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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT size=2 face=Arial></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV><FONT color=#ff0000 size=6 face=Forte>Carta O Berro<FONT 
size=3>........................................................................repassem</FONT></FONT><BR></DIV>
<HR>

<BLOCKQUOTE 
style="BORDER-LEFT: #6868cc 2px solid; MARGIN: 0pt 0pt 0pt 0.8ex; PADDING-LEFT: 1ex"><FONT 
  size=2 face=Arial></FONT>Publicada a entrevista no site do Zé: <A 
  class=moz-txt-link-abbreviated href="http://www.zedirceu.com.br" 
  target=_blank>www.zedirceu.com.br</A> <BR><FONT size=2 face=Arial>e 
  republicada</FONT>na página em: <A class=moz-txt-link-freetext 
  href="http://www.mst.org.br/node/8502" 
  target=_blank>http://www.mst.org.br/node/8502</A> 
  <P style="TEXT-ALIGN: justify"><SPAN class=chamadaverdemaiorcorpotexto>abaixo, 
  a íntegra.</SPAN><STRONG><SPAN 
  class=chamadaverdemaiorcorpotexto><BR><BR></SPAN></STRONG></P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG><SPAN 
  class=chamadaverdemaiorcorpotexto>"Querem desmoralizar quem faz luta social 
  nesse país"</SPAN></STRONG><BR><BR>A conclusão é do ativista e economista João 
  Pedro Stedile, um dos fundadores e uma das mais representativas vozes, hoje, 
  do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ao analisar a campanha 
  difamatória perpetrada pela mídia e oposição brasileiras que colocou o MST no 
  centro das discussões nacionais, e conseguiu a instalação de uma CPI contra a 
  organização.&nbsp; <BR><BR>Segundo Stedile, "o principal objetivo da CPI do 
  MST é provar que o governo vai destinar dinheiro para o MST para fazer 
  campanha para a (ministra) Dilma Rousseff", o que, na realidade, constitui-se 
  na construção de mais um factóide pela mídia e oposição. A Comissão é também, 
  na avaliação de Stedile, uma resposta dos setores retrógrados da sociedade 
  brasileira à vitória dos movimentos do campo que, junto ao governo , 
  conquistaram a alteração dos índices de produtividade utilizados pelo INCRA. 
  <BR>Quanto ao episódio da ocupação da fazenda do grupo Cutrale e a derrubada 
  de laranjais, Stedile reconhece que houve erro, mas aponta a superexposição do 
  episódio na mídia. Denuncia, inclusive, que a invasão da casa de funcionários 
  e a quebra dos tratores por ocupantes da fazenda é uma mentira. De acordo com 
  o relato de Stedile, as imagens exploradas pela mídia foram feitas muitos dias 
  antes que começassem a ser apresentadas e que aqueles que as fizeram 
  aguardaram o momento que julgaram mais oportuno para exibi-las e criar o 
  sentimento que levou ao recolhimento e obtenção das assinaturas parlamentares 
  para a CPI.<BR><BR>Membro da direção nacional do MST - e também da Via 
  Campesina - Stedile faz um diagnóstico da situação agrária no país. Fala sobre 
  a importância da agroindústria e critica a ausência de uma política clara e 
  focada na agricultura familiar em detr imento do agronegócio. Este, segundo o 
  economista, está hoje monopolizado nas mãos de 20 empresas, 70% delas, 
  transnacionais. Nesta entrevista, o ativista também analisa a contexto 
  americano após a vitória e posse de Barack Obama e o próximo ano eleitoral. 
  Mais urgente do que declinar apoio a um candidato, observa, é a discussão de 
  um projeto de desenvolvimento nacional que inclua, de vez, a reforma agrária 
  na agenda.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG><SPAN class=chamadalaranjacorpotexto>Zé 
  Dirceu </SPAN>- Qual a avaliação que você faz da reforma agrária no governo 
  Lula?</STRONG><BR><BR>S<SPAN class=chamadaverdecorpotexto>tedile 
  -&nbsp;</SPAN> É difícil fazer esse balanço isolado do contexto maior da 
  disputa na sociedade brasileira, hoje, entre dois modelos de produção 
  agrícola, o agronegócio e a agricultura familiar.<BR>&nbsp;<BR>O agronegócio, 
  na nossa avaliação, é hoje uma aliança de classes entre os fazendeiros 
  capitalistas, as empresas transnacionais e os bancos. Sua produção depende 
  cada vez mais do crédito financeiro. Tanto é que para produzirem R$ 90 bi, 
  eles tiram no Banco do Brasil, R$ 85. Se não tiver esse dinheiro, não produzem 
  porque não têm capital próprio.<BR><BR>Por outro lado, há o modelo da 
  agricultura familiar, diversificado e com base na mão de obra familiar, no uso 
  intensivo da terra e voltado para o mercado interno. A reforma agrária só tem 
  sentido se for para fortalecer esse segundo modelo. Na realidade, o que houve 
  no governo Lula, foi um embate permanente entre esses dois modelos, com 
  ministros dos dois lados. Por mais que se diga “é possível a convivência dos 
  dois”, o governo precisava ter uma orientação política clara: “a minha 
  prioridade é a agricultura familiar e o agronegócio que vá para o 
  mercado."<BR><BR>Isso ele não fez. Deixou que as forças do capital agissem por 
  conta própria na agricultura, o que construiu barreiras, porque o capital foi 
  se fortalecendo com esse modelo do agronegócio. O resultado disso veio agora 
  no Censo Agrícola do IBGE. Nos últimos dez anos - parte do governo Fernando 
  Henrique e todo o governo Lula - houve uma incontestável concentração na 
  propriedade da terra e no controle da produção agrícola.<BR><BR><EM><SPAN 
  class=chamadapretamaiorcorpotexto>A produção do agronegócio é concentrada por 
  20 empresas</SPAN></EM><BR><BR>O MST utiliza um dado econômico revelador: o 
  agronegócio conta com 300 mil fazendas com mais de 200 hectares e com 15 mil 
