mj.gov.br">Paulo Abrão
Pires Junior</A> </DIV>
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<P style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class=MsoNormal><SPAN
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face="Times New Roman"> </FONT></o:p></P>
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<P style="MARGIN: auto 0cm" class=titulo><FONT
face="Times New Roman"><B><SPAN style="FONT-SIZE: 36pt">"A ditadura não
acabou"</SPAN> </B><o:p></o:p></FONT></P>
<H3 style="MARGIN: auto 0cm"><FONT face="Times New Roman">Filho de
militantes de esquerda, Carlos Alexandre foi preso e torturado quando era
bebê. Cresceu agressivo e isolado. Aos 37 anos, ele ainda sente os efeitos
dos anos de chumbo: vive recluso, sem trabalho nem amigos - sofre de fobia
social<o:p></o:p></FONT></H3>
<P><FONT face="Times New Roman">Solange Azevedo<o:p></o:p></FONT></P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" align=center><IMG border=0 hspace=0 alt=""
align=baseline src="cid:60B78895FFF6441FB94089D85930B1D9@vcaixe"><BR><FONT
face="Times New Roman"><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 10pt">Carlos
Alexandre Azevedo, 37 anos, torturado quando era
bebê.</SPAN></STRONG><o:p></o:p></FONT></P>
<P><FONT face="Times New Roman">Ele tem olhos de aflição e feições de dor.
Suas palavras saem cadenciadas, são quase sussurros. “Minha família nunca
conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura”,
diz. “Os meus pais foram presos e eu fui usado para pressioná-los.” Carlos
Alexandre Azevedo tinha 1 ano e 8 meses quando policiais invadiram a casa
da família, na zona sul de São Paulo, e o levaram para a sede do
Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops). Era 15 de
janeiro de 1974. Bem armados e truculentos, os agentes da repressão o
encontraram na companhia da babá – uma moça de origem nordestina conhecida
como Joana. Chegaram dando ordens. Exigiram que os dois permanecessem
imóveis no sofá. Apenas Joana obedeceu. Como castigo pelo choro
persistente, Carlos Alexandre levou uma bofetada tão forte que acabou com
os lábios cortados. Foram mais de 15 horas de agonia. O drama de Carlos
Alexandre – um dos mais surpreendentes dos anos de chumbo – veio à tona no
momento em que o governo brasileiro discute a criação da Comissão Nacional
da Verdade para apurar casos de tortura, sequestros, desaparecimentos e
violações de direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985).
Carlos Alexandre decidiu revelar sua história, com exclusividade, à ISTOÉ
depois que o seu processo de anistia foi julgado pelo Ministério da
Justiça. No dia 13 de janeiro, ele foi declarado “anistiado político”.
Deve receber uma indenização de R$ 100 mil por ter sido vítima dos
militares. “Muita gente ainda acha que não houve ditadura nem tortura no
Brasil. No julgamento, em Brasília, me senti
compreendido.<o:p></o:p></FONT></P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" align=center><BR><FONT
face="Times New Roman"><STRONG><SPAN
style="FONT-SIZE: 10pt">Carlos aos 3 anos, com os
pais</SPAN></STRONG><o:p></o:p></FONT></P>
<P><FONT face="Times New Roman">As pessoas sabiam que o que eu vivi foi
verdade”, alega. “A indenização não vai apagar nada do que aconteceu na
minha vida. Mas a anistia é o reconhecimento oficial de que o Estado
falhou comigo. Para mim, a ditadura não acabou. Até hoje sofro os seus
efeitos. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social.”
Fragmentos da vida de Carlos Alexandre, hoje com 37 anos, estão
guardados na memória do pai, o jornalistae cientista político Dermi
Azevedo. Outros ficaram entre as lembranças da mãe, a pedagoga Darcy
Andozia. “Minha família sempre foi muito retraída, sem diálogo. Não
costumávamos falar sobre tortura. Esse assunto sempre foi tabu entre nós”,
conta Carlos Alexandre. Ele descobriu o próprio passado ao remexer em
gavetas, aos 10 ou 11 anos de idade. Misturado a fotografias antigas e a
uma porção de papéis, encontrou o desenho de uma vaquinha, conhecida na
época por simbolizar a “esperança”, com o seguinte recado: “Deops 1974:
Quando você ficar mais velho, seus pais vão te contar a sua história.”
