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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT face=Forte color=#ff0000 size=6>Carta O Berro<FONT
size=3>................................................................................................repassem</FONT></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<DIV>----- Original Message ----- </DIV>
<DIV style="FONT: 10pt arial">
<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><B>From:</B> <A
title=caiquemiranda@globo.com href="mailto:caiquemiranda@globo.com">Carlos
Henrique Tibiriçá Miranda</A> </DIV></DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-VARIANT: small-caps; mso-bidi-font-size: 11.0pt"><FONT
size=5>A natureza da crise e suas circunstâncias para o Brasil</FONT><A title=""
style="mso-footnote-id: ftn1" href="mhtml:mid://00000311/#_ftn1"
name=_ftnref1><SPAN class=MsoFootnoteReference><SPAN
style="mso-special-character: footnote"><SPAN class=MsoFootnoteReference><B
style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt; LINE-HEIGHT: 115%; FONT-FAMILY: Calibri; mso-bidi-font-size: 11.0pt; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA">[1]</SPAN></B></SPAN></SPAN></SPAN></A><o:p></o:p></SPAN></B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><o:p> </o:p></B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><o:p> </o:p></B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="mso-spacerun: yes">
</SPAN>João Pedro Stedile<o:p></o:p></B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><o:p> </o:p></B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><o:p> </o:p></B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.45pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Boa
noite companheiros e companheiras. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.45pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Agradeço
a oportunidade de estar aqui com vocês, porque sei que se formou, um coletivo de
muitos militantes e dirigentes que atuam em diversas esferas da sociedade
brasileira e dos movimentos da classe trabalhadora que estão deveras preocupados
em debater a situação de nosso país, ainda mais agora diante desse contexto
histórico que é marcado por uma situação de crise. E, portanto, acho que a minha
obrigação é compartilhar com vocês – os que não estão nessas esferas – para que
tenham uma compreensão de qual é o nível do debate que está acontecendo nos
movimentos sociais. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.45pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Vou
dividir a minha exposição em vários capítulos. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.45pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: -14.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify; mso-list: l0 level1 lfo1"><B
style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 12pt; mso-bidi-font-size: 11.0pt; mso-bidi-font-family: Calibri"><SPAN
style="mso-list: Ignore"><FONT size=4>1.<SPAN
style="FONT: 7pt 'Times New Roman'">
</SPAN></FONT></SPAN></SPAN></B><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 12pt; mso-bidi-font-size: 11.0pt"><FONT size=4>Leitura dos
movimentos sociais sobre a natureza da crise.</FONT> </SPAN></B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: -14.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify; mso-list: l0 level1 lfo1"><B
style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 12pt; mso-bidi-font-size: 11.0pt"><FONT
size=4></FONT><o:p></o:p></SPAN></B> </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Os
economistas em geral fazem muitas avaliações, levantando hipóteses, tentando
interpretar a natureza da crise. E na imprensa todos os dias há comentários
desse tipo e na literatura especializada também há muitos artigos e ensaios. Eu
acho que a polêmica maior que ainda pode ter entre aqueles economistas que eu
acho que estão em maior número (entre os economistas neoclássicos) e que
procuram fazer uma leitura do capitalismo a partir das necessidades do capital,
portanto, ideologicamente, se somam aos interesses da burguesia. E esses
economistas – acho que já está meio a meio – mas um grande número deles ainda
defendem a idéia de que nós estamos vivendo uma crise cíclica, apenas.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">E
há um outro grupo de economistas, que nós achamos<SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>já é majoritário, que defendem que a
crise não é cíclica, mas é sistêmica. Qual é a diferença entre as duas, na nossa
leitura, mais militante, digamos assim? É que as crises cíclicas, que fazem
parte da lógica de funcionamento do capitalismo industrial,<SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>portanto nos últimos duzentos anos, de
maneira geral, têm ocorrido a cada 10, 15 anos e são de curta duração (em geral,
de <st1:metricconverter w:st="on" ProductID="3 a">3 a</st1:metricconverter> 4
anos) e todas essas crises cíclicas eclodem num setor da produção ou apenas em
algum país. Essas seriam as características básicas do que se pode chamar de
“crise cíclica”. E já andaram fazendo um levantamento, talvez tendo por base os
livros do Giovanni Arrighi, que já teriam acontecido mais de 300 crises cíclicas
do capitalismo desde a Revolução Industrial pra cá, somadas todas essas que vão
acontecendo em cada pais. E portanto eles usam essa estatística pra dizer: “não
precisamos nos afobar, isso já aconteceu tantas vezes que nós vamos sair dessa
também!”. Aqui no Brasil, podemos classificar, no período mais recente, como
crises cíclicas, as que aconteceram na década de 60 - 64, em que houve uma crise
do modelo de industrialização dependente; depois nós tivemos outra crise cíclica
na década de 80 - 84, que resultou na derrota da ditadura militar com
conseqüência; depois no segundo governo do Fernando Henrique,
<st1:metricconverter w:st="on" ProductID="1998 a">1998 a</st1:metricconverter>
2001, nós enfrentamos uma crise cíclica. Então essas seriam as três crises mais
recentes que a economia brasileira enfrentou.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Bem,
e há os outros economistas que dizem que estamos diante de uma crise sistêmica,
que nesse caso seria uma crise que afeta todo o sistema capitalista, e, em
geral, tem sido internacional, ou seja, ela não afeta somente um país ou um
setor da economia, mas afeta os pólos centrais da economia capitalista no mundo.
