<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
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<P align=left><B><FONT color=#ff0000 size=5 face=forte>
<MARQUEE width=322 scrollAmount=20 scrollDelay=200>CARTA O BERRO. 
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
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<H1 class=documentFirstHeading>Temos que fazer a reforma agrária que o governo 
não faz</H1>
<DIV>
<TABLE summary="detalhe notícia" detalhe="notícia">
  <TBODY>
  <TR class=clipping-generico>
    <TD>&nbsp;ENTREVISTA DA 2ª - MARCELO GOULART</TD></TR>
  <TR class=clipping-generico>
    <TD>Folha de S. Paulo - 21/12/2009</TD></TR>
  <TR>
    <TD>&nbsp;</TD></TR>
  <TR>
    <TD>
      <P><STRONG>Adversário do agronegócio, promotor ataca ruralistas e álcool e 
      prega "horizonte utópico" sem grande propriedade</STRONG></P>
      <P><BR>
      <TABLE width=320>
        <TBODY>
        <TR>
          <TD>Edson Silva/Folha Imagem<BR><IMG border=0 alt="" 
            src="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/b2112200902.jpg"></TD>
          <TD vAlign=bottom>&nbsp;</TD></TR></TBODY></TABLE><EM>O promotor de 
      Justiça do Meio Ambiente Marcelo Goulart em Ribeirão 
      Preto</EM><BR><BR><STRONG>MARCIO AITH</STRONG><BR>ENVIADO ESPECIAL A 
      RIBEIRÃO PRETO <BR><BR>MARCELO Goulart é símbolo da corrente mais polêmica 
      surgida no Ministério Público após a Constituição de 1988: a dos 
      promotores que acreditam ser "agentes políticos", relevam a "letra fria" 
      da lei e atuam ao lado do MST e de ONGs contra o que definem como a elite 
      do país. Aos 52 anos, Goulart atua desde 1985 na região de Ribeirão Preto, 
      onde se notabilizou por disputas contra usineiros. Agora à frente do grupo 
      responsável por processos ligados ao ambiente, ele moveu, só em 2009, 55 
      ações civis públicas, inclusive contra grupos que produzem orgânicos. Seu 
      próximo desejo é assegurar o "direito difuso" dos brasileiros à reforma 
      agrária.</P>&nbsp;<IMG alt="" 
      src="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/ep.gif"> 
      <P><EM><STRONG>FOLHA - O senhor é conhecido por atuar ao lado do MST e de 
      entidades ambientais. Esse é o papel de um promotor?<BR>MARCELO GOULART 
      </STRONG></EM>- A visão do Ministério Público como mero agente processual 
      está superada desde a promulgação da Constituição de 1988. O membro do 
      Ministério Público é agente político e, hoje, tem a incumbência 
      constitucional de defender o regime democrático e implementar a estratégia 
      institucional de construir uma sociedade livre, justa e solidária.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Não há o risco de se aproximar demais de entidades 
      das quais deveria manter distância?<BR>GOULART </STRONG></EM>- Os membros 
      do Ministério Público têm clareza do seu papel social, dos limites de suas 
      funções e do uso do instrumental jurídico de que dispõem. Assim, a 
      aproximação entre Ministério Público e as forças progressistas da 
      sociedade torna-se inevitável e necessária. É um bem, não é um mal.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Como o sr. distingue as entidades progressistas das 
      outras?<BR>GOULART</STRONG></EM> - As forças sociais democráticas são 
      aquelas que assumem o compromisso de implementar o projeto democrático da 
      Constituição de 1988. A Constituição definiu para o país um modelo de 
      Estado social e de democracia participativa. Os sujeitos políticos que 
      atuam na defesa desse projeto são aliados naturais do Ministério Público 
      na luta pela construção da hegemonia democrática. Não é difícil 
      identificá-los.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Por que os produtores rurais não seriam 
      progressistas?<BR>GOULART </STRONG></EM>- Aqueles grupos que defendem um 
      modelo de agricultura social e ambientalmente sustentáveis estão no campo 
