<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
<HTML xmlns:o = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" xmlns:st1 =
"urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags"><HEAD>
<META http-equiv=Content-Type content="text/html; charset=windows-1252">
<META content="MSHTML 6.00.2900.3132" name=GENERATOR>
<STYLE></STYLE>
</HEAD>
<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV><B style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt; mso-bidi-font-size: 12.0pt"><SPAN
style="mso-list: Ignore">
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Forte color=#ff0000 size=6>Carta O
Berro<FONT
size=3>................................................................................................repassem.</FONT></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2></FONT></o:p></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>Este é um dos
trabalhos do professor Emílio Gennari, estudioso em sociologia e história.
Escolhemos esse texto, embora longo, mas que será apresentado todas as
terças-feira, por parte.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>Trata-se de uma
análise de leve leitura que permite ir ao fundo dos problemas que as pessoas
enfrentam e que o sistema capitalista na sua ilógica reproduz na sociedade,
tratando-a mais como doença do que um problema
</STRONG></FONT></o:p></SPAN><SPAN style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2><STRONG>que advém do modo em que estão estabelecidas as relações de
produção, e se projetam na conduta das pessoas em sociedade: os seus desejos, as
suas ilusões e mesmo do relacionamento humano.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>As leis do
capitalismo não somente mantém o indivíduo em alienação permanente mas se
reproduz perversamente na vida em sociedade.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>O nome dado a este
trabalho, <U>"Da Alienação à Depressão: caminhos capitalistas da exploração do
sofrimento"</U>. Diz o que vamos conhecer, conhecendo os meandros que nos impõem
essa sociedade.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>Imprima as partes
que vamos lhe enviando e estude. Um mundo novo vai lhe clarear com pistas para
entendê-la e, para a desalienação.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>Um
abraço.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2><STRONG>Vanderley</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2><STRONG></STRONG></FONT></o:p></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial size=2><STRONG>ps.agradecemos a
professora Urda Alice Klueger , a professora Nádia e ao professor Emílio Gennari
por permitir a divulgação pela <FONT color=#ff0000><EM>Carta O
Berro</EM></FONT>.</STRONG></FONT></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2></FONT></o:p></SPAN> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt"><o:p><FONT face=Arial
size=2></FONT></o:p></SPAN> <FONT face=Arial size=4><U>Parte
2</U></FONT></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt; mso-bidi-font-size: 22.0pt"></SPAN></B> </P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: center"
align=center><B><SPAN
style="FONT-SIZE: 18pt; mso-bidi-font-size: 22.0pt">Emilio<SPAN
style="mso-spacerun: yes">
</SPAN>Gennari<o:p></o:p></SPAN></B></P></SPAN></SPAN></B>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 53.4pt; TEXT-INDENT: -18pt; TEXT-ALIGN: justify; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.4pt"><B
style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt; mso-bidi-font-size: 12.0pt"><SPAN
style="mso-list: Ignore"></SPAN></SPAN></B> </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt 53.4pt; TEXT-INDENT: -18pt; TEXT-ALIGN: justify; mso-list: l0 level1 lfo1; tab-stops: list 53.4pt"><B
style="mso-bidi-font-weight: normal"><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt; mso-bidi-font-size: 12.0pt"><SPAN
style="mso-list: Ignore">1.<SPAN
style="FONT: 7pt 'Times New Roman'">
</SPAN></SPAN></SPAN></B><B><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt; mso-bidi-font-size: 12.0pt">A reestruturação produtiva e
seus reflexos no trabalhador coletivo.</SPAN></B><SPAN
style="FONT-SIZE: 14pt; mso-bidi-font-size: 12.0pt"><o:p></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Pronta a
dar continuidade ao relato, Nádia aguarda que o secretário arrume papel e fôlego
suficientes para mais uma etapa da viagem às transformações que ocorrem no mundo
do trabalho. Após breves instantes de espera silenciosa, a coruja desenha
círculos no ar com a ponta da asa esquerda e, assumindo o controle da situação,
diz:</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Entre
as medidas trazidas pelos anos <st1:metricconverter ProductID="90, a"
w:st="on">90, a</st1:metricconverter> terceirização é, sem dúvida, a que atinge
o maior número de empresas e evidencia uma rápida e profunda precarização das
relações de trabalho. Bancos, fábricas, fazendas, escritórios, transportadoras,
comércios de todos os tipos e tamanhos se apressam a eliminar de seus quadros um
grande contingente de funcionários que antes integrava, com plenitude de
direitos, as categorias profissionais nas quais estava inserido. Em menos de
dois anos, o país assiste a uma verdadeira febre pela qual centenas de milhares
de trabalhadores e trabalhadoras são demitidos para serem contratados por
prestadoras de serviços. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Apesar de,
às vezes, ocuparem o mesmo posto, o salário sofre uma redução média de 30%,
desaparecem benefícios como plano de saúde, auxílio creche, vale refeição,
complementação de renda quando do adoecimento prolongado, etc. Estas medidas
instalam uma clara sensação de insegurança tanto entre os que acabam de passar
por este processo, como no quadro de funcionários que mantém os vínculos normais
com a empresa. A disciplina do desemprego e a precarização das já difíceis
condições de vida são a peça-chave que faz a classe se submeter sem grandes
resistências às novas exigências do capital.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A alta
rotatividade dos terceirizados e o fato de pertencerem frequentemente a
categorias profissionais cujo sindicato é bem menos combativo, quando não
totalmente ineficiente, dificulta ainda mais o trabalho de organização e
mobilização. O problema é que apesar de verem suas fileiras encolherem, os
dirigentes continuam centrando sua atuação nos aspectos econômico-corporativos e
ora se negam, ora se revelam incapazes de envolver este setor do trabalhador
coletivo que atua lado a lado com os funcionários por eles representados. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O
progressivo distanciamento que vai se consolidando não leva só ao completo
abandono dos terceirizados diante das injustiças e dos riscos aos quais estão
submetidos como permite às empresas aprofundarem atritos entre colegas e
dificultar ainda mais a resistência coletiva e o sentimento de indignação. Agora
são os próprios operários a impedir, por exemplo, que os prestadores de serviço
tomem o <I>seu</I> café, pois este é o café dos que são da <I>nossa</I> empresa;
a distribuir com ar de superioridade ordens de serviço para a realização de
trabalhos sujos e perigosos que antes a chefia dirigia a eles; a acusar os
terceirizados (e não a empresa) de contribuírem para a perda de seus antigos
direitos; ou, ainda, sem levar em consideração o treinamento e as precárias
condições que lhes são oferecidas, a rebaixar estes colegas por eles não darem
conta do que é pedido com a qualidade e a presteza dos tempos antigos. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Em graus
que diferem de uma empresa pra outra, entre terceirizados e diretamente
contratados se instalam situações que levam a desagregar os elementos de
solidariedade e confiança que constituem os pilares de toda organização de base.