E como ilustração dessa crise sistêmica, são citados como exemplos: a crise que
ocorreu no final do século XIX (de <st1:metricconverter w:st="on"
ProductID="1870 a">1870 a</st1:metricconverter> mais 1896), que pra lembrar os
mais jovens (que não estavam lá, evidentemente), uma das contradições daquela
primeira grande crise sistêmica foi a eclosão da primeira revolta
popular-operária – a Comuna de Paris. Depois nós tivemos a crise de
<st1:metricconverter w:st="on" ProductID="1929 a">1929 a</st1:metricconverter>
1945, que também todos já conhecem, que teve conseqüências muito importantes no
capitalismo, na correlação de forças mundial e só se resolveu com a guerra
mundial.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Então,
nós dos movimentos sociais estamos dizendo que essa crise que estamos entrando
agora provavelmente se trata de uma crise sistêmica, e não apenas cíclica. E se
é certa essa hipótese (que ainda é uma hipótese, pois estamos ainda no começo
dela e podemos estar errados), então seguramente será uma crise prolongada, de
no mínimo 5 anos, como José Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia argumenta. E, em
média, nós não nos escaparemos de no mínimo 10 anos. Mesmo que o capitalismo
queira se rejuvenescer e ingressar num novo ciclo de acumulação, se a crise for
de fato sistêmica, eles não conseguem fazer o reajuste em menos de 10 anos.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">E
também, vários de nossos intelectuais orgânicos têm nos advertido que, além de
ser uma crise sistêmica, ela ainda tem algumas características ainda mais
preocupantes se comparada com as outras duas. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Pela
primeira vez estamos diante de uma crise que não é só internacional, que antes
pegava o pólo do capitalismo (EUA e Europa), mas agora é uma crise mundial, que
afeta todos os países do mundo. Mesmo a solidária Cuba, se defendendo,
resistindo, tentando construir o socialismo, evidentemente está sendo afetada
por essa crise. Mesmo o modelo econômico alternativo que o Chávez tenta
construir na Venezuela está sendo afetado pela crise. Então ela tem essa
natureza que as outras não tiveram, que vai ser uma crise mundial, já está sendo
mundial. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Uma
característica que vários pensadores agregam é de que ninguém sabe das
conseqüências sociais que essa crise terá, porque quando eclodiram as outras
crises prolongadas, a maioria da população mundial vivia no meio rural, e como
todos aqui – acredito – dominam essa terminologia, o modo de produção dos
camponeses não é capitalista, ou seja, o camponês trabalha com mão de obra
familiar e ele tem uma outra lógica de produção; a lógica dele não é o lucro,
mas primeiro produzir para a sobrevivência e depois vender o excedente no
mercado. Portanto, o próprio Marx já tinha chamado a forma camponesa como
pré-capitalista, que é verdade, porque essa forma camponesa de produzir bens
agrícolas já vem gestada no feudalismo. Então, os camponeses conseguem se
proteger mais das crises capitalistas, porque o jeito de produzir não é
tipicamente capitalista. Nas outras duas crises, a maior parte da população
vivia no campo, e, portanto, conseguia amaciar os efeitos sociais da crise.
Agora, pela primeira vez na história, 51% da humanidade mora na cidade, e se
tirarmos a Índia e a China, vai pra <SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>70% da população que mora na cidade.
