<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
<META http-equiv=Content-Type content="text/html; charset=windows-1252">
<META content="MSHTML 6.00.2900.3132" name=GENERATOR>
<STYLE></STYLE>
</HEAD>
<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<META content="Microsoft FrontPage 5.0" name=GENERATOR>
<META content=FrontPage.Editor.Document name=ProgId>
<P align=left><B><FONT face=forte color=#ff0000 size=5>
<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO.
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
<META content="MSHTML 6.00.2900.3132" name=GENERATOR>
<META content="MSHTML 6.00.2900.3132" name=GENERATOR>
<STYLE></STYLE>
<DIV><FONT face=Arial size=2>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG></STRONG></FONT> </DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG></STRONG></FONT> </DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Esta é a terceira parte de quatro
séries,de um dos primeiros casos de tortura e assassinato pela
Ditadura.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Se aguém perder a parte anterior,
poderá recuperar clicando no item no final do texto.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Todas foram publicadas no Correio da
Cidadania.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Um abraço.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial
size=2><STRONG>Vanderley</STRONG></FONT></DIV></FONT></DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV>
<STYLE type=text/css>
<!--
div.sociotags {
        clear: both;
        text-align: left;
        float: left;
        width: 480px;
        padding-top: 15px;
        padding-right: 0px;
        padding-bottom: 0px;
        padding-left: 0px;
        background-color: #EFEFEF;
        border-top-style: none;
        border-right-style: none;
        border-bottom-style: none;
        border-left-style: none;
}
div.sociotag { height: 50px; }
div.sociotags div {
        padding-right:4px;
        float: left;
        text-align: left;
}
div.sociotag_header {
        font-weight: bold;
        width: 100%;
height: 25px;
}
div.sociotag_seperator {
        clear: both;
        height: 0px;
}
div.sociotag a img {
        filter:alpha(opacity=50); -moz-opacity:0.50; opacity:0.50; -khtml-opacity:0.50;
}
div.sociotag a:hover img {
         filter:alpha(opacity=99); -moz-opacity:0.99; opacity:0.99; -khtml-opacity:0.99;
} r
//-->
</STYLE>
<TABLE class=contentpaneopen>
<TBODY>
<TR>
<TD class=contentheading width="100%"><FONT size=6>Vida, luta e martírio
do sargento Manoel Raimundo Soares (3)</FONT> </TD>
<TD class=buttonheading align=right width="100%"><A title=PDF
onclick="window.open('http://www.correiocidadania.com.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=3209','win2','status=no,toolbar=no,scrollbars=yes,titlebar=no,menubar=no,resizable=yes,width=640,height=480,directories=no,location=no'); return false;"
href="http://www.correiocidadania.com.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=3209"
target=_blank><IMG alt=PDF
src="http://www.correiocidadania.com.br/templates/js_element_red/images/pdf_button.png"
align=middle border=0 name=PDF></A> </TD>
<TD class=buttonheading align=right width="100%"><A title=Imprimir
onclick="window.open('http://www.correiocidadania.com.br/index2.php?option=com_content&task=view&id=3209&pop=1&page=0&Itemid=9','win2','status=no,toolbar=no,scrollbars=yes,titlebar=no,menubar=no,resizable=yes,width=640,height=480,directories=no,location=no'); return false;"
href="http://www.correiocidadania.com.br/index2.php?option=com_content&task=view&id=3209&pop=1&page=0&Itemid=9"
target=_blank><IMG alt=Imprimir
src="http://www.correiocidadania.com.br/templates/js_element_red/images/printButton.png"
align=middle border=0 name=Imprimir></A> </TD>
<TD class=buttonheading align=right width="100%"><A title=E-mail
onclick="window.open('http://www.correiocidadania.com.br/index2.php?option=com_content&task=emailform&id=3209&itemid=9','win2','status=no,toolbar=no,scrollbars=yes,titlebar=no,menubar=no,resizable=yes,width=400,height=250,directories=no,location=no'); return false;"
href="http://www.correiocidadania.com.br/index2.php?option=com_content&task=emailform&id=3209&itemid=9"
target=_blank><IMG alt=E-mail
src="http://www.correiocidadania.com.br/templates/js_element_red/images/emailButton.png"
align=middle border=0 name=E-mail></A> </TD></TR></TBODY></TABLE>
<TABLE class=contentpaneopen>
<TBODY>
<TR>
<TD vAlign=top align=left width="70%" colSpan=2><SPAN class=small><FONT
face=Tahoma color=#999999 size=1>Escrito por Mario Maestri e Helen Ortiz
</FONT></SPAN> </TD></TR>
<TR>
<TD class=createdate vAlign=top colSpan=2></TD></TR>
<TR>
<TD vAlign=top colSpan=2>
<P></P>
<P>Cartas do cárcere </P>
<P></P>
<P>Elizabeth, esposa de Manoel Raimundo, vivera com ele por algum tempo em
Porto Alegre, abandonando a seguir a capital rio-grandense para retornar a
Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Logo que pôde, Manoel Raimundo
arranjou-se para retomar contato com ela através de correspondência. Em 15
de abril de 1966, em carta que chegou às mãos de sua esposa, relatava que
fora preso para "averiguações": "Finalmente acabei sendo preso. Caí em uma
cilada de um 'dedo-duro' chamado Edu e vim parar nessa ilha-presídio. Fui
preso às 16:50 do dia 11 de março, sexta-feira, em frente ao Auditório
Araújo Viana. Fui levado para o quartel da PE (Polícia do Exército), onde
fui 'interrogado' durante duas horas e depois fui levado para o DOPS.