Parte do sofrimento da infância lhe foi revelada pela mãe. “Cacá apanhou
porque estava chorando de fome. Os policiais falavam que, naquela idade,
ele já era doutrinado e perigoso”, lamenta Darcy. Presas políticas
disseram ao pai que o menino fora torturado no Deops. “Meses depois de
sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vítima de choques
elétricos e outras sevícias. Ele foi jogado no chão e bateu a cabeça”,
afirma Dermi. “Maltratar um bebê é o suprassumo da crueldade.” Quando os
agentes levaram Carlos Alexandre e a babá, Darcy não estava em casa –
seria trancafiada no Deops horas depois.<o:p></o:p></FONT></P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" align=center><FONT
face="Times New Roman"><STRONG><SPAN style="COLOR: red">“Até hoje sofro os
efeitos da ditadura. Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia
social” </SPAN></STRONG><o:p></o:p></FONT></P>
<P><FONT face="Times New Roman">Ela havia saído cedo em busca de ajuda
para o marido preso. Aquela era a segunda invasão à residência dos
Azevedo. Na noite anterior, policiais vasculharam todos os cômodos em
busca de “material subversivo”. Encontraram um livro intitulado “Educação
Moral e Cívica & Escalada Fascista no Brasil” e o consideraram uma
injúria às autoridades. Dermi, Darcy e a educadora Maria Nilde Mascellani
foram processados – e absolvidos – sob a acusação de tentar difamar o
Estado brasileiro. Dermi e Darcy eram ligados aos padres dominicanos e a
uma das principais vozes que lutavam contra a ditadura, o então cardeal de
São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. Faziam parte da retaguarda do
movimento de resistência – abrigavam militantes que se preparavam para
embarcar para o Exterior. O período de cárcere foi tenso e doloroso. Darcy
permaneceu mais de 40 dias na cadeia. Foi pressionada psicologicamente,
mas não sofreu violência física. Dermi ficou cerca de quatro meses no
xadrez. Apanhou muito. Quando já não suportava mais a dor, invocava o nome
d’Ele: “Ai, meu Deus. Meu Deus.” Enquanto Darcy esteve atrás das grades,
Carlos Alexandre foi cuidado pelos avós – e continuou a sofrer as
consequências de escolhas que não foram suas. “Em certos momentos, tive
raiva porque meus pais expuseram os filhos. Mas depois senti orgulho
porque eles lutaram contra os abusos dos militares e fazem parte da
história do Brasil”, diz. Carlos Alexandre padece de um transtorno chamado
pela ciência de fobia social: um medo excessivo e persistente de se expor
à avaliação alheia. Quem tem esse distúrbio se esquiva sistematicamente de
contatos interpessoais – principalmente com pessoas do sexo oposto,
desconhecidas ou autoridades – porque teme ser humilhado ou
rejeitado.<o:p></o:p></FONT></P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" align=center><BR><FONT
face="Times New Roman"><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 10pt">Dermi
Azevedo, jornalista, pai de Carlos Alexandre, em frente ao prédio onde
funcionava o Deops</SPAN></STRONG><o:p></o:p></FONT></P>
<P><FONT face="Times New Roman">O diagnóstico foi mencionado pela
psicóloga Ana Maria Falvino, que tratou de Carlos Alexandre, num documento
encaminhado à Comissão de Anistia. No texto, a psicóloga detalha a
evolução do transtorno no paciente e situações relatadas pela família
Azevedo. Mas não afirma categoricamente que o problema dele é consequência
direta de tortura. As situações vividas por CarlosAlexandre, no
entanto, o inserem no grupo de risco descrito pela medicina. De acordo com
o médico Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de Transtornos de
Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, cerca
de 30% dos casos de fobia social têm origem genética. Os outros 70%
se devem a vivências complexas.Os pais são o primeiro modelo para a
criança. Observar como eles lidam com as adversidades, se enxergam o