  latifundiários que detém fazendas acima de 2,5 mil hectares e possuem 98 
  milhões de hectares. Esse é o conjunto do agronegócio que produz R$ 90 bi do 
  PIB agrícola no país. Se você olhar para quem eles vendem, descobrirá que 20 
  empresas, hoje, controlam todo o comércio agrícola brasileiro, tanto o de 
  insumos (para financiar a produção), quanto o de commodities. Dessas 20 
  empresas, 70% são transnacionais e o PIB delas – segundo dados do Valor 
  Econômico - atinge R$ 112 bi a R$ 115 bi.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Claro que tem a margem de lucro. Mas podemos 
  perceber o movimento do capital. Toda a produção do agronegócio é concentrada 
  por 20 empresas que acumulam essa riqueza que vem da natureza. Nisso 
  destaca-se, também, o movimento do capital que levou a uma maior 
  oligopolização da agricultura. Há vários segmentos que se constituem em 
  oligopólios, um nos fertilizantes, outro nos venenos agrícolas, outro nas 
  máquinas, no comércio etc.<BR><BR>Por exemplo, nós somos os maiores produtores 
  de soja mundial enquanto território, mas vai ver quem exporta. Quem controla a 
  soja no Brasil, hoje? Cinco ou seis empresas a Bunge, a Monsanto, a Cargill, a 
  Dreyfus e a ADM do Brasil. Elas ficam com a maior parte da margem de lucro. É 
  por isso que nós até damos risada, porque a burguesia agrária - essa que se 
  diz representante do agronegócio - não tem consciência de classe para si. Se 
  tivesse, teria que se unir com os camponeses e os trabalhador es agrícolas, 
  para juntos, enfrentarmos essa espoliação feita pelas transnacionais. Mas não, 
  ela prefere se unir exatamente com as transnacionais e dar pau em nós e na 
  reforma agrária. Esse é o contexto e o governo Lula, como é um governo de 
  composição de classes e de uma correlação de forças muito equilibrada, é o 
  reflexo dele.<BR><BR><STRONG>Pensando em uma proposta de desenvolvimento 
  nacional, qual o papel de cada setor no campo, considerando o agronegócio, a 
  agricultura familiar e a reforma agrária, processos em andamento, nos próximos 
  anos? Num governo que tivesse condições de fazer mais 
  políticas...</STRONG><BR><BR>O grande desafio que temos nesse período 
  histórico -&nbsp; nem é conjuntural – é que o Brasil precisa de um projeto que 
  reorganize a economia para resolver o problema do povo brasileiro. Um projeto 
  que, do ponto de vista político, recupere as massas como atores políticos. E a 
  reforma agrária está emperrada justamente porque só fazer assentamentos nos 
  moldes tradicionais do INCRA não tem futuro, porque está descolado&nbsp; de um 
  projeto. A reforma agrária só tem futuro se for parte de um projeto de 
  desenvolvimento econômico, social e político de todo o país.<BR><BR>Se 
  fizermos a reforma agrária com a agricultura popular dentro desse projeto, 
  precisaremos de uma nova concepção que parta de alguns princípios e vontade 
  política. Por exemplo, (por esse projeto) nós vamos fixar o homem no interior, 
  combater o êxodo rural. As cidades brasileiras não agüentam mais esse inchaço. 
  Nós faremos um processo de distribuição de renda para que os trabalhadores 
  tenham mais dinheiro e comprem mais produtos da indústria, ativem o mercado 
  interno. Dentro desses parâmetros - parte de um projeto diferente e 
  prioritário - qual seria o nosso papel enquanto agricultura 
  familiar?<BR><BR>Primeiro: evidentemente que em algumas regiões do Brasil, 
  você tem que priorizar o processo de distribuiç ão de terras. Não precisa ser 
  em todo o país. Nós temos terra para todos, mas em algumas regiões, é preciso 
  uma intervenção do Estado, uma intervenção&nbsp; clara que combata o 
  latifúndio e garanta uma democratização do acesso à terra. No Mato Grosso do 
  Sul, por exemplo, há terras férteis, todos os climas, mas precisamos da 
  intervenção do Estado para fazer uma grande reestruturação fundiária. Na Zona 
  da Mata no Nordeste, a mesma coisa. É um absurdo continuarmos com a cana de 
  açúcar, há 500 anos espoliando aquele povo. Aquilo é semiescravidão. Portanto, 
  é preciso regionalizar, o que aliás está em todos os processos de reforma 
  agrária.<BR><BR>Segundo: é inviável distribuir terras sem combinar com a 
  agroindústria. Ela é a única maneira de o camponês aumentar sua renda, porque 
  se continuar produzindo apenas matéria-prima, ele não sairá da pobreza. Então 
  tem que haver um grande programa que leve a agroindústria para o interior. 
  Este sim Í ? e deve ser um componente do projeto nacional.<BR><BR>Ao invés do 
  BNDES dar dinheiro para grandes multinacionais como a Nestlé, Parmalat, por 
  que não fazer um grande programa de pequenas agroindústrias? Não há problema 
  de escala na agroindústria. Não é como uma fábrica de automóvel que exige 30 
  mil automóveis/dia. Pode ser uma usina de 5 a 30 mil litros, por exemplo. É 
  para isso que precisamos dos milhões dados à Nestlé. Então, que se faça um 
  programa para a agroindústria. E como ela é pequena, de pequeno agricultor, 
  tem que ser sob a forma da cooperativa. Com isso, já elevaríamos o nível de 
  consciência, porque quando o cidadão participa de uma cooperativa ele se 
  transforma em outro cidadão. Participa de assembléia... E tem emprego para o 
  jovem - porque o jovem, filho de camponês, não quer pegar na enxada. E ele tem 
  razão, tem que estudar. Se houver uma política de agroindústria no interior, 
  ele terá emprego como tratorista, analista, tr abalhador de&nbsp; informática. 