É como se agora o salário reduzido pelo qual os primeiros aceitaram trabalhar e
o nariz empinado que os segundos mostram em suas relações corriqueiras fossem
problemas maiores do que a necessidade de dar vida a uma luta conjunta contra a
exploração de ambos os grupos.</P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">Mas isso não é tudo. Em
constante mudança entre as empresas e sem uma representação sindical
consistente, as vítimas da terceirização experimentam na própria pele os
crescentes efeitos desta dispersão. Sem proteção, dependendo exclusivamente do
seu esforço e desempenho pessoal, vivenciando a insegurança quanto ao
recebimento regular de seus vencimentos e sem nenhum tipo de orientação, elas
vêem o amanhã <st1:PersonName ProductID="com incerteza e o" w:st="on">com
incerteza e o</st1:PersonName> presente com resignação ao sacrifício necessário
para poder sobreviver. Se, por um lado, o fato de não estarem desempregados é um
consolo, de outro, o sofrimento diário é o pão amargo que acompanha cada hora
dentro e fora do ambiente de trabalho.</P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">Na ausência de
perspectivas de mudança, só resta a este contingente a possibilidade de ir se
acostumando com a dor que acaba sendo incorporada como uma sina da profissão
exercida. Pouco a pouco, as marcas deixadas no corpo pelas tarefas desempenhadas
na empresa não são vistas como fruto da exploração do trabalho, mas sim da
fragilidade pessoal, de algo, portanto, que é parte de constituição física e
mental de cada indivíduo. O conjunto desses mecanismos permite ocultar a
evolução das doenças profissionais, sua gravidade e seu grau de incidência nos
setores mais insalubres e perigosos, e apagam a relação doença-trabalho como
caminho pelo qual é possível perceber a exploração e tomar consciência da
necessidade de uma reação.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Consciente
ou inconscientemente, três silêncios são cúmplices do capital: o dos sindicatos,
que na melhor das hipóteses, limitam-se a denunciar os acidentes com morte que
vitimam os que não pertencem à <I>sua categoria</I>; o dos trabalhadores
diretamente contratados, para os quais cabe sempre aos outros alertar e
denunciar as situações de risco nos quais os terceirizados são colocados, via de
regra, sem o treinamento e os equipamentos necessários; e o dos próprios
funcionários das prestadoras de serviços cujo medo do desemprego sufoca o que
resta das manifestações de sofrimento ou revolta pelas condições a que estão
submetidos”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Ao
começar pelo pior entre as mudanças nos locais de trabalho você me deixou
assustado – afirma o homem ao deixar cair a caneta. Mas, por outro lado, é
inegável que a chegada da automação em vários setores reduziu o esforço físico,
eliminou riscos que antes causavam inúmeros acidentes, tornou mais limpos os
setores produtivos e facilitou a execução de tarefas pelas quais muito se exigia
dos operários nelas envolvidos...”</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Quanto
a isso, você tem razão – concorda a ave ao apoiar o queixo na ponta da asa. O
problema é que ao mesmo tempo em que ocorriam estes que poderíamos chamar de
efeitos positivos da automação, novas situações já apontavam que o futuro
supostamente brilhante a ser trazido pela tecnologia seria mais para as empresas
do que para a classe trabalhadora. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Entre os
primeiros elementos, é impossível não ver a flexibilização das tarefas e das
funções, mais conhecida pelo nome de polivalência. Ao se tornar
pau-pra-toda-obra, o funcionário se vê diante da elevação do número de tarefas a
serem executadas em curtos espaços de tempo. Se, de um lado, a variação rompe a
monotonia, de outro, o ritmo se torna alucinante. Se isso não bastasse, a
execução de uma seqüência de operações não implica em maior qualificação
profissional (pois, em geral, o saber-fazer aprendido no setor só vale naquele
âmbito), mas sim no aumento da produtividade do trabalho e na redução
significativa das resistências individuais. De fato, ao dizer <I>isso não é da
minha função</I>, cada empregado procurava se proteger contra qualquer aumento
da carga de trabalho por saber que, no dia seguinte, novas demandas seriam
acrescentadas às que vinham sendo exigidas. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A
introdução da polivalência elimina assim a maior parte das barreiras que criavam
empecilhos à plena utilização da força de trabalho e, ao mesmo tempo, introduz
uma realidade intrigante: se antes um bom número de funcionários em greve era
suficiente para paralisar as atividades, agora basta pouca gente para conseguir
manter as funções essenciais e pôr as máquinas pra trabalhar no ritmo permitido
pelos empregados que furaram os bloqueios do sindicato. Na medida em que todos
aprenderam a realizar várias tarefas, sua substituição momentânea ou definitiva
não é um problema, mas algo que se torna facilmente realizável e que, de
conseqüência, vai agravar o medo do desemprego.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A
aceleração do ritmo e das cadências se dá também através de elementos que não
são imediatamente visíveis. Além de reduzir os tempos de parada para manutenção
e os contatos informais entre os empregados, as novas tecnologias introduzem o
que é conhecido como <I>controle <st1:PersonName ProductID="em tempo real. Ou"
w:st="on">em tempo real<SPAN style="FONT-STYLE: normal">.