ambiente social como fonte de prazer e alegria ou como algo desconfortável
e ameaçador, se são tímidos ou têm muitos amigos, é de extrema importância
para o bom desenvolvimento infantil. Bernik afirma que crianças provocadas
e maltratadas por colegas e que vivem experiências marcantes de rejeição e
de sofrimento são mais suscetíveis à fobia social na vida adulta. Logo que
Dermi deixou a prisão, em maio de 1974, a família toda se mudou para a sua
terra natal, o Rio Grande do Norte. Primeiro foi para Currais Novos,
no interior do Estado. Em seguida para a capital, Natal. A violência
psicológica e as agressões físicas – como as intermináveis sessões no pau
de arara e os repetidos golpes na cabeça, chamados nos porões da ditadura
de “telefone” – derrubaram Dermi. Durante um bom período, ele não foi
capaz sequer de sair da cama. Passava o tempo todo coberto. Teve crises de
paranoia e medo de tudo. Não podia trabalhar. O aperto financeiro
desestabilizava ainda mais a família. Ele foi recuperando devagar a
coragem de se levantar, ir à esquina, andar sozinho.<o:p></o:p></FONT></P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" align=center><FONT
face="Times New Roman"><STRONG><SPAN style="COLOR: red">“Meses depois de
sair da prisão, soube que o meu filho tinha sido vÍtima de choques
elétricos e outras sevÍcias. ele foi jogado no chão e bateu a cabeça.
maltratar um bebê é o suprassumo da
crueldade”</SPAN></STRONG><o:p></o:p></FONT></P>
<P><FONT face="Times New Roman">“Dermi não se destruiu. Transformou o
trauma numa batalha pela vida e continua lutando pela dignidade
humana”, avalia a psicanalista Miriam Schnaiderman, codiretora do
documentário “Sobreviventes”, que narra experiências de pessoas que
passaram por situações-limite. Enquanto Dermi tentava se recuperar, Darcy
tinha de se desdobrar para dar conta da casa e dos filhos – do primogênito
e de dois meninos que vieram depois. Carlos Alexandre demonstrou os
primeiros sinais de isolamento já em Currais Novos. Não interagia
comoutras crianças, tornou-se agressivo e andava sempre triste. Às vezes,
acordava agitado procurando pela mãe: “Mamãe, onde é o barulho do trem?” A
sede do Deops, onde ele esteve detido durante algumas horas, era na região
da Estação da Luz. De lá, dava para ouvir o som do vai e vem das
composições. Apesar de a família estar longe de São Paulo, onde a
perseguição seria mais severa, os Azevedo eram constantemente vigiados
pelos militares locais e discriminados pela vizinhança. Viviam sendo
apontados como “bandidos”, “terroristas” e tratados como se tivessem
alguma doença contagiosa. Carlos Alexandre cresceu sob intensa pressão,
testemunhando as crises do pai e a inquietude da mãe. Chorava para não ir
à escola. Não suportava ficar distante dos pais. A instabilidade e a
dinâmica familiar contribuíram para aumentar o afastamento de Carlos
Alexandre. “A perseguição afetou os outros filhos, mas não de maneira tão
intensa quanto ele”, relata Dermi. As mudanças de casa e de cidade eram
constantes a ponto de os meninos não serem capazes de criar laços de
amizade ou se adaptar completamente à escola.<o:p></o:p></FONT></P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" align=center><BR><FONT
face="Times New Roman"><STRONG><SPAN style="FONT-SIZE: 10pt">Darcy
Andozia, pedagoga aposentada, mãe de Carlos
Alexandre</SPAN></STRONG><o:p></o:p></FONT></P>
<P><FONT face="Times New Roman">O único período de relativa calmaria e
imobilidade durou cerca de quatro anos – entre 1981 e o início de 1985,
quando os Azevedo moraram em Piracicaba, no interior paulista. A filha
mais nova nasceu lá. Todos eram respeitados. Darcy e Dermi tinham vínculo
com uma universidade do município – já não eram encarados como “bandidos”
ou “terroristas”, mas como intelectuais. E a ditadura militar caminhava
para o fim. A saída de Piracicaba foi traumática para Carlos Alexandre.
