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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT><FONT face=Arial size=2></FONT><BR></DIV>
<DIV><SPAN style="FONT-SIZE: 14pt; mso-bidi-font-size: 12.0pt"><SPAN
style="mso-list: Ignore"><STRONG> </STRONG><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Forte color=#ff0000 size=6>Carta O
Berro<FONT
size=3>................................................................................................repassem.</FONT></FONT></o:p></SPAN>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2></FONT></o:p></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>Este é um dos
trabalhos do professor Emílio Gennari, estudioso em sociologia e história.
Escolhemos esse texto, embora longo, mas que será apresentado todas as
terças-feira, por parte.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>Trata-se de uma
análise de leve leitura que permite ir ao fundo dos problemas que as pessoas
enfrentam e que o sistema capitalista na sua ilógica reproduz na sociedade,
tratando-a mais como doença do que um problema
</STRONG></FONT></o:p></SPAN><SPAN style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2><STRONG>que advém do modo em que estão estabelecidas as relações de
produção, e se projetam na conduta das pessoas em sociedade: os seus desejos, as
suas ilusões e mesmo do relacionamento humano.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>As leis do
capitalismo não somente mantém o indivíduo em alienação permanente mas se
reproduz perversamente na vida em sociedade.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>O nome dado a este
trabalho, <U>"Da Alienação à Depressão: caminhos capitalistas da exploração do
sofrimento"</U>. Diz o que vamos conhecer, conhecendo os meandros que nos impõem
essa sociedade.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>Imprima as partes
que vamos lhe enviando e estude. Um mundo novo vai lhe clarear com pistas para
entendê-la e, para a desalienação.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>Um
abraço.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2><STRONG>Vanderley</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2><STRONG></STRONG></FONT></o:p></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>ps.agradecemos a
professora Urda Alice Klueger , a professora Nádia e ao professor Emílio Gennari
por permitir a divulgação pela <FONT color=#ff0000><EM>Carta O
Berro</EM></FONT>.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2></FONT></o:p></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2></FONT></o:p></SPAN> <FONT face=Arial size=4><U>Parte
3</U></FONT></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt; mso-bidi-font-size: 22.0pt"></SPAN></B> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt; mso-bidi-font-size: 22.0pt">Emilio<SPAN
style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>Gennari</SPAN></B></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"
align=center><SPAN style="FONT-SIZE: 18pt; mso-bidi-font-size: 22.0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Verdana">professor</SPAN><SPAN
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Verdana"> Emílio Gennari atua como Educador
popular e é Monitor de<BR>Formação Política do Núcleo de Educação Popular 13 de
Maio<BR>(NEP-13). É autor de vários livros nas áreas de Educação, Sociologia e
História.</SPAN><o:p></o:p></SPAN></P></SPAN></SPAN></DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><B><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt; mso-bidi-font-size: 12.0pt">3. O trabalho entre prazer e
sofrimento.</SPAN></B></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>Aproveitando do instante em que Nádia permanece silenciosamente
pensativa, o secretário levanta e dá uma gostosa espreguiçada. Entre o incômodo
da tendinite, a tensão provocada pelas descrições do relato e a curiosidade em
relação a seu possível desfecho, o corpo parece se recusar a continuar o
trabalho. Para quem já estava acostumado com a escuridão do não-saber, qualquer
raio de sol ganha as feições de uma arma que, ao ferir a cegueira antiga,
provoca a desagradável sensação de que tudo o que parecia sólido começa a
derreter sob os próprios pés.</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>Ao perceber a tentação do seu ajudante, a coruja limpa a garganta para
atrair a atenção e, ao dirigir para si os olhares titubeantes do homem
corpulento que está diante dela, aponta a asa para os papéis e, com voz firme,
ordena:</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>- “Já pra mesa!”.</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>Intimidadas, as mãos puxam a cadeira e as pernas se dobram para que o
corpo possa se apoiar no desconfortável assento de madeira, cujo único mérito é
o de evitar qualquer cochilo do seu usuário. </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>Em seguida, a ave faz um sinal de aprovação com a cabeça e, ao piscar os
olhos, diz:</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>- “Por incrível que pareça, é no trabalho que os seres humanos passam os
melhores anos de suas vidas envolvidos por sentimentos contrastantes que
misturam angústia, felicidade, medo, sofrimento, esperanças e ilusões. É neste
turbilhão de sensações que cada pessoa pensa a sua relação com o trabalho,
interpreta as condições de sobrevivência que esta lhe proporciona, socializa sua
leitura da realidade, reage ao que percebe como ameaça, organiza-se mental e
fisicamente para dar conta do que lhe é exigido e intervém no processo de
produção com formas de comportamento que retratam o sentido dado aos vínculos
que estabelece com os colegas. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Este
sentido é fortemente influenciado pela forma na qual a rotina do trabalho se
encaixa e entra em sintonia com as experiências passadas, com as expectativas
atuais ou, ao contrário, representa algo tão novo e inédito que questiona suas
percepções anteriores e projeta para o futuro novos sonhos e anseios de
afirmação pessoal. Lidando, ou não, com tarefas que proporcionam um sentimento
de auto-realização, o sujeito tem no trabalho um elemento essencial na
construção de sua personalidade e da identidade social na qual se insere pelas
condições de vida possibilitadas pelo salário recebido.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Além da
resposta à luta pela sobrevivência, do medo de vir a integrar as estatísticas do
desemprego, da pressão da chefia, da convivência com os colegas e da realização
dos próprios sonhos, trabalhar implica sempre em assumir responsabilidades
não-previstas, em tomar decisões que, independentemente do cargo, são fonte de
sofrimento pelas incertezas que projetam <st1:PersonName w:st="on"
ProductID="em cada empregado. Isso">em cada empregado. Isso</st1:PersonName> se
deve ao fato de que há sempre certa distância entre o trabalho prescrito e o
real. Ou seja, uma coisa são as seqüências, as tarefas e as normas ditadas pela
empresa e outra, bem diferente, é a forma pela qual são praticadas, moldadas,
adaptadas ou negadas no cotidiano dos processos produtivos para que os
funcionários possam dar conta das metas exigidas. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A condição
para que o empregado realize o seu trabalho envolve quase sempre a transgressão
das prescrições e das instruções recebidas dos superiores hierárquicos. Prova
disso é que, em praticamente todas as categorias profissionais, uma das formas
de manifestar o próprio descontentamento é cumprindo à risca o que foi ordenado
pela empresa. Em várias cidades do Brasil, por exemplo, já conhecemos protestos
de motoristas de ônibus que foram realizados tendo como base apenas a
não-violação do Código de Trânsito e até mesmo manifestações de descontentamento
da polícia federal através da <I>operação padrão</I> aplicada aos procedimentos
de averiguação de passageiros no desembarque dos aeroportos. A paralisação das
atividades, os atrasos e as situações de caos que resultaram do estrito respeito
às normas prescritas são mais que suficientes para comprovar que ou o
trabalhador coletivo usa as artimanhas, truques, macetes e quebra-galhos
acumulados no exercício das tarefas e na lida diária com problemas inesperados
ou o serviço pára, entra em pane, se torna inviável”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Se é
assim, quer dizer que a in<st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName>igência
e a criatividade individuais e coletivas são mobilizadas a cada instante e isso
pode até proporcionar um sentimento de satisfação e realização pessoal.