  Você leva profissões escolarizadas para o meio rural, ao invés de trazer a 
  população do meio rural para as cidades.<BR><BR>Quarto componente do nosso 
  projeto:&nbsp; a educação. Nós temos que democratizar a educação. O dado do 
  censo agropecuário é uma porrada na nossa cara: 30% dos trabalhadores rurais 
  brasileiros são analfabetos; 80% não terminou o ensino fundamental. Isso é 
  inaceitável. A reforma agrária é inviável se junto você não entrar com a 
  escola. É isso que vai libertar as pessoas, politizá-las e transformá-las em 
  cidadãs. Qual é a política atual? Por exemplo, financiar peruas e vãs para 
  tirar o jovens do interior e trazer para a cidade. Isso é uma loucura, uma 
  agressão cultural, econômica e um desperdício de dinheiro. O menino fica duas 
  horas para ir e mais duas para voltar.<BR><BR>Quinto aspecto: mudar a matriz 
  tecnológica do campo. Ao invés de utilizar a matriz atual do agronegócio - já 
  condenada porque baseada só em mecanização intensiva e agrotóxico que não tem 
  futuro (eles mesmos dizem isso) – temos que mudar para uma matriz que consiga 
  aumentar a produtividade do trabalho e também a física, dos hectares, sem 
  agredir a natureza. Genericamente, nós utilizamos o conceito de agroecologia. 
  As pessoas a concebem através de técnicas agrícolas para aumentar a produção 
  do trabalho e física, sem agredir o meio ambiente.<BR><BR>A vantagem do Brasil 
  é que nós temos já um suporte científico acumulado, nas universidades, 
  inclusive, que nos dá base científica para fazer a agroecologia. Recentemente 
  visitei o sítio Catavento, uma área recomendada pela querida Ana Maria 
  Primavesi, uma das grandes cientistas e agrônomas brasileiras a meia hora do 
  aeroporto de Viracopos (Campinas-SP). Lá, 36 hectares produzem hortigranjeiros 
  sem nenhum grama de agrotóxico. É uma maravilha. Todos os dias eles enchem um 
  caminhãozinho com três toneladas de produtos. Portanto, está mais do que 
  provado, nós temos conhecimento científico para esse tipo de 
  produção.<BR><BR>Aproveito, inclusive, para fazer uma denúncia. Em relação aos 
  produtos orgânicos, os supermercados já perceberam que classe média está cada 
  vez mais consciente de que a saúde vem em primeiro lugar. Aí vem a colocação 
  clássica: “produzir orgânico é muito caro”. Isso é mentira. Muito pelo 
  contrário! Produzir orgânico é mais barato. O problema é que como as redes de 
  supermercados estão monopolizadas e já sacaram que o produto orgânico é um 
  nicho de alta renda, colocam a taxa de lucro lá em cima. Fui lá em julho e 
  esse companheiro do sítio Catavento me mostrou: estava produzindo tomate em 
  pleno inverno com uma estufa. Ele estava vendendo para o Pão de Açúcar a R$ 
  3,70 o quilo de tomate e a dona Maria estava comprando a R$ 17 o mesmo tomate 
  em São Paulo. O supermercado sacou o nicho e colocou sua taxa de lucro lá em 
  cima. Não é mai s caro.<BR><BR>Nós podemos produzir em escala, já temos 
  tecnologia. Um dos especialistas que diz isso é o prof. Luis Carlos Pinheiro, 
  ex-presidente da EMBRAPA. Inclusive, ele está nos assessorado no Paraná para 
  produzirmos em áreas 500 a mil hectares leite orgânico sem nenhum tratamento 
  químico de medicamento para as vacas.<BR><BR><STRONG>Nesse quadro que você 
  descreve, como fazemos reforma agrária, na base da pressão e da luta, é 
  completamente irracional. Assentar 300 pessoas aqui e mais 300, duzentos km lá 
  na frente, é inviável. E quanto à assistência técnica, estrada, educação na 
  zona rural, melhorou alguma coisa além do crédito para a agricultura familiar? 
  Afinal, a questão da assistência técnica é fundamental na 
  agroindústria.</STRONG><BR><BR>Há dois aspectos, o primeiro foi o desmonte que 
  o Fernando Henrique fez. No caso da política agrícola foi mais sério, porque 
  eles acabaram com todo o serviço público agrícola. Portanto, pegamos essa 
  herança maldida. No caso da assistência técnica, o governo Lula ampliou os 
  convênios para que ONGs e cooperativas dessem essa assistência. Resultado: o 
  público atendido aumentou, mas o método continua um atraso.<BR><BR>Nós 
  defendemos que só é possível universalizar e ter uma direção política para a 
  assistência técnica se for estatal.<BR><BR><STRONG>Um órgão 
  nacional?</STRONG><BR><BR>Um órgão nacional, que faça convênios com as EMATERs 
  (empresas estaduais agrícolas de assistência, tecnologia e extensão rural). 
