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<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
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<P align=left><B><FONT color=#ff0000 size=4 face=forte>
<MARQUEE width=322 scrollAmount=20 scrollDelay=200>CARTA O BERRO.
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
<DIV>"Um país que tem medo de sua história, não pode ser considerado um país
sério".</DIV>
<DIV>( presidente nacional da OAB, Cezar Britto)
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<DIV><FONT size=2></FONT> </DIV>
<DIV><STRONG><EM>Recebemos do companheiro José Ribamar Bessa Freire, esse belo e
triste texto, que merece toda a nossa reflexão, do que estamos vivendo até
hoje.</EM></STRONG></DIV>
<DIV><STRONG><EM>Vanderley Caixe</EM></STRONG></DIV>
<DIV><STRONG><EM> </DIV>
<DIV><BR></DIV></EM></STRONG>
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<TABLE border=0 cellSpacing=0 cellPadding=8 width="100%">
<TBODY>
<TR>
<TD align=middle>
<P><FONT size=4 face=arial><FONT size=5><STRONG><FONT
face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A PAÇOQUINHA DA DONA
MARIA</FONT><BR></STRONG></FONT><FONT size=3><STRONG>José Ribamar Bessa
Freire<BR>10/01/2010 - <FONT face=arial>Diário do
Amazonas</FONT></STRONG></FONT></FONT></P></TD></TR>
<TR>
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<DIV align=justify>
<P><IMG hspace=5 vspace=5 align=left
src="http://www.taquiprati.com.br/home/img/desaparecidos.jpg" width=250
height=362>Se fores jovem, leitor (a), grava no bronze da tua memória este
nome: Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto. Desafia, dessa forma, o
ministro da Defesa Nelson Jobim e os comandantes militares, que não querem
o funcionamento da Comissão da Verdade prevista no Programa Nacional de
Direitos Humanos. Diz pra eles que a gente quer saber, entre outras
coisas, o que aconteceu com o único amazonense incluído na lista oficial
dos desaparecidos na ditadura militar. </P>
<P>- Eles tiraram duas vidas: a minha e a do meu filho. Eu não vivo mais.
Hoje só estou vegetando. Eu não esqueço do meu filho nem um minuto. Meu
filho era muito inteligente. Era educado. Um príncipe. Todos gostavam
dele. Não quero indenização. O que quero é a verdade, nada mais, só quero
saber onde está o meu filho - disse dona Maria Meirelles, em entrevista a
Jocilene Chagas, em 1995. </P>
<P>Cadê o Thomazinho? Nascido em 1º de julho de 1937, em Parintins (AM),
ele, já órfão de pai, mudou para Manaus, em 1950, onde estudou no Colégio
Estadual do Amazonas. Viajou em 1958 para o Rio de Janeiro, e ali se
destacou no movimento estudantil. Eleito secretário geral da UBES - União
de Estudantes Secundaristas, em 1961, atuou no Centro Popular de Cultura
(CPC) da UNE. Em 1963, ganhou bolsa de estudos para estudar na
Universidade Lomonosov, em Moscou. </P>
<P>Lá, encontrou uma menina de Manaus, do bairro de Aparecida, Miriam
Marreiro, que estudava Direito na Universidade Patrice Lumumba. Com ela
teve dois filhos: Larissa, nascida na Rússia, em 1963, e Togo, em 1967, no
Brasil, para onde o casal voltou. O pai sequer acalentou o filho nos
braços, pois foi logo preso e torturado. Larissa, que falava russo, ficou
escondida na casa do ator Carlos Vereza, que conta:</P>
<P> - Uma vez fui à padaria comprar pão e ela começou a pedir doce em
russo. Fiquei apavorado porque estávamos no auge da ditadura, e comecei a
fingir que era pesquisa de som o que ela estava fazendo... ”.</P>
<P><STRONG><U>Uma dor</U></STRONG></P>
<P>Thomaz, libertado em 1973, entrou na clandestinidade. Foi aí que dona
Maria viajou ao Rio. Queria ver o filho, fazer-lhe carinho, aliviar-lhe a
dor. Acontece que, perseguido pela polícia, ele estava sempre mudando de
esconderijo. O encontro aconteceu tarde da noite, num “ponto” de
Copacabana, em fevereiro de 1973: </P>
<P>- Meu filho estava bastante machucado. Tinha muitas marcas no corpo. A
gente cria um filho com tanto carinho para que sofra tanto. Ele deitou,
colocou a cabeça no meu colo. Conversamos sobre as coisas de Parintins.