<st1:PersonName w:st="on">Enfim</st1:PersonName>, não vejo o que há de tão ruim
nisso a ponto de causar sofrimento!”, afirma categórico o secretário ao fixar o
olhar no rosto da coruja.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ouvida a
questão, Nádia se aproxima vagarosamente do seu ajudante, aponta a asa direita
para os óculos e assumindo feições que mesclam provocação e reprovação retruca
em tom irônico:</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Se os
cinco graus das lentes que cobrem seus olhos não servissem apenas para disfarçar
sua feiúra, você já teria conseguido enxergar além do umbigo. De fato, é
inegável que, sob a influência do medo da demissão e das demais pressões que
tomam conta do local de trabalho, a maior parte das pessoas se revela capaz de
mobilizar um verdadeiro arsenal de inventividade ora para cumprir as metas, ora
para ficar em posição mais vantajosa em relação aos colegas. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O
problema, porém, é que, ao agir desta forma, o indivíduo não só pode criar
situações constrangedoras para os demais, como se coloca à margem dos
procedimentos oficiais e infringe os regulamentos e as ordens da empresa. Em
outras palavras, usar a própria in<st1:PersonName
w:st="on">tel</st1:PersonName>igência para lidar com o imprevisto, com o
inusitado, com o que ainda não foi assimilado oficialmente como método leva o
sujeito a uma ação semiclandestina pela qual a norma desrespeitada o coloca na
incômoda posição de transgressor da lei. Até que nada acontece, a chefia faz
vista grossa, pois tem plena consciência de que sem isso o trabalho não anda.
Mas quando a apuração de falhas, erros, incidentes e acidentes são atribuídos a
procedimentos espúrios e indesejados, os superiores hierárquicos não hesitam em
denunciar o trabalhador envolvido como incompetente, desleixado, nada sério e
incapaz.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Sem medo
de errar, podemos afirmar que, de um lado, o quebra-galho é tolerado por
qualquer patrão na medida em que contribui para atingir as metas estabelecidas,
mas, de outro, a sua prática é uma ameaça que pende sobre a cabeça de cada
empregado e pode cortá-la como uma guilhotina sempre e quando sua descoberta
<I>oficial</I> permite eximir a empresa de suas responsabilidades concretas em
relação às condições reais nas quais o trabalho é realizado.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Resumindo,
podemos dizer que a prática do quebra-galho e do macete levam o sujeito a correr
dois riscos. O primeiro é o de ser apontado como único culpado quando de
conseqüências nocivas para a segurança das instalações e dos demais
funcionários. E, o segundo, é de assumir a incômoda condição de fora-da-lei, o
que gera um estado de angústia permanente até mesmo quando o processo de
trabalho flui sem problemas aparentes.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A situação
que acabamos de descrever coloca o indivíduo num beco sem saída: se ele quebra
as normas, corre o risco de ser punido; mas se não o faz, é acusado de falta de
iniciativa, de fazer corpo mole, de ser incapaz de atingir metas que os demais
costumam cumprir. Preso nesta engrenagem, o sujeito vivencia momentos de
ansiedade, abre espaço a mal-entendidos, sonega informações, fecha-se sobre si
mesmo e escancara a porta da desconfiança em relação à eficiência real de sua
criatividade e à dos colegas. Esta postura acaba alimentando antagonismos e
conflitos com outros profissionais ou equipes que desempenham tarefas parecidas
e leva a vivenciar um sentimento de injustiça que nasce do não-reconhecimento
aberto do próprio esforço e dos méritos pessoais por parte dos demais
funcionários e da empresa.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A adoção
de programas participativos de qualidade total ou das chamadas novas formas de
gestão do capital humano não altera significativamente esta realidade. Em grau
maior ou menor, há sempre certo período de tempo entre a descoberta do
quebra-galho ou do macete e sua aprovação pela empresa. Isso se deve ao fato de
que a aceitação das idéias apresentadas depende da comprovação de sua
viabilidade e eficiência e, portanto, precisa de resultados concretos vindos da
experimentação empírica que antecede a sua apresentação e na qual o funcionário
acaba assumindo a responsabilidade de testar se o fruto de sua criatividade pode
dar certo ou não.</P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">A esta realidade
corriqueira soma-se outra que costuma ser silenciada tanto pelos patrões como
pelos sindicatos, mas que, nem por isso, deixa de ter um impacto profundo na
carga de tensão que acompanha as horas despendidas na empresa. Ainda que haja
uma percepção e um reconhecimento oficial dos riscos e dos fatores estressantes
relacionados ao ambiente de trabalho, o discurso empresarial e sindical costuma
não mencionar o perigo. A omissão dos efeitos que os riscos podem produzir no
corpo do trabalhador é justificada pela suposta necessidade de não atemorizar
desnecessariamente as pessoas ou é desprezada como algo distante, insólito e
improvável de acontecer. Se, de um lado, isso reduz o estado de alerta do
coletivo, de outro, esta opção é um dos elementos pelos quais a empresa escolhe
que aspectos e que percepção do perigo pode ser descrita ou silenciada e que
tipo de apresentação asséptica dos problemas relativos à saúde do trabalhador
contribui para esconder ou minimizar a relação entre o risco e o perigo.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O fato de
a hierarquia dificultar a reconstrução da relação doença-trabalho pela omissão
de informações essenciais sobre os processos produtivos ou pelo menosprezo de
seus perigos não implica na incapacidade do empregado perceber na saúde dos
demais e na própria as marcas da dor deixada pelo desempenho diário de suas
tarefas. Apesar de não saber expressar em palavras o que está acontecendo ou de
não ter uma visão de conjunto unitária e coerente, a quase totalidade dos
empregados deixa a entender que há algo errado ao reconhecer, por exemplo, que
<I>aqui o sistema é bruto</I>, <I>naquele setor é jogo duro</I> ou, ainda,
<I>trabalhar nesta máquina é bicho feio</I>. O que parece normal, superficial e
simplório encerra uma carga de angústia que, dia-após-dia, torna-se mais pesada
e esmagadora na medida em que o aumento das exigências empresariais não é
acompanhado pela melhora das condições em que estas vão se tornar
realidade”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Então,
estamos diante de um sofrimento perante o qual trabalhadores e trabalhadoras
devem se defender para continuar dando conta das tarefas exigidas e das metas
impostas...”, balbuciam os lábios ao temer um desfecho inesperado.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">-
“Exatamente! Entre as formas de defesa mais comuns estão os comportamentos que
levam o sujeito a se desvencilhar das responsabilidades, a se recusar a tomar
qualquer iniciativa, a remeter toda decisão a uma posição oficial da chefia ou a
se ater às normas que constam do regulamento. Neste caso, o funcionário
