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<DIV><FONT size=2 face=Arial></FONT> </DIV>
<DIV><FONT color=#ff0000 size=6 face=Forte>Carta O Berro<FONT
size=3>........................................................................repassem</FONT></FONT><BR></DIV>
<HR>
<BLOCKQUOTE
style="BORDER-LEFT: #6868cc 2px solid; MARGIN: 0pt 0pt 0pt 0.8ex; PADDING-LEFT: 1ex"><FONT
size=2 face=Arial></FONT>Publicada a entrevista no site do Zé: <A
class=moz-txt-link-abbreviated href="http://www.zedirceu.com.br"
target=_blank>www.zedirceu.com.br</A> <BR><FONT size=2 face=Arial>e
republicada</FONT>na página em: <A class=moz-txt-link-freetext
href="http://www.mst.org.br/node/8502"
target=_blank>http://www.mst.org.br/node/8502</A>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><SPAN class=chamadaverdemaiorcorpotexto>abaixo,
a íntegra.</SPAN><STRONG><SPAN
class=chamadaverdemaiorcorpotexto><BR><BR></SPAN></STRONG></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG><SPAN
class=chamadaverdemaiorcorpotexto>"Querem desmoralizar quem faz luta social
nesse país"</SPAN></STRONG><BR><BR>A conclusão é do ativista e economista João
Pedro Stedile, um dos fundadores e uma das mais representativas vozes, hoje,
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao analisar a campanha
difamatória perpetrada pela mídia e oposição brasileiras que colocou o MST no
centro das discussões nacionais, e conseguiu a instalação de uma CPI contra a
organização. <BR><BR>Segundo Stedile, "o principal objetivo da CPI do
MST é provar que o governo vai destinar dinheiro para o MST para fazer
campanha para a (ministra) Dilma Rousseff", o que, na realidade, constitui-se
na construção de mais um factóide pela mídia e oposição. A Comissão é também,
na avaliação de Stedile, uma resposta dos setores retrógrados da sociedade
brasileira à vitória dos movimentos do campo que, junto ao governo ,
conquistaram a alteração dos índices de produtividade utilizados pelo INCRA.
<BR>Quanto ao episódio da ocupação da fazenda do grupo Cutrale e a derrubada
de laranjais, Stedile reconhece que houve erro, mas aponta a superexposição do
episódio na mídia. Denuncia, inclusive, que a invasão da casa de funcionários
e a quebra dos tratores por ocupantes da fazenda é uma mentira. De acordo com
o relato de Stedile, as imagens exploradas pela mídia foram feitas muitos dias
antes que começassem a ser apresentadas e que aqueles que as fizeram
aguardaram o momento que julgaram mais oportuno para exibi-las e criar o
sentimento que levou ao recolhimento e obtenção das assinaturas parlamentares
para a CPI.<BR><BR>Membro da direção nacional do MST - e também da Via
Campesina - Stedile faz um diagnóstico da situação agrária no país. Fala sobre
a importância da agroindústria e critica a ausência de uma política clara e
focada na agricultura familiar em detr imento do agronegócio. Este, segundo o
economista, está hoje monopolizado nas mãos de 20 empresas, 70% delas,
transnacionais. Nesta entrevista, o ativista também analisa a contexto
americano após a vitória e posse de Barack Obama e o próximo ano eleitoral.
Mais urgente do que declinar apoio a um candidato, observa, é a discussão de
um projeto de desenvolvimento nacional que inclua, de vez, a reforma agrária
na agenda.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG><SPAN class=chamadalaranjacorpotexto>Zé
Dirceu </SPAN>- Qual a avaliação que você faz da reforma agrária no governo
Lula?</STRONG><BR><BR>S<SPAN class=chamadaverdecorpotexto>tedile
- </SPAN> É difícil fazer esse balanço isolado do contexto maior da
disputa na sociedade brasileira, hoje, entre dois modelos de produção
agrícola, o agronegócio e a agricultura familiar.<BR> <BR>O agronegócio,
na nossa avaliação, é hoje uma aliança de classes entre os fazendeiros
capitalistas, as empresas transnacionais e os bancos. Sua produção depende
cada vez mais do crédito financeiro. Tanto é que para produzirem R$ 90 bi,
eles tiram no Banco do Brasil, R$ 85. Se não tiver esse dinheiro, não produzem
porque não têm capital próprio.<BR><BR>Por outro lado, há o modelo da
agricultura familiar, diversificado e com base na mão de obra familiar, no uso
intensivo da terra e voltado para o mercado interno. A reforma agrária só tem
sentido se for para fortalecer esse segundo modelo. Na realidade, o que houve
no governo Lula, foi um embate permanente entre esses dois modelos, com
ministros dos dois lados. Por mais que se diga “é possível a convivência dos
dois”, o governo precisava ter uma orientação política clara: “a minha
prioridade é a agricultura familiar e o agronegócio que vá para o
mercado."<BR><BR>Isso ele não fez. Deixou que as forças do capital agissem por
conta própria na agricultura, o que construiu barreiras, porque o capital foi
se fortalecendo com esse modelo do agronegócio. O resultado disso veio agora
no Censo Agrícola do IBGE. Nos últimos dez anos - parte do governo Fernando
Henrique e todo o governo Lula - houve uma incontestável concentração na
propriedade da terra e no controle da produção agrícola.<BR><BR><EM><SPAN
class=chamadapretamaiorcorpotexto>A produção do agronegócio é concentrada por
20 empresas</SPAN></EM><BR><BR>O MST utiliza um dado econômico revelador: o
agronegócio conta com 300 mil fazendas com mais de 200 hectares e com 15 mil
