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<P align=left><B><FONT face=forte color=#ff0000 size=6>
<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO. 
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
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<H1>&nbsp;</H1>
<H1>&nbsp;</H1>
<H1>Soledad no Recife em julho</H1>
<P class=date>Atualizado em 27 de junho de 2009 às 14:56 | Publicado em 27 de 
junho de 2009 às 14:37</P>
<P><IMG height=368 alt=soledad.jpg 
src="http://www.viomundo.com.br/img/soledad.jpg" width=300 align=baseline></P>
<P><I>por </I><STRONG><I>Conceição Lemes</I></STRONG></P>
<P>Soledad Barret Viedma.</P>
<P>Eu a “conheci”, ao ler uma coluna do jornalista e escritor pernambucano 
Urariano Mota, em <STRONG><I><A href="http://www.diretodaredacao.com/"><FONT 
color=#666666>Direto da Redação</FONT></A></I></STRONG>. Fascinou-me na hora. 
Uma jovem idealista, corajosa e linda, muito linda.Foi torturada e morta no 
Recife em 1973, grávida, depois de ser entregue ao delegado Sílvio Paranhos 
Fleury, traída pelo <A 
href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/lungaretti-e-o-cabo-anselmo-cachorro-faz-juz-a-anistia/"><STRONG><FONT 
color=#666666>cabo Anselmo</FONT></STRONG></A> , de quem trazia um filho na 
barriga.&nbsp;O texto era tão terno, tão carinhoso, confesso, me passou pela 
cabeça os dois terem sido namorados.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</P>
<P>Daí nasceu esta nossa conversa. Urariano lança em julho o livro “Soledad no 
Recife” pela editora Boitempo. Ele é autor do romance “Os Corações Futuristas”, 
cuja paisagem é a ditadura Médici.</P>
<P><STRONG><I>Viomundo -- Por que Soledad? Na sua coluna, você diz que só agora 
teve condições de mergulhar nas entranhas daquele momento. Por 
quê?</I></STRONG></P>
<P>Urariano Mota -- Há temas que nos perseguem, embora nem sempre a gente 
perceba. No meu primeiro livro, o romance “Os corações futuristas”, houve 
Cíntia, uma brava socialista. Já no destino trágico de Cíntia havia um destino 
de Soledad. A "diferença" é que Cíntia se apoiava em outra pessoa, em outra 
militante. Enquanto Soledad, pelo menos quero crer e me empenhei muito por isso, 
Soledad é a pessoa. É a própria pessoa, pelo menos desejo ter realizado 
isso.</P>
<P>Por que só agora, 36 anos depois? De um ponto de vista pessoal, estou mais 
apto e cônscio de minhas fronteiras. De um ponto de vista mais geral, digamos, 
objetivo, o crime contra Soledad é o caso mais eloqüente da guerra suja da 
ditadura no Brasil. A traição que ela sofreu expressa, com vigor, a traição 
contra jovens do sentimento mais generoso, que é o sentimento de humanidade, do 
mundo.&nbsp;</P>
<P><I><STRONG>Viomundo -- Era tua amiga? Como ela era?</STRONG></I></P>
<P>Urariano Mota -- Eu sou fundamentalmente um escritor.&nbsp; Isso quer dizer, 
expresso minha experiência vivida, sempre. Ou em fatos biográficos, 
testemunhados e sofridos, ou em fatos imaginados, recompostos, ressurgidos, que 
são também, para a literatura, para o artista, fatos testemunhados e sofridos. 
Soledad não era, ela é minha amiga. Mas não trocamos palavras em sua curta vida. 
Este livro diz a ela, fala as palavras que não podemos trocar, no Recife da 
ditadura Médici.</P>
<P>Mais de uma pessoa, para não dizer quase todas as pessoas, pensam que Soledad 
foi minha namorada, que eu a conheci pessoalmente. Isso vem da narração e da 
forma apaixonada do relato.&nbsp; Essa impressão surge, veio e vem do livro. 