viabiliza uma espécie de operação padrão solitária e intermitente na medida em
que o fantasma da demissão ganha corpo diante das acusações de implicância e
falta de compromisso com a empresa, o que desgasta sistematicamente a proteção
com a qual procurava se cercar em caso de dificuldade.</P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">Em sentido oposto,
encontramos atitudes de fechamento numa autonomia máxima, de segredo, de
silêncio diante dos superiores e dos próprios colegas. Apesar do caráter
intrinsecamente coletivo do trabalho, nos deparamos aqui com empregados que
fazem o impossível para evitar qualquer situação de confronto, de conversa, de
discussão, de conflito, de envolvimento, a ponto de se recusar a cumprimentar os
colegas. No lugar de almejar o encontro, o sujeito faz o impossível para
privilegiar os momentos em que este é materialmente impossível e, no lugar de se
confrontar com os demais, prefere se isolar num canto do refeitório, tomar café
antes ou depois da turma, entrar e sair do vestiário quando este está mais
vazio, se envolver em trabalhos que exigem esforço redobrado e tamanho grau de
concentração que pensar em trocar idéias é algo simplesmente fora de lugar. Ao
optar pelo ‘cada um por si’ (que não poucas vezes descamba para o ‘deixa correr
frouxo para ver no que vai dar’), o indivíduo acaba dando sopa ao azar. Estou me
referindo, por exemplo, à ocorrência de tonturas ou desmaios provocados por
produtos químicos (e que acometem o empregado em lugares onde ele não pode
contar com a ajuda de ninguém), ou ao não apontar o desgaste de ferramentas e de
peças do maquinário onde trabalha e cuja ruptura pode se reverter contra ele
mesmo já que é praticamente impossível controlar a priori o momento exato em que
tais incidentes podem ocorrer. Além disso, esta orientação tende a bloquear a
construção de qualquer sentimento de coletividade na medida em que leva a
desconfiar seguidamente da postura e das afirmações dos próprios colegas ou a
interpretar suas respostas como expressão de hostilidade contra o próprio jeito
de trabalhar.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Outra
forma de defesa bastante comum consiste em passar por cima do chefe imediato
para se dirigir diretamente ao superior deste. O problema é que, ao ser deixado
deliberadamente de lado e ao ser colocado, assim, numa posição desconfortável, o
primeiro pode reagir de forma a colocar em maus lençóis o trabalhador que
menosprezou o seu papel. Ao perceber esta possibilidade, a maior parte dos
colegas prefere enfrentar em silêncio o próprio sofrimento ou expressá-lo só no
consultório médico, quando <I>já não dá mais para agüentar</I> os efeitos desse
desgaste.<SPAN style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>Infelizmente, porém, são
bem poucas as chances que os trabalhadores têm de encontrar profissionais que
vão às causas remotas dos sintomas físicos que apresentam ou que, ao menos, se
dão ao trabalho de perguntar, por exemplo: onde é que você trabalha? O que te
deixa mais estressado na rotina das tarefas que você executa? Que produtos você
manipula? Ou, ainda, se esta dor tivesse voz, que aspectos do seu trabalho
apontaria como responsáveis? </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Isso
significa que, longe de poder contar com uma ajuda mais abrangente, a
individualização do sofrimento e a leitura asséptica que dispensa a compreensão
do contexto em que o sofrimento se manifesta, oferecem como resposta a absurda
recomendação de se acalmar, não ficar nervoso, procurar dormir oito horas de
sono restaurador, comer na hora certa, como se isso dependesse unicamente da
vontade do sujeito. No máximo, para mostrar que a consulta valeu a pena, o
consolo vem através de uma receita cujo conteúdo, na melhor das hipóteses visa
reduzir a dor física e estabilizar a capacidade de segurar o tranco. E aqui
quando não há despreparo dos médicos há, pelo menos, certa dose de conivência
com uma realidade que se prefere desconhecer ou que, ao ser revelada nas
consultas, não passa do segredo entre médico e paciente sem ter assim a menor
chance de virar base para um diagnóstico mais completo até mesmo nos casos que
teimam em se repetir com freqüência assustadora.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Outra
reação igualmente comum entre os empregados consiste em se desfazer de trabalhos
particularmente penosos repassando-os para os novatos ou para os terceirizados
cuja inexperiência ou rotatividade facilitam à empresa a tarefa de apagar os
vestígios das doenças profissionais ou dos acidentes mais graves. A esperteza de
alguns, passa a ser paga por todos na medida em que o sistema de comunicação
empresarial não enfrenta críticas consistentes na hora de falsear os dados sobre
as ocorrências e o perigo representado pelo desempenho de determinadas tarefas
nas condições próprias do processo de trabalho.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A soma
destes elementos aponta a normalidade do aparecimento de atitudes defensivas que
ganham formas diferenciadas a depender da personalidade e do histórico
profissional de cada funcionário e que, não poucas vezes, resvalam em acusações
gratuitas de incompetência ou em expressões de agressividade próprias de
inimigos jurados e não de colegas de trabalho. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Em geral,
o sofrimento experimentado na hora de preencher a distância entre o trabalho
prescrito e o real, quando respondido pelas formas de defesa que apresentamos
acima, leva as pessoas a mergulharem num ativismo tanto mais intenso quanto mais
este permite deixar de pensar, de refletir sobre a realidade e de fazer passar
desapercebido o próprio sofrimento. Trata-se de vencer a ansiedade e a tensão
com a fadiga física. Quanto mais horas e mais rápido se trabalha, mais o tempo
passa depressa, mais se garante a aproximação dos próprios sonhos, menos se
discute, menos se lembra do perigo existente, menor o esforço para esquecer dos
desgostos e das situações desgastantes que permeiam o cotidiano”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Mas
além de alivio, isso pode vir a ser um tiro no pé”, prorrompe o homem ao
perceber a ambigüidade das formas pelas quais trabalhadores e trabalhadoras
buscam se proteger do sofrimento.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Na
mosca!”, confirma Nádia com um gesto que parece unir as peças do quebra-cabeça
num conjunto que esboça uma imagem ainda fragmentada e nebulosa. “De fato, ao
mesmo tempo em que as estratégias defensivas buscam fortalecer as condições que
permitem a um indivíduo ou grupo de resistir aos efeitos prejudiciais do
sofrimento sobre o seu equilíbrio mental, ela pode funcionar como uma armadilha
na qual as pessoas são anestesiadas e se tornam insensíveis a tudo aquilo que as
faz sofrer. Ao proporcionar certo grau de adaptação ás pressões que vêm de todos
os lados e estabilizar a relação entre o empregado e a organização do trabalho,
as estratégias de defesa acabam alimentando uma resistência à mudança tanto
maior quanto mais delicada, difícil e psicologicamente sofrida foi a construção
destas mesmas estratégias. Ou seja, quando trabalhadores e trabalhadoras