Ou</SPAN></st1:PersonName><SPAN style="FONT-STYLE: normal"> seja, os sistemas
informatizados permitem verificar instantaneamente o desempenho de cada
empregado, suas médias por hora, os tempos em que se ausenta do processo de
trabalho e, graças ao auxílio das câmaras de vídeo, como trabalha, com quem se
relaciona e em que medida sua atuação pode provocar a paralisação ou algum
atraso na<SPAN style="mso-spacerun: yes"> </SPAN>produção.</SPAN></I></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ainda que
as novas máquinas ajudem a reduzir o cansaço físico, é inegável que elas elevam
o grau de atenção exigido e, de conseqüência, a tensão nervosa e a fadiga mental
dos operadores. Estes fatores de desgaste crescem na medida em que, além de
trabalhar mais depressa, com um contingente de pessoas reduzido ao mínimo, em
constante sobrecarga e sem poder tomar as precauções necessárias, é necessário
supervisionar um número maior de dispositivos cujo mau desempenho pode ocasionar
acidentes graves ou fatais. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Neste
contexto, o espaço de ação do indivíduo fica cada vez mais apertado. Assustado
pelo fantasma do desemprego e da possível demissão, coagido pelos controles
sobre os quais não exerce nenhuma influência, empurrado pelos seus próprios
sonhos e isolado pelo encolhimento dos âmbitos de cooperação, solidariedade e
amizade sobre os quais se forjava a resistência coletiva, o sujeito acaba
mobilizando toda a sua in<st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName>igência e
energia para cumprir as metas exigidas.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Esta
realidade não se altera nem mesmo quando o trabalho é organizado em células ou
equipes. A necessidade de ‘dar conta do recado’ a qualquer preço acirra os
mecanismos de controle implícito dos próprios colegas que se encarregam de
coibir as idas ao banheiro, o tempo do cafezinho, do cigarro e de fiscalizar o
próprio ritmo de cada membro sem precisar da chefia. Além disso, todos sabem que
o desempenho de cada grupo é constantemente medido e comparado com os demais
numa competição dirigida pela gerência e na qual o fato de chegar seguidamente
nos últimos lugares é, no mínimo, sinônimo de chantagens, gozações e ameaças de
demissão disfarçadas de conselhos paternalistas. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Seja qual
for a forma pela qual se viabiliza a mudança dos processos produtivos,
trabalhadores e trabalhadoras têm clareza de que ou se rendem ao jogo da empresa
ou correm o risco de conhecer pessoalmente o duro caminho do desemprego. Não há
meio termo possível, pois a reestruturação só consegue vingar em sua plenitude
na medida em que são varridas do local de trabalho as pessoas e as lembranças
que podem trazer de volta a resistência do passado. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A sujeição
à qual a classe é forçada a se submeter anda de mãos dadas com as diferentes
práticas disciplinares e regulamentos internos que não só buscam inibir toda
reação contrária ao sistema, como tendem a canalizar para o aperfeiçoamento
deste as reivindicações, observações e formas de descontentamento que, de tempos
em tempos, se manifestam entre os funcionários. Ou seja, a empresa moderna não
se preocupa apenas em punir, mas intimida ao mesmo tempo em que deixa espaços
para a apresentação de demandas que ajudam a aperfeiçoar os modos operatórios.
</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ao blindar
o convencimento com as regras da coerção, o atendimento de reivindicações
pontuais pela empresa é usado como um sinal pelo qual basta a presença de um
canal de comunicação entre a hierarquia e o quadro de funcionários para que a
primeira possa atendê-las de acordo com as possibilidades e, obviamente,
capitalizar o mérito das benesses proporcionadas. O resultado é simples: a
satisfação das pequenas necessidades diárias diminui o descontentamento, reduz o
peso da atividade sindical, evita os conflitos, estimula a obediência, incentiva
novos patamares de intervenção criativa, alimentando a produtividade e o
sentimento de auto-realização. Graças à constante superação das metas
pré-fixadas, é possível colocar em andamento uma lenta, porém sistemática,
redução do quadro de funcionários. Ainda que isso implique em colocar o processo
em ponto de ruptura pela elevação dos riscos implícitos na aceleração do ritmo,
o sofrimento introduzido pelas novas metas a serem atingidas é compensado por
prêmios em dinheiro ou em viagens, reconhecimentos simbólicos, fotografias que
atestam o esforço do ‘funcionário do mês’ e elogios que custam pouco e valem
menos ainda.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Mas isso
não é tudo. Ao aderir a esta realidade, o funcionário começa a abrir mão de sua
ética profissional e a fazer, literalmente, de tudo para chegar nos primeiros
lugares. Pouco importa se para conseguir este objetivo ele precisa enganar
alguém, mentir para outros ou prejudicar o colega ao lado. Ao atuar na direção
indicada pela empresa, tudo parece legitimar suas atitudes e o sofrimento alheio
que nasce desta adesão começa a ser justificado com a alegação cínica de que
<I>se eu não fizer, outro vai fazer</I>. Desta forma, o próprio erro é
automaticamente justificado com a suposição de que alguém pode vir a fazer o
mesmo e acabar se beneficiando do que é oferecido”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “O que
ainda não ficou claro é como as empresas conseguem conciliar coerção e
convencimento a ponto de seduzirem o trabalhador coletivo a percorrer os
caminhos que aumentam o seu sofrimento e a exploração que pesa sobre suas
costas...”, pede o secretário intrigado com a longa fala da coruja.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Bom,
vamos por partes – afirma Nádia com uma expressão típica de quem pretende
iluminar os recantos mais escuros da organização do trabalho. Os anos 90
conhecem o aperfeiçoamento de três importantes instrumentos com os quais os
patrões procuram realizar esta façanha: a avaliação individualizada de
desempenho, os programas de qualidade total e o desenvolvimento de planos de
cargos, carreiras e salários.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">No que diz
respeito à primeira questão, é bom lembrar que ela se torna possível pelo
acompanhamento informatizado do desempenho de cada trabalhador, o tal controle
em tempo real do qual falávamos acima. Associada a um programa de metas e
encouraçada pela ameaça de demissão, a avaliação individualizada escancara a
porta do <I>cada um por si Deus por todos</I> e, via de regra, leva as pessoas a