Então ninguém sabe mensurar a gravidade dos problemas sociais que uma crise
dessa magnitude pode trazer pra essa população, que estando nas grandes cidades,
está completamente à mercê da sorte.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">A
outra característica que todos nos advertem, que também é nova, é que o capital
se internacionalizou, se globalizou. Hoje as 500 maiores corporações é que
dominam a economia mundial. As 50 maiores corporações têm um PIB, como empresa,
maior que os 100 países menores. A sucursal da Petrobrás na Bolívia tem um PIB
equivalente a 15% de toda economia nacional da Bolívia. A Vale do Rio Doce tem
um PIB uma vez e meia ao PIB do Pará: quem manda mais no Pará, a Dona Ana Júlia
ou o Seu Roger Agnelli? Se o Marx tem razão, marquemos nossas próximas
audiências com o Roger Agnelli, presidente da Vale, porque ele tem muito mais
poder econômico e influência no estado do Pará que a governadora.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Então,
voltando à lógica da política, qual é a contradição que está formada? O capital
está sendo gerido por forças das grandes corporações. E quais são as medidas
políticas que podem enfrentar esse capital a nível internacional? Só um sistema
de governança internacional, pra poder botar ordem nesse capitalismo, nessa
lógica do capitalismo que circular em nível internacional. E quais são os
organismos de governança internacional que nós temos hoje? Todos eles, como
dizemos lá no Rio Grande, “mais sujos que pau de galinheiro”, porque todos eles
são responsáveis por essa crise. Alguém respeita o Fundo Monetário
Internacional? Alguém respeita o Banco Mundial? Francamente, alguém respeita as
Nações Unidas? Tem 300 resoluções da ONU sobre a Palestina, Iraque, etc e
ninguém respeita. Então, vai ser a ONU que vai regular o capital? É ilusão.
Aliás, agora o presidente da Assembléia Geral da ONU, é um antigo militante da
esquerda, o padre Miguel D’Escoto, da Nicarágua, está convocando um seminário
pelas Nações Unidas para debater a crise e os governos não aceitam. Ou seja, as
Nações Unidas não têm cacife para chamar um seminário com os governos para
debater a crise, imagine para regular a crise. Então, qual é a contradição que
está posta aí? É que o capital é internacional, mas falta um poder político que
o regule. Nas outras crises, esse poder político vinha da vitória militar, da
guerra. Como agora eles não podem mais fazer guerra mundial (adiante trataremos
disso), há uma ausência de poder político que possa regular o capital. Portanto,
essa contradição entre o poder econômico e a ausência de poder político pode
levar inclusive que a crise se prolongue, ou que a saída seja apenas pelo lado
do poder econômico e não das sociedades que estão envolvidas.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">A
outra característica que eu queria chamar a atenção é de que, durante o século
XX, o pólo de acumulação capitalista, do capitalismo industrial, esteve baseado
na indústria automobilística. Tudo era em função do automóvel, o automóvel foi a
locomotiva da acumulação de capital. Ao redor deles ao formarem as siderúrgicas,
as metalúrgicas e os consumidores. E as cidades funcionando apenas para o
automóvel. Eu, cada vez que tenho que caminhar a pé <st1:PersonName w:st="on"
ProductID="em S ̄o Paulo">em São Paulo</st1:PersonName> fico puto da cara, e quem
mora nesse bairro aqui mais ainda, pois <SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>até as calçadas não são feitas para o
pedestre, são feitas pro automóvel entrar na garagem. Então, eu vivo dizendo pra
provocar os paulistanos: amanhã ou depois as funerárias vão oferecer mais esse
serviço – o paulistano terá direito de ser enterrado no seu automóvel, com o seu
automóvel, porque a paixão que a sociedade industrial criou em torno do
automóvel é impressionante! Virou objetivo da vida social, o que é uma
ilusão!</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Bem,
então voltemos a raciocinar juntos. Nas crises cíclicas, por exemplo na
indústria automobilística, cai a produção, a taxa de lucro, mas eles dão um
jeito de sair da crise e na etapa seguinte de acumulação – o que é normal –
volta a indústria automobilística a produzir mais veículos. E volta o lucro e a
taxa de acumulação.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Muito
bem, então eu lhes pergunto: que tal sair da atual crise<SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>produzindo ainda <SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>mais automóveis? Será a saída? Não tem
saída! São Paulo vocês estão vendo: São Paulo tem 6 milhões de veículos; os
físicos já calcularam: se todos os automóveis saírem para a rua, não cabem. Tem
que vir a cegonha junto pra ir um em cima do outro. Não cabem todos os veículos
<st1:PersonName w:st="on" ProductID="em S ̄o Paulo">em São Paulo</st1:PersonName>
se todos eles forem pra rua! Ou seja, é inviável esse modelo de capitalismo
industrial baseado no transporte individual. Assim como é inviável, nós termos
um novo “boom” de crescimento baseado na indústria automobilística: e o
combustível <SPAN style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>vamos pegar da onde?