conseguem estruturar e sustentar suas formas de reação ao sofrimento, eles e
elas não só hesitam em questioná-las como buscam transformar sua manutenção em
objetivo a ser conquistado a qualquer preço e não titubeiam em direcionar seus
esforços para afastar quem ameaça desestabilizá-las.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Mas isso
não é tudo. Ao aplanar o caminho para que o sujeito se acostume aos desafios do
trabalho, as reações que descrevemos acima o levam a se adaptar aos riscos, a
deixar de perceber a gravidade dos perigos que o cercam e a impedir, ao menos
parcialmente, que ele tome consciência da exploração. Neste contexto, as
denúncias sindicais produzidas sem o devido conhecimento da realidade e de como
esta é apropriada pelos empregados, com uma linguagem agressiva ou
incompreensível a quem não integra qualquer organização e com baixíssimo
envolvimento da base diretamente interessada, pode produzir o efeito oposto ao
desejado ou, quando isso não acontece, um fortalecimento dos próprios mecanismos
de defesa. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Esta
reação aparentemente contraditória dos empregados torna-se compreensível na
medida em que sua postura defensiva leva-os a interpretar o sofrimento não mais
como fruto da exploração do trabalho, mas sim como resultado do enfraquecimento
das estratégias com as quais pretendem enfrentá-lo. Na medida em que vai se
apagando a percepção desta relação com o processo produtivo, cresce,
contraditoriamente, a defesa dos mecanismos de proteção contra o sofrimento que
passam a ser vistos como promessa de alívio imediato e seguro. Dobrado sobre si
mesmo, o empregado experimenta uma gostosa sensação de afastamento da realidade
e de relaxamento tão sensivelmente eficaz que o faz se sentir bem consigo mesmo.
Em função disso, ele passa a estruturar suas ações, sonhos e desejos em volta de
algo que nasceu para defendê-lo de uma realidade que precisa ser eliminada e não
para que cessem as ameaças, os desconfortos, as dores e as frustrações que vem
dela e lhe proporcionam uma constante sensação de insegurança.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ao
servir-se dos mecanismos de defesa para se adaptarem às pressões do trabalho e
ao defendê-los de espada na mão, homens e mulheres desqualificam, afastam e até
mesmo agridem aqueles que questionam estes mecanismos ou se mostram reticentes
em adotar as posturas assumidas pelos demais. Neutralizados os elementos
contrastantes, as estratégias de defesa deixam aberto o caminho para a
auto-aceleração do ritmo de trabalho por parte dos indivíduos e das equipes
envolvidas (o que favorece as políticas de produtividade das empresas), para a
elevação das pressões de cumprimento das metas e, por sua vez, para um ulterior
fortalecimento dos mecanismos de defesa como forma de suportar o peso das novas
demandas.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Trocado em
miúdos, podemos afirmar que esta forma de reação espontânea diante do sofrimento
leva pessoas e equipes a levantar uma barreira protetora. Esta cerca, porém, ao
proporcionar uma aparente defesa individual ou coletiva conduz a uma adaptação
às ameaças e aos desafios do trabalho. Graças aos mecanismos e às relações que
se desenvolvem, trabalhadores e trabalhadoras começam a não ver claramente a
exploração que pesa em seus ombros e a gravidade das formas pelas quais esta se
manifesta. Anestesiados por suas reações espontâneas, chegam a acreditar
piamente que o jeito é reforçar a cerca e não lutar contra a realidade em função
da qual foi erguida. Esta é a razão pela qual entram em choque com quem
questiona e enfraquece a impressão de alívio e segurança que os mecanismos de
defesa proporcionam. Empenhados nesta tarefa de exorcizar o retorno da ansiedade
e da insegurança, os empregados não percebem que o patamar de adaptação ao
trabalho assim atingido torna-se ponto de partida de um novo aperto por parte da
empresa cujas relações aprimorarão as possibilidades de explorar em benefício
próprio o que os empregados construíram para se proteger do sofrimento
vivenciado no cotidiano do trabalho”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “O que
não consigo entender – diz o ajudante ao coçar a cabeça – é porque as pessoas
não conseguem se dar conta disso...”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Pela
mesma razão pela qual o burro, após apanhar do dono, olha para a cenoura e
apressa o passo toda vez que este faz o chicote assobiar no ar. Para evitar a
dor no seu lombo, ele acelera o seu caminhar, ainda que esteja estafado. Isso
não quer dizer que ele pode continuar assim indefinidamente. Mas o próprio dono
sabe que, esgotado um burro, é sempre possível substituí-lo por outro sem
grandes dificuldades”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “E a
cenoura?!?”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Ora! A
cenoura é dada por outro mecanismo tão importante neste processo quanto a
presença do chicote: o reconhecimento.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Nas
páginas anteriores, vimos como este fator põe em movimento atitudes e formas de
comportamento do indivíduo perante a sociedade. Na empresa, porém, as relações
que se gestam ao redor deste elemento ganham características diferenciadas e, às
vezes, opostas. Em primeiro lugar, podemos dizer que é no reconhecimento da
qualidade do seu trabalho que o funcionário não encontra apenas um sentido para
seus esforços, suas angústias, dúvidas, sucessos ou decepções, como é através
dele que se torna capaz de estabilizar e estruturar sua identidade e
personalidade. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Quando
isso ocorre, o sujeito não ganha somente momentos de alívio para o seu
sofrimento, mas sim uma mola propulsora que leva a transformar este mesmo
sofrimento em estímulo para a contínua busca de soluções capazes de responder ao
desafio de aproximar o trabalho prescrito do real e em prazer de usar o próprio
talento nesta empreitada. O médico que no meio de uma cirurgia se vê obrigado a
usar um procedimento não-convencional para salvar o paciente vivencia profundos
momentos de angústia e de tensão. Se o doente se salva, o assumir os riscos
daquela decisão tende a ganhar o sorriso, a aprovação e a admiração não só do
paciente, como de seus familiares e da própria equipe de trabalho. Mas, se o
resultado for outro, o cirurgião, provavelmente, será processado, recriminado
pelos colegas, julgado incompetente pela direção do hospital, podendo vir a
perder o emprego e o registro de médico. Ele fez o impossível para salvar uma
vida, mas fracassou. A falta de reconhecimento do seu esforço tende a
transformar o seu sofrimento em algo absurdo e alimenta um círculo vicioso de
sensações que podem desestruturá-lo. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Do mesmo
modo, por exemplo, inúmeros mecânicos de manutenção vivenciam diariamente uma
situação parecida. Na falta de peças de reposição, são obrigados pelas pressões
da chefia a ‘dar um jeito’, a ajustar o impossível para prolongar a vida útil
daquele mecanismo, mas, ao fazer isso, sabem estar se colocando na corda bamba.