      democrático. Aqueles que, ao contrário, defendem um modelo que leva ao 
      descumprimento da função social do imóvel rural estão no campo dos 
      adversários do projeto democrático da Constituição da República. Esses 
      defendem o padrão de produção agrícola hoje prevalecente no Brasil.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Que padrão é esse?<BR>GOULART </STRONG></EM>- O 
      padrão que gera a concentração fundiária, que utiliza de forma inadequada 
      os recursos naturais e que degrada o ambiente por ser baseado na 
      monocultura e na agroquímica. É um padrão concentrador da propriedade, da 
      renda, da riqueza e do poder político.<BR>Por isso, contraria o projeto da 
      Constituição.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Entre as empresas processadas pelo senhor, estão 
      algumas conhecidas pela produção de açúcar orgânico, sem 
      agrotóxico.<BR>GOULART </STRONG></EM>- Não vamos nos enganar. Algumas 
      usinas fazem açúcar de ótima qualidade, orgânico, sem agrotóxico. Mas se 
      negam a fazer acordos conosco na questão da reserva legal. E a lei é 
      clara: as propriedades rurais devem manter ao menos 20% da área com 
      floresta permanente.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - E se o desflorestamento ocorreu antes, por outros 
      proprietários e sob o respaldo de outras leis?<BR>GOULART </STRONG></EM>- 
      Não existe direito adquirido contra o ambiente.<BR>As normas de ordem 
      pública, como as ambientais, aplicam-se não somente aos fatos ocorridos 
      sob sua vigência, mas também aos efeitos dos fatos ocorridos anteriormente 
      à sua edição. Não permitir, hoje, a reparação com o reflorestamento das 
      reservas florestais legais é castigar o planeta e a sociedade à sanha do 
      mercado.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - O que o senhor acha do álcool 
      combustível?<BR>GOULART </STRONG></EM>- A queima do combustível álcool 
      também polui, e o processo de produção do álcool é sujo. Temos a queima da 
      cana, o desmatamento, o uso incontrolado de insumos químicos. Além da 
      superexploração do trabalho. Mais: a produção do álcool exige economia de 
      escala, que somente se viabiliza nesse padrão de produção baseado na 
      monocultura e na concentração fundiária. São Paulo está se tornando um 
      grande canavial. O futuro não está no álcool, mas em outras alternativas, 
      como o hidrogênio e a eletricidade. Diria que o álcool é um combustível de 
      transição. Não terá vida longa.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - A monocultura mecanizada não é uma tendência 
      inexorável da agricultura mundial?<BR>GOULART </STRONG></EM>- Claro que 
      não. Não é assim na Europa. Precisamos discutir outros modelos. Temos um 
      pensamento único por parte da elite dirigente nacional em relação à 
      agricultura.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Segundo estudo do Incra (Instituto Nacional de 
      Colonização e Reforma Agrária), os assentamentos concentraram metade do 
      desmatamento na Amazônia. O que o sr. acha disso?<BR>GOULART 
      </STRONG></EM>- Não há sentido em desapropriar grandes imóveis rurais que 
      descumprem a função social para, no mesmo local, implantar assentamentos 
      antiambientais. Daí a importância da participação do Ministério Público no 
      acompanhamento do desenvolvimento dos assentamentos.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - O senhor foi muito criticado no episódio da 
      desapropriação da fazenda da Barra, dentro de Ribeirão Preto. Como foi 
      isso?<BR>GOULART </STRONG></EM>- É. Fizemos reforma agrária nas barbas da 
      capital do agronegócio. Havia grandes passivos ambientais e a suspeita de 
      improdutividade. Instaurei um inquérito ainda no governo FHC. Chamei o 
      superintendente do Incra e disse: precisa abrir processo administrativo de 
      desapropriação. Ele abriu. Chamaram-me de Robespierre, de promotor maluco. 
