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<DIV><FONT color=#ff0000 size=6 face=Forte>Carta O Berro<FONT
size=3>...........................................................repassem</FONT></FONT></DIV>
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<DIV style="FONT: 10pt arial">----- Original Message -----
<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><B>From:</B> <A
title=mariaclaudia_badanribeiro@yahoo.com.br
href="mailto:mariaclaudia_badanribeiro@yahoo.com.br">Maria Claudia Badan
Ribeiro</A> </DIV>
<DIV><B></B> </DIV></DIV>
<DIV><BR></DIV>
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<TR>
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<DIV><FONT size=2><EM><STRONG></STRONG></EM></FONT> </DIV>
<DIV><EM><STRONG><IMG border=0 hspace=0 alt="" align=baseline
src="cid:F32E6A65A7224FF7A37066C89CECD4CD@vcaixe"></STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG></STRONG></EM> </DIV>
<DIV><EM><STRONG>Ao Ministro da Defesa Exmo. Dr. Nelson
Jobim</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG></STRONG></EM> </DIV>
<DIV><EM><STRONG>Invado sua caixa de mensagem pedindo atenção para um tema
que trata do futuro, não do passado. O Sr. me conhece pessoalmente e
lembra-se de que quando fui Secretário de Cultura de Brasília, no ano de
1996, o Sr. era Ministro da Justiça e instituiu e deu no Festival de
Cinema Brasília um prêmio para o filme que melhor abordasse a questão dos
Direitos Humanos. Era uma preocupação comum a nossa.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Por que me dirijo agora ao senhor? Um punhado de cidadãos
-̶ hoje somos mais de dez mil -̶ assinamos um manifesto afirmando que os
envolvidos em crimes de tortura em nome do Estado Brasileiro devem ser
julgados e punidos por seus atos, contrários aos mais elementares
sentimentos da nacionalidade. Agimos em nome da intransigente defesa dos
direitos humanos. O Sr., Ministro da Defesa, homem comprometido com a
ordem democrática, eminente advogado constitucionalista, um dos redatores
e subscritores da Constituição de 1988, hoje em ação concertada com os
comandantes das forças armadas, condena a iniciativa de punir torturadores
pelos crimes que cometeram.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Este gesto, na prática, resulta em dar proteção a
bandidos que desonraram a farda que vestiam ao torturar, estuprar, roubar,
enriquecer ilicitamente sempre agindo em nome das instituições que juraram
defender. É incompreensível que o nosso futuro democrático seja posto em
risco para acobertar crimes praticados por bandidos o que reforça a
sensação de impunidade. Ao contrário do que afirmam os defensores da
impunidade dos torturadores. O que está em juízo não é o julgamento das
forças armadas, como afirmam os que as querem arrastar para o lodo moral
que mergulharam. Agora pretendem proteger sua impunidade, camuflados
corporativamente em nome da honra da instituição.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Um pouco de história não faz mal a ninguém. Não está em
questão que para consumar o golpe de 64, os chefes militares de então
tiveram que expurgar das forças armadas milhares de homens entre oficiais,
sub-oficiais e praças cujo único crime foi defender o regime
constitucional do país. Afastaram da vida política brasileira expressivas
lideranças, cassando direitos políticos e mandatos parlamentares ou
sindicais. Empurraram milhares de cidadãos, na imensa maioria jovens, para
a ação clandestina que desembocou na luta armada.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>De qualquer maneira os golpistas de 64 protegidos pela
lei de anistia não serão anistiados pela história. Fecharam e cercaram o
Congresso Nacional. Inventaram a excrescência chamada de Senador Biônico
para não perder, pelo voto, o controle do Senado em plena ditadura
militar. Os chefes militares podem ficar tranqüilos que seus antecessores
não irão para a cadeia pelos crimes que cometeram contra um país, contra
uma geração inteira, a minha, que desaprendeu a falar e pensar em
liberdade. Nada disso está em juízo. Vinte e cinco anos depois de iniciada
a transição democrática, o que está em juízo não é o processo de anistia
política.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Tranqüilize seus colegas militares, ministro. O regime
militar não está sendo julgado pela quebra do sistema público de saúde ou
pela quebra do sistema educacional. Estamos pedindo a punição contra
criminosos comuns por crimes de lesa humanidade. Queremos o julgamento e
condenação da prática de crimes hediondos. Só isso. Assusta a quem? Em
nome do quê o Brasil será eternamente refém de bandidos? O que justifica
acobertar crimes condenados por todos os códigos, normas e tribunais
internacionais em matéria de direitos humanos? O Sr. deve estar se
perguntando o porquê do meu empenho nesta causa. Vou lhe
contar.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Despontei pra a vida adulta baixo a ditadura militar. Em
1964, tinha 14 anos e cresci sob o signo do medo. Sou de uma família de
judeus liberais, meu pai advogado e minha mãe médica. Invoco as raízes
judaicas porque meus pais eram muito marcados pelo holocausto, pelos
crimes nazistas cometidos contra a humanidade. Tínhamos muito medo das
soluções autoritárias. Eu queria viver num país livre e tinha sentimentos
de profunda repugnância a ditaduras. Meus amigos também eram assim.