Como no caso do médico, seu esforço e sua criatividade serão reconhecidos se
tudo der certo, mas eles mesmos acabarão execrados e desqualificados perante
todos se algum acidente vier a ocorrer em função do mau funcionamento do
equipamento em questão.</P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">Em graus e formas que
diferem a depender da função e da responsabilidade do cargo, podemos dizer que
quem trabalha é chamado a tolerar este sofrimento até que o caminho encontrado
para superar os obstáculos tenha sido analisado, aceito e incorporado como
prática corrente pelos setores responsáveis. Neste processo, o reconhecimento
torna-se peça-chave para que o indivíduo continue tentando, experimentando,
mantendo seu talento voltado à busca constante de novas saídas para a plena
realização das tarefas exigidas.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ao vencer
este desafio, o sujeito se transforma e, de certa forma, torna-se alguém mais
in<st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName>igente, mais hábil e mais
competente do que era antes. Ou seja, trabalhar não é apenas produzir e ganhar a
vida, mas sim entrar de corpo e alma num processo que vai construindo a própria
personalidade. Nele, a identidade do indivíduo não se ergue apenas a partir de
sua relação com o trabalho, mas da confirmação e da aprovação que vêm do olhar
do outro pelo reconhecimento do esforço despendido na solução dos problemas
deixados em aberto pela organização dos processos produtivos. Nas empresas, esta
aprovação se expressa ora através de prêmios em dinheiro, viagens, elogios
públicos à utilidade social, econômica ou técnica do trabalho realizado,
exposição da foto do funcionário do mês, ora através de simples expressões
informais tais como <I>você fez um belo trabalho</I>, <I>o que você conseguiu
fazer vai fazer a diferença aqui dentro</I> e assim por diante, mas sempre
focalizada ao que foi realizado e não ao seu autor para que os colegas de
profissão não recebam o julgamento positivo de alguém que conhecem como uma
injustiça contra si próprios, sentindo-se menosprezados em seu próprio
esforço.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Além de
manter elevado o entusiasmo pessoal na cooperação com a empresa, o
reconhecimento que vem das chefias estimula o orgulho de pertencer à
organização, fortalece a auto-estima, eleva a capacidade de tolerar o
sofrimento, reforça os vínculos com uma cultura ou filosofia gerencial que,
pouco a pouco, passa a guiar o indivíduo até nos projetos e momentos fora do
ambiente de trabalho, alterando substancialmente as convicções e os critérios de
análise a partir dos quais realiza sua inserção na sociedade e faz a leitura de
tudo o que está <st1:PersonName w:st="on" ProductID="em volta dele. Ou">em volta
dele. Ou</st1:PersonName> seja, apesar de ter sua raiz no âmbito dos processos
produtivos, os efeitos do reconhecimento invadem os demais espaços de vivência
diária e levam o sujeito a se entregar corpo e alma a quem deu sentido a seu
sofrimento, apostou em sua capacidade e reconheceu suas realizações. Quando
concretizado com coerência e sutileza, este investimento empresarial tende a
moldar um funcionário mais confiável, disposto a dar sua contribuição pessoal
não apenas suando a camisa, mas sim lutando ao lado da empresa como um
verdadeiro militante do capital”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Mas não
há nada que possa azedar isso tudo?”, pergunta incomodado o homem ao mexer
nervosamente o corpo na cadeira.</P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">- “Sim, querido
secretário. Esta possibilidade existe, mas para se concretizar precisa de um
elemento que anda escasso no seio do trabalhador coletivo: a cooperação. O
entendimento do trabalho e de suas relações nunca pode ser limitado ao vínculo
que se estabelece entre o indivíduo e as tarefas que lhe são designadas. Mesmo
sem sair do perímetro da empresa, trabalha-se sempre para alguém, com alguém ou
subordinado a alguém. Por isso, o sofrimento só pode ser rejeitado ou enfrentado
coletivamente quando há confiança e cooperação entre as pessoas que passam a
desenvolver seus macetes e quebra-galhos numa ótica diferente daquela que, via
de regra, é assumida por quem embarcou na lógica da competição individual e vê o
outro como concorrente que precisa ser derrotado em nome dos próprios sonhos,
necessidades e aspirações.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">No
passado, o caminho das lutas que se desenvolveram no interior dos locais de
trabalho não foi construído apenas aproximando um ladrilho de dignidade a outro
de rebeldia, mas cada uma dessas peças só dava liga na medida em que relações de
confiança, de amizade e de solidariedade constituíam a base sobre a qual
assentar o descontentamento e a revolta coletiva. Neste contexto, o macete, o
quebra-galho, enfim, o fruto do saber prático, não serviam apenas para uma
eventual promoção, para não ter problemas com as metas ou para ganhar momentos
de descanso no ritmo frenético da linha de produção, mas para se tornar a base
concreta capaz de dar cor e forma a expressões do tipo <I>esse chefe vai me
pagar</I> ou <I>nosso patrão não perde por esperar</I> que, ao externar a
revolta diante do sofrimento diário, revelavam a ebulição da indignação diante
da percepção da injustiça.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O problema
é que esse tipo de cooperação não cai do céu. Ele é sempre uma construção
difícil e precária na medida em que supõe boas doses de compromisso com o
coletivo, desprendimento, gratuidade, disponibilidade para atender às
necessidades do outro, confiança, cumplicidade e coragem para assumir com os
demais os riscos de enfrentar o que gera sofrimento e nega a vida coletiva.