comportamentos desleais em relação aos próprios colegas, à uma queda nos níveis
de confiança recíproca e, após algum tempo, à ruptura dos laços de solidariedade
e do que faz o <I>viver-juntos</I> de todos os dias.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Mas isso é
só o começo das dores. Entre os elementos que saltam aos olhos está o fato de
que, na avaliação do desempenho individual, a ênfase cai exclusivamente sobre os
dados quantitativos que não consideram as condições reais em que as tarefas são
realizadas. Diante dos gráficos, a chefia não quer saber se naquele dia os
computadores estavam mais lentos do que de costume, se o funcionário tinha que
lidar com processos cabeludos ou situações de difícil solução, se o trânsito
particularmente engarrafado dificultava as entregas, se parte das peças a serem
montadas estava fora de especificação e precisava de ajuste ou se a má qualidade
da matéria-prima exigia um trabalho adicional não previsto pelo setor de
engenharia. O que importa é o número final que indica o quanto foi feito e não
os esforços qualitativos que se fizeram necessários para dar conta do que, para
a supervisão, não passa de algo que é sempre <I>simples e rápido</I>. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Em breves
palavras, a aparente objetividade da avaliação quantitativa oculta o fato
bastante corriqueiro de que raramente as coisas saem do jeito que foram
planejadas exatamente porque há sempre certo volume de imprevistos que escapam
dos cálculos empresariais. Ao estar com a cabeça no forno e os pés no
congelador, na média, o seu corpo pode até alcançar a temperatura ideal, apesar
de você passar mal de ponta a ponta. Do mesmo modo, a avaliação de desempenho só
utiliza como parâmetro as metas designadas para cada empregado sem perguntar se,
no processo de trabalho, ele teve um dia de mais congelador ou de mais
forno...”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “E as
empresas não sabem disso?!?”.</P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">- “Sabem, mas admitir
esta realidade significa reconhecer a necessidade de adaptar o trabalho ao ser
humano que o desempenha e, portanto, a necessidade de não forçá-lo a se submeter
ao ritmo dos equipamentos e à imposição arbitrária de níveis de produtividade
cada vez mais elevados. Por isso, no lugar de reconhecer a distância entre o
trabalho prescrito e o real, as gerências preferem bater na necessidade de
aprender a superar os próprios limites num processo pelo qual é sempre possível
melhorar e nenhum obstáculo pode ser considerado intransponível. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Inserida
nos elementos que já descrevemos, esta lógica seduz o indivíduo para a que
podemos chamar de <I>ditadura do sucesso</I>. Desistir, não aceitar ou
simplesmente resistir a ela implica em se submeter à desqualificação e ao
julgamento negativo das chefias e dos próprios colegas para os quais
<I>vencer</I> é o único meio de ser reconhecido, valorizado e mantido na
organização. Isso implica em reproduzir discursos, seguir regras, apresentar
resultados, ser dócil e obediente a ponto de ganhar os tão almejados elogios à
competência que levam o sujeito a acreditar que a empresa exige dele porque está
convencida de que é capaz de dar conta do recado, de atingir objetivos
desafiadores, de mostrar a si mesmo que pode fazer mais. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O processo
pelo qual trabalhadores e trabalhadoras chegam a assumir demandas empresariais
como se fossem metas pessoais conduz a uma inversão de valores extremamente
sutil e bem articulada. O primeiro aspecto a ser virado de cabeça pra baixo é o
significado da palavra competência no exercício da própria função. Nos moldes da
avaliação individualizada, pouco importa a quantos anos você está no setor, que
abacaxis sua experiência ajudou a descascar ou até mesmo as centenas de ocasiões
em que o saber prático acumulado na execução do trabalho foi indispensável para
tirar a chefia do sufoco. Como nem esse esforço nem o sofrimento que ele gera
podem ser medidos quantitativamente, o que conta agora é somente o desempenho
que vira número. A aparente objetividade dos cálculos que medem o trabalho
realizado faz com que possa ser chamado de competente apenas quem consegue
cumprir ou superar as expectativas da empresa. O sucesso e o fracasso são assim
desvinculados do trabalho real desenvolvido, das atitudes desonestas de colegas
que usam sua posição para executarem o que é mais simples (e, portanto, permite
atingir <st1:PersonName ProductID="com facilidade as" w:st="on">com facilidade
as</st1:PersonName> metas estabelecidas), da situação do maquinário e dos demais
‘detalhes’ do processo de trabalho. O que importa é apenas o quanto, o número, a
porcentagem atingida. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A segunda
inversão de valores está na postura dos colegas diante de quem não alcança a
produtividade esperada. Longe de ganhar a solidariedade coletiva, os portadores
de resultados negativos são vistos como merecedores de humilhação e
constrangimento na medida em que seu desempenho rompe o espírito de competição e
compromisso que o grupo acredita ter assumido natural e espontaneamente diante
da realidade do trabalho. Em práticas que variam de setor a setor, de empresa a
empresa, o apontar e reprovar publicamente quem não conseguiu atingir as metas
costuma levantar dúvidas quanto à capacidade do indivíduo e do seu compromisso
com a organização, o que, via de regra, desperta um profundo sentimento de
vergonha que se torna um poderoso elemento disciplinador. Para evitar situações
constrangedoras e o cumprimento da ameaça de demissão, as pessoas sentem-se
empurradas a dedicar-se mais ao trabalho e começam a se policiar, a não se
conceder nenhum instante de folga, a fazer tudo como manda o figurino”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Pelo
que você disse, a avaliação individualizada de desempenho tem como pontos de
referência os objetivos estabelecidos pela empresa. Pelo que sei, os programas
de qualidade total demandam a participação dos funcionários e quem participa
destes programas parece gostar do que faz. Será que aí também vamos encontrar
conseqüências perversas?”. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “O que
as grossas lentes de seus óculos ainda não lhe permitem enxergar é o <I>efeito
sombra</I> que toda novidade projeta sobre a realidade conhecida. Nos dias em
que falta energia elétrica, ter uma vela ao alcance da mão produz uma grande
sensação de alívio. É pouco, mas o simples fato de conseguir se mexer na
escuridão sem trombar em nada é, sem dúvida, algo que traz segurança e conforto.