“Ah, mas o petróleo está estabilizado!” “Tá bom, não dá mais o petróleo vamos
para o agrocombustível!” E quanta área agricultável nós vamos ter que plantar de
cana? Se aqui <st1:PersonName w:st="on" ProductID="em S ̄o Paulo">em São
Paulo</st1:PersonName> já está insuportável com 4 milhões de hectares pra botar
30% do álcool na gasolina, imagine se houver a necessidade de botar 100%? Não há
terra! Até o Fidel já fez esse cálculo, não há terra suficiente, pra produzir a
cana necessária no mundo, no planeta! Portanto, isso nos leva pra uma reflexão
positiva pra classe trabalhadora: que mesmo que o capitalismo saía da crise num
novo ciclo de crescimento, certamente, não poderá ser pelo automóvel, pela
indústria automobilística. Eles vão ter que inventar outra coisa. E, portanto,
as mudanças que virão no novo ciclo, podem afetar os parâmetros atuais de
consumo da sociedade.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Bem,
e há outros companheiros que também nos chamam atenção sobre as conseqüências
climáticas. Porque esse modelo de industrialização, esse padrão de consumo a
todo custo pra acumular dinheiro chegou a seus limites da disponibilidade de
recursos naturais. Limites não só agrícolas, limites de minério de ferro,
limites de transporte, disso tudo. E essa forma industrial de produção está na
base das alterações climáticas do nosso planeta, basta ligar a televisão, todos
os dias nós temos uma notícia nova. Pra dar um depoimento da minha terra, o Rio
Grande do Sul, nos últimos 10 anos, nós já enfrentamos 5 secas. Mas qual é a
novidade? As secas no Rio Grande vêm acontecendo no inverno. Todo aquele clima
chuvoso que vocês estão acostumados a ver no Rio Grande não existe mais, nós
estamos em seca agora em pleno inverno. Cento e dez municípios não têm água pra
beber no interior, no interior! As populações estão apavoradas. E, lembra os
cientistas não conseguem provar cientificamente, é evidente que isso tem relação
com o monocultivo industrial da agricultura, com a forma de produzir voltada
mais para a indústria, de acumulação de capital, do que do bem-estar das
populações. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Bem,
ainda sobre a natureza da crise, um pitaco. Tem havido muito a polêmica aqui no
Brasil, sobretudo defendido pelo governo, de que o Brasil não estaria sofrendo
essa crise, porque vai crescer 1%, 2% e tal. Qual é a leitura que nós fazemos? É
que, se é verdade que é uma crise mundial, no entanto, como é da própria
natureza do desenvolvimento desigual do capitalismo e das formas de acumular,
evidentemente que os efeitos da crise serão diferentes de país a país, de acordo
com o seu tamanho, com o tipo de produção que tem, etc. E evidentemente que o
Brasil tem características que o protegem mais da crise, em relação a outros
países que são mais dependentes. Me atrevo inclusive a dizer: a Venezuela está
muito mais vulnerável à crise, em função de sua dependência ao petróleo, que a
economia brasileira. Mas isso não significa que a população da Venezuela vai
sofrer mais que a população brasileira. Porque em geral os economistas só se
referem a estatísticas econômicas: se a taxa de lucro é menor ou maior, se
cresceu ou não cresceu, mas se esquecem das taxas sociais, de como essa crise ta
afetando a população.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Então,
me atento ainda aos termos econômicos, a maioria das avaliações dizem que alguns
países vão sofrer recessão. O que é a recessão? É quando a produção vai caindo
paulatinamente, é sucessiva. Imagino que o Pochmann, que gosta desse tema, tenha
tratado. É como se fosse uma escada: você a cada degrau vai descer mais um. Isso
é a recessão na economia, no PIB nacional. Outros países vão sofrer depressão.
Depressão é como se a economia descesse de elevador então. De um ano pra outro,
“boof”, caiu 5 andares. Isso é depressão, a quebradeira. Quais foram os países
que já tão em depressão no mundo? A Islândia quebrou, está em depressão, caiu do
10º andar, não sabe o que fazer; há outros países lá na África que tão em
depressão, mas não são todos. Recessão, pelo que tudo está indicando, a economia
dos EUA e as várias economias da Europa. E há um terceiro tipo de comportamento
da crise nos países, que nós poderíamos chamar estagnação. Quando há crescimento
menor e pois queda. Então a economia cresce 1%, cai 2% e assim vai. A ondulação.