Nestas condições, o sofrimento não é negado, mas sim afirmado e denunciado e o
silêncio que marca longos períodos de calmaria nada mais é a não ser o tempo de
gestação de uma resposta que busca frear o avanço da exploração.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Assim como
num coral não é fácil harmonizar as vozes e transformá-las num único som, pois
isso exige que cada componente controle seu poder vocal, a construção do
sentimento de coletividade no interior do local de trabalho demanda uma
disponibilidade igualmente complexa. Além da rotatividade dos funcionários que,
sem pedir licença, altera a identidade que se estabelece em seu meio, e da
complexa relação entre experientes e novatos, quem se dispõe a organizar a base
precisa ter paciência e jogo de cintura suficientes para ouvir, para dialogar
com as mais diferentes posições, para ajudar a evidenciar até a que ponto sonhos
e desejos não passam de ilusões e em que medida aquilo que o indivíduo considera
um valor não passa de algo que atende interesses de classes bem distantes dos
seus. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Para que a
relação dê os frutos desejados, não basta ter idéias, a disposição de não julgar
como fútil o que, no momento, faz a vida do colega, mas é preciso também ter
capacidade e preparo para inserir as demandas individuais num contexto mais
amplo, coerência de vida e de princípios, sensibilidade para saber escolher o
momento certo de intervir, tato para manter sempre aberto um canal de
comunicação com os colegas de trabalho, coragem para mostrar abertamente
possibilidades, limites e conseqüências de cada escolha, maturidade para saber
apostar no envolvimento do coletivo e uma honestidade de fundo que os demais vão
reconhecer não nas palavras, mas sim nas ações. Agora, este conjunto de
atitudes, mesmo quando presente nos organizadores, tem cada vez mais
dificuldades de penetrar no indivíduo se este, como já vimos, optar por vencer
sozinho, se realizar sozinho, enfim, tiver as pupilas grudadas no próprio
umbigo, pois sua resistência a se deixar questionar, seus sonhos de consumo e
seu espírito de adaptação às exigências da empresa tendem a mantê-lo isolado e a
mergulhá-lo numa espiral que o sufoca na exata medida com a qual se entrega a
ela em busca do que chama de ‘aproveitar a vida’ou de auto-realização”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Se é
assim, quais são os mecanismos que permitem explorar o sofrimento e as defesas
individuais para elevar a produtividade e, de conseqüência, os lucros?”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Satisfeita
com o interesse do seu ajudante, Nádia franze as plumas do rosto e, ao balançar
o corpo, se prepara a responder com a atitude de quem está disposto a ampliar a
visão do ouvinte e a torná-lo atento à manifestação de processos tão simples e
corriqueiros quanto carregados de novos desafios. Sem pressa, apóia as costas na
pilha de livro e após, alguns instantes de silêncio, diz:</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Além de
todos os aspectos levantados nas páginas anteriores há um que costuma passar
desapercebido aos olhos pouco atentos dos humanos, mas que, somado ao medo do
desemprego e da frustração dos próprios sonhos, constitui uma forma de coação
tão sutil e eficiente que o indivíduo passa a usá-la como parâmetro para medir a
si próprio: a inversão de valores pela qual a virilidade é transformada em
coragem, a submissão em virtude e a cegueira em capacidade única de enxergar a
realidade”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Você
poderia ser um pouco mais clara...?”, pede o homem ao empurrar os óculos contra
a testa.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Então
vamos por partes – sugere a coruja ao espetar o ar à sua frente com a ponta da
asa esquerda. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Para que
pessoas de bem, dotadas de senso moral aceitem fazer algo sujo ou assumam uma
ativa servidão voluntária diante das demandas da empresa não é suficiente que
haja pressões externas via medo do desemprego ou a simples possibilidade de ver
seus sonhos pessoais irem por água abaixo. É necessário, isso sim, que elas
acreditem estar fazendo o que é melhor tendo como base alguns valores, pouco
importa se próprios ou adquiridos, em função dos quais se dispõem a controlar
não só as respostas às solicitações do trabalho, mas também as próprias emoções
e reações corporais que passam a ser submetidas a uma disciplina férrea que o
sujeito impõe a si mesmo. Um exemplo vai ajudar a entender melhor o
funcionamento deste mecanismo. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Imagine
uma situação na qual um exército tenha invadido o território de um país vizinho.
Em sua marcha rumo à capital, colheitas foram destruídas, pessoas foram
massacradas pelos soldados e parte considerável do que antes servia à
sobrevivência da população ou foi confiscado pelas tropas de ocupação ou acabou
perdido nos bombardeios. A fome reina soberana e, com ela, o desespero de
milhares de seres humanos, todos eles civis desarmados. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ao saber
que o sentimento de revolta contra os abusos sofridos está empurrando o povo a
reagir contra o vencedor, o general reúne seus homens. Saudados os soldados com
discursos patrióticos que enaltecem a coragem e a bravura demonstradas nos
combates, ele usa seu prestígio para dizer: <I>Está na hora de prestarmos mais
um serviço à pátria, de realizarmos mais um ato de coragem que freie com nossas
armas as forças que ameaçam a implantação dos valores que abriram caminho nas
linhas inimigas e aqui nos trouxeram para realizar o destino histórico da nossa
nação</I>. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Qualquer
soldado que ouve este discurso com dois gramas de cérebro funcionando tem
consciência de que o alto graduado do seu exército lhe pede para atirar em
homens, mulheres, crianças e anciãos desarmados e inocentes que, por sinal, têm
toda razão de se revoltar. Ao saber disso, você, como soldado, pediria para ser
dispensado da chacina anunciada ou participaria dela controlando todas suas
reações físicas e emocionais para executar de maneira eficiente a missão que lhe
foi entregue atribuindo ao general toda responsabilidade pelos seus atos?”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Bom,
numa situação como esta não é fácil decidir.... Mas, com certeza, seria quase
impossível dar pra trás diante dos colegas de armas. Deixar as fileiras
significaria abandoná-los, confessar-se fraco ou covarde... <st1:PersonName
w:st="on">Enfim</st1:PersonName>, enfrentar a atitude de apoio da maioria com um
não, implicaria em desmoralizar-se diante de todos e, com certeza, virar objeto
de chacota, gozação e execração pública... Acho que seria difícil não ir com os
demais...”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Veja
bem. Ainda que cenas como esta se repitam em, praticamente, todas as guerras, o
exemplo terrível que apresentei retrata justamente a inversão de valores da qual
estava falando. O medo de ser desprezado e de perder a sensação de pertencer
àquele coletivo, as preocupações relativas ao sofrimento de uma condenação
pública e à aparente perda da própria identidade de soldado a serviço da nação