latifundiários que detém fazendas acima de 2,5 mil hectares e possuem 98
milhões de hectares. Esse é o conjunto do agronegócio que produz R$ 90 bi do
PIB agrícola no país. Se você olhar para quem eles vendem, descobrirá que 20
empresas, hoje, controlam todo o comércio agrícola brasileiro, tanto o de
insumos (para financiar a produção), quanto o de commodities. Dessas 20
empresas, 70% são transnacionais e o PIB delas – segundo dados do Valor
Econômico - atinge R$ 112 bi a R$ 115 bi.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Claro que tem a margem de lucro. Mas podemos
perceber o movimento do capital. Toda a produção do agronegócio é concentrada
por 20 empresas que acumulam essa riqueza que vem da natureza. Nisso
destaca-se, também, o movimento do capital que levou a uma maior
oligopolização da agricultura. Há vários segmentos que se constituem em
oligopólios, um nos fertilizantes, outro nos venenos agrícolas, outro nas
máquinas, no comércio etc.<BR><BR>Por exemplo, nós somos os maiores produtores
de soja mundial enquanto território, mas vai ver quem exporta. Quem controla a
soja no Brasil, hoje? Cinco ou seis empresas a Bunge, a Monsanto, a Cargill, a
Dreyfus e a ADM do Brasil. Elas ficam com a maior parte da margem de lucro. É
por isso que nós até damos risada, porque a burguesia agrária - essa que se
diz representante do agronegócio - não tem consciência de classe para si. Se
tivesse, teria que se unir com os camponeses e os trabalhador es agrícolas,
para juntos, enfrentarmos essa espoliação feita pelas transnacionais. Mas não,
ela prefere se unir exatamente com as transnacionais e dar pau em nós e na
reforma agrária. Esse é o contexto e o governo Lula, como é um governo de
composição de classes e de uma correlação de forças muito equilibrada, é o
reflexo dele.<BR><BR><STRONG>Pensando em uma proposta de desenvolvimento
nacional, qual o papel de cada setor no campo, considerando o agronegócio, a
agricultura familiar e a reforma agrária, processos em andamento, nos próximos
anos? Num governo que tivesse condições de fazer mais
políticas...</STRONG><BR><BR>O grande desafio que temos nesse período
histórico - nem é conjuntural – é que o Brasil precisa de um projeto que
reorganize a economia para resolver o problema do povo brasileiro. Um projeto
que, do ponto de vista político, recupere as massas como atores políticos. E a
reforma agrária está emperrada justamente porque só fazer assentamentos nos
moldes tradicionais do INCRA não tem futuro, porque está descolado de um
projeto. A reforma agrária só tem futuro se for parte de um projeto de
desenvolvimento econômico, social e político de todo o país.<BR><BR>Se
fizermos a reforma agrária com a agricultura popular dentro desse projeto,
precisaremos de uma nova concepção que parta de alguns princípios e vontade
política. Por exemplo, (por esse projeto) nós vamos fixar o homem no interior,
combater o êxodo rural. As cidades brasileiras não agüentam mais esse inchaço.
Nós faremos um processo de distribuição de renda para que os trabalhadores
tenham mais dinheiro e comprem mais produtos da indústria, ativem o mercado
interno. Dentro desses parâmetros - parte de um projeto diferente e
prioritário - qual seria o nosso papel enquanto agricultura
familiar?<BR><BR>Primeiro: evidentemente que em algumas regiões do Brasil,
você tem que priorizar o processo de distribuiç ão de terras. Não precisa ser
em todo o país. Nós temos terra para todos, mas em algumas regiões, é preciso
uma intervenção do Estado, uma intervenção clara que combata o
latifúndio e garanta uma democratização do acesso à terra. No Mato Grosso do
Sul, por exemplo, há terras férteis, todos os climas, mas precisamos da
intervenção do Estado para fazer uma grande reestruturação fundiária. Na Zona
da Mata no Nordeste, a mesma coisa. É um absurdo continuarmos com a cana de
açúcar, há 500 anos espoliando aquele povo. Aquilo é semiescravidão. Portanto,
é preciso regionalizar, o que aliás está em todos os processos de reforma
agrária.<BR><BR>Segundo: é inviável distribuir terras sem combinar com a
agroindústria. Ela é a única maneira de o camponês aumentar sua renda, porque
se continuar produzindo apenas matéria-prima, ele não sairá da pobreza. Então
tem que haver um grande programa que leve a agroindústria para o interior.
Este sim Í ? e deve ser um componente do projeto nacional.<BR><BR>Ao invés do
BNDES dar dinheiro para grandes multinacionais como a Nestlé, Parmalat, por
que não fazer um grande programa de pequenas agroindústrias? Não há problema
de escala na agroindústria. Não é como uma fábrica de automóvel que exige 30
mil automóveis/dia. Pode ser uma usina de 5 a 30 mil litros, por exemplo. É
para isso que precisamos dos milhões dados à Nestlé. Então, que se faça um
programa para a agroindústria. E como ela é pequena, de pequeno agricultor,
tem que ser sob a forma da cooperativa. Com isso, já elevaríamos o nível de
consciência, porque quando o cidadão participa de uma cooperativa ele se
transforma em outro cidadão. Participa de assembléia... E tem emprego para o
jovem - porque o jovem, filho de camponês, não quer pegar na enxada. E ele tem
razão, tem que estudar. Se houver uma política de agroindústria no interior,
ele terá emprego como tratorista, analista, tr abalhador de informática.