Eu acho que a economia do Brasil vai sofrer esse movimento, não da recessão e
nem da depressão. Mas, mesmo assim, a tendência é que ao longo dos próximos
<st1:metricconverter w:st="on" ProductID="5 a">5 a</st1:metricconverter> 10
anos, no geral, a economia não vai crescer, ela pode crescer 2% um ano, depois
desce 1%, e o crescimento demográfico da população ao longo dos 10 anos vai ser
maior, como aconteceu na crise de 80, que foi chamada a década perdida.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.45pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Bem,
então esses são alguns elementos sobre a natureza da crise, da leitura que nós
fazemos.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: -14.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify; mso-list: l0 level1 lfo1"><B
style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="mso-bidi-font-family: Calibri"><SPAN style="mso-list: Ignore"><FONT
size=4>2.<SPAN style="FONT: 7pt 'Times New Roman'">
</SPAN></FONT></SPAN></SPAN></B><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><FONT
size=4>Quais são as saídas clássicas que o capital costuma tomar<SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>pra sair da crise.</FONT> </B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: -14.2pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify; mso-list: l0 level1 lfo1"><B
style="mso-bidi-font-weight: normal"><FONT
size=4></FONT><o:p></o:p></B> </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">E
isso é muito importante os movimentos da classe trabalhadora entenderem, porque
é preciso entender como é os capitalistas vão agir. E esses jeitos do
capitalista enfrentar a crise são clássicos, eles fazem isso nas crises
cíclicas, fazem isso nas crises sistêmicas. Então, se nós da classe trabalhadora
queremos proteger nossos interesses, como classe, nós devemos estar atentos,
porque a tendência é os capitalistas repetirem as mesmas fórmulas que eles já
experimentaram em outros períodos da história. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Quais
são essas saídas clássicas do capital?</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Primeiro,
eles precisam, durante a crise, destruir o capital acumulado. Porque a natureza
fundamental (espero que isso os outros professores tenham explicado) é que a
crise é gerada também por uma super-acumulação, que faz com que a classe
trabalhadora não tenha dinheiro (que a renda foi lá concentrada com eles) pra
continuar comprando os bens que ela mesma produz. Então o capital pra sair da
crise e entrar num novo ciclo de acumulação, ele precisa destruir esse capital
sobrante. E ele destrói de mil e umas formas. Nos noticiários atuais, vocês
devem ter acompanhado, já foram destruídos nos EUA 4 trilhões de dólares. Alguém
perdeu. Muito mais gente perdeu porque foram destruídos 4 trilhões que estão na
forma de dinheiro, na forma de papel. Aí alguém de vocês pode dizer: “Mas foi
nos Estados Unidos”. Tá bem vamos pro Brasil aqui. O Fundo de Previdência dos
Bancários, espero que não tenha nenhum bancário aí <SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>o Fundo de Previdência dos Bancários que
aplica o seu dinheiro em ações perdeu nessa crise, em 6 meses, 28 bilhões de
reais. Perdeu! E daqui a 10-15 anos quando parte da categoria precisar desses
fundos pra complementar a aposentadoria, vão se dar conta da crise lá de
2009.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Segunda
forma do capital agir é que eles sempre, em época de crise, aumentam a
exploração dos trabalhadores. É lógico! Se a taxa de lucro na crise cai, pra
eles se recomporem e voltarem para um novo ciclo, eles precisam recompor a taxa
de lucro; pra aumentar a taxa de lucro, eles têm que aumentar a exploração sobre
os trabalhadores. Como fazem isso? Baixando o salário médio, aumentando as horas
extras, aumentando a produtividade do trabalho, enfim, eles têm 300 mecanismos
pra arrochar a classe. E com isso eles recompõem a taxa média de lucro e com
essa acumulação então vão pra frente.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Terceiro
mecanismo deles. Nesses períodos, aumenta a transferência de capital da
periferia do sistema para o centro. Esses dias eu li nos jornais por aí de que
no período anterior os capitalistas tinham aplicado na periferia 1,5 trilhões de
dólares, como capital financeiro aplicado em ações, em especulação geral. E que
com a crise, eles tiveram que refluir, esse capital todo voltou, e que hoje nós
teríamos aplicado na periferia apenas 180 bilhões.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Quarto
mecanismo deles, a guerra. Em todas as crises eles apelam pra guerra, porque a
guerra, como Marx já tinha explicado, é o mecanismo mais rápido de você destruir
o capital. Destrói o capital quando você joga uma bomba num colégio como esse
(que Deus me livre e a Madre Cristina nos proteja). Mas ao destruir um prédio
como este, tem que depois reconstruir. Todo esse capital aqui vai pra fumaça.