  Contrate os funcionários para esse serviço público pela CLT. Não precisa de 
  concursos públicos, nem de estabilidade. Pode até colocar alguns 
  condicionantes, por exemplo, o sujeito para ser agrônomo da assistência 
  técnica tem que morar no interior, ou não pode morar em cidades com mais de 50 
  mil habitantes. Hoje, temos mais de 400 entidades conveniadas pelo Ministério 
  do Desenvolvimento Agrário (MDA) voltadas à assistência técnica. Isso a 
  direitona não vê, fica procurando apenas as que são do MST. Porém, isso não 
  resolve o problema, apenas amplia o público. O problema só se resolve com uma 
  assistência técnica pública.<BR><BR>No que houve melhorias? Na Companhia 
  Nacional de Abastecimento (CONAB) que voltou a ser uma empresa de 
  abastecimento. A CONAB tinha sido sucateada completamente e sua 
  recuperação&nbsp; é o melhor legado que a gestão Lula deixará, porque&nbsp; 
  ela conseguiu formatar novos programas voltados exclusivamente para a 
  agricultura familiar. Aí, nota-se a diferença. Quando você tem uma empresa 
  pública que atua com uma orientação e quando não tem. Não é para todo mundo, 
  mas para o pequeno agricultor. Então, a CONAB está desenvolvendo vários 
  programas de compra, seja antecipada, seja direta do agricultor. Isso é tudo o 
  que o camponês precisa para trabalhar, produzir e saber que tem gente que irá 
  comprar.<BR><BR>O camponês é produtor, não é vendedor. Quando tem que ir para 
  o mercado está ferrado. Repito, uma empresa estatal com um sistema econômico 
  montado dá certo. Aí tem que ampliar, botar dinheiro em cima, porque todo o 
  dinheiro que você botar na CONAB vira alimento e vai impulsionar esse 
  ciclo.<BR>&nbsp;<BR>Combinado com a revigoração da CONAB, temos a lei dos 30% 
  - ou seja, 30% da merenda escolar tem que ser de origem da agricultura 
  familiar. Essas duas medidas, CONAB e os 30%, foram avanços muito grandes. Em 
  terceiro lugar, sem dúvida, o programa Luz para Todos, e espero que até o fim 
  do governo seja praticamente universalizado o acesso à energia 
  elétrica.<BR><BR>Nós também apresentamos dois programas complementares à 
  política agrícola que tiveram pouca ressonância. O primeiro foi o programa de 
  habitação - muito difícil - em que procuramos misturar o INCRA com a Caixa 
  Econômica Federal (CEF). Veja que nem há problemas de recursos. Com 15 mil 
  nossos companheiros constroem casas de dar inveja à classe média urbana. Mas 
  falta desenvolver uma metodologia. Nós precisamos construí-la nos próximos 
  meses para universalizar. Começamos brigando, já no primeiro mandato (do 
  presidente Lula),&nbsp; conseguimos avanços no segundo e&nbsp; acredito que 
  teremos construído umas 40 mil casas. Mas, isso não é nada perto do que 
  significa um programa como esses. A primeira coisa que uma pessoa quer é uma 
  casa com luz elétrica. Isso fixa o homem no campo. Se eu sei que meu primo 
  está pagando aluguel para morar numa favela na cidade, por que vou largar 
  minha casa? Essa é uma condicionante também para os filhos e envolve uma série 
  de questões, auto-estima, saúde etc.<BR><BR>O segundo, também apresentamos um 
  grande programa de reflorestamento. É barato. Nós poderíamos fazer um programa 
  de dois hectares por pequeno agricultor e você refloresta esse país, melhora a 
  qualidade de vida, combate as mudanças climáticas, inclusive, caminhando na 
  contr amão do agronegócio que quer acabar com as reservas para desmatar ainda 
  mais. (O reflorestamento) evita&nbsp; essa estupidez que fizeram em Santa 
  Catarina, onde não aceitam mais os 20 metros em cada margem de 
  rio.<BR><BR><STRONG>Se 2 milhões de pequenos agricultores plantarem 2 
  hectares, serão 4 milhões hectares só aí.</STRONG><BR><BR>Por ano. Aí o cara 
  começa a perceber a mudança da qualidade e diz: “os outros dois, mais outros 
  dois, eu vou plantar”.<BR><BR><EM><SPAN class=chamadapretamaiorcorpotexto>O 
  ensino superior no meio<SPAN> </SPAN>rural tem que ser 
  diferenciado</SPAN></EM></P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG>João Pedro, em relação à educação, não 
  teve nenhum programa novo, pedagogia nova para a educação rural e no campo 
  nesses seis anos e meio (governo Lula)?</STRONG><BR><BR>Do ponto de vista de 
  concepção, nós tivemos sorte. Os dois mandatos do governo Lula contaram com 
  ministros que tem uma visão diferenciada. Do ponto de vista de filosofia da 
  educação mudou. É outro papo. Estamos negociando com um governo que tem 
  percepção, mas você não consegue universalizar as políticas para o meio 
  rural.<BR><BR>Talvez agora com o novo padrão salarial dos professores, nós 
  tenhamos uma mudança, que ainda não é perceptível. Há professores do Piauí que 
  ganham R$ 75 reais/mês Então, a lei (piso nacional de R$ 950,00 para professor 
  instituído pelo presidente Lula) dará um salto na qualificação dos 
  professores. Também contamos com a metodologia em programas pontuais do 
  Programa Nacional de Educação para Reforma Ag rária (PRONERA), mas que não 
  conseguiu universalizar.<BR><BR>Qual o grande contribuição do PRONERA? Ele tem 
  uma metodologia, a da alternância&nbsp; - uma conquista nossa - para os jovens 
  do meio rural, seja para filho de assentado, seja para o do pequeno agricultor 
  que ainda não tem acesso, ou para professores do meio rural. Você tem que 
  criar cursos superiores na forma de alternância porque o cidadão não pode 
  entrar no vestibular comum e vir para a cidade todas as noites na escola. O 
  ensino superior no meio rural tem que ser diferenciado.<BR><BR>Primeiro, 
  porque o jovem terá de ir para a cidade todos os dias; segundo, os melhores 
  cursos estão nos municípios acima de 300 mil habitantes; terceiro, se ele 
  resolver todos esses impasses, ao terminar o curso, não volta 
  mais.<BR>&nbsp;<BR>Então, o que é a alternância? Você tem dois meses de 
  férias, depois concentra um período com aula, daí volta a ter o trabalho 
  normal como professor ou militante e daqui a três meses volta de novo. Com 
  esse programa – conquistado ainda no final do governo FHC, sob muita crítica, 
  porque diziam que era “picaretagem” – durante a gestão Lula, nós consolidamos 
  uma experiência. Hoje, podemos provar que a alternância não altera a 
  qualidade. Muito pelo contrário, ao concentrar o conhecimento em períodos, 
  você pode trazer especialistas daquela área. A alternância consumou-se como um 
  método.<BR><BR>Agora, o PRONERA hoje é um departamento com só três 
  funcionários dentro do INCRA. Administra recursos alocados para universidades 
  públicas e depende, evidentemente, da boa vontade da universidade. Nós temos 
  que conquistar cada curso. Sem falar que se um promotor elitista entrar na 
  justiça alegando que aquele curso é discricionário, dependendo do juiz federal 
  que está no plantão, o cara dá uma laminar e o curso é suspendido. <BR><BR>Por 
  exemplo, o único curso de direito que temos na universidade de Goiás Velho – f 
  eito com&nbsp; vestibular e inclusive com a presença do ministro Eros Grau, na 
  inauguração, público e notório que se trata de uma universidade de qualidade, 
  federal - os alunos fizeram vestibular, submeteram-se ao método da alternância 
  e o promotor resolveu entrar na Justiça. Esse tipo de coisa gera um problemão! 