O problema é que a pequena luz destinada a clarear o ambiente projeta sombras
tenebrosas em tudo o que está atrás de quem a carrega. Ou seja, ao mesmo tempo
em que as novas políticas de recursos humanos trazem esperança de alívio, sua
aplicação não deixa de alimentar os passos necessários para aumentar a
eficiência dos equipamentos existentes, reduzir o número de empregados e
viabilizar formas de controle bem mais sutis e aprimoradas.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">De mãos
dadas com a avaliação de desempenho, os programas de qualidade total se
apresentam como uma espécie de solução definitiva para a busca da eficiência e
da excelência, apesar de qualquer gerente saber que há sempre uma distância
irredutível entre os métodos implementados e o trabalho real de todos os dias.
</P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">No ‘vale tudo’ para levar
os funcionários a ceder o saber prático acumulado (e que, no passado, servia
também para desenvolver formas de resistência) os envolvidos nestes programas
acabam entrando numa verdadeira sinuca de bico. De um lado, a possibilidade de
participar faz eles experimentarem uma valorização pessoal, mas, de outro,
vêem-se forçados a mentir, antes pelo temor de desagradar quem dirige tais
programas e vir a sofrer punições, e, depois, na hora da empresa obter os
certificados ISO, pois as auditorias não podem perceber a diferença que existe
entre o que é dito e o que realmente ocorre no cotidiano do trabalho.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Para
muitos profissionais, esta <I>obrigação</I> de mentir somada ao aumento das
tarefas proporcionado pela eficiência alcançada com suas próprias idéias, dá
origem a uma sensação de desorientação, de confusão, de perda de confiança em si
mesmos e nos demais que produz um profundo sofrimento psíquico. Em breves
palavras, um profissional de mão cheia sabe que aquilo não é assim, que está
errado, que o seu silêncio e a colaboração com a empresa podem inclusive levar a
acidentes graves ou a doenças profissionais mais agudas. Ele tem consciência de
que está fazendo algo que vai recair sobre ele mesmo e que normalmente
condenaria ou reprovaria, mas, diante da afirmação pela qual ou a empresa age
desse jeito ou pode não ser competitiva e ter que cortar postos de trabalho, ele
mergulha num turbilhão de sentimentos contraditórios. De um lado, sente que
parte da responsabilidade pelo que faz sai do seu controle, mas, de outro, sabe
que a maioria dos colegas irá olhá-lo com reprovação e que a própria chefia o
punirá se algo der errado em função do que a empresa o levou a omitir ou a
falsear.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Para
vencer as resistências individuais, fruto da ética pessoal, o capital não
esquece de blindar suas ações de convencimento com a coerção da sobrevivência.
Frases como <I>lembre que pagamos um dos melhores salários da região</I>, <I>é
com o que ganha aqui que você já realizou parte dos seus sonhos e pode ter ainda
mais</I> ou <I>uma mão lava a outra, por isso se você nos ajuda a alcançar novas
metas você também cresce junto e pode se firmar na empresa</I> são parte de um
arsenal de pressões psicológicas que flutua entre a sedução e a coerção pura e
simples. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ao
vincular a realização pessoal aos objetivos empresariais, o capital oculta os
interesses e a responsabilidade real de quem dirige este processo nas altas
esferas da empresa e apresenta as medidas demandadas como algo imprescindível
para fazer frente aos fatores incontroláveis que cercam e ameaçam a vida da
organização. Quem já não ouviu os patrões falarem na necessidade de atender às
exigências do mercado como condição para manter os empreendimentos? Ou ainda,
que o lucro é o prêmio com o qual o cliente retribui os serviços prestados e a
partir do qual é possível investir para ampliar a qualidade, o tipo e a
quantidade de atendimentos, proporcionando assim mais empregos e renda aos
próprios <I>colaboradores</I>? </P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">Pouco a pouco, lucrar e
acumular deixam de ser partes constitutivas da vocação do capital que, para se
realizar, deve impor mais trabalho, mais exploração e, obviamente, mais
sofrimento à coletividade, e passa a ser desejado por todos exatamente porque o
mundo em volta da empresa parece depender de figuras incontroláveis como o
cliente e o mercado. Este aspecto é parte essencial das novas formas de gestão
na medida em que ajuda as pessoas a retirar da realidade toda sensação de culpa
e responsabilidade pessoal em relação às conseqüências que serão produzidas ao
mesmo tempo em que leva os empregados a se focarem nas metas empresariais com a
maior dedicação possível e a esquecerem que, ao aumentar a produtividade ou
reduzir custos essenciais, suas próprias idéias contribuem para o aprofundamento
da exploração e do sofrimento.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Convencidas
de que é assim simplesmente porque todos fazem isso e repetem a papagaio os
dogmas popularizados da acumulação, as pessoas não ficam intrigadas ou magoadas
nem mesmo quando percebem que a <I>democracia empresarial</I> só é desejável e
viável nos aspectos que alimentam os interesses patronais. O mesmo ocorre nos
casos em que dois gramas de reflexão coletiva levam trabalhadores e
trabalhadoras a se dar conta de que sua participação ativa nos planos da firma
visa apenas legitimar o que foi previamente estabelecido pelos gerentes que, por
sua vez, manipulam a verdadeira palavra dos subordinados para depurá-la das
dissonâncias com os processos implementados e anular qualquer elemento que possa
colocá-los sob suspeita. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">E tem
mais. Mobilizado para os objetivos da produção, o indivíduo assume o controle do
desempenho do colega que o antecede no processo de trabalho ao mesmo tempo em
que sua atuação também é avaliada pelo que recebe o resultado do seu esforço. As
resistências de cunho ético são vencidas antes pelo conformismo com a realidade
imposta e, em seguida, pela prática automática das novas relações, pela
naturalidade com a qual esta leva a pensar no trabalho 24 horas por dia ou pelos
novos sonhos que a submissão às regras permite acalentar. Passo a passo, o
sujeito cai numa armadilha mortal: não pode manifestar abertamente seu
descontentamento e suas reservas para não se tornar estranho ao contexto em que
está inserido, deixa de perceber a verdadeira razão de seu sofrimento psíquico e
passa de uma atitude de submissão forçada a uma de satisfação na própria
submissão por acreditar que vinculando o seu destino ao da empresa ele pode
realmente concretizar seus desejos e realizar a si próprio. Sem perceber, ele
adere a uma espécie de servidão voluntária. Ou seja, no lugar de ser um bom
escravo justamente porque se rebela, reduz o ritmo de trabalho, poupa o seu
corpo de desgastes adicionais e aposta suas fichas em tudo o que pode romper
suas correntes, ele se transforma num escravo que é feliz de ser escravo, teme a
liberdade porque representa o novo, foge de tudo o que projeta incertezas nas
sobras às quais tem direito e ajuda o capataz a identificar os rebeldes. </P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">Isso ocorre porque ele
assumiu como próprias as formas de comportamento e os valores da organização
para a qual trabalha. Os concorrentes da empresa chegam a ser descritos como
inimigos pessoais (quem já não ouviu operários das fábricas de calçados
amaldiçoarem esses filhos das p... de chineses que ameaçam os nossos empregos).
