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<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
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<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO. 
..........repassem.</MARQUEE></P>
<P align=left><IMG alt="" hspace=0 
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<P align=left></FONT><STRONG><FONT size=5>América Latina, um continente sem 
teoria?</FONT></STRONG></P>
<DIV>
<P class=linhafina><EM><STRONG>O professor Nildo Ouriques, da UFSC, contesta 
artigo de José Luís Fiori, publicado nesta página: "No Brasil, o debate acerca 
da dependência sempre foi mal compreendido. Contudo, este desconhecimento não é 
resultado do acaso, pois tem sido construído como um instrumento de dominação 
política e de legitimação do capitalismo dependente no país".</STRONG></EM></P>
<P class=headline-link><EM><STRONG>Nildo Ouriques</STRONG></EM></P>
<P class=texto>Em recente artigo – <I><A 
href="http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15943" 
target=_blank>Um continente sem teoria</A></I> – José Luis Fiori nos oferece uma 
brevíssima e curiosa história das idéias na América Latina destinada a espetar o 
liberalismo que sempre se contentou em repetir nos trópicos as teorias 
“cosmopolitas” que com freqüência colonial aqui se reproduzem. Contudo, neste 
breve artigo, Fiori adere ao esporte nacional preferido pela intelectualidade 
paulista: a crítica à interpretação marxista da dependência e o elogio velado “a 
escola paulista de sociologia”, especialmente aquela vinculada ao nome de 
Fernando Henrique Cardoso. <BR><BR>No Brasil, o debate acerca da dependência 
sempre foi mal compreendido. Na verdade, é quase que desconhecido entre nós. 
Contudo, este desconhecimento não é resultado do acaso, pois tem sido construído 
como um instrumento de dominação política e de legitimação do capitalismo 
dependente no país. As ciências sociais paulistas – USP e UNICAMP especialmente, 
mas não exclusivamente – manufaturaram um consenso sobre a teoria da dependência 
que rendeu prestígio acadêmico e posições no aparelho de estado para alguns 
professores, mas é rigorosamente falso.<BR><BR>O principal “argumento” para a 
manufatura do consenso é agora repetido por Fiori, para quem a vertente marxista 
da dependência considerava “o desenvolvimento dos países centrais e o 
imperialismo um obstáculo intransponível para o desenvolvimento capitalista 
periférico. Por isto, falavam do “desenvolvimento do subdesenvolvimento” e 
defendiam a necessidade da revolução socialista imediata, inclusive como 
estratégia de desenvolvimento econômico”. (Cursiva nossa, NDO)<BR><BR>Sabemos 
que a fórmula “desenvolvimento do subdesenvolvimento” é uma criação do genial 
André Gunder Frank. O mineiro Ruy Mauro Marini, quem defendeu a necessidade de 
uma teoria marxista da dependência e deu importante contribuição nesta direção 
com seu magistral Dialética da dependência, escreveu que a formula frankiana era 
mesmo “impecável”. Portanto, posso concluir sem medo de errar que a crítica de 
Fiori – repetindo agora Fernando Henrique Cardoso, Guido Mantega e José Serra 
–esta dirigida basicamente contra Frank e Marini. Mas esta crítica é 
essencialmente injusta e não corresponde a história do debate.<BR><BR>André 
Gunder Frank (1929-2005) jamais disse a asneira de que o capitalismo era 
inviável na periferia do sistema mundial. Ao contrário, Frank, que pode ser 
considerado sem dúvida o precursor do debate marxista acerca da dependência, não 
somente desbancou as teses sobre a feudalidade na América Latina, como foi o 
principal crítico do capitalismo dependente que se desenvolvia aos olhos de 
todos. Neste contexto, a crítica recente é injusta porque o próprio Fiori teve o 
privilégio de assistir aos seminários de Frank no Chile e certamente ouviu não 
poucas vezes do próprio sua crítica tanto ao reformismo comunista quanto ao 
estagnacionismo que de certa forma seduziu muita gente antes do chamado “milagre 
brasileiro”. Mas nao era necessário participar das aulas de Gunder Frank para 
saber o óbvio sobre sua longa e ainda desconhecida obra; bastaria (re)ler 
<I>Capitalism and underdevelopment in Latin América. Historical studies of Chile 
and Brazil</I> para entender a posição de Frank e sua notável contribuição ao 
debate das idéias latino-americanas. <BR><BR>É correto afirmar que em épocas 
passadas existiam aqueles que defendiam – reciclando idéias cepalinas tingidas 
de marxismo do Partidão (PCB) – que os “obstáculos externos” ao desenvolvimento 
representavam uma estratégia imperialista. Postulavam, portanto, que a “nação” 
deveria se opor ao “imperialismo” o que, obviamente, implicava em uma aliança de 
classe no interior do país dependente entre o proletariado e a burguesia 
considerada “nacional”. Mas precisamente contra estes, André Gunder Frank 