Participei de passeatas, diretórios estudantis e cineclubes. Queria
derrubar a ditadura fazendo filmes. Acreditava que era possível. Em 1969,
um companheiro de Cineclubismo seqüestrou um avião para Cuba. Não tive
nada a ver com isso. Desconhecia as intenções e a organização do
seqüestro. Meu crime foi ser amigo – sim, meu crime foi o de ser amigo de
um seqüestrador. Quase fui preso e morreria na tortura sem falar, não por
ato de bravura, mas por absoluto desconhecimento de causa. Não pertencia a
nenhuma organização revolucionária. Não sabia nada sobre o
seqüestro.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Escapei dessa situação pela coragem pessoal de minha mãe
que driblou os imbecis fardados que foram me prender e consegui fugir de
casa nas barbas da turma do Ministério da Aeronáutica que, naquele
momento, ao invés de dedicar-se a cumprir sua missão constitucional de
proteger nossas fronteiras, prendiam, torturavam e matavam estudantes.
Tive também a ajuda do Coronel Aviador Afrânio Aguiar que empenhou-se até
a medula para que não fosse preso e massacrado na Aeronáutica. A ele
dedico meu filme mais recente "Utopia e Barbárie". Sem ele, dificilmente
estaria contando essa história hoje aqui. Outras pessoas também me
ajudaram a sair vivo dessa história mas como não tenho autorização para
citá-los e estão vivos, guardo nomes e lembranças no
coração.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Em 1970 fui viver no Chile por livre e espontânea
vontade. Saí do Brasil legalmente com passaporte, ainda que tenha ido ao
DOPS explicar por que saía do Brasil. Eles sabiam as razões pelas quais
saía (como é cantado na música, "Não queria morrer de susto, bala ou
vício"). Em Janeiro de 1971,do Chile, mandei uma carta para minha mãe,
trazida por uma portadora, senhora de boa cepa, que fora visitar o filho
no exílio em um gesto humanitário se ofereceu, ingenuamente, para trazer
correspondência para os familiares dos exilados. O gesto lhe custou prisão
e "maus tratos" nas dependências da aeronáutica. Na carta pedia a minha
mãe que me enviasse livros e minha máquina de escrever. A carta foi
entregue em Copacabana por militares do Doi-Codi que arrombaram minha
casa, arrombaram móveis a procura de metralhadora (Assim entenderam
"máquina de escrever"). Minha mãe foi levada para o quartel da PE na Barão
de Mesquita, onde foi humilhada e um dos "patriotas"que a conduziu assumiu
de forma permanente a guarda do relógio que entrou com ela na PE e não
voltou para casa. Amigos ocultos numa rede de gente decente ajudaram a
tirar minha mãe daquela filial verde oliva do inferno.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Sim ministro, havia muita gente decente nas forças
armadas ou que gravitavam em torno dela e que faziam o que podiam para
ajudar pessoas. A maioria, prefere, até hoje, não revelar seus gestos por
medo dos que praticando atos dignos dos piores momentos da máfia intimidam
e atemorizam pessoas de bem. Pior do que o relógio foi o destino do
ex-deputado Rubens Paiva que foi preso no mesmo dia e nunca mais
encontrado. Os senhores fazem muita questão mesmo de proteger os canalhas
que seqüestraram e assassinaram o ex-deputado pelo crime de ter recebido
correspondência pessoal de exilados no Chile? A quem interessa essa
“Omertá"? Ministro, para esses crimes não há justificativa e menos O que
leva a chefes militares e o Ministro da Defesa a se pronunciarem contra a