Você leva profissões escolarizadas para o meio rural, ao invés de trazer a
população do meio rural para as cidades.<BR><BR>Quarto componente do nosso
projeto: a educação. Nós temos que democratizar a educação. O dado do
censo agropecuário é uma porrada na nossa cara: 30% dos trabalhadores rurais
brasileiros são analfabetos; 80% não terminou o ensino fundamental. Isso é
inaceitável. A reforma agrária é inviável se junto você não entrar com a
escola. É isso que vai libertar as pessoas, politizá-las e transformá-las em
cidadãs. Qual é a política atual? Por exemplo, financiar peruas e vãs para
tirar o jovens do interior e trazer para a cidade. Isso é uma loucura, uma
agressão cultural, econômica e um desperdício de dinheiro. O menino fica duas
horas para ir e mais duas para voltar.<BR><BR>Quinto aspecto: mudar a matriz
tecnológica do campo. Ao invés de utilizar a matriz atual do agronegócio - já
condenada porque baseada só em mecanização intensiva e agrotóxico que não tem
futuro (eles mesmos dizem isso) – temos que mudar para uma matriz que consiga
aumentar a produtividade do trabalho e também a física, dos hectares, sem
agredir a natureza. Genericamente, nós utilizamos o conceito de agroecologia.
As pessoas a concebem através de técnicas agrícolas para aumentar a produção
do trabalho e física, sem agredir o meio ambiente.<BR><BR>A vantagem do Brasil
é que nós temos já um suporte científico acumulado, nas universidades,
inclusive, que nos dá base científica para fazer a agroecologia. Recentemente
visitei o sítio Catavento, uma área recomendada pela querida Ana Maria
Primavesi, uma das grandes cientistas e agrônomas brasileiras a meia hora do
aeroporto de Viracopos (Campinas-SP). Lá, 36 hectares produzem hortigranjeiros
sem nenhum grama de agrotóxico. É uma maravilha. Todos os dias eles enchem um
caminhãozinho com três toneladas de produtos. Portanto, está mais do que
provado, nós temos conhecimento científico para esse tipo de
produção.<BR><BR>Aproveito, inclusive, para fazer uma denúncia. Em relação aos
produtos orgânicos, os supermercados já perceberam que classe média está cada
vez mais consciente de que a saúde vem em primeiro lugar. Aí vem a colocação
clássica: “produzir orgânico é muito caro”. Isso é mentira. Muito pelo
contrário! Produzir orgânico é mais barato. O problema é que como as redes de
supermercados estão monopolizadas e já sacaram que o produto orgânico é um
nicho de alta renda, colocam a taxa de lucro lá em cima. Fui lá em julho e
esse companheiro do sítio Catavento me mostrou: estava produzindo tomate em
pleno inverno com uma estufa. Ele estava vendendo para o Pão de Açúcar a R$
3,70 o quilo de tomate e a dona Maria estava comprando a R$ 17 o mesmo tomate
em São Paulo. O supermercado sacou o nicho e colocou sua taxa de lucro lá em
cima. Não é mai s caro.<BR><BR>Nós podemos produzir em escala, já temos
tecnologia. Um dos especialistas que diz isso é o prof. Luis Carlos Pinheiro,
ex-presidente da EMBRAPA. Inclusive, ele está nos assessorado no Paraná para
produzirmos em áreas 500 a mil hectares leite orgânico sem nenhum tratamento
químico de medicamento para as vacas.<BR><BR><STRONG>Nesse quadro que você
descreve, como fazemos reforma agrária, na base da pressão e da luta, é
completamente irracional. Assentar 300 pessoas aqui e mais 300, duzentos km lá
na frente, é inviável. E quanto à assistência técnica, estrada, educação na
zona rural, melhorou alguma coisa além do crédito para a agricultura familiar?
Afinal, a questão da assistência técnica é fundamental na
agroindústria.</STRONG><BR><BR>Há dois aspectos, o primeiro foi o desmonte que
o Fernando Henrique fez. No caso da política agrícola foi mais sério, porque
eles acabaram com todo o serviço público agrícola. Portanto, pegamos essa
herança maldida. No caso da assistência técnica, o governo Lula ampliou os
convênios para que ONGs e cooperativas dessem essa assistência. Resultado: o
público atendido aumentou, mas o método continua um atraso.<BR><BR>Nós
defendemos que só é possível universalizar e ter uma direção política para a
assistência técnica se for estatal.<BR><BR><STRONG>Um órgão
nacional?</STRONG><BR><BR>Um órgão nacional, que faça convênios com as EMATERs
(empresas estaduais agrícolas de assistência, tecnologia e extensão rural).