Estou bem. Nesta ilha (do Presídio) me recuperei do 'tratamento' policial.
Até o dia em que fui preso estava dormindo em hotéis e pensões variadas".
</P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo seguia: "Não sei como vou me arranjar no dia em que eu
for solto, pois o Leo (possivelmente o já citado sargento Leony Lopes),
único amigo que eu tinha em Porto Alegre, perdi o contato com ele e eu não
sei o endereço. Espero que você esteja bem e que se mantenha em calma.
Isto passa. Nos dias seguintes ao que eu for solto, teremos uma nova lua
de mel em uma cidade bonita qualquer". </P>
<P></P>
<P><B>No inverno, sem sapatos </B></P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo pedia à esposa que enviasse, se pudesse, "algum
dinheiro" através da agência de Porto Alegre do Banco Nacional de Minas
Gerais, onde tinha conta, pois precisava de coisas como "aparelho de
barba, um sapato 38, escova de dentes, roupa de frio e coisas de comer". O
prisioneiro lembrava ter deixado "na gaveta da mesa de cabeceira do Hotel
onde dormi a última noite antes da prisão todo o dinheiro que tinha". O
fato de ser filho de família humilde, sem relações no Sul, dificultava a
já difícil situação do prisioneiro, preocupado igualmente com a sorte de
sua esposa. </P>
<P></P>
<P>Na mesma carta, Manoel Raimundo avançava sugestão para a esposa: "Você
NÃO precisa vir aqui. Isto não ajudará NADA e você não conseguirá ver-me.
Não permitirão". Possivelmente temia envolvimento da esposa com a
repressão. Pedia também para que ela mantivesse a "calma", "pois, nestas
horas só a calma ajuda". Sobretudo, instruía a esposa a procurar "o Dr.
Sobral Pinto, à rua Debret nº. 39", no Rio de Janeiro, para providenciar
"pedido de habeas no Superior Tribunal Militar". </P>
<P></P>
<P>Em 5 de maio de 1966, em um momento em que o verão já se despedia do
Sul, fazendo a temperatura cair rapidamente, Manoel Raimundo escreveu a
quinta carta à esposa, a segunda que ela recebia. Na correspondência,
refere-se às suas condições de aprisionamento e às torturas que recebera.
"Em meu corpo ficaram gravadas algumas das medalhas com que me agraciaram.
Aqui estou sem sapatos, sem roupas de frio, sem cobertas, usando
unicamente uma camisa de Nylon e uma calça de lã preta. [...] Não sei bem,
mas creio que estou preso à disposição do III Exército. Por isto, só um
'habeas-corpus' do Superior Tribunal Militar poderá libertar-me". </P>
<P></P>
<P><B>Sentimento e esperança </B></P>
<P></P>
<P>A carta era igualmente momento de tentar estreitar sentimentos pela
esposa fortalecidos pelo sofrimento: "Como vês o papel está acabando, por
isto aproveito para lembrar-te que meu pensamento é só para ti; durante
todas as horas destes últimos dias não sais do meu pensamento. O banquinho
da cozinha, os beijos nos olhos, tudo aquilo que liga meu corpo a tua alma
(ou espírito que é mais certo). Recebe mil beijos e um caminhão de abraços
do teu Manoel". </P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo permaneceu durante cinco meses na ilha do Presídio,
incomunicável, privado de notícias da família e do mundo, passou fome e
certamente muito frio, ao qual estaria pouco habituado. Nas suas primeiras
cartas conhecidas, dos primeiros meses de cárcere, registra sua calma e
esperanças. Pensava no futuro, fazia planos de viagem com a mulher amada.