Mais de um leitor já recebeu essa impressão. Isso se deve à mistura, em um só 
corpo, de pessoas e fatos absolutamente reais, documentados, sabidos, ao 
sentimento que tenho daqueles dias. O documento vivido pela segunda vez. Então, 
é claro, o elemento "ficcional" virou factual.&nbsp;&nbsp;Como ela era, como ela 
é, o livro dirá.&nbsp;<BR>&nbsp;<BR><I><STRONG>Viomundo --&nbsp;&nbsp;&nbsp;É 
citado o massacre da chácara São Bento. Que lembrança isso traz? 
</STRONG></I></P>
<P>Urariano Mota -- As notícias, publicadas em todo o Brasil em janeiro de 1973, 
dos seis "terroristas” mortos no aparelho da São Bento, são absolutamente 
falsas. As "notícias" de terroristas mortos, naquele tempo, eram reproduzidas 
com a mesma redação e teor em toda a imprensa brasileira. Vinham da agência de 
segurança nacional. Jamais houve o “massacre da chácara São Bento”. Houve a 
execução fria, planejada, de seis bravos militantes. A chácara foi o teatrinho 
criado para a execução de seis bravos. <BR><BR>Soledad Barret Viedma e Pauline 
Reichstul – há testemunho público disso - foram assaltadas em uma butique no 
Recife, de surpresa espancadas sob pistolas e seqüestradas. Em uma mangueira, 
por trás da butique, a proprietária notou depois sangue, vômito e urina. Isso de 
modo público, à vista de todos. Jarbas Pereira Marques, outro militante, que 
aparece entre os terroristas da chácara, foi retirado da livraria onde 
trabalhava, à luz do dia. <BR>Digo isso no livro, e repito aqui: em uma 
ditadura, até as datas dos jornais são 
falsas.&nbsp;<BR>&nbsp;<BR><I><STRONG>Viomundo -- Soledad foi traída pelo cabo 
Anselmo, que a delatou ao delegado Fleury. Você conheceu o cabo Anselmo? O 
que&nbsp; sente por ele?<BR></STRONG>&nbsp;<BR></I>Urariano Mota -- Eu estudo o 
seu caráter há muitos e muitos anos. Ele é objeto de minha permanente observação 
e pesquisa. No entanto, jamais vi na rua o cabo Anselmo. Eu o conheço por seus 
cadáveres, que ele arrasta como uma cauda. Fui, sou amigo de quem ele perseguiu, 
traiu e matou.</P>
<P>Ninguém podia imaginar que ele fosse uma infiltração. Anselmo pertence à 
família dos agentes duplos, dos instrumentos de política que se chamam espiões. 
Isso quer dizer: ele é um mundo de mentiras. Ele era e é um sistema em que 
mentiras armam mentiras, que constroem mentiras, sempre. Isso quer dizer, enfim, 
que tudo quanto esse instrumento dizia e disser, falar, deve ser posto sob 
absoluta desconfiança, porque ele mente por sistema, por hábito, por defesa, por 
ataque e natureza. Não se pode acreditar em uma só das suas palavras. Quando ele 
diz eu amo, eu respeito, o bom senso deve traduzir de imediato, ele odeia e 
despreza.</P>
<P>Sou de opinião que não importa o seu último nome. Porque ele não tem outro 
nome nem outra face. Jonas, Daniel, José, com barba, sem barba, magro, gordo, 
com novos olhos, novas orelhas, novo nariz, nova boca, não importa. Ele será 
sempre, para onde for, cabo Anselmo, aquele que gerou a morte da sua 
companheira, que trazia um filho no ventre.</P>
<P><STRONG><I>Viomundo -- Soledad morreu jovem, linda. Se ela vivesse no Brasil 
de hoje, o que estaria fazendo Soledad, em quem votaria, o que a 
preocuparia?&nbsp;<BR></I></STRONG>&nbsp;<BR>Urariano Mota --&nbsp;É a pergunta 
mais difícil. Mas sei, ou posso ter a esperança de que ela estaria no movimento 
socialista, com um apoio crítico ao governo Lula. Continuaria linda, pelo fogo 
que tomava o seu corpo e sua vida, que não se apaga, não arrefece, apenas fica 
mais maturado. Como um vinho decantado que embriaga melhor.</P>
<P>Para ela, viva neste 2009, digo o que escrevi no livro:</P>
<P>Soledad não é só a mulher bonita, de um ponto de vista físico, cuja 
fotografia revela apenas uma estação do seu ser. Uma estação imóvel do seu peito 
dinâmico, e de tal modo que dará ao fotógrafo o que se diz de um mau desenhista, 
“isto não se parece com ela, não saiu parecido”. E se pedirá então ao fotógrafo 
o absurdo, a saber, que a máquina, a mecânica, reproduza um ser, a textura, cor 
e delicadeza da orquídea, da pessoa mesma. Como se fosse possível da flor um 
close que a isolasse do ar que ela respira, do campo em torno, do cheiro que 
exala, em resumo, como se fosse possível reproduzir o complexo, a conspiração de 
sentidos que se dirigem para um único fim, a pessoa, o ser vivo, poderoso em nos 
despertar amor, afeição, paixão, tar a e paz, que buscamos como a uma miragem. 