Contrate os funcionários para esse serviço público pela CLT. Não precisa de
concursos públicos, nem de estabilidade. Pode até colocar alguns
condicionantes, por exemplo, o sujeito para ser agrônomo da assistência
técnica tem que morar no interior, ou não pode morar em cidades com mais de 50
mil habitantes. Hoje, temos mais de 400 entidades conveniadas pelo Ministério
do Desenvolvimento Agrário (MDA) voltadas à assistência técnica. Isso a
direitona não vê, fica procurando apenas as que são do MST. Porém, isso não
resolve o problema, apenas amplia o público. O problema só se resolve com uma
assistência técnica pública.<BR><BR>No que houve melhorias? Na Companhia
Nacional de Abastecimento (CONAB) que voltou a ser uma empresa de
abastecimento. A CONAB tinha sido sucateada completamente e sua
recuperação é o melhor legado que a gestão Lula deixará, porque
ela conseguiu formatar novos programas voltados exclusivamente para a
agricultura familiar. Aí, nota-se a diferença. Quando você tem uma empresa
pública que atua com uma orientação e quando não tem. Não é para todo mundo,
mas para o pequeno agricultor. Então, a CONAB está desenvolvendo vários
programas de compra, seja antecipada, seja direta do agricultor. Isso é tudo o
que o camponês precisa para trabalhar, produzir e saber que tem gente que irá
comprar.<BR><BR>O camponês é produtor, não é vendedor. Quando tem que ir para
o mercado está ferrado. Repito, uma empresa estatal com um sistema econômico
montado dá certo. Aí tem que ampliar, botar dinheiro em cima, porque todo o
dinheiro que você botar na CONAB vira alimento e vai impulsionar esse
ciclo.<BR> <BR>Combinado com a revigoração da CONAB, temos a lei dos 30%
- ou seja, 30% da merenda escolar tem que ser de origem da agricultura
familiar. Essas duas medidas, CONAB e os 30%, foram avanços muito grandes. Em
terceiro lugar, sem dúvida, o programa Luz para Todos, e espero que até o fim
do governo seja praticamente universalizado o acesso à energia
elétrica.<BR><BR>Nós também apresentamos dois programas complementares à
política agrícola que tiveram pouca ressonância. O primeiro foi o programa de
habitação - muito difícil - em que procuramos misturar o INCRA com a Caixa
Econômica Federal (CEF). Veja que nem há problemas de recursos. Com 15 mil
nossos companheiros constroem casas de dar inveja à classe média urbana. Mas
falta desenvolver uma metodologia. Nós precisamos construí-la nos próximos
meses para universalizar. Começamos brigando, já no primeiro mandato (do
presidente Lula), conseguimos avanços no segundo e acredito que
teremos construído umas 40 mil casas. Mas, isso não é nada perto do que
significa um programa como esses. A primeira coisa que uma pessoa quer é uma
casa com luz elétrica. Isso fixa o homem no campo. Se eu sei que meu primo
está pagando aluguel para morar numa favela na cidade, por que vou largar
minha casa? Essa é uma condicionante também para os filhos e envolve uma série
de questões, auto-estima, saúde etc.<BR><BR>O segundo, também apresentamos um
grande programa de reflorestamento. É barato. Nós poderíamos fazer um programa
de dois hectares por pequeno agricultor e você refloresta esse país, melhora a
qualidade de vida, combate as mudanças climáticas, inclusive, caminhando na
contr amão do agronegócio que quer acabar com as reservas para desmatar ainda
mais. (O reflorestamento) evita essa estupidez que fizeram em Santa
Catarina, onde não aceitam mais os 20 metros em cada margem de
rio.<BR><BR><STRONG>Se 2 milhões de pequenos agricultores plantarem 2
hectares, serão 4 milhões hectares só aí.</STRONG><BR><BR>Por ano. Aí o cara
começa a perceber a mudança da qualidade e diz: “os outros dois, mais outros
dois, eu vou plantar”.<BR><BR><EM><SPAN class=chamadapretamaiorcorpotexto>O
ensino superior no meio<SPAN> </SPAN>rural tem que ser
diferenciado</SPAN></EM></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG>João Pedro, em relação à educação, não
teve nenhum programa novo, pedagogia nova para a educação rural e no campo
nesses seis anos e meio (governo Lula)?</STRONG><BR><BR>Do ponto de vista de
concepção, nós tivemos sorte. Os dois mandatos do governo Lula contaram com
ministros que tem uma visão diferenciada. Do ponto de vista de filosofia da
educação mudou. É outro papo. Estamos negociando com um governo que tem
percepção, mas você não consegue universalizar as políticas para o meio
rural.<BR><BR>Talvez agora com o novo padrão salarial dos professores, nós
tenhamos uma mudança, que ainda não é perceptível. Há professores do Piauí que
ganham R$ 75 reais/mês Então, a lei (piso nacional de R$ 950,00 para professor
instituído pelo presidente Lula) dará um salto na qualificação dos
professores. Também contamos com a metodologia em programas pontuais do
Programa Nacional de Educação para Reforma Ag rária (PRONERA), mas que não
conseguiu universalizar.<BR><BR>Qual o grande contribuição do PRONERA? Ele tem
uma metodologia, a da alternância - uma conquista nossa - para os jovens
do meio rural, seja para filho de assentado, seja para o do pequeno agricultor
que ainda não tem acesso, ou para professores do meio rural. Você tem que
criar cursos superiores na forma de alternância porque o cidadão não pode
entrar no vestibular comum e vir para a cidade todas as noites na escola. O
ensino superior no meio rural tem que ser diferenciado.<BR><BR>Primeiro,
porque o jovem terá de ir para a cidade todos os dias; segundo, os melhores
cursos estão nos municípios acima de 300 mil habitantes; terceiro, se ele
resolver todos esses impasses, ao terminar o curso, não volta
mais.<BR> <BR>Então, o que é a alternância? Você tem dois meses de
férias, depois concentra um período com aula, daí volta a ter o trabalho
normal como professor ou militante e daqui a três meses volta de novo. Com
esse programa – conquistado ainda no final do governo FHC, sob muita crítica,
porque diziam que era “picaretagem” – durante a gestão Lula, nós consolidamos
uma experiência. Hoje, podemos provar que a alternância não altera a
qualidade. Muito pelo contrário, ao concentrar o conhecimento em períodos,
você pode trazer especialistas daquela área. A alternância consumou-se como um
método.<BR><BR>Agora, o PRONERA hoje é um departamento com só três
funcionários dentro do INCRA. Administra recursos alocados para universidades
públicas e depende, evidentemente, da boa vontade da universidade. Nós temos
que conquistar cada curso. Sem falar que se um promotor elitista entrar na
justiça alegando que aquele curso é discricionário, dependendo do juiz federal
que está no plantão, o cara dá uma laminar e o curso é suspendido. <BR><BR>Por
exemplo, o único curso de direito que temos na universidade de Goiás Velho – f
eito com vestibular e inclusive com a presença do ministro Eros Grau, na
inauguração, público e notório que se trata de uma universidade de qualidade,
federal - os alunos fizeram vestibular, submeteram-se ao método da alternância
e o promotor resolveu entrar na Justiça. Esse tipo de coisa gera um problemão!