levariam a maioria a participar da chacina, não a se recusar e, menos ainda, a
usar a própria arma para atirar num sujeito que apela a valores patrióticos para
justificar a participação coletiva num ato ignóbil e desprezível. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O que
seria um gesto de coragem (a recusa ou o tiro disparado contra o oficial) é
visto como o seu oposto, ou seja, como uma postura covarde, no exato momento em
que covardia é empunhar as armas e atirar contra gente indefesa e inocente cheia
de razão em suas manifestações de descontentamento. Ao participar do massacre, o
soldado comete o mal por motivos estritamente pessoais (não quer parecer frouxo
ou covarde), mas, ao cometê-lo em nome do seu trabalho, faz esta atitude passar
por desprendimento em relação a si próprio ou, até mesmo, por dedicação á causa,
à nação, a um suposto bem-comum. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O
ingrediente principal que possibilita esta opção não é a coragem, mas sim algo
bem mais simples e nefasto: a virilidade. É ela a fazer com que a pessoa não
hesite em infligir dor e sofrimento aos demais em nome do exercício, da
demonstração ou do restabelecimento do seu domínio sobre todos os valores
éticos. Ao contrário da coragem (que não precisa de demonstrações espalhafatosas
e pode ser até mesmo realizada no silêncio, na discrição e tem a própria
consciência como único juiz), a virilidade demanda do indivíduo seguidas provas
de visibilidade, de seu compromisso com o ambiente circunstante, precisa do
reconhecimento alheio e está sempre disposta a chamar de fraco, frouxo,
florzinha, bunda mole, mulherzinha, ruim de serviço, boiola, incompetente,
covarde, medroso e assim por diante todos aqueles que resistem às suas
exigências. E, como você sabe, ninguém gosta de ser visto como incapaz e sem
coragem, ou seja, sem aquela que, por sinal, é considerada a virtude por
excelência. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Para o
senso comum, a virilidade torna-se um valor na medida em que as pessoas a
associam erroneamente a uma imagem de solidez, de sucesso, de capacidade de
expressar e fazer valer a própria posição de poder, sem perceber que ela está
essencialmente associada ao medo e à luta do indivíduo contra o seu medo. É por
esta razão que o sujeito não hesita em lançar mão, inclusive, do exercício da
força, da agressividade, da violência gratuita, cujas manifestações, ao serem
analisadas detalhadamente pelo próprio indivíduo, se apresentam a ele como sinal
patente de covardia, de algo repugnante, hediondo, diante do qual dá vontade de
se afastar. Mas, ao se dar conta disso, o desejo de responder com a recusa ou a
fuga diante do que é assumido coletivamente traz de volta a sensação de
covardia, de falta de coragem.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Neste
emaranhado de percepções e sentimentos, o sujeito dificilmente percebe o erro
grosseiro no qual está caindo: ele pode fugir de uma situação que considera
odiosa e insuportável sem sentir nenhum medo pela punição ou pela própria vida.
O problema é que a equação recusa-fuga-por-medo igual à falta de virilidade (ou
de coragem, de acordo com as expressões corriqueiras do homem-massa) está tão
arraigada em nossa cultura que as pessoas chegam a condenar sistemática e
serenamente todos aqueles que <I>fogem da raia</I>. Por isso, não são poucos os
que, ao dizer não, e, de conseqüência, se auto-excluírem do grupo ou acabarem
marginalizados pelos demais, sentem-se tão humilhados e fracassados a ponto de
caminharem em direção a atitudes de autodestruição. A inversão de valores faz
com que o aplaudido e homenageado seja aquele que faz o mal sem sentimentos de
culpa, sem perder a virilidade e o reconhecimento que esta lhe promete. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">No
ambiente de trabalho, longe de atacar a causa do sofrimento, este mesmo
mecanismo leva o melhor das energias físicas e psíquicas a ser usado, como já
vimos, para fortalecer as defesas individuais e coletivas contra o sofrimento e
não a lutar pela sua eliminação. Passo a passo, as pessoas se convencem de que,
no fundo, trata-se de um trabalho como qualquer outro, que precisam se focar
nele, que devem controlar o próprio corpo, silenciar suas emoções, aprender a
correr riscos, a serem ousadas, a suportar a dor sem se queixar, a agüentar o
tranco, a se superar, enfim, a fazer o que ouvimos todos os dias: a ter, veja
só, <I>coragem pra trabalhar</I>. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Via de
regra, elas tendem a fazer estas afirmações mais com orgulho do que com pesar ou
com sentimentos explícitos de resignação. De um lado, isso se deve à necessidade
de exorcizar toda atitude e pensamento que representem uma crítica ao núcleo de
convicções e vivências que construíram para si próprias e uma ameaça a trazer de
volta o sentimento de culpa quanto à sua responsabilidade individual na
manutenção do sofrimento coletivo. De outro, porém, não são poucos os
funcionários para os quais um bom trabalhador é como um combatente destemido,
aquele cuja conduta mostra ter assimilado as qualidades e os valores da
organização e, portanto, é capaz de mobilizar todo o seu saber e criatividade
para alcançar as metas propostas que, não poucas vezes, chega a ver como
estímulo ao aperfeiçoamento pessoal e à superação de seus limites.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Em breves
palavras, a virilidade é assumida como virtude, no lugar da coragem, em nome das
necessidades inerentes ao trabalho. Esta não é fruto de um processo espontâneo
ou natural, mas sim da sucessão de elementos que permitem banalizar a injustiça
e apresentar como normal e saudável toda justificação dos meios pelos fins
proposta pelo capital”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Mas
isso é demoníaco!”, explode o secretário num átimo de fúria.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Nada
disso – rebate a ave ao balançar a cabeça. O que acabo de apresentar não passa
de uma abundante colher de queijo na macarronada fumegante que acompanha o
frango domingueiro: realça o sabor e estimula o apetite. Mas este mesmo queijo
não faz sentido sem o macarrão e o frango que já estão prontos, ou seja, sem as
demais condições que empurram o trabalhador coletivo a caminhar em direção ao
matadouro justo quando acredita estar sendo convidado a um banquete”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">-
“Então...”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Então
isso quer dizer que, contraditoriamente, ao buscar sua realização pela adesão
ativa à lógica da empresa o sujeito eleva o grau de risco contra si próprio e
contra os demais, corrói sua identidade, desgasta os valores coletivos que dão
sentido à vida em sociedade e caminha, passo a passo, em direção à sua
destruição. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ainda que
haja situações diferenciadas de empresa a empresa, de setor a setor, ou formas e
complexidades que variam a depender da categoria, da dificuldade de reposição da
força de trabalho, do grau de estudo e da função exercida, este processo
percorre etapas quase simultâneas que impedem às pessoas de saírem do círculo