  Você tem que recorrer, o INCRA tem que entrar. Então, qual é a nossa 
  reivindicação? O PRONERA tem que ser um programa do MEC que consiga 
  universalizar. Aí ninguém precisa ir lá convencer a universidade. Ela já 
  deveria oferecer dentro do seu plano de trabalho, esses cursos na forma de 
  alternância.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Isso nós estamos corrigindo. Quero também citar 
  como um lado positivo, as três universidades que estamos criando agora uma com 
  o MERCOSUL, a Fronteira Sul e a Universidade Federal do São Francisco em 
  Petrolina (PE). A Fronteira Sul, se fosse pela nossa vontade, daríamos o nome 
  de Universidade Federal Guarani, porque o território é o mesmo (das missões 
  indígenas jesuíticas, no Rio Grande do Sul). Seria uma bela homenagem aos 
  nossos antepassados que habitaram aquele território. E ela vai ser a primeira 
  universidade federal com campus em três estados.<BR><BR>As três universidades 
  têm uma vocação rural e estão mais em diálogo com os movimentos sociais. Nós, 
  portanto, estamos insistindo para que na grade delas, em seus cursos, já se 
  incorpore a experiência da alternância - na forma de freqüentar, no tipo de 
  curso. Não pode ser engenheiro agrônomo apenas, mas tem que ser um engenheiro 
  formado em agronomia agroecológica. Na área de educação o que precisaremos 
  fazer é isso. E precisamos de uma campanha séria para erradicar o 
  analfabetismo no meio rural.<BR><BR><STRONG>A oposição conseguiu o número de 
  assinaturas necessário para que fosse instalada a CPI do MST. Como vocês estão 
  avaliando isso?</STRONG><BR><BR>Nós vemos de duas formas: primeiramente, ela 
  está dentro do contexto maior da luta de classes no Brasil. Parte daquela 
  parcela da direita parlamentar brasileira, encrustrada lá no parlamento, que 
  vive querendo criar factóides para antecipar a disputa eleitoral. Como o 
  próprio deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) revelou, o principal objetivo da CPI 
  do MST é provar que o governo vai destinar dinheiro para o MST para fazer 
  campanha para a (ministra) Dilma Rousseff. Isso é ridículo! Mas, ele falou 
  isso na tribuna. Revela, então, as motivações ideológicas dele, ou seja, criar 
  factóides para fazer uma disputa eleitoral e política besta.<BR><BR>Um segundo 
  aspec to na análise dessa CPI, aqui mais da luta de classes, é que eles 
  quiseram peitar o governo quando nós fizemos essa parceria na portaria para 
  mudar os índices de produtividade. Estes precisam ser atualizados por força de 
  lei. A lei agrária determina – a de 1993 – que os índices tinham que ser 
  atualizados a cada dez anos. E os índices atuais que o INCRA usa são de 1975. 
  Uma piada.<BR>&nbsp;<BR>Então eles quiseram dar o troco. E contra o governo, 
  não contra nós, para criar um constrangimento, um jogo de troca aí. Tudo 
  contra a possibilidade de atualizar o índice de produtividade. Então se começa 
  a CPI num palanque ideológico contra nós.&nbsp; Evidentemente, sempre que 
  instalam uma CPI fazem o que querem. Todas as entidades que estão eles estão 
  dizendo que tem problemas já foram investigadas pela CPI da s ONGs e tiveram 
  sigilo quebrado. É como se diz no interior, eles estão vendo chifres em cabeça 
  de mula. Mas, esse é o papel da direitona que quer prote ger os seus 
  privilégios.<BR><BR><STRONG>Como vocês estão vendo a pesquisa da Confederação 
  Nacional da Agricultura (CNA) sobre assentamento rural?</STRONG><BR><BR>Isso 
  não merece nem comentário. É uma fraude que não tem pé, nem cabeça. Não é nem 
  uma amostra representativa. Entre oito mil assentamentos que há no país, eles 
  (a CNA)&nbsp; escolheram só nove e ao seu bel prazer. Um deles, em Pernambuco, 
  era da época da ditadura, emancipado em 1975.<BR>&nbsp;<BR>A única explicação 
  que me vem é que a CNA fez algum jogo de aliança política com o IBOPE, talvez 
  pagando dívidas do serviço que o IBOPE&nbsp; fez na época da campanha da Katia 
  Abreu (senadora do DEM do Tocantins). É a única explicação que nos ocorre para 
  tamanho absurdo. A isso (à pesquisa) todos os pesquisadores sérios reagiram. 