      A desapropriação acabou saindo, já no governo Lula.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - A área da fazenda da Barra parece inóspita, 
      incipiente. A experiência deu errado?<BR>GOULART </STRONG></EM>- Inóspito, 
      não. Incipiente, sim. Ali será implantado assentamento agroforestal cujas 
      bases são objeto de discussão no âmbito de inquérito civil instaurado pela 
      Promotoria de Justiça. O que está faltando é maior agilidade do Incra na 
      implantação da infraestrutura básica a viabilizar a produção e o 
      reflorestamento. Dinheiro do BNDES para grandes usinas, tem. Outro dia 
      saiu um empréstimo de R$ 80 milhões para uma delas.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Por que a promoção da reforma agrária deveria ficar 
      a cargo de promotores?<BR>GOULART </STRONG></EM>- O papel do Ministério 
      Público é claro: defender a função social da terra e o direito difuso à 
      reforma agrária, utilizando os instrumentos jurídicos que a Constituição e 
      as leis lhe conferem, firmando aliança com os setores da sociedade civil 
      que tenham o mesmo objetivo. A atuação radicalmente contrária a essa está 
      presente na história desse país desde as capitanias hereditárias. Seus 
      agentes são por demais conhecidos; com eles o Ministério Público da 
      Constituição de 1988 não se alinhará.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Como o sr. definiria uma propriedade rural que não 
      cumpre sua função social?<BR>GOULART </STRONG></EM>- A improdutiva, a que 
      utiliza de forma inadequada os recursos naturais, degrada o ambiente ou 
      impõe condições sub-humanas de trabalho.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Uma área produtiva que não se curve à sua definição 
      de função social pode ser desapropriada?<BR>GOULART</STRONG></EM> - Minha 
      definição, não. A da Constituição. Juridicamente, pode. Agora, tem muita 
      propriedade antes dessa para ser desapropriada. Tem que começar pelos 
      casos mais graves.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - O senhor parece não gostar de grandes propriedades 
      rurais.<BR>GOULART </STRONG></EM>- No meu horizonte utópico não está 
      presente um grande número de usinas de açúcar e álcool, por exemplo.<BR>No 
      meu horizonte utópico estão a policultura, a geração de postos de trabalho 
      no campo e a agricultura orgânica. Está o acesso do povo à terra, que é um 
      direito fundamental negado desde o descobrimento. A estrutura fundiária 
      brasileira é uma das principais razões de nosso subdesenvolvimento.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - O senhor é socialista?<BR>GOULART </STRONG></EM>- 
      Como promotor de Justiça, sou defensor da Constituição, do projeto 
      democrático.<BR>Essa é a minha missão. Minhas convicções pessoais são só 
      isso: minhas convicções pessoais.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Quais convicções?<BR>GOULART </STRONG></EM>- 
      Utopicamente? Acredito na possibilidade de construir uma sociedade 
      socialista. Sob um ponto de vista gramsciano, se avançarmos na linha da 
      Constituição, vamos dar grandes passos para, no futuro, caminhar para uma 
      sociedade socialista.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Como é que isso ocorreria?<BR>GOULART 
      </STRONG></EM>- A partir do momento em que os princípios sociais da 
      Constituição forem sendo efetivamente conquistados, não só no papel, mas 
      na realidade, haverá um choque lá na frente. Teremos de discutir, por 
      exemplo, como é que a dignidade da pessoa humana pode conviver com o 
      direito de propriedade. E assim por diante.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - Mas a Constituição não protege o direito à 
      propriedade?<BR>GOULART </STRONG></EM>- A propriedade tem que cumprir a 
      função social. O direito de propriedade não é absoluto. O imóvel que não 
      cumpre a função social deve ser desapropriado. Não é uma opção. Está lá na 
      Constituição.<BR>Temos que construir uma sociedade livre, justa e 
      solidária.<BR>Isso só vai acontecer quando desconcentrarmos a terra.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - O senhor já teve alguma experiência 
      política?<BR>GOULART </STRONG></EM>- Em 1991, afastei-me do Ministério 
      Público para ser candidato a prefeito de Jardinópolis pelo PT. De quatro 
      candidatos, consegui a façanha de não ficar em último. Fiquei em terceiro. 
      Desfiliei-me e voltei à instituição.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - [Antonio] Gramsci [pensador marxista italiano], a 
      quem o sr. admira, atribui a força unificadora da sociedade, que Maquiavel 
      atribuía ao Príncipe, a um partido. Por isso ele chamava o partido -no 
      caso, o comunista- de "Moderno Príncipe". Que partido, na sua opinião, 
      ocupa a função de Moderno Príncipe no Brasil?<BR>GOULART </STRONG></EM>- 
      Hoje não faz sentido pensar em partido político. São as forças 
      democráticas que cumprem uma função hegemônica e que, articuladas, logo 
      avançam a batalha das ideias, na imprensa, no Ministério Público, nas 
      instituições. E criam a base cultural para as mudanças políticas e 
      econômicas. Esse é o caminho democrático da construção de uma sociedade 
      livre, justa e solidária.</P>
      <P><EM><STRONG>FOLHA - O senhor tem chefe?<BR>GOULART </STRONG></EM>- Não 
      existe hierarquia funcional no Ministério Público. Um de nossos princípios 
      é o da independência funcional, que ganhou força com a Constituição de 
      1988. Esse princípio serve para proteger o membro do Ministério Público 
      das pressões do poder político, econômico e 
interno.</P></TD></TR></TBODY></TABLE></DIV></FONT></DIV>
<P></P></BODY></HTML>