“Era o único lugar em que eu tinha amigos. Foi aí que me isolei de vez.
Parei de estudar e me tranquei em casa”, lembra. Carlos Alexandre tinha
acabado de entrar na adolescência. No interior paulista, costumava brincar
na rua, jogar bola e frequentar festinhas vestindo short e camiseta. Não
se importava muito com o figurino. Os novos desafios da cidade grande o
fizeram submergir no medo. Ele já não era mais convidado para
festas, se sentia incapaz de dançar com as meninas e apanhava dos garotos
cotidianamente. Quando tentava revidar, era pior. Apanhava mais. “Por ser
introvertido, não ser muito bonito nem me vestir como eles, eu era
humilhado e vivia sendo alvo de chacotas”, afirma. Carlos Alexandre
sucumbiu à crueldade adolescente e se enterrou nas próprias fragilidades.
Afirma ter passado cerca de sete anos (dos 13 aos 20) praticamente sem
sair de casa. Tentou frequentar a escola. Não conseguiu. Nos momentos de
nervosismo intenso, quebrava tudo o que encontrasse pela frente. Engordou
40 quilos em seis meses. Tentou o suicídio “algumas vezes”. Quando decidiu
enfrentar o medo da rua, trabalhou como auxiliar de
escritório.<o:p></o:p></FONT></P>
<P style="TEXT-ALIGN: center" align=center><FONT
face="Times New Roman"><STRONG><SPAN style="COLOR: red">“O meu filho
apanhou dos policiais do deops porque estava chorando de fome. levou um
tapa tão forte que cortou os lábios"</SPAN></STRONG><o:p></o:p></FONT></P>
<P><FONT face="Times New Roman">Ficou um ano no emprego – seu recorde com
carteira assinada. Depois atuou como operador de microcomputador e
diagramador. Interagir era tão penoso que Carlos Alexandre pediu demissão
e foi demitido diversas vezes porque não suportava conviver com os colegas
de trabalho. “As pessoas começavam a perguntar da minha vida: o que eu
fazia, se tinha estudado, se tinha namorada, quem eu era, aonde eu ia.
Acabava ficando um clima ruim”, conta. “Estar no meio de muitas pessoas é
muito cansativo para mim. Falar também. Sair de casa e sentar num bar é um
incômodo muito grande. Mas hoje já não entro em pânico porque estou em
tratamento.” Um ou dois amigos visitam Carlos Alexandre esporadicamente.
Vão ao apartamento que ele divide com a mãe na região central de São
Paulo. Seus outros – raros – amigos são todos virtuais. Ao optar pela
rede, ele se protege da sociedade. “Quando rompo o ciclo vicioso, consigo
até ter uma vida. Mas tenho muito medo de recaídas”, diz. Atualmente, ele
costuma sair três vezes por semana para ir à academia. De vez em quando,
vai à banca comprar gibis japoneses. Sua rotina é singela. Mas Carlos
Alexandre quer mais. “Não sou feliz. Sinto vergonha de não trabalhar.
Também gostaria de ter uma família minha, com mulher e filhos. Mas tenho
consciência de que devo dar um passo de cada vez. Talvez, com um pouco de
sorte, eu consiga recomeçar. Mesmo estando com 37
anos.”<o:p></o:p></FONT></P></TD></TR></TBODY></TABLE>
<P style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class=MsoNormal><o:p><FONT
face="Times New Roman"> </FONT></o:p></P></DIV>
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