Quando tu solta a bomba aquela bomba custou trabalho, tem dias de trabalho pra
construir a bomba; quando ela explode, explodiu os dias de trabalho. E quando
ela mata pessoas, ela não mata qualquer pessoa, ela mata seres humanos que iriam
produzir riqueza. Então, é também na linguagem deles, a forma de destruir
capital-recursos humanos, capital-força de trabalho. Então a guerra sempre foi
um mecanismo que eles usam. Agora nós estamos salvos, em parte, porque é
impossível ter guerra mundial, por causa das armas atômicas. Mas isso não nos
livra da saída: não é por acaso que eles têm aumentado o estímulo desses
conflitos bélico-regionais. Seja na África, lá no Sudão. Esses dias li na
internet que inclusive essas quadrilhas de piratas da Somália não têm nada a ver
de beduínos doidos que resolvem atacar um transatlântico, por trás deles tem
toda uma indústria bélica, que fornece a eles, de míssil, e outras coisas. Assim
foi o ataque a Gaza, que, claro, se somou aos interesses da direita israelense
que queria ganhar as eleições <SPAN style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>e dar
uma lição aos palestinos, mas se somou o componente econômico. Tanto é que
imediatamente depois das eleições a Hillary Clinton chamou uma reunião no Cairo,
onde se reuniram as empresas capitalistas e disse: “tá bom, desculpa viu
palestinos, nós vamos reconstruir as casas de vocês. Tá aqui 4 bilhões de
dólares, mas as empresas que vão construir são nossas. Nenhuma empresa palestina
vai reconstruir casa...”. Então Gaza pagou o preço pela crise. E todo esse
tensionamento que eles tão fazendo agora com o Paquistão, o Irã e com a Coréia
do Norte, é claro que eles não vão fazer uma guerra com o Irã, mas isso estimula
a corrida armamentista. Isso estimula as compras de armas. Um companheiro nosso,
da esquerda israelense, tava lá no Fórum Social Mundial em Belém e deu um
depoimento que deixou todos nós emocionados, porque ele falou que lá em Israel,
o exército de Israel bombardeava uma comunidade, um prédio palestino, filmava
tudo, registrava os mortos e a destruição. E 24 horas depois tava na página da
internet do exército como propaganda: “Olha o nosso míssil aqui. “Ele fez essa
trajetória de <st1:metricconverter w:st="on" ProductID="50 km">50
km</st1:metricconverter> em tantos segundos”, “não permitiu defesa”, “ele
destruiu um prédio de 10 andares, matou 10 pessoas, se tiver interesse em
comprá-lo, tá aqui o endereço eletrônico”. Ou seja, eles usaram inclusive a
guerra de Gaza – não foi guerra, foi massacre de Gaza – como propaganda das
armas, que evidentemente não são empresas israelenses, é tudo conjugado com o
capital internacional. Então, o mecanismo da guerra está presente sim, embora de
uma maneira mais dissimulada.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Quinto
mecanismo que eles usam é o Estado. O Estado é usado agora, mais do que tudo,
como o grande agente que pode, de uma maneira compulsória, recolher a
mais-valia, ou a poupança individualizada, pequena, de cada um dos habitantes,
amontoa num canto só e repassam pro capital. E isso eles têm feito aqui no
Brasil, e em vários países do mundo, com a chamada política do superávit
primário. O que é o superávit primário, que nem o Willian Bonner sabe explicar
lá no jornal nacional? Porque eles não querem explicar para a população. O
superávit primário, o governo recolhe, através dos impostos, na Receita Federal,
o dinheiro de todo mundo, amontoa lá no Tesouro e na hora de gastar, ele separa
30% de toda receita de impostos no Brasil, que são transferidos pra bancos
privados, na forma de pagamento de juros de títulos da dívida pública. Isso é o
papel do Estado.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Segundo
exemplo. Nisso o governo Lula tem sido didático em nos ajudar a compreender o
papel do Estado. Que quando nós estávamos discutindo lá em Belém a saída da
crise, o Meirelles tava em Davos acalmando os bancos internacionais dizendo: “ó,
já assinei uma portaria autorizando que 40 bilhões das reservas em dólar que o
Brasil tem depositadas <st1:PersonName w:st="on" ProductID="em Nova Iorque">em
Nova Iorque</st1:PersonName>, as empresas que são devedoras com vocês, podem
acessar esses recursos públicos e pagar vocês”. Todo mundo bateu palma: “isso
que é presidente de Banco Central, nós queria ter um assim aqui no Estados
Unidos”. Então isso é um mecanismo concreto, 40 bilhões de dólares, façam a
conta aí, 40 bilhões em nossa reserva, uma portaria do Banco Central passa pras
empresas. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Depois
da reunião do G-20, outro exemplo ilustrativo: quando, emocionado pela frase:
“esse é o cara”, o governo autorizou repassar pro FMI, 10 bilhões de dólares. E
a imprensa brasileira noticiou como se fosse um empréstimo, “olha como nós tamo
ban-ban-ban, estamos emprestando...” Ilusão! Aquilo não foi empréstimo, foi
complemento de cotas, portanto nunca mais vai voltar. A única coisa que o Brasil
teve de vantagem naquilo é que os seus votos no FMI (que o FMI funciona como um
banco privado que os governos são sócios, então os votos é pela quantia de
capital) passaram de 05 pra 06% com esse aporte a mais de capital. Grande
mudança na correlação de forças!... Mas agora some 10 bilhões de dólares, se
fossem aplicados aqui no Brasil, o quanto representaria de casa, de Reforma
Agrária, se quiserem. Então esse é o papel do Estado: recolher dinheiro de todo
mundo, que a gente nem percebe, porque é via impostos, via outros mecanismos,
<SPAN style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>e canaliza isso pro capital.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Sexto
mecanismo do capitalismo sair da crise é mudar o padrão tecnológico de produção.