Você tem que recorrer, o INCRA tem que entrar. Então, qual é a nossa
reivindicação? O PRONERA tem que ser um programa do MEC que consiga
universalizar. Aí ninguém precisa ir lá convencer a universidade. Ela já
deveria oferecer dentro do seu plano de trabalho, esses cursos na forma de
alternância.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Isso nós estamos corrigindo. Quero também citar
como um lado positivo, as três universidades que estamos criando agora uma com
o MERCOSUL, a Fronteira Sul e a Universidade Federal do São Francisco em
Petrolina (PE). A Fronteira Sul, se fosse pela nossa vontade, daríamos o nome
de Universidade Federal Guarani, porque o território é o mesmo (das missões
indígenas jesuíticas, no Rio Grande do Sul). Seria uma bela homenagem aos
nossos antepassados que habitaram aquele território. E ela vai ser a primeira
universidade federal com campus em três estados.<BR><BR>As três universidades
têm uma vocação rural e estão mais em diálogo com os movimentos sociais. Nós,
portanto, estamos insistindo para que na grade delas, em seus cursos, já se
incorpore a experiência da alternância - na forma de freqüentar, no tipo de
curso. Não pode ser engenheiro agrônomo apenas, mas tem que ser um engenheiro
formado em agronomia agroecológica. Na área de educação o que precisaremos
fazer é isso. E precisamos de uma campanha séria para erradicar o
analfabetismo no meio rural.<BR><BR><STRONG>A oposição conseguiu o número de
assinaturas necessário para que fosse instalada a CPI do MST. Como vocês estão
avaliando isso?</STRONG><BR><BR>Nós vemos de duas formas: primeiramente, ela
está dentro do contexto maior da luta de classes no Brasil. Parte daquela
parcela da direita parlamentar brasileira, encrustrada lá no parlamento, que
vive querendo criar factóides para antecipar a disputa eleitoral. Como o
próprio deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) revelou, o principal objetivo da CPI
do MST é provar que o governo vai destinar dinheiro para o MST para fazer
campanha para a (ministra) Dilma Rousseff. Isso é ridículo! Mas, ele falou
isso na tribuna. Revela, então, as motivações ideológicas dele, ou seja, criar
factóides para fazer uma disputa eleitoral e política besta.<BR><BR>Um segundo
aspec to na análise dessa CPI, aqui mais da luta de classes, é que eles
quiseram peitar o governo quando nós fizemos essa parceria na portaria para
mudar os índices de produtividade. Estes precisam ser atualizados por força de
lei. A lei agrária determina – a de 1993 – que os índices tinham que ser
atualizados a cada dez anos. E os índices atuais que o INCRA usa são de 1975.
Uma piada.<BR> <BR>Então eles quiseram dar o troco. E contra o governo,
não contra nós, para criar um constrangimento, um jogo de troca aí. Tudo
contra a possibilidade de atualizar o índice de produtividade. Então se começa
a CPI num palanque ideológico contra nós. Evidentemente, sempre que
instalam uma CPI fazem o que querem. Todas as entidades que estão eles estão
dizendo que tem problemas já foram investigadas pela CPI da s ONGs e tiveram
sigilo quebrado. É como se diz no interior, eles estão vendo chifres em cabeça
de mula. Mas, esse é o papel da direitona que quer prote ger os seus
privilégios.<BR><BR><STRONG>Como vocês estão vendo a pesquisa da Confederação
Nacional da Agricultura (CNA) sobre assentamento rural?</STRONG><BR><BR>Isso
não merece nem comentário. É uma fraude que não tem pé, nem cabeça. Não é nem
uma amostra representativa. Entre oito mil assentamentos que há no país, eles
(a CNA) escolheram só nove e ao seu bel prazer. Um deles, em Pernambuco,
era da época da ditadura, emancipado em 1975.<BR> <BR>A única explicação
que me vem é que a CNA fez algum jogo de aliança política com o IBOPE, talvez
pagando dívidas do serviço que o IBOPE fez na época da campanha da Katia
Abreu (senadora do DEM do Tocantins). É a única explicação que nos ocorre para
tamanho absurdo. A isso (à pesquisa) todos os pesquisadores sérios reagiram.