vicioso no qual mergulharam. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O
envolvimento com as metas traçadas pela organização leva o empregado a se
dedicar corpo e alma ao <I>seu</I> trabalho. O fato de ele compensar
parcialmente o esforço físico e mental despendido com o reconhecimento dos
colegas e superiores, ou com a realização de sonhos de consumo, não neutraliza
os efeitos do progressivo isolamento em relação aos demais, nem o sofrimento
que, com o tempo, o alerta quanto ao seu próprio processo de adoecimento. Ao
perceber esta realidade nua e crua, e temendo se tornar um elemento dissonante
com o contexto da produção, o sujeito começa a travar uma luta ferrenha contra
tudo <st1:PersonName w:st="on" ProductID="o que o">o que o</st1:PersonName>
coloca frente a frente com as marcas que o trabalho deixa no seu corpo. Aceitar
que está adoecendo é reconhecer a possibilidade de ser o próximo a ser posto
para fora da empresa, ou seja, de vir a integrar o grupo dos <I>sem futuro</I>
ou de ser forçado a reduzir o nível de vida conseguido até o momento.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Longe de
enfrentar a causa, via de regra, as pessoas se concentram no sintoma e em tudo o
que teima <st1:PersonName w:st="on" ProductID="em faz↑-lo aparecer. Se">em
fazê-lo aparecer. Se</st1:PersonName> o refletir sobre a própria condição eleva
ainda mais a sensação de insegurança, o jeito, então, é anestesiar o pensar e o
sentir, pois, de um lado, há um rechaço da realidade e, de outro, em direção
oposta, há a percepção do perigo que esta representa. O indivíduo sabe, mas
prefere não saber. Por isso, uma das saídas iniciais diante dos primeiros sinais
de alerta do corpo e de sua estrutura psíquica é a de não dar bola a eles
apelando para a capacidade de <I>segurar o rojão</I> comprovada nas situações
vivenciadas no passado e fantasiada de maneira excessiva justo na hora em que
alarmes evidentes indicam um nível de desgaste preocupante. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O esforço
de esconder o próprio sofrimento e a crença do sujeito de que, à diferença dos
demais, nada ruim vai acontecer com ele se ele <I>não deixar a peteca cair</I>
passam a ser sustentados pelo aumento voluntário do ritmo de trabalho. Produzir
mais não é apenas uma forma de pensar menos nos sofrimentos já experimentados,
mas a pedra angular com a qual o trabalhador procura demonstrar a si próprio que
ele não é um fraco, que não vai ficar chorando pelos cantos e que a dor não vai
derrubá-lo. Do mesmo modo em que, ao superar o exame de direção, o motorista
novato acelera para provar que se sente seguro em relação à sua capacidade de
guiar o carro, e depois acaba batendo exatamente por não conseguir controlar sua
potência e reações na estrada, a elevação do ritmo agrava as condições de saúde
física e mental na exata proporção em que o sujeito se esforça para exorcizar
esta possibilidade. Isso ocorre porque, no lugar de pisar no freio após chegar
aos 80 por hora, ele bota os dois pés no acelerador. O ronco do motor avisa que
ele está preste a passar dos limites, mas quanto mais o barulho fica estranho,
mais o empregado se convence da necessidade de não recuar, de continuar negando
que as coisas estão se tornando insustentáveis.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ao
perceber que os novos patamares de produção, tão caros e desejados pelos lucros
empresariais, não bastam para vencer o sentimento de insegurança que volta a
ameaçar o frágil equilíbrio de corpo e mente, o trabalhador não apenas silencia
o que está sentindo, como passa a negar o sofrimento manifestado pelos colegas.
Ele não tolera quem rompe a barreira do silêncio para expressar o que sente
justamente porque vê em suas palavras e gestos o convite a reconhecer e
partilhar uma realidade que aumenta a sensação de ameaça de aniquilamento, de
angústia, de desintegração dos próprios sonhos e da sua personalidade. Por isso,
não hesita em chamar estes colegas de frouxos, a se isolar, a negar o que está
sentindo, a atribuir o sofrimento dos demais a fragilidades estritamente
pessoais das quais ele não partilha por ser forte, capaz de se superar e,
obviamente, por não lhe faltar coragem pra trabalhar.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ao
mobilizar nesta direção todos os recursos disponíveis, o empregado torna-se
literalmente incapaz de recusar-se a submeter sua vida a um trabalho que o
destrói ao mesmo tempo em que continua vendo a empresa como âncora de salvação,
como porto seguro diante da tempestade que se aproxima. </P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">A situação precipita
quando a doença chega com tamanha força que impossibilita a realização das
tarefas que faziam e davam sentido aos melhores anos de sua existência como ser
humano. O trabalho que amava e ao qual sacrificava todas as energias na certeza
de que lhe daria sempre o reconhecimento almejado, a proteção desejada, a sua
realização profissional e humana, além da possibilidade de fazer seus sonhos
virarem realidade acaba de decretar que ele já não serve aos seus propósitos.
Seus atestados são visto como algo que prejudica o desempenho financeiro da
instituição, seu pouco interesse e baixo ritmo de produção como frescura a ser
punida com medidas disciplinares. A carta de demissão ou as pressões para pedir
a conta são justificadas perante os demais funcionários como a necessidade de se
livrar de um peso, de uma carga inútil que estorva o sucesso dos colegas e
impede que a organização atinja seus objetivos. O sofrimento físico e mental
que, por semanas, meses e anos, havia garantido à empresa a possibilidade de
ampliar as metas, elevar a produtividade e o lucro, acaba de se transformar no
seu contrário e, por isso mesmo, a peça estragada precisa ser colocada de lado
com a mesma naturalidade com a qual parece justo, lógico, normal e
in<st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName>igente se livrar de uma mala sem
alças.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Posto de
lado como um pneu careca, o sujeito percebe que o <I>nós</I> pronunciado pelos
superiores hierárquicos toda vez que o coletivo precisava assumir as demandas
vindas de cima não existe mais. Em seu lugar, para ele, sobra apenas um refugo
de <I>eu</I> à beira da desintegração. A sensação de morte, de fim de linha, de
ponto final para todos os sonhos de afirmação pessoal abre as portas para o que
os especialistas chamam de ‘doenças da solidão’ em função da causa que está na
sua origem”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Doenças
da solidão...?!?”, repete o homem entre a pergunta e a afirmação.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">-
“Exatamente, querido secretário. Trata-se de um conjunto de distúrbios que, no
local de trabalho, ganha corpo e se agrava na medida em que o capital vem
implementado as idéias e as práticas que analisamos desde o início deste
trabalho. Diante delas, as empresas revelam alguma preocupação somente quando as
vítimas fazem elas registrarem perdas financeiras ou prejuízos em termos de
imagem pública. Por se tratar de um tema complexo, vou delineá-lo com mais calma
no próximo capítulo ao tratar de...”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P></DIV></BODY></HTML>