Intensificando-se o martírio e a solidão, tentou fortalecer-se,
centrando-se também no sentimento que nutria pela esposa. </P>
<P></P>
<P>O ex-sargento acreditava que seria posto em liberdade em pouco tempo.
Na época, a instituição do habeas corpus ainda vigia. Não sabia que dois
pedidos de libertação impetrados junto ao Superior Tribunal Militar (STM)
haviam sido negados, já que, em falsas declarações, as autoridades
militares e policiais afirmavam que não estava preso. </P>
<P></P>
<P>Mais tarde, o Exército tentaria negar sua responsabilidade na prisão
ilegal e assassinato de Manoel Raimundo, afirmando que respondera ao STM
que não tinha Manoel em seu poder, sem informar, logicamente, que ele fora
entregue pela Polícia do Exército ao DOPS. Quando o terceiro habeas corpus
estava para ser julgado, os torturadores já haviam dado fim a sua vida.
</P>
<P></P>
<P><B>"Ainda estou vivo"</B> </P>
<P></P>
<P>As duas últimas cartas que Elisabeth recebeu do marido foram escritas
em 10 de julho de 1966. Na primeira, afirmava: "Ainda estou vivo. Espero
de todo o coração que você tenha recebido as cartas que remeti
anteriormente. Esta é a oitava. Nunca pensei que o sentimento que me une a
você chegasse aos limites de uma necessidade. Nestes últimos dias, tenho
sido torturado pela idéia de que estou impedido de ver teu rosto ou de
beijar teus lábios. Todas as torturas físicas a que fui submetido na PE e
no DOPS não me abateram. No entanto, como verdadeiras punhaladas,
tortura-me, machuca, amarga, este impedimento ilegal de receber uma carta,
da mulher, que hoje, mais do que nunca, é a única razão de minha vida".
</P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo contava: "(...) já tenho escova de dente, sabonete e
até roupas e sapatos fizeram chegar até aqui. Mas, nada disso pode aliviar
a dor que me causa o fato de não poder receber cartas de minha Beta.
Acredito que minha situação ainda não mudou muito. Até hoje (amanhã
completam-se quatro meses), não fui ouvido em IPMs (Inquéritos
Policial-Militares) e desde que mandaram-me para esta ilha não mais saí".
Portanto, após os duros primeiros tempos de tortura na Polícia do Exército
e no DOPS, o prisioneiro conhecera tranqüilidade relativa na ilha. </P>
<P></P>
<P>Mais adiante, insistia com a esposa na necessidade do pedido de habeas
corpus perante o Superior Tribunal Militar para libertá-lo e desabafava:
"Apesar do sofrimento espiritual a que estou submetido, ainda assim
recomendo que você mantenha a calma. (...) Acredito que agora, você já
poderia tentar visitar-me aqui em Porto Alegre. O que você acha disto?
Espero que você não tenha estado em dificuldades em matéria de dinheiro.
Isto seria para mim pior do que a pior coisa que pudesse me acontecer. Não
podendo abraçá-la com a força do bem que te desejo, deixa que em forma
espiritual, te beije ardentemente, este que é até morrer, o teu Manoel."
</P>
<P></P>
<P><B>Última carta </B></P>
<P></P>
<P>A segunda das duas cartas escritas por Manoel Raimundo, em 10 de julho,
foi a quarta e última que a esposa recebeu. Ele iniciou com a mesma
afirmação, que à leitora deveria causar alívio e esperança, mas que parece
registrar a consciência do prisioneiro da ameaça sob a qual vivia: "Ainda
estou vivo". Em seguida, relatava: "A saúde que havia chegado ao meu
corpo, partiu, deixando a normalidade que você tão bem conhece. Fígado,
intestinos e estômago. Espero de todo o coração que você tenha recebido as
cartas anteriores. Esta é a de número nove. Penso que a estas horas você
deve estar chorando. Não quero isso. A jovem senhora, valente, das
respostas desconcertantes, deve agora substituir a moça ingênua e humilde
com quem tive a felicidade de casar.". </P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo seguiu falando de seu amor: "Nestes últimos dias tenho