Isso depõe contra o IBOPE. O que ficou claro é que ele perdeu sua
credibilidade. Como ele pode ter se prestado a esse tipo de jogo rasteiro?
Pior ainda, divulgara m a pesquisa deles uma semana depois do Censo
Agropecuário que não é uma simples pesquisa – no censo, os pesquisadores do
IBGE vão em todos os estabelecimentos agropecuários desse país. <BR><BR>A
pesquisa da CNA, repito, não tem pé, nem cabeça. De 8 mil assentamentos,
pegaram nove. Um total de mil famílias de nove assentamentos, num universo de
1 milhão de famílias em oito mil assentamentos.<BR><BR><STRONG>Sobre o
episódio em São Paulo, na fazenda do Grupo Cutrale, qual a avaliação que você
está fazendo? A mídia conservadora o transformou em escândalo, durante quase
uma semana, ou mais, isso ocupou os principais noticiários. Qual a sua
avaliação, houve erros na ocupação da fazenda?</STRONG></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">A CUTRALE que tem mais de 30 fazendas em São
Paulo, somando mais de 50 mil hectares, está em dívida com a Justiça Federal.
Aquela área foi comprada de um grilo e eles sabiam. Eles partiram para o risco
de comprar uma área grilada, contando com as influências políticas que tem na
República do Brasil. Como estão acostumados com o monopólio da laranja,
encheram de laranja para consolidar que a área era produtiva etc. Mas toda
aquela área onde houve a ocupação - nem é só da Cutrale - é o chamado grande
grilo (terras griladas) do Monção. A origem desse grilo é de terras que a
União comprou em 1910 - portanto houve dinheiro público na compra da área
original – para um projeto de colonização para famílias japonesas que não deu
certo. Então, as terras foram ficando e houve esse grilo. A ocupação feita
agora pelos sem-terra tinha a vontade política, o objetivo de fazer essa
denúncia. Nisso a ocupação foi eficaz.<BR><BR>Agora, o fato de terem derrubado
laranjais foi um erro dos companheiros que estavam lá. Nós que estamos no meio
da briga, entendemos o desespero das famílias que estão há cinco anos querendo
ter a terra e sabem que essa terra é grilada. O INCRA mesmo disse: “essa
terra é da União”. Então o cara, o sem-terra chega na fazenda e
quer plantar feijão. Evidentemente, a direita soube explorar muito bem
esse fato, a partir de um erro nosso. <BR><BR>Mais dia, menos dia, iriam pegar
qualquer erro nosso e exponenciar ao máximo. É o caso das imagens (exibidas na
mídia). Elas foram feitas no dia 28/09, eles pensaram "quando vamos usar?" E
esperaram, dias e dias, para fazer essa superexposição. Aquilo não foi uma
reportagem sobre a ocupação, apresentada no dia em que ela ocorreu. Fora o
fato de aquilo ter sido filmado pelo serviço secreto da PM. Não foi nenhuma
reportagem da Globo que estava lá.<BR><BR>Um segundo aspecto: todas as
outras i magens de depredação de trator, invasão das casas dos funcionários
são mentira. Aquilo é manipulação. Nós os desafiamos publicamente a
constituirem uma comissão independente - e com o Ministério Público, se quiser
- e a irem lá e fazer a perícia para descobrir desde quando esses tratores
estão desmontados. Isso é muito fácil de verificar. Que a comissão pergunte
para as famílias (de empregados do grupo Cutrale) se algum sem-terra entrou na
casa deles.<BR> <BR>Mas, houve o erro, evidentemente, e com esse erro, a
burguesia da elite econômica, que tem o monopólio da comunicação, está
explorando. E nós estamos pagando caro, porque com isso, criaram o sentimento
que levou ao recolhimento e obtenção das assinaturas para a
CPI.<BR><BR><STRONG>O ex-ministro da Fazenda tucano, Luiz Carlos
Bresser-Pereira e o ex-presidente da República, José Sarney, hoje presidente
do Senado, apontaram tanto no caso da CPI, quanto na pesquisa dos
assentamentos fei ta pelo IBOPE, por encomenda da CNA , a tentativa de
criminalizar o MST. Qual a a avaliação que vocês fazem?</STRONG></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Esse tema da criminalização nós temos que
entender direito como é usado. Não é uma coisa que houve, ou que há,
numa época de ditadura. Nós já estávamos na democracia quando o latifúndio,
para se proteger, iniciou um processo de assassinato e de violência física
contra quem lutava pela reforma agrária. Esse período nós já passamos. A
violência física diminuiu, até por conta da nossa forma de organização. A
criminalização agora é muito mais no sentido ideológico e político. É com o
objetivo de desmoralizar quem faz luta social. Esse é o sentido da
criminalização do MST e dos demais movimentos sociais.<BR> <BR>Daí porque
a Rede Globo, o Estadão e a VEJA se transformaram no principal instrumento
dessa fase de criminalização. Na fase anterior, eram as armas; agora, o método
de tentar nos desmoralizar é através da imprensa. Nós temos tido o cuidado de
não criar uma paranóia. Mas, o objetivo desses ve ículos e daqueles cujos
interesses eles representam é muito mais no sentido de deslegitimar e
desmoralizar quem faz a luta social. Independente de quem a fizer. Eles também
fazem o mesmo quando tem ocupação de sem teto e outras coisas. A tentativa não
é de criminalizar só o MST, é criminalizar todos os movimentos
sociais.<BR><BR><STRONG>É, agora, nas manifestações das favelas em São Paulo,
nas dos bairros na periferia, contra a PM. Dizem que tudo é baderna. É a
maneira de desqualificarem o caráter social e político da manifestação
contra a violência da polícia e contra a falta de atuação do Estado. Os
jornais só dizem que é baderna e que tem que ser reprimido. Para eles, está
tudo certo (a repressão) e ainda registram “infelizmente morreu uma
criança”.</STRONG><BR> <SPAN class=chamadaverdecorpotexto><BR></SPAN>O
que eles fizeram em relação a áreas em que há despejo, por exemplo, o naquela
área em Embu.<BR><BR><STRONG>Aqu ilo foi articulado para ter apoio dos meios
de comunicação. É um exemplo da polícia para ser aplicado no país depois. Vão
calcar no eleitorado de direita, conservador. Dizer que o bom é aquele exemplo