É o momento que eles, mesmo tendo lucro, usam a crise pra botar na rua o
operário e reformular o processo produtivo de modo que aumente a produtividade
do trabalho. Olhe a reunião do Conselho de Administração da Vale. A Vale, como a
maioria das empresas, reúne seu Conselho de Administração uma vez por mês. A
reunião do Conselho de Administração da Vale de fevereiro, final de janeiro, que
coincidiu também com o Fórum, por isso eu guardei bem. A reunião teve 2 pontos
de pauta. 1º ponto de pauta: prezados colegas capitalistas, acionistas da Vale,
nós estamos com um problemão aqui, o lucro líquido do último trimestre foi de 2
bilhões e meio de reais. Então, nós temos que decidir, vamos reinvestir, ou
vamos dividir entre os acionistas? Diante da crise, é um problemão né! Como nós
vamos dividir 2 bilhões e meio de lucro do TRIMESTRE da Vale? Ta bom, decidiram
(nem sei qual foi a decisão), que isso eles não dizem... Segundo ponto de pauta:
a demissão de 2.500 trabalhadores. Até o número era meio parecido, só mudava o
zero, né... Bem, então, que isso revela? As empresas, mesmo não estando em crise
contábil aproveitam o período da crise pra fazer seus reajustes na matriz
tecnológica. Que isso quer dizer? No jeito de fazer mais rápido os produtos com
menos trabalhadores. Todos – e fiquem atentos – todos os dias têm exemplos desse
nos cadernos de economia, em especial no Estadão e no jornal Valor Econômico.
São os únicos dois jornais que eu leio pra saber o que a direita pensa, porque o
resto são fofoqueiros...</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Por
último, entre os métodos do capital pra sair da crise, é a apropriação privada
dos recursos naturais. O que está acontecendo e nós no Brasil estamos sendo
vítimas? A Rosa Luxemburgo, num brilhante trabalho sobre a acumulação
originária, ou primitiva, dependendo da tradução, ela tinha explicado esse
mecanismo. Os bens da natureza quando tão lá, parados, seja o minério de ferro,
o petróleo, as árvores, a água, que depois vai virar energia elétrica, lá na
natureza, eles não tem valor. Acredito que aqui todo mundo domina essa
terminologia. Os bens só tem valor, do ponto de vista econômico, quando é fruto
do trabalho, ou seja, o valor é medido pelos dias de trabalho que você bota
neles. Então ta lá a árvore, fruto da natureza, quieta. Qual o valor da árvore
quieta? Nada. Não tem valor nenhum, ela é fruto da natureza, não do trabalho.
Qual é o valor de uma mina de minério, lá embaixo? Nada. Não tem valor nenhum,
mas quando você se apropriar dela, botar um pouquinho de trabalho humano e a
transforma numa mercadoria, adquirem um alto preço e se transforma as
mercadorias que dão a mais alta taxa de lucro. Quanto mais o capitalismo se
desenvolve, maior é a diferença entre a taxa de lucro da apropriação daquele bem
da natureza (que ainda não tem valor) com poucos dias de trabalho, e preço pago
pela sociedade. Porque em geral, aqueles bens da natureza são finitos e
limitados. Minério não é pra vida inteira. Então, só pra vocês terem uma idéia,
que nó viemos agora de nossa escola sobre o seminário de monocultivo de
eucalipto. Os companheiros que atuam por lá, os operários da Aracruz nos
explicaram. Sabe qual é o custo de produção pra plantar eucalipto e transformar
em pasta de celulose (ainda não é o papel)? O custo de produção é 70 dólares a
tonelada. Sabe quanto ela vendia a tonelada da pasta de celulose antes da crise?