As atitudes nas quais foi instruído tornam-se caminho seguro para o seu
reconhecimento e afirmação. E as idéias incorporadas viram critério a partir do
qual são julgados os comportamentos a serem mantidos com quem está ao seu redor.
</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O <I>novo
funcionário</I> se sente assim feliz e protegido. Agora, ele pode olhar pra cima
sem ouvir a dor daqueles nos quais está pisando, recusar o contato com quem lhe
lembra das responsabilidades com os demais e não ser atrapalhado na hora em que
se sente projetado para o que considera ser o ‘seu’ sucesso. </P>
<P class=MsoBodyTextIndent style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">O problema está
justamente no fato de que, em geral, o ponto mais alto de seu sentimento de
realização pessoal coincide com o início de sua descida ao inferno da solidão.
No exato momento em que o sujeito parece tocar o céu com os dedos por ter
realizado metas que não são suas e ter se envolvido corpo e alma em satisfazer
interesses econômicos empresariais sobre os quais não detém o menor controle,
ele começa a se tornar estranho e estrangeiro em relação a si próprio. Este
processo ganha velocidade na medida em que, para se sentir e se achar cada vez
mais, ele se isola, se fecha, e veste espontaneamente uma camisa de força com a
mesma convicção de quem acredita que vai arrasar ao usar a roupa da moda.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">O capital
assiste rindo de camarote ao progressivo desgaste físico e mental que levará à
expulsão futura deste <I>fiel serviçal</I> e à sua substituição por outro alguém
que, da amargura do desemprego, torce para ser chamado a substituir as peças
gastas”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Nesta
altura, estou até com medo de ouvir o que vai dizer em relação aos planos de
carreira...”, sussurra o homem sem levantar a cabeça.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “No que
diz respeito a esta questão, vale a pena resgatar o fato de que, em geral, os
planos de carreira são produzidos por iniciativa patronal frente à qual a
intervenção dos sindicatos limita-se a batalhar regras que proporcionem maior
transparência nas promoções, evitem abusos ou apadrinhamentos e fixem as
condições que, para cada degrau da carreira, definem uma remuneração adequada à
formação escolar, à experiência profissional e à responsabilidade exigida pelo
cargo. Ninguém duvida que, sob vários aspectos, estamos falando de algo que pode
beneficiar os trabalhadores e recompensar seus sofrimentos. Mas é fato que nada
disso vem de graça”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Ora,
Nádia, os próprios funcionários pressionam para ter um plano desse como forma de
ter acesso a uma tabela salarial mais consistente, portanto, não há como ser
diferente...!”, conclui apressada a língua sem medir as conseqüências de sua
intervenção.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “O
problema, querido humano, não está apenas no que se diz, mas, sobretudo, no que
as posturas afirmam até mesmo contra os discursos e as posições veiculadas pelos
informativos dirigidos à categoria. Apesar de ser um instrumento de educação da
classe, o sindicato freqüentemente não cumpre este papel e se deixa levar pelo
senso comum. Até o momento, nenhuma entidade se debruçou sobre uma questão
intrigante: se o sofrimento na adaptação dos novatos às tarefas exigidas é muito
maior do que é oriundo da execução corriqueira do trabalho por um empregado
experiente, porque aceitamos que esse esforço não ganhe o reconhecimento devido
na tabela salarial? Por que a angústia do contrato de experiência só é paga com
a admissão? Trata-se de uma prova de fogo pela qual o indivíduo atesta sua
disposição a ser esfolado? <st1:PersonName w:st="on">Enfim</st1:PersonName>, por
que os limites do sistema a este respeito não são sequer questionados através da
mesma lógica que, em seguida, vai permitir ocultar o sofrimento do trabalho e
explorá-lo para elevar os lucros empresariais? Por que além da transparência, da
necessidade de criar regras claras, de evitar mutretas e favorecimentos
ilícitos, de compensar a antiguidade e estimular a continuidade dos estudos, as
preocupações sindicais não se debruçam sobre o sofrimento no trabalho?”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">-
“Sinceramente, não consigo entender onde quer chegar...”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Vamos
por partes – convida a ave ao cruzar a ponta das asas atrás das costas. Se, de
um lado, os sindicatos não podem deixar de debater a formatação dos planos de
carreira (pois, do contrário, a única palavra a ser ouvida seria a da empresa),
de outro, faz-se necessária uma intervenção qualificada para resgatar os
elementos que pontuamos acima e desmascarar o objetivo implícito a estas medidas
gerenciais.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Se é
verdade que as questões apresentadas nas páginas anteriores, ainda que em graus
diferentes, são parte da realidade vivenciada nos locais de trabalho, um plano
de carreira minimamente estruturado e coerente faz a submissão ainda mais
apetitosa. Graças aos mecanismos próprios de cada carreira, a organização
formaliza e torna homogêneos padrões de condutas, reduz ao máximo o espaço para
a transgressão, estabelece uma parceria pela qual o sucesso e o reconhecimento
do indivíduo passam pelo espírito de sacrifício com o qual este se dedica e se
insere na vida da organização disposto a oferecer o melhor de si.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Por sua
vez, o funcionário vê no plano de carreira a possibilidade de estruturar a
própria existência de forma mais consistente e segura tanto no que diz respeito
à manutenção do nível de vida já alcançado, como à mais rápida realização de
seus sonhos de consumo e afirmação pessoal. Ou seja, o trabalhador não é um
elemento passivo dessa relação. Ele quer participar do jogo exatamente porque vê
