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<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
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<P align=left><B><FONT face=forte color=#ff0000 size=5>
<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO.
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
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<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Esta é a segunda parte, de quatro série,de
um dos primeiros casos de tortura e assassinato pela
Ditadura.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Se aguém perder a parte anterior, ao final
poderá recuperar clicando no item.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Todas foram publicadas no Correio da
Cidadania.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Um abraço.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Vanderley</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV>
<TABLE class=contentpaneopen>
<TBODY>
<TR>
<TD class=contentheading width="100%"><FONT size=4><STRONG>Vida, luta e
martírio do sargento Manoel Raimundo Soares (2)</STRONG></FONT> </TD>
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<TBODY>
<TR>
<TD vAlign=top align=left width="70%" colSpan=2><SPAN class=small><FONT
face=Tahoma color=#999999 size=1>Escrito por Mario Maestri e Helen Ortiz
</FONT></SPAN> </TD></TR>
<TR>
<TD class=createdate vAlign=top colSpan=2></TD></TR>
<TR>
<TD vAlign=top colSpan=2>
<P>A sub-oficialidade nacionalista </P>
<P></P>
<P>A frustração ensejada pela derrota sem resistência e o crescente
descontentamento popular levaram a que suboficiais nacionalistas de
esquerda das forças armadas, em especial do Exército e da Marinha, presos
e reformados em grande número, tenham sido o setor social que se
disponibilizou prontamente para a luta antiditatorial direta, no contexto
prático e político próprio ao mundo castrense, organizando-se em torno de
Leonel Brizola, que seguia no Uruguai disposto a lutar pelas forças das
armas pelo fim da ditadura. </P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo teve a prisão decretada em abril, e foi expulso do
Exército em junho de 1964. Para não ser preso e poder integrar-se à luta
antiditatorial, apenas estourou o golpe, desertou de seu quartel em Campo
Grande, junto ao sargento Araken Galvão, também destacado no Mato Grosso.
Manoel Raimundo e Araken viajaram para Juiz de Fora e, a seguir, para o
Rio de Janeiro, de onde partiram, mais tarde, para o Rio Grande do Sul.
Manoel Raimundo teria declarado à polícia que viajou para Porto Alegre em
26 de janeiro de 1965 à procura de emprego, retornando ao Rio de Janeiro
em 6 de março. Em 29 de setembro teria voltado ao Sul, sob promessa de
trabalho feita pelo suboficial Leony Lopes, que lhe teria igualmente
apresentado Edu Rodrigues, civil pretensamente oposicionista, mas nos
fatos informante da polícia, como veremos. </P>
<P></P>
<P>Mais de 20 sargentos teriam viajado, como Manoel Raimundo, do Rio de
Janeiro a Porto Alegre para integrar-se à resistência. Uma transferência
mais do que compreensível, pois desde 1964 o Rio Grande do Sul tornara-se
a principal via para alcançar ou manter contatos com o Uruguai, então
centro anti-ditatorial. Em 1965, haveria mais de 2.000 brasileiros
refugiados naquele país. De 1964 a 1966, o ex-governador Leonel Brizola
depositou grande esperança na possibilidade de sublevar Porto Alegre e o
Rio Grande do Sul apoiado em oficiais e suboficiais constitucionalistas,
nacionalistas e de esquerda ainda em serviço. </P>
<P></P>
<P><B>A primeira resposta armada à ditadura </B></P>
<P></P>
<P>Foi precisamente do Uruguai, em 20