Ainda assim, se sabemos que na flor há um ser inalcançado na fotografia, se 
comparamos, se transpomos mal, imagine-se então Soledad no lugar dessa flor do 
campo. Imaginamos mal e mau, já vêem. Flor não se rebela nem canta. Flor nos 
desperta canção e rebeldia, quando machucada. Mas a pessoa de Soledad, ainda que 
lembre essa flor - e é irrecusável não lhe ver a pele como o tecido de uma 
pétala -, e assim a lembraremos pelo vento forte e traiçoeiro que se prepara 
para a muchucar e destruir, ainda assim, como a superar tal associação, ainda 
que nos persiga como só uma idéia é capaz de perseguir, hoje, neste dia do seu 
aniversário, ela está mais bela que antes. ¡ Arriba, Sol! <BR>&nbsp;</P>
<P><BR><STRONG><I>Como aperitivo, deleite-se com mais 
estes&nbsp;dois&nbsp;momentos de"Soledad no Recife"</I></STRONG></P>
<P><STRONG>Primeira vez em que Urariano fala de Soledad no livro</STRONG></P>
<P>Eu&nbsp;a vi primeiro numa noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras 
circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava 
na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando 
saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e 
voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois 
tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Num lago 
que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos 
anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí 
daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me 
encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, “alienado”, 
como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O anjo 
exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.</P>
<P>A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de 
Aroeira, no pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as 
cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em 
bancos rústicos de madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, 
ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, 
mas foi como se ela se distanciasse à frente – diria mesmo, como se existisse só 
ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na 
verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade.</P>
<P><BR><STRONG>A morte de Soledad</STRONG></P>
<P>Chegamos agora mais perto de Soledad Barret Viedma. Excluo-me, na medida do 
possível, da qualidade daquele que a amou em silêncio. <BR>&nbsp;</P>
<P>Há quem considere que a morte de Soledad, nas circunstâncias que conhecemos 
mais tarde, deu-se em razão de sua ternura. Isso é mais que um namoro, um 
interlúdio, para dizer que ela esculpiu a própria sorte, porque, diabo, era 
terna e verdadeira. Com a evidência de um escândalo. Prenhe de ternura até as 
raias do suicídio. Esse elogio torto, digno da reen¬carnação e pele de um 
Anselmo 2, é como um açúcar no sal de sua execução. Um doce, um mel, a lhe 
correr sobre os lábios entre coices, descargas elétricas e afogamentos. Conviria 
melhor ser dito que ela, por suas qualidades raras de pessoa, estava 
condenada.</P>
<P><I><STRONG><A href="http://urarianoms.blog.uol.com.br/"><FONT 
color=#999999>Vá ao blog de Urariano Mota 
</FONT></A></STRONG></I><BR>&nbsp;</P></DIV></BODY></HTML>