A 850 dólares. Isso dava uma taxa de lucro de 700%. Segundo nosso amigo, saudoso
Celso Furtado, nem na escravidão. Na época da escravidão, a taxa média de lucro
da exportação de açúcar era ao redor de 400%. A Aracruz, em pleno século XXI,
está tendo um lucro de 700%! Aí veio a crise, eles tão vendendo a 550 dólares.
Coitadinhos! E o custo de produção continua 70 dólares. Por quê? Por causa dessa
apropriação de recurso da natureza que deveria ser pra todos. As árvores são de
todos, o minério de ferro são de todos, o petróleo que está aí no pré-sal é de
todos nós. Então deveria ser distribuído socialmente. Então, o que acontece na
crise? As empresas procuram no período de crise se apropriar juridicamente
desses bens. Elas não tem capital ainda pra explorar, porque tão em crise, não
têm capital sobrante pra fazer isso, mas elas procuram juridicamente, digamos
assim, tornar aquilo propriedade privada, dos bens parados na natureza. Para se
preparar pro próximo ciclo. Aí quando vier um novo ciclo de crescimento
econômico, de acumulação, vai ter capital, e aí eles vão explorar, e aí eles vão
ter essas altas taxas de lucro que, como dei o exemplo da celulose, vocês podem
ter uma idéia. Então, o que nós estamos assistindo no Brasil? É uma verdadeira
ofensiva, da qual os deputados são meramente marionetes do capital
internacional, porque tão tentando mudar a legislação ambiental, mudar a
legislação da Amazônia, faz parte desse movimento do capital de se apropriar.
</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">A
semente transgênica é outro mecanismo jurídico de privatizar a propriedade da
semente que, ao longo da humanidade, foi um patrimônio da humanidade. Alguém
pode dizer: “Eu sou dono da semente de milho”? Ninguém! Milho é de todo mundo.
Qualquer um pode pegar o milho e plantar. Pois bem, mas pela lei de patentes, se
você fizer uma variedade de milho transgênico, você fizer uma mutação genética,
você vai lá, registra, e vai aparecer lá: esse milho é da Bayer, esse milho é
propriedade privada da Monsanto, e daí pra diante, todo mundo que se atrever a
plantar aquele milho, tem que pagar royalties pra Monsanto, pra Bayer, pra Basf.
Então, semente transgênica, não tem nada de aumento de produtividade, num tem
nada de ciência, é a maior picaretagem que tem, maior enganação. No fundo, o que
tem por trás da semente transgênica é essa apropriação, essa propriedade
privada, que a lei de patentes garante . Se não houvesse lei de patentes,
ninguém se preocupava, em ficar disseminando semente transgênica. Aliás, foi a
primeira mudança que o Fernando Henrique fez no seu governo. Primeira Lei que
ele mudou no Brasil foi a lei de patentes, em maio de 1995. E a lei de patentes
circulou no Congresso em inglês, distribuída pela embaixada norte-americana. Se
alguém tem alguma dúvida a que interesses representava, porque o senador, lá da
Paraíba, recebeu da embaixada e não se deu ao trabalho de traduzir qual era a
lei que a embaixada americana queria. E evidentemente que o Fernando Henrique
aprovou depois com uma canetada. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify">Vou
mais rápido agora que ainda não entrei no tema. Isso tudo é introdução. Pra
vocês se lembrarem dos outros professores. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 14.2pt; TEXT-INDENT: 21.25pt; LINE-HEIGHT: normal; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P>
<DIV style="mso-element: footnote-list"><BR clear=all>
<HR align=left width="33%" SIZE=1>
<DIV id=ftn1 style="mso-element: footnote">
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt"><A title=""
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name=_ftn1><SPAN class=MsoFootnoteReference><B
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style="FONT-SIZE: 10pt; LINE-HEIGHT: 115%; FONT-FAMILY: Calibri; mso-bidi-font-size: 11.0pt; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA">[1]</SPAN></B></SPAN></SPAN></SPAN></B></SPAN></A><B
style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 10pt; LINE-HEIGHT: 115%; mso-bidi-font-size: 11.0pt"> Palestra
no Curso de Especialização sobre a Crise. Promovido pelo curso jornalismo da
PUC-SP/CEPIS/ENFF. João Pedro Stedile – 27 de maio de
2009<o:p></o:p></SPAN></B></P>
<P class=MsoFootnoteText style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt"><o:p><FONT
size=2> </FONT></o:p></P></DIV></DIV></DIV></BODY></HTML>