nele a chance de subir na vida, de estufar o peito após superar objetivos
desafiadores e de alcançar níveis maiores de reconhecimento social. Neste
sentido, o plano fornece uma espécie de disciplina para o sucesso na qual o
autocontrole e a autoconfiança são o cimento que fixa os ladrilhos do caminho
para os sonhos. Progredir na hierarquia ou, simplesmente, subir um nível após o
outro aumenta a ambição e chega a ser uma obsessão quando a tensão permanente de
conseguir se superar para ser um vencedor alimenta o prazer de quem pretende
olhar o mundo de um degrau mais alto.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Mas nem
tudo o que brilha é ouro. Num aparente paradoxo, o ponto mais alto em que cada
trabalhador pode chegar, em geral, coincide também com seu maior nível de
servidão voluntária. Isso é possível na medida em que, ao aderir aos desígnios
da organização, o empregado se torna psicologicamente dependente da satisfação
dos próprios desejos que já deixaram de ser uma possibilidade para se tornar uma
necessidade vital e, portanto, imprescindível. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Como um
dependente químico, ao absorver a substância almejada ele alcança certo grau de
satisfação, mas isso não lhe basta. Ele precisa de novas doses e de doses mais
fortes para continuar sentindo os mesmos efeitos experimentados no início de sua
trajetória. Ele deseja <st1:PersonName ProductID="o que o" w:st="on">o que
o</st1:PersonName> mata aos pouquinhos. E quem lhe oferece da substância não tem
pressa que ele morra, mas faz o impossível para lhe fornecer quantidades que o
destroem como ser humano na mesma proporção em que oferecem cen<st1:PersonName
w:st="on">tel</st1:PersonName>has de prazer e viabilizam aumentos da
produtividade. No âmbito das relações de trabalho, o preço mais barato a ser
pago é constituído por uma ansiedade crescente, um isolamento intrigante e uma
solidão que demanda compensações materiais incessantes na esperança de que estas
ocultem de si próprio a progressiva sensação de esgotamento.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Cabe
ressaltar que este efeito tão desejado pelo capital não costuma ser produzido
por um único dispositivo destinado a disciplinar e a dirigir as melhores
energias da classe trabalhadora. A submissão, obediência e adesão ativa à lógica
empresarial só podem ser obtidas graças à articulação de diversos fatores que, a
depender da situação, da dificuldade de repor determinado profissional, do nível
salarial, etc., ganhará formas e profundidades diferenciadas. Para cada patamar
de renda, o sistema oferece um sonho apropriado, uma meta cuja consecução
possibilita certo grau de afirmação social e, sobretudo, deixa na boca um
gostinho de <I>quero mais</I>. Envolvido nas artimanhas que mobilizam
necessidades reais e desejos, esperanças e receios, o sujeito não percebe que
cada prática disciplinar é alimentada por outra, que o conjunto delas garante a
eficiência do sistema e que o próprio sofrimento deixa de ser o combustível da
rebeldia para se tornar conseqüência natural da progressiva adequação aos
elementos que, dia-após-dia, extraem dele mais trabalho e mais vida”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Parece
um pesadelo sem fim...!”, conclui o secretário ao romper o interminável instante
de silêncio que estava para tomar conta da sala.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “Se
fosse, seria ótimo – rebate a ave num longo suspiro. De fato, bastaria abrir os
olhos para espantar os fantasmas que atormentam a mente e experimentar uma
sensação de alívio. O problema é que estamos diante de uma fortificação cujos
tijolos foram empilhados pela coordenação dos elementos que se projetaram dentro
e fora dos ambientes de trabalho e se fixaram no indivíduo a ponto de se tornar
parte dele mesmo tornando-o pesado, frio, insensível, calculista, cada vez mais
imediatista e incapaz de se indignar diante da injustiça até nas situações em
que ele é a vítima a ser sacrificada no altar dos lucros. </P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Num rápido
balanço do que afirmamos até o momento, é inegável que a precarização do
trabalho ao longo dos anos 90 tenha levado a uma intensificação do mesmo, à
elevação do sofrimento de quem continua empregado, à neutralização da
mobilização coletiva em grande escala e ao fortalecimento das formas de
alienação que mantêm o sujeito dobrado sobre si próprio a ponto de se distanciar
progressivamente dos demais.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A leitura
mais comum desta situação diz que, afinal, não há nada ou bem pouco que se possa
fazer para mudar o rumo dos acontecimentos e aponta, de início, para a
resignação e, em seguida, para uma adesão ativa à lógica do sistema na medida em
que as pessoas acreditam que é natural que as coisas sejam assim. Logo, o
importante não é reagir, mas agüentar, encontrar razões, sentidos, formas de
auto-ajuda e motivações que dêem ao sujeito a energia suficiente para segurar a
barra no dia seguinte e alimentar novos sonhos com a manutenção do próprio
emprego. Nesta perspectiva, a situação de quem continua desempregado ou
experimenta as incertezas da informalidade é, ao mesmo tempo, fonte de ansiedade
e preocupação, incentivo a resistir à dor física e psíquica provocada pelo
trabalho, motivo para fechar olhos e ouvidos diante das injustiças, estímulo a
negar o sofrimento alheio e o próprio.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Por outro
lado, longe de unir as pessoas fora dos locais de trabalho, a miséria e a
marginalização levam a uma piora sensível dos que estão submetidos à sua ação,
ao progressivo embrutecimento das relações com os demais e a condições de vida
tão degradantes a ponto de possibilitar somente reações pontuais de curta
duração e facilmente recuperáveis pela repressão ou a assistência social pública
e privada. Assim, a violência explode nas periferias com requintes de crueldade.