  Isso depõe contra o IBOPE. O que ficou claro é que ele perdeu sua 
  credibilidade. Como ele pode ter se prestado a esse tipo de jogo rasteiro? 
  Pior ainda, divulgara m&nbsp; a pesquisa deles uma semana depois do Censo 
  Agropecuário que não é uma simples pesquisa – no censo, os pesquisadores do 
  IBGE vão em todos os estabelecimentos agropecuários desse país. <BR><BR>A 
  pesquisa da CNA, repito, não tem pé, nem cabeça. De 8 mil assentamentos, 
  pegaram nove. Um total de mil famílias de nove assentamentos, num universo de 
  1 milhão de famílias em oito mil assentamentos.<BR><BR><STRONG>Sobre o 
  episódio em São Paulo, na fazenda do Grupo Cutrale, qual a avaliação que você 
  está fazendo? A mídia conservadora o transformou em escândalo, durante quase 
  uma semana, ou mais, isso ocupou os principais noticiários. Qual a sua 
  avaliação, houve erros na ocupação da fazenda?</STRONG></P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">A CUTRALE que tem mais de 30 fazendas em São 
  Paulo, somando mais de 50 mil hectares, está em dívida com a Justiça Federal. 
  Aquela área foi comprada de um grilo e eles sabiam. Eles partiram para o risco 
  de comprar uma área grilada, contando com as influências políticas que tem na 
  República do Brasil. Como estão acostumados com o monopólio da laranja, 
  encheram de laranja para consolidar que a área era produtiva etc. Mas toda 
  aquela área onde houve a ocupação - nem é só da Cutrale - é o chamado grande 
  grilo (terras griladas) do Monção. A origem desse grilo é de terras que a 
  União comprou em 1910 - portanto houve dinheiro público na compra da área 
  original – para um projeto de colonização para famílias japonesas que não deu 
  certo. Então, as terras foram ficando e houve esse grilo. A ocupação feita 
  agora pelos sem-terra tinha a vontade política, o objetivo de fazer essa 
  denúncia. Nisso a ocupação foi eficaz.<BR><BR>Agora, o fato de terem derrubado 
  laranjais foi um erro dos companheiros que estavam lá. Nós que estamos no meio 
  da briga, entendemos o desespero das famílias que estão há cinco anos querendo 
  ter a terra e sabem que essa terra é grilada. O INCRA mesmo disse:&nbsp; “essa 
  terra é da União”. Então&nbsp; o cara, o sem-terra&nbsp; chega na fazenda e 
  quer&nbsp; plantar feijão. Evidentemente, a direita soube explorar muito bem 
  esse fato, a partir de um erro nosso. <BR><BR>Mais dia, menos dia, iriam pegar 
  qualquer erro nosso e exponenciar ao máximo. É o caso das imagens (exibidas na 
  mídia). Elas foram feitas no dia 28/09, eles pensaram "quando vamos usar?" E 
  esperaram, dias e dias, para fazer essa superexposição. Aquilo não foi uma 
  reportagem sobre a ocupação, apresentada no dia em que ela ocorreu. Fora o 
  fato de aquilo ter sido filmado pelo serviço secreto da PM. Não foi nenhuma 
  reportagem da Globo que estava lá.<BR><BR>Um segundo aspecto:&nbsp; todas as 
  outras i magens de depredação de trator, invasão das casas dos funcionários 
  são mentira. Aquilo é manipulação. Nós os desafiamos publicamente a 
  constituirem uma comissão independente - e com o Ministério Público, se quiser 
  - e a irem lá e fazer a perícia para descobrir desde quando esses tratores 
  estão desmontados. Isso é muito fácil de verificar. Que a comissão pergunte 
  para as famílias (de empregados do grupo Cutrale) se algum sem-terra entrou na 
  casa deles.<BR>&nbsp;<BR>Mas, houve o erro, evidentemente, e com esse erro, a 
  burguesia da elite econômica, que tem o monopólio da comunicação, está 
  explorando. E nós estamos pagando caro, porque com isso, criaram o sentimento 
  que levou ao recolhimento e obtenção das assinaturas para a 
  CPI.<BR><BR><STRONG>O ex-ministro da Fazenda tucano, Luiz Carlos 
  Bresser-Pereira e o ex-presidente da República, José Sarney, hoje presidente 
  do Senado, apontaram tanto no caso da CPI, quanto na pesquisa dos 
  assentamentos fei ta pelo IBOPE, por encomenda da CNA , a tentativa de 
  criminalizar o MST. Qual a a&nbsp; avaliação que vocês fazem?</STRONG></P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Esse tema da criminalização nós temos que 
  entender direito como é&nbsp; usado. Não é uma coisa que houve, ou que há, 
  numa época de ditadura. Nós já estávamos na democracia quando o latifúndio, 
  para se proteger, iniciou um processo de assassinato e de violência física 
  contra quem lutava pela reforma agrária. Esse período nós já passamos. A 
  violência física diminuiu, até por conta da nossa forma de organização. A 
  criminalização agora é muito mais no sentido ideológico e político. É com o 
  objetivo de&nbsp; desmoralizar quem faz luta social. Esse é o sentido da 
  criminalização do MST e dos demais movimentos sociais.<BR>&nbsp;<BR>Daí porque 
  a Rede Globo, o Estadão e a VEJA se transformaram no principal instrumento 
  dessa fase de criminalização. Na fase anterior, eram as armas; agora, o método 
  de tentar nos desmoralizar é através da imprensa. Nós temos tido o cuidado de 
  não criar uma paranóia. Mas, o objetivo desses ve ículos e daqueles cujos 
  interesses eles representam é muito mais no sentido de deslegitimar e 
  desmoralizar quem faz a luta social. Independente de quem a fizer. Eles também 
  fazem o mesmo quando tem ocupação de sem teto e outras coisas. A tentativa não 
  é de criminalizar só o MST, é criminalizar todos os movimentos 
  sociais.<BR><BR><STRONG>É, agora, nas manifestações das favelas em São Paulo, 
  nas dos bairros na periferia, contra a PM. Dizem que tudo é baderna. É a 
  maneira de&nbsp; desqualificarem o caráter social e político da manifestação 
  contra a violência da polícia e contra a falta de atuação do Estado. Os 
  jornais só dizem que é baderna e que tem que ser reprimido. Para eles, está 
  tudo certo (a repressão) e ainda registram “infelizmente morreu uma 
  criança”.</STRONG><BR>&nbsp; <SPAN class=chamadaverdecorpotexto><BR></SPAN>O 
  que eles fizeram em relação a áreas em que há despejo, por exemplo, o naquela 
  área em Embu.<BR><BR><STRONG>Aqu ilo foi articulado para ter apoio dos meios 
  de comunicação. É um exemplo da polícia para ser aplicado no país depois. Vão 
  calcar no eleitorado de direita, conservador. Dizer que o bom é aquele exemplo 