sido torturado pela realidade de estar impedido de ver o rosto da mulher
que amo. Eu trocaria se possível fosse, a comida de oito dias, por oito
minutos junto ao meu amor, ainda que fosse só para ver. Tenho uma fé
inabalável de que, os adversários não conseguirão destruir nosso amor. Sei
hoje que você tinha razão em muitas de nossas discussões sobre nosso tipo
de vida". </P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo retomava temas passados, em seu dilacerante diálogo com
a esposa distante: "Você ganhou. (...) Tudo passará. A política, a cadeia,
os amigos; só uma coisa irá durar até a morte: o amor que tenho por essa
mulherzinha que é hoje a única razão de querer viver deste presidiário
(...) Só agora avalio o que é estar junto da mulher amada. Com a
tranqüilidade da certeza de que apesar de tudo ainda mereço o teu amor
remeto um caminhão de beijos, com o calor dos dias mais felizes de nossa
vida. Do sempre teu Manoel". </P>
<P></P>
<P><B>Novo interrogatório</B> </P>
<P></P>
<P>Em 13 de agosto de 1966, pouco mais de um mês depois de escrever a
última carta recebida pela esposa, Manoel Raimundo foi retirado da ilha do
Presídio para ser levado outra vez ao DOPS, para novo interrogatório e
tortura, agora sob as ordens dos tenentes-coronéis Átila Rochester e Luiz
Carlos Menna Barreto, chefe do DOPS. Não sabemos as razões precisas para o
novo e violento inquisitório de Manoel Raimundo, após longos meses na
prisão. Em depoimentos concedidos recentemente, seus companheiros de luta
relatam que ele teria escrito clandestinamente também para o Superior
Tribunal Militar sobre sua detenção e torturas em Porto Alegre e, com a
concessão de habeas corpus, fora subtraído da prisão para revelar, sob
tortura, os carcereiros que eventualmente teriam facilitado a
correspondência clandestina. </P>
<P></P>
<P>Em agosto de 1966, prosseguiam febrilmente os preparativos do MNR para
implantar colunas combatentes em Goiás-Maranhão, no Mato Grosso, e em
Caparaó, entre o Espírito Santo e Minas Gerais. Um quarto foco armado
deveria nascer no norte do Rio Grande do Sul e sudoeste de Santa Catarina.
Nos fatos, tratava-se de ambiciosa articulação anti-ditatorial, envolvendo
argentinos, paraguaios e bolivianos. Quando a pequena coluna do MNR
instalou-se no alto da serra de Caparaó, em fins de 1966, Che Guevara e
seus companheiros organizavam-se também na selva da Bolívia. Manoel
Raimundo participara ativamente da preparação desses movimentos, após o
fracasso do segundo levante em Porto Alegre. Teria escrito até mesmo um
"decálogo do guerrilheiro" para as operações. </P>
<P></P>
<P>Há alguma divergência sobre as razões do abandono da frente armada no
Brasil meridional. Flávio Tavares propõe que a desistência deveu-se à
prisão, "no inverno de 1965", do "seu subcomandante, o ex-sargento Manoel
Raimundo Soares". Segundo a informação confirmada por Jelsi Rodrigues
Correa, envolvido diretamente na iniciativa, apesar da notícia da queda,
continuaram os planos para o estabelecimento do núcleo armado na serra do
Mar, em Santa Catarina, inclusive com a compra de propriedade e transporte
de armas. A desconfiança de camponeses com a perambulação de estranhos na
região e a prisão de dois militantes, sob suspeita de assalto a banco,
teriam levado ao abandono da proposta. </P>
<P></P>
<P>Dos quatro núcleos guerrilheiros planejados pelo MNR, em associação com
outras organizações clandestinas nacionais e internacionais, prosperou
apenas o de Caparaó, instalado em outubro de 1966 e desbaratado em inícios
de 1967, ensejando com esse tropeço o abandono de Leonel Brizola do
projeto de resistência militar à ditadura, insurrecional ou guerrilheira.