Crimes e assassinatos se multiplicam em várias camadas da sociedade em formas
jamais imaginadas. O tráfico, auxiliado pela conivência de parcelas
significativas das forças de segurança, impõe sua dominação. E a realidade
parece desandar a ponto de levar não poucos in<st1:PersonName
w:st="on">tel</st1:PersonName>ectuais a acreditar que o país caminha para a
barbárie. O pior disso tudo é que a soma destes sofrimentos gera a progressiva
destruição dos laços de reciprocidade no seio da própria classe trabalhadora e,
graças a esta, o desligamento do empregado do sofrimento de quem trabalha ao seu
lado, de quem não goza do privilégio de ter carteira assinada e dos que a
ampliação da acumulação e da injustiça levou à beira da desumanização.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">A
necessidade de afastar-se do outro é traduzida e reafirmada pelo senso comum com
uma expressão que marca presença crescente até nos lábios das pessoas de bem:
<I>E eu com isso?</I> Como a vida imita a arte, o isolamento do sujeito ganha
novas verbalizações. Entre as mais reafirmadas pelo mundo da música passamos do
<I>Tou nem aí</I>, aplicado exaustiva e amplamente a contextos que extrapolam
aquele ao qual esta letra se refere, até os mais recentes gritos de guerra:
<I>ema, ema, ema, cada um com seus problemas!</I> e <I>ado, ado, ado, cada um no
seu quadrado!</I> A falta de compromisso com o viver-juntos e com o sofrimento
de quem está ao nosso lado, já não precisa da mídia para ser ampliada, pois
encontra no povo simples milhões de bocas dispostas a reafirmá-la. Desta forma,
a banalização da injustiça, pode caminhar lado a lado com um sentimento de
indignação cada vez mais anestesiado, com a instauração progressiva da servidão
voluntária que eleva a indiferença e impede a construção de um sentimento de
coletividade dentro e fora dos locais de trabalho.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Paradoxalmente,
este processo leva a acreditar que as leis de mercado, a iniciativa privada, a
globalização e os demais elementos que se beneficiam dos estragos produzidos
pela incapacidade de se revoltar contra o que fere a dignidade humana são
capazes de trazer a solução para os problemas sociais que eles próprios criaram.
Se, de um lado, as ações assistenciais do estado e os programas de
responsabilidade social promovidos pelos patrões seduzem as comunidades carentes
e projetam uma áurea de santidade em volta deles, de outro, o culto ao deus
capital tem no trabalhador o seu mais fiel militante. Como é na empresa que o
indivíduo sonha e busca concretizar seus sonhos, ele tende a fazer da
organização e de tudo o que esta pode oferecer, concretamente ou na sua
imaginação, o núcleo central de sua vida, a sua razão de viver, o seu principal
ponto de referência. O processo de identificação com os objetivos empresariais
leva o trabalhador a idealizar as qualidades do local de trabalho, tanto em
função da dissolução do seu espírito crítico, como de sua representação
imaginária das relações e possibilidades de reconhecimento social que estas
podem lhe oferecer”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “É por
isso que eu acho que os sindicatos deveriam fazer mais agitação, mais
informativos, mais discursos inflamados, mais denúncias em carros de som!”,
afirma categórica a língua ao acreditar ter encontrado a solução mágica para um
problema complexo.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">- “E, ao
fazer isso, talvez consigam exatamente o contrário do que pretendem – rebate
inesperadamente a coruja. O que acabamos de constatar acima explica em grande
parte porque o discurso agitativo é freqüentemente ignorado, recebido com
aversão ou, na melhor das hipóteses, com o silêncio de quem não nega que há algo
errado, ma se recusa a agir por sentir que, ao ir contra a empresa, pode frear a
mão que embala seus sonhos ou, mais simplesmente, que o faz se sentir
<I>gente</I>. Até sabe que o que recebe não compensa o aumento da exploração do
trabalho, mas, no mínimo, o homem-massa está convencido de que é com o seu
salário que ele conseguiu reformar a casa, comprar um carrinho, pagar os estudos
dos filhos, adquirir o celular, o som incrementado e assim por diante. No
extremo oposto, ele está tão convencido de que tudo o que pode ser na vida
depende somente do que consegue ter que e já criou barreiras intransponíveis aos
que, com sua racionalidade, procuram ameaçar estas convicções, despertar
sentimentos de indignação que trazem de volta o medo, a insegurança e a
indesejável sensação de responsabilidade pessoal na reprodução da injustiça que
está sob os seus olhos.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify">Ao
insistir na agitação e na informação nos moldes em que vêm sendo realizadas, a
linguagem dura do sindicato ainda aposta em convencer <I>a cabeça do peão</I>
esquecendo que o coração e a mente deste já são da empresa. O que os diretores
dizem, denunciam, tornam público e pedem para ser revertido é verdadeiro,
realmente acontece, <I>é assim mesmo</I>, confirma grande parte do trabalhador
coletivo. Mas ao ver seus temores aumentados pela ação sindical, este mesmo
trabalhador coletivo tende a se afastar cada vez mais na medida em que seus
sentimentos mais íntimos entram em choque com o que vem sendo colocado, em que
sua ansiedade aumenta a sensação de insegurança, em que seu coração está
profundamente convencido de que <I>assim tá ruim, mas ta bom</I>. Além disso,
dificilmente o indivíduo consegue ver nas falações os caminhos viáveis que
permitem superar a injustiça denunciada e, via de regra, fica com a impressão de
que, para além dos discursos inflamados, não há nem time capacitado, nem nada
concreto que permita acreditar na possibilidade de além das palavras e reverter
a realidade. Não por acaso, cresce a olhos vistos o número das pessoas que até
param para ouvir os dirigentes discursarem, mas saem se queixando de ter perdido
o próprio tempo”.</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>- “Pior é impossível!”, afirma o ajudante categórico.</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>- “Eu não diria isso, pois não há nada tão ruim que ainda não possa
piorar...”, retruca enigmática a coruja ao ajeitar as plumas do peito.</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>- “Isso significa...”</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><SPAN
style="mso-tab-count: 1">
</SPAN>- “Que precisamos mergulhar um pouco mais nas relações do cotidiano do
trabalho para visualizar o tamanho dos desafios que estas colocam aos que
procuram mudar a realidade. Por isso, trate de acordar de seu espanto porque
agora vamos analisar...”.</P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"><o:p> </o:p></P></DIV></BODY></HTML>