  do Serra em São Paulo.</STRONG></P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Da governadora Yeda Crusius no Rio Grande do 
  Sul também. A dona Yeda já começou (a governar, em 2007) sem base social. E 
  como ela se posicionou? Transformou a Brigada Militar (PM gaúcha) em cão de 
  guarda do capital. Chamou os setores do Ministério Publico fascistas, 
  claramente afinados com sua proposta ideológica e, financiada por grandes 
  grupos econômicos, tentou impor um governo ditadorial. Ela se desmoralizou 
  porque ficou evidente. No governo dela ficou tudo tão centralizado, que ao 
  ultrapassar o limite da corrupção, veio a público e ela não pode controlar. 
  Controla a parte do ministério público estadual, mas não o federal que, 
  inclusive, fez as denúncias (de improbidade administrativa e manipulação de 
  concorrência e licitações) contra ela.<BR><BR>Acho, então, que tanto o artigo 
  do Sarney quanto o do Bresser Pereira foram duas manifestações das mais 
  lúcidas desse campo da elite intelectualizada brasileira, porqu e eles 
  comentaram a razão dos fatos e não simplesmente a questão ideológica.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify"><EM><SPAN 
  class=chamadapretamaiorcorpotexto>Apoio ou oposição é para partidos, movimento 
  social deve ser autônomo</SPAN></EM></P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify"><STRONG>Qual a avaliação política que você faz 
  da atuação do MST nesse período do governo Lula? Houve fortalecimento? O 
  movimento está mais ou menos forte, mais ou menos organizado, com mais ou 
  menos bases e apoio da sociedade?</STRONG></P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Nos últimos anos o MST consolidou um acúmulo de 
  forças própria. E foi correta a nossa política em relação ao governo Lula, de 
  manter autonomia política para resguardar a saúde que deve ter um movimento 
  social. Ou seja, nem caímos num adesismo de "agora, como elegemos o 
  Lula..."&nbsp; – toda a base dos sem-terra votou no Lula – nem nos 
  transformamos em puxa-sacos, ou chapas-branca como se diz. Ao mesmo tempo, não 
  caímos no que certos setores da esquerda caíram de “ah, o governo Lula não 
  conseguiu mudar a política econômica, então vamos para a oposição e tudo o que 
  vier do governo Lula é ruim”. Alguns movimentos sociais fizeram essa inflexão. 
  Foram para a oposição. O que nós dizemos é que o papel de apoio ou oposição é 
  para partidos políticos. Movimento social tem que ser autônomo. Seja qual for 
  o governo ou o Estado, temos que ter autonomia.<BR><BR>Nós pagamos caro por 
  essa política. Amigos que queriam que fossemos adesistas, nos chamaram de 
  esquerdistas. E os esquerdistas disseram “não, vocês são muito 
  adesistas”.&nbsp; E difícil, mas nós estamos convencidos de que essa foi a 
  política que, inclusive, nos salvou, porque senão, provavelmente, o movimento 
  teria tido sérios problemas de crescimento. Essa foi a 
  situação.<BR>&nbsp;<BR>Agora, em relação à reforma agrária, penso que ela não 
  depende mais do MST. No começo do governo Lula, havia aquela euforia. No 
  início de 2003, em torno de 200 mil famílias foram para acampamentos, porque 
  havia uma vontade política da nossa parte e achamos, "agora com o Lula", 
  que&nbsp; haveria o reacenso da massa. E não houve.<BR>&nbsp;<BR>Então, a 
  reforma agrária não depende mais do MST, mas de uma nova correlação de forças 
  na sociedade. Depende de um reacenso do movimento de massas porque a classe 
  trabalhadora que vive no campo é minoritária. Nós não alteramos mais a 
  correlação de forças. Ela só irá ser alterada se h ouver movimentação social 
  na cidade.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Essa é a nossa tragédia. Nós somos um movimento 
  com unidade, temos clareza política, sabemos onde queremos ir, mas não temos 
  força própria suficiente para alterar a correlação. Temos que esperar que a 
  turma da cidade também faça um movimento que reative o movimento de massas e 
  que aí sim, altere a correlação de forças para pressionarmos a realização de 
  uma reforma agrária mais rápida.<BR><BR>Assim, os avanços da reforma agrária 
  não dependem nem do MST, nem só da luta social no campo. Dependem da luta 
  social no Brasil inteiro.<BR><BR><STRONG>Como vocês estão vendo a eleição de 
  2010, na medida em que apoiaram direta ou indiretamente a candidatura Lula, e 
  levando em consideração as conseqüências para a América Latina, se o projeto 
  político que o Lula representa for derrotado no Brasil?</STRONG><BR><BR>Não 
  temos feito um debate mais eleitoral. Estamos tendo cuidado com isso. O nosso 
  debate interno ainda é sobre a política geral, a luta de classes e a 
  correlação de forças. Em termos gerais, te respondo pelo que é da tradição da 
  nossa política: primeiro, manter nossa autonomia; segundo, continuar nosso 
  trabalho político e ideológico de estimular – e é assim que nossa militância 
  se comporta – o eleitor a sempre votar tanto em nível federal, quanto 
  estadual, quanto municpal, nos candidatos mais progressistas e que defendem a 
  reforma agrária; terceiro, há uma vontade e decisão política de barrar a volta 
  do neoliberalismo.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify"><EM><SPAN 
  class=chamadapretamaiorcorpotexto>Luta contra a restauração do 
  neoliberalismo</SPAN></EM></P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Estamos e somos contra os projetos de 
  restauração do neoliberalismo. Sem dúvida, o MST estará nas primeiras 
  trincheiras da batalha. Fazemos questão de ajudar a contribuir para que o 
  neoliberalismo não se restaure aqui no Brasil.<BR><BR>Os jornalistas 
  perguntam: “vocês são da Marina, da Dilma, do Ciro etc”,&nbsp; o que 
  respondemos é que não nos cabe discutir nomes agora. O que temos que estimular 
  na sociedade brasileira é a discussão de um projeto para que ao redor dele as 
  pessoas votem com consciência.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Nós não caímos nos simplismo de vontades 
  eleitorais, ou partidárias, ou por afinidades pessoais. Tem gente que diz: 
  "pessoalmente a Dilma é muito parecida com o Ciro... " Isso não explica nada! 