do Serra em São Paulo.</STRONG></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Da governadora Yeda Crusius no Rio Grande do
Sul também. A dona Yeda já começou (a governar, em 2007) sem base social. E
como ela se posicionou? Transformou a Brigada Militar (PM gaúcha) em cão de
guarda do capital. Chamou os setores do Ministério Publico fascistas,
claramente afinados com sua proposta ideológica e, financiada por grandes
grupos econômicos, tentou impor um governo ditadorial. Ela se desmoralizou
porque ficou evidente. No governo dela ficou tudo tão centralizado, que ao
ultrapassar o limite da corrupção, veio a público e ela não pode controlar.
Controla a parte do ministério público estadual, mas não o federal que,
inclusive, fez as denúncias (de improbidade administrativa e manipulação de
concorrência e licitações) contra ela.<BR><BR>Acho, então, que tanto o artigo
do Sarney quanto o do Bresser Pereira foram duas manifestações das mais
lúcidas desse campo da elite intelectualizada brasileira, porqu e eles
comentaram a razão dos fatos e não simplesmente a questão ideológica.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><EM><SPAN
class=chamadapretamaiorcorpotexto>Apoio ou oposição é para partidos, movimento
social deve ser autônomo</SPAN></EM></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG>Qual a avaliação política que você faz
da atuação do MST nesse período do governo Lula? Houve fortalecimento? O
movimento está mais ou menos forte, mais ou menos organizado, com mais ou
menos bases e apoio da sociedade?</STRONG></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Nos últimos anos o MST consolidou um acúmulo de
forças própria. E foi correta a nossa política em relação ao governo Lula, de
manter autonomia política para resguardar a saúde que deve ter um movimento
social. Ou seja, nem caímos num adesismo de "agora, como elegemos o
Lula..." – toda a base dos sem-terra votou no Lula – nem nos
transformamos em puxa-sacos, ou chapas-branca como se diz. Ao mesmo tempo, não
caímos no que certos setores da esquerda caíram de “ah, o governo Lula não
conseguiu mudar a política econômica, então vamos para a oposição e tudo o que
vier do governo Lula é ruim”. Alguns movimentos sociais fizeram essa inflexão.
Foram para a oposição. O que nós dizemos é que o papel de apoio ou oposição é
para partidos políticos. Movimento social tem que ser autônomo. Seja qual for
o governo ou o Estado, temos que ter autonomia.<BR><BR>Nós pagamos caro por
essa política. Amigos que queriam que fossemos adesistas, nos chamaram de
esquerdistas. E os esquerdistas disseram “não, vocês são muito
adesistas”. E difícil, mas nós estamos convencidos de que essa foi a
política que, inclusive, nos salvou, porque senão, provavelmente, o movimento
teria tido sérios problemas de crescimento. Essa foi a
situação.<BR> <BR>Agora, em relação à reforma agrária, penso que ela não
depende mais do MST. No começo do governo Lula, havia aquela euforia. No
início de 2003, em torno de 200 mil famílias foram para acampamentos, porque
havia uma vontade política da nossa parte e achamos, "agora com o Lula",
que haveria o reacenso da massa. E não houve.<BR> <BR>Então, a
reforma agrária não depende mais do MST, mas de uma nova correlação de forças
na sociedade. Depende de um reacenso do movimento de massas porque a classe
trabalhadora que vive no campo é minoritária. Nós não alteramos mais a
correlação de forças. Ela só irá ser alterada se h ouver movimentação social
na cidade.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Essa é a nossa tragédia. Nós somos um movimento
com unidade, temos clareza política, sabemos onde queremos ir, mas não temos
força própria suficiente para alterar a correlação. Temos que esperar que a
turma da cidade também faça um movimento que reative o movimento de massas e
que aí sim, altere a correlação de forças para pressionarmos a realização de
uma reforma agrária mais rápida.<BR><BR>Assim, os avanços da reforma agrária
não dependem nem do MST, nem só da luta social no campo. Dependem da luta
social no Brasil inteiro.<BR><BR><STRONG>Como vocês estão vendo a eleição de
2010, na medida em que apoiaram direta ou indiretamente a candidatura Lula, e
levando em consideração as conseqüências para a América Latina, se o projeto
político que o Lula representa for derrotado no Brasil?</STRONG><BR><BR>Não
temos feito um debate mais eleitoral. Estamos tendo cuidado com isso. O nosso
debate interno ainda é sobre a política geral, a luta de classes e a
correlação de forças. Em termos gerais, te respondo pelo que é da tradição da
nossa política: primeiro, manter nossa autonomia; segundo, continuar nosso
trabalho político e ideológico de estimular – e é assim que nossa militância
se comporta – o eleitor a sempre votar tanto em nível federal, quanto
estadual, quanto municpal, nos candidatos mais progressistas e que defendem a
reforma agrária; terceiro, há uma vontade e decisão política de barrar a volta
do neoliberalismo.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"><EM><SPAN
class=chamadapretamaiorcorpotexto>Luta contra a restauração do
neoliberalismo</SPAN></EM></P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Estamos e somos contra os projetos de
restauração do neoliberalismo. Sem dúvida, o MST estará nas primeiras
trincheiras da batalha. Fazemos questão de ajudar a contribuir para que o
neoliberalismo não se restaure aqui no Brasil.<BR><BR>Os jornalistas
perguntam: “vocês são da Marina, da Dilma, do Ciro etc”, o que
respondemos é que não nos cabe discutir nomes agora. O que temos que estimular
na sociedade brasileira é a discussão de um projeto para que ao redor dele as
pessoas votem com consciência.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Nós não caímos nos simplismo de vontades
eleitorais, ou partidárias, ou por afinidades pessoais. Tem gente que diz:
"pessoalmente a Dilma é muito parecida com o Ciro... " Isso não explica nada!