dirigiu suas baterias, destruindo a numa só vez o “mito do feudalismo na 
agricultura brasileira” e os “obstáculos externos” ao desenvolvimento. Foi uma 
crítica devastadora e ainda insuperável ao dualismo estruturalista da CEPAL e 
aliados. A fórmula “desenvolvimento do subdesenvolvimento” capta com precisão 
esta dinâmica. Ao contrário daqueles que afirmavam os “obstáculos” e/ou o 
“estagnacionismo” – presentes nos escritos de Furtado em 1965, por exemplo – 
Gunder Frank e Ruy Mauro Marini afirmavam que o desenvolvimento capitalista 
efetivamente ocorreria, mas sob a forma do subdesenvolvimento.<BR><BR>Na breve 
historia narrada por Fiori, existiria uma vertente da teoria da dependência – de 
filiação a um só tempo marxista e cepalina (!?) – que teve vida mais longa e 
logrou resultados melhores, num surpreendente e discreto elogio – tanto tardio 
quanto surrado – à FHC. Contudo, a tipologia construída por este e Enzo Faletto 
no Dependência e desenvolvimento na América Latina é obviamente de inspiração 
weberiana e o reconhecimento do conflito de classes no interior da nação que 
despertou tanta simpatia nos intelectuais progressistas não é, como sabemos, 
exclusividade de marxistas, porque também existem liberais que valoram a luta de 
classes sem vacilação, ainda que não tirem as mesmas conclusões que os 
marxistas. <BR><BR>O “apagão mental” mencionado por Fiori foi produto de uma 
derrota política que, no Brasil, se consolidou com o golpe militar de 1964. No 
interior da luta pela democratização, os liberais progressistas fizeram sua 
parte, caluniando e falsificando a história do pensamento crítico, especialmente 
da versão marxista da dependência, sem recorrer aos textos de Frank e Marini, 
muitos ainda sem tradução ao português. O CEBRAP foi um instrumento valioso 
nesta operação ideológica, mas “respeitáveis figuras” do mundo acadêmico 
paulista – especialmente nas escolas de economia e sociologia da USP e UNICAMP – 
aproveitaram a correlação de forças permitida pela ditadura para extirpar a 
principal contribuição marxista sobre o capitalismo latino-americano da vida 
intelectual e universitária brasileira. Frank e Marini não foram apenas 
proscritos: foram também falsificados! Outro tanto ocorreu também com Theotonio 
dos Santos, autor do imperdível “Socialismo ou fascismo: o dilema 
latino-americano”, lamentavelmente ainda não traduzido ao português. 
<BR><BR>Parte daquele “apagão mental” é produto da outrora útil distinção 
partidária entre tucanos e petistas que sempre ocultou algo importante, cada dia 
mais difícil de disfarçar: no terreno teórico, tanto uns quanto outros se 
alinhavam na manufaturação do consenso em favor da versão palatável dos estudos 
acerca da dependência, representada por Cardoso e Faletto. Não é apenas uma 
coincidência que a tese doutoral de Guido Mantega, finalmente vertida no livro 
que adultera completamente as teses de Frank e Marini, foi orientada por 
Fernando Henrique Cardoso. <BR><BR>Finalmente a questão central. Vivemos num 
continente sem teoria? É pouco provável. O programa de pesquisa lançado por 
Frank e Marini não foi superado teoricamente, ainda que sofreu uma derrota 
política a partir de 1964 pela força do terror de estado. Mas as condições 
mudaram radicalmente no cenário latino-americano e aquela vertente crítica da 
dependência, de extração marxista, esta sendo resgatada com muita força em toda 
a América Latina impulsionada pelos governos do nacionalismo revolucionário 
existentes na Venezuela, Equador e Bolívia. Mas também no Brasil o interesse 
pela teoria marxista da dependência voltou e não é mais possível reforçar o coro 
dominante que anestesiou algumas gerações de estudantes e militantes 
socialistas. Enfim, se efetivamente queremos construir um projeto 
nacional-popular para o Brasil – que eu defendo socialista – a tarefa 
intelectual decisiva é a superação do “apagão mental” que tantas limitações 
impôs ao ambiente universitário e político brasileiro. <BR><BR>Neste contexto, 
podemos ou nao compartilhar o ceticismo em relação as insuficiências teóricas 
nos programas destinados a superar a dependência e o subdesenvolvimento, mas não 
temos o direito de esquecer e menos ainda alterar os termos do debate de décadas 
passadas. Daí o caráter surpreendente do artigo de Fiori, pois ele reforça 
velhos preconceitos e não capta a nova correlação de forças que já esta criando 
uma nova América Latina sob o lema do “socialismo do século XXI”. Afinal, diante 
do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, não era o socialismo a única 
alternativa indicada por Frank e Marini?<BR></P><BR>
<P class=linha-fina>Professor do Departamento de Economia e presidente do 
Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC. (www.iela.ufsc.br 
)</P></DIV></BODY></HTML>