  Então, até para não cair nesse tipo de reducionismo, nós achamos que o debate 
  político a ser feito daqui a até outubro do ano que vem tem que ser sobre a 
  necessidade de um projeto para o país, para que as pessoas saibam o que está 
  em jogo e que tipo de projeto nós temos que fazer avançar daqui para a frente. 
  Esse é o debate que estamos fazendo entre nós.<BR><BR>Evidentemente, que no 
  caso do Rio Grande do Sul, a batalha será mais dura, porque por todo o uso que 
  fez da Brigada Militar e do ministério publico estadual, o projeto da Yeda 
  (Crusius) foi não só o da restauração do neoliberalismo, mas dos fascistas. 
  Depende de cada Estado, o maior ou menor engajamento da militância. E isso se 
  dará, também, em função das candidatu ras estaduais. Os governadores tem muito 
  peso nas lutas sóciais do campo, já que quem nos reprime são as polícias 
  estaduais.<BR><STRONG><BR>Como o MST é um movimento com grande inserção 
  internacional, inclusive pela Via Campesina, como vocês avaliam o cenário 
  internacional após dez meses da eleição de Barack Obama e um pouco também 
  sobre a América Latina e a relação com as eleições do ano que vem?</STRONG> 
  <BR><BR>Nós estamos muito preocupados. Estamos vindo de dez anos de avanços 
  das forças progressistas, mas esse avanço registrado a partir de 1999 com a 
  subida do presidente Hugo Chávez (Venezuela) até hoje, não veio acompanhado 
  com o reacenso do movimento de massas. Talvez, na Bolívia aconteceu, mas nos 
  demais países não. Isso criou uma dificuldade maior. Ao se dar conta de que as 
  massas não vieram para o reacenso, para participar mais da atividade, 
  evidentemente, o império está tentando reestaurar o seu projeto para a América 
  Latina . <BR><BR>Os EUA tinham sido derrotados nesses dez anos. Foram 
  derrotados na ALCA e agora tentam recompor esse projeto, que inclusive, 
  independe da postura pessoal do Obama. O projeto do império é o do capital 
  imperialista, do Estado belicista norte-americano. Há alguns dias, ouvi uma 
  palestra na qual o orador dizia que toda a tentativa da economia 
  norteamericana de sair da crise é aumentando a indústria bélica. Nem é pela 
  saúde, nem por um Bolsa Família, eles poderiam criar uma bolsa família para os 
  pobres norte-americanos e incentivar o mercado interno ou frear as importações 
  da China. Não. A alternativa principal que o capital americano está tomando 
  para sair da crise é o aumento da sua produção bélica e com isso, ter mais 
  armas e munição.<BR><BR>Isso é um perigo, porque eles vão estimular conflitos 
  até para reativar sua economia. Nesse cenário, nós vemos os EUA acelerando, 
  mudando o passo. O caso de Honduras, por exemplo, todos sabemos qu e a base 
  americana se envolveu, o embaixador se envolveu. No Panamá, idem. Essas bases 
  da Colômbia (seis norte-americanas) são uma ofensa a todo o continente, um 
  caso inadmissível.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Nessa questão concordamos com a avaliação do 
  Chávez, de que é uma tentativa de transformar a Colômbia numa Israel na 
  América do Sul. Sobretudo uma tentativa de levar a uma guerra fria entre a 
  Colômbia e a Venezuela. É o pior dos mundos porque obriga a Venezuela a gastar 
  dinheiro público em armamento, tanque e helicóptero ao invés de comprar casa e 
  construir metrô.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">Então, estimula-se uma guerra fria regional 
  para barrar o processo venezuelano. Pelo que se vê pelo Chile e o Peru, 
  trata-se de reativar as direitonas locais para tentar retomar o controle. Não 
  se sabe até que ponto essa mesma direita americana vai insuflar nossas 
  eleições. É possível que aqui no Brasil também. Com isso, o tom ideológico 
  aumenta.</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify">&nbsp;</P>
  <P style="TEXT-ALIGN: justify" class=MsoNormal>&nbsp;</P><BR><BR></BLOCKQUOTE>
<P>
<HR>

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