Ele gostava de paçoca. Até uma paçoquinha levei para ele, feita por mim,
no pilão. </P>
<P>Essa foi a última vez que dona Maria viu o filho. Alguns meses depois,
em julho, a policia invadiu a casa de Miriam, levando-a para o DOI-CODI na
Rua Barão de Mesquita, onde durante dois meses foi submetida à tortura.
Quebraram-lhe a boca, os dentes e as pernas. Saiu da prisão amparada por
um par de muletas. Mas não disse onde Thomaz estava.</P>
<P>Thomazinho, então dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN),
continuou clandestino, até que caiu preso no dia 7 de maio de 1974, e
nunca mais foi visto. O Arquivo do DOPS/SP guarda um documento que
registra a data da prisão, efetuada “quando viajava do Rio para São
Paulo”, o que foi confirmado por Relatório do Ministério da Marinha. Anos
depois, o ‘Correio da Manhã’ (03/08/79) noticiou que Thomaz estava numa
lista de 14 mortos. Mas somente em 1995, a Lei 9.140/95 o considerou
oficialmente desaparecido. Seu corpo até hoje não foi localizado.</P>
<P>Os criminosos que torturaram e mataram presos políticos - como Thomaz
Meirelles - permanecem impunes, protegidos por uma cortina de silêncio.
Mas a discussão acaba de ser reaberta, com o decreto assinado pelo
presidente Lula, no último 21 de dezembro, instituindo a terceira etapa do
Programa Nacional de Direitos Humanos, que prevê a criação até abril de
2010 da Comissão Nacional da Verdade, encarregada de investigar torturas
durante a ditadura militar, o que já deu certo em outros países.</P>
<P><STRONG><U>Uma flor</U></STRONG></P>
<P>O Lula assinou o decreto? Ah, Margarida, pra quê? O ministro da Defesa,
Nelson Jobim, fantasiado com aquele uniforme verde-oliva de combate com o
qual aparece nos telejornais e, apoiando os comandantes militares, decidiu
peitar o Lula. Se fosse há 40 anos, dariam um golpe. Agora, ameaçam pedir
demissão. Acham impertinência e revanchismo a gente perguntar o que
aconteceu com o Thomazinho e exigir que seus torturadores sejam
processados.</P>
<P>Outro “general” disfarçado de verde, Alfredo Sirkis, vereador do PV do
Rio de Janeiro, concordou com Jobim e com os militares. Parece que a
senadora Marina Silva está muito mal acompanhada. A Comissão da Verdade –
escreve Sirkis - pode “reviver uma guerra que terminou há 30 anos, criar
um elemento de discórdia na relação com as Forças Armadas, trazendo
polarizações do passado para complicarem o presente”. Será? </P>
<P>Ou seja, o país não deve discutir seu passado para “não complicar o
presente”. Alegam que a Lei de Anistia, de 1979, perdoou todos os crimes
políticos, inclusive os cometidos por torturadores. Colocam ambos no mesmo
saco. De um lado, os torturados, presos, condenados, perseguidos, mortos,
que combatiam um governo militar, ilegítimo, cujos componentes ocuparam o
poder à força, rasgando a Constituição e depondo o presidente eleito pelo
voto popular. De outro, os torturadores, que sem nada sofrer e pagos pelo
Estado tomado de assalto, cometeram crimes imprescritíveis contra a
Humanidade. </P>
<P>Querem que a gente finja que não houve nada, que os assassinos de
Thomaz já foram perdoados. Mas, perdoar a quem, se estão protegidos pelo
sigilo da documentação? Dona Maria não sabe a quem perdoar. Os arquivos
dos três centros de informações militares – CIE, CENIMAR e CISA – até hoje
uma ‘caixa preta’, não foram recolhidos ao Arquivo Nacional, como manda a
lei. Como anistiar quem nunca foi condenado, sequer identificado? </P>
<P>- Não é possível construir uma nação, se não formos capaz de perdoar –
escreveu em 1882 o pensador francês Ernest Renan. É verdade. Mas perdoar
não é apagar a memória. Ao contrário, só pode haver perdão, se houver a
consciência da ofensa. </P>Nessa disputa pela atualização da memória,
grava, leitor (a), no teu bronze, o nome de Thomaz Meirelles. Compartilha
a dor de suas mulheres: Maria, Miriam, suas irmãs Lea, Leny, Leda e Lygia,
a filha Larissa, além de Togo. É uma forma de resistir, de dizer que não
vamos esquecer a paçoquinha da dona Maria, que morreu há dois anos, sem
saber onde colocar uma flor ou acender uma vela para o filho. Quando a
Comissão da Verdade localizar o túmulo, nós faremos isso por ela.
</DIV></TD></TR></TBODY></TABLE></DIV>
<P>
<HR>
<P></P><BR>
<P><FONT size=2></FONT></P></BODY></HTML>