A seguir, o MNR dividir-se-ia, confluindo seus militantes em outras
organizações armadas, como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a
VAR-Palmares etc., nas quais os ex-suboficiais desempenharam papel
fundamental. </P>
<P></P>
<P><B>Mãos amarradas </B></P>
<P></P>
<P>Talvez a vontade de arrancar rapidamente informações de Manoel Raimundo
sobre apoios na ilha do Presídio ou sobre os atos em cursos de seus
companheiros tenha levado seus torturadores a transportá-lo, na mesma
noite de 13 de agosto, em um jipe do Exército, até ao rio Jacuí, para ser
submetido a falsos afogamentos. Essa é uma tortura sobremaneira
aterrorizadora, especialmente quando praticada em um rio isolado, de águas
revoltas e geladas, sob a ameaça de afogamento definitivo. Nos últimos
anos, tal forma de tortura conheceu destaque na imprensa mundial ao ser
legalizada pelas autoridades estadunidenses como recurso a ser usado pela
CIA nos interrogatórios de prisioneiros políticos. </P>
<P></P>
<P>Possivelmente jamais saberemos se Manoel Raimundo escapou
inadvertidamente das mãos dos seus torcionários ou foi abandonado às águas
do Jacuí para morrer. Era habitual militares e policiais torturarem
alcoolizados e drogados seus prisioneiros políticos. Até agora, o que
sabemos de certo é que, 11 dias mais tarde, Manoel Raimundo foi
encontrado, morto, boiando no rio, com os pés atados e as mãos atadas. O
corpo de Manoel Raimundo Soares foi descoberto, por volta das 17 horas do
dia 24 de agosto de 1966, boiando entre algumas taquareiras, por dois
moradores da ilha das Flores, próxima a Porto Alegre, que informaram
rapidamente as autoridades policiais. À noite, um guarda civil compareceu
ao local para recuperar o cadáver, que foi amarrado com uma corda e
rebocado até a ilha da Pintada. </P>
<P></P>
<P><B>Morte por afogamento</B> </P>
<P></P>
<P>O policial responsável pela operação de resgate declararia que o
cadáver tinha "as mãos amarradas às costas pela própria camisa que vestia,
sendo as ataduras cobertas por um suéter banlon que a vítima trajava; os
bolsos laterais das calças completamente repuxados para fora [...]; calças
de cor escura; um pé calçado com um sapato marrom e outro descalço". </P>
<P></P>
<P>Na madrugada do dia 25, peritos do Instituto de Criminalística
analisaram o corpo, determinando que a morte se dera por afogamento,
devido à "ausência de lesões traumáticas", "aliada à conclusão do exame
histopatológico, acusando a presença de elementos característicos do
plâncton mineral no interior dos bronquíolos e raros elementos isolados
nos alvéolos pulmonares", o que permitia "afirmar que a vítima respirou
dentro da água e que, portanto, a causa imediata da morte foi afogamento".
</P>
<P></P>
<P>Apesar da situação do cadáver, os peritos concluíram que a vítima
estaria embriagada. Destaque-se que Manoel Raimundo era abstêmio, entre
outras razões, por problemas com o fígado. Entretanto, mesmo que ele se
encontrasse embriagado, quando de sua morte, não significa que se houvesse
alcoolizado. Anos após o homicídio, em processo movido pela viúva, os
defensores da União alegaram o estado de embriaguez do ex-sargento. Defesa
rejeitada pelo juiz, que, irônico, lembrou que "seria realmente uma
façanha de Manoel Raimundo Soares: amarrar as mãos às costas, e então
embriagar-se. Ou então embriagar-se e amarrar suas mãos às costas". </P>
<P></P>
<P>Para ler a primeira parte do artigo, <A
href="http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3151/9/"
target=_blank><FONT color=#cc3300>clique aqui</FONT></A>. </P>
<P></P>
<P>Para ler a segunda parte do artigo, <A
href="http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3176/9/"
target=_blank><FONT color=#cc3300>clique aqui</FONT></A>. </P>
<P></P>
<P><B>Mário Maestri é historiador, é doutor em História pela UCL, Bélgica,
e professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de
Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul. E-mail:
<SCRIPT language=JavaScript type=text/javascript>
<!--
var prefix = 'ma' + 'il' + 'to';
var path = 'hr' + 'ef' + '=';
var addy2611 = 'maestri' + '@';
addy2611 = addy2611 + 'via-rs' + '.' + 'net';
var addy_text2611 = 'maestri' + '@' + 'via-rs' + '.' + 'net';
document.write( '<a ' + path + '\'' + prefix + ':' + addy2611 + '\'>' );
document.write( addy_text2611 );
document.write( '<\/a>' );
//-->\n </SCRIPT>
<A href="mailto:maestri@via-rs.net"><FONT
color=#cc3300>maestri@via-rs.net</FONT></A>
<SCRIPT language=JavaScript type=text/javascript>
<!--
document.write( '<span style=\'display: none;\'>' );
//-->
</SCRIPT>
<SPAN style="DISPLAY: none">Este endereço de e-mail está protegido contra
spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder
visualizar o endereço de email
<SCRIPT language=JavaScript type=text/javascript>
<!--
document.write( '</' );
document.write( 'span>' );
//-->
</SCRIPT>
</SPAN></B></P>
<P></P>
<P><B>Helen Ortiz, historiadora, é mestre em História pela Universidade de
Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul. </B></P>
<P></P>
<P><B>Publicado em: <EM>O direito na história</EM>: o caso das mãos
amarradas. Porto Alegre: Tribunal Regional Federal da 4ª Região, 2008. pp.
177-200. </B></P>
<P></P></TD></TR></TBODY></TABLE></DIV></BODY></HTML>