apuração de crimes? Tortura, estupro, morte, muitas vezes seguido de
roubo, são atos políticos passíveis de anistia?</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Desculpe a franqueza, mas não consigo entender. Em nome
do futuro democrático do Brasil , espero que a banda podre, montada no
Dragão da Maldade, não saia vitoriosa.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Os chefes militares pronunciam-se a favor do pagamento de
reparações às vitimas do arbítrio como um ato indenizatório. Pagamento
este feito com recursos públicos desviado de finalidades mais nobres para
ressarcir prejuízos causados por canalhas que deveriam ter seus bens
confiscados e pagarem com recursos próprios os crimes que cometeram.
Muitas empresas que se locupletaram durante a ditadura e inclusive
financiaram o aparato repressivo poderiam participar dessas indenizações.
No meu caso, ministro, posso lhe dizer que não há dinheiro que feche essa
conta. Não pedi anistia nem indenização porque acho que não sou merecedor
(nunca fui exilado, nunca me apresentei assim). E vivo bem com meu
trabalho de cineasta há quarenta anos e professor universitário há 31. Se
fosse pago com recursos dos bandidos, aceitaria de bom grado. Recursos
públicos não. Cada centavo que aceitasse, me sentiria roubando de uma
criança ou de um homem ou uma mulher humildes que precisam mais desse
dinheiro numa escola pública, num posto médico, do que eu. Não recrimino
quem, por necessidade ou sentimento de justiça, o
faça.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>A reparação que peço é a punição exemplar dos
torturadores da minha mãe. O senhor há de concordar que não estou pedindo
muito nem nada despropositado. E quando digo que penso no futuro e não no
passado é porque a punição exemplar de criminosos desestimulará
semelhantes práticas no futuro e terá uma função pedagógica para os que
caiam em tentação de uso indevido dos poderes do Estado, que entendam que
não vivemos no país da impunidade.Justiça, peço apenas
justiça.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Bom 2010 para o sr.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Atenciosamente,<BR>Silvio Tendler</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG></STRONG></EM> </DIV>
<DIV><EM><STRONG><U>P.S.</U> Falamos de tanta coisa mas esquecemos de
comentar dois crimes cometidos depois de 1979 que já não estariam cobertos
pela lei de anistia: O assassinato de D. Lyda Monteiro da Silva,
secretaria do Presidente da OAB, a mutilação do jornalista José Ribamar em
1980 e, em 1981, a bomba que explodiu no Riocentro que causou a morte de
um sargento e graves ferimento no Capitão. Imagino que enquanto advogado,
o quanto lhe repugna o assassinato da secretária do Presidente da OAB e a
mutilação de um jornalista. Tantos anos decorridos, talvez ainda seja
possível descobrir "os comunistas" responsáveis pela bomba do Riocentro,
como concluiu o vexaminoso IPM instaurado na ocasião.</STRONG></EM></DIV>
<DIV><EM><STRONG>Por falar em comunistas, movimento que condenava a luta
armada, o que dizer do assassinato do jornalista Wladimir Herzog, do
operário Manoel Fiel Filho e do desaparecimento do dirigente Davi
Capistrano? Seus assassinos terão imagem, nome e sobrenome ou continuarão
protegidos por este exército das sombras?</STRONG></EM></DIV>
<DIV><STRONG>Silvio Tendler</STRONG></DIV><BR></TD></TR></TBODY></TABLE><BR>
<P></P></BODY></HTML>