Então, até para não cair nesse tipo de reducionismo, nós achamos que o debate
político a ser feito daqui a até outubro do ano que vem tem que ser sobre a
necessidade de um projeto para o país, para que as pessoas saibam o que está
em jogo e que tipo de projeto nós temos que fazer avançar daqui para a frente.
Esse é o debate que estamos fazendo entre nós.<BR><BR>Evidentemente, que no
caso do Rio Grande do Sul, a batalha será mais dura, porque por todo o uso que
fez da Brigada Militar e do ministério publico estadual, o projeto da Yeda
(Crusius) foi não só o da restauração do neoliberalismo, mas dos fascistas.
Depende de cada Estado, o maior ou menor engajamento da militância. E isso se
dará, também, em função das candidatu ras estaduais. Os governadores tem muito
peso nas lutas sóciais do campo, já que quem nos reprime são as polícias
estaduais.<BR><STRONG><BR>Como o MST é um movimento com grande inserção
internacional, inclusive pela Via Campesina, como vocês avaliam o cenário
internacional após dez meses da eleição de Barack Obama e um pouco também
sobre a América Latina e a relação com as eleições do ano que vem?</STRONG>
<BR><BR>Nós estamos muito preocupados. Estamos vindo de dez anos de avanços
das forças progressistas, mas esse avanço registrado a partir de 1999 com a
subida do presidente Hugo Chávez (Venezuela) até hoje, não veio acompanhado
com o reacenso do movimento de massas. Talvez, na Bolívia aconteceu, mas nos
demais países não. Isso criou uma dificuldade maior. Ao se dar conta de que as
massas não vieram para o reacenso, para participar mais da atividade,
evidentemente, o império está tentando reestaurar o seu projeto para a América
Latina . <BR><BR>Os EUA tinham sido derrotados nesses dez anos. Foram
derrotados na ALCA e agora tentam recompor esse projeto, que inclusive,
independe da postura pessoal do Obama. O projeto do império é o do capital
imperialista, do Estado belicista norte-americano. Há alguns dias, ouvi uma
palestra na qual o orador dizia que toda a tentativa da economia
norteamericana de sair da crise é aumentando a indústria bélica. Nem é pela
saúde, nem por um Bolsa Família, eles poderiam criar uma bolsa família para os
pobres norte-americanos e incentivar o mercado interno ou frear as importações
da China. Não. A alternativa principal que o capital americano está tomando
para sair da crise é o aumento da sua produção bélica e com isso, ter mais
armas e munição.<BR><BR>Isso é um perigo, porque eles vão estimular conflitos
até para reativar sua economia. Nesse cenário, nós vemos os EUA acelerando,
mudando o passo. O caso de Honduras, por exemplo, todos sabemos qu e a base
americana se envolveu, o embaixador se envolveu. No Panamá, idem. Essas bases
da Colômbia (seis norte-americanas) são uma ofensa a todo o continente, um
caso inadmissível.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Nessa questão concordamos com a avaliação do
Chávez, de que é uma tentativa de transformar a Colômbia numa Israel na
América do Sul. Sobretudo uma tentativa de levar a uma guerra fria entre a
Colômbia e a Venezuela. É o pior dos mundos porque obriga a Venezuela a gastar
dinheiro público em armamento, tanque e helicóptero ao invés de comprar casa e
construir metrô.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify">Então, estimula-se uma guerra fria regional
para barrar o processo venezuelano. Pelo que se vê pelo Chile e o Peru,
trata-se de reativar as direitonas locais para tentar retomar o controle. Não
se sabe até que ponto essa mesma direita americana vai insuflar nossas
eleições. É possível que aqui no Brasil também. Com isso, o tom ideológico
aumenta.</P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify"> </P>
<P style="TEXT-ALIGN: justify" class=MsoNormal> </P><BR><BR></BLOCKQUOTE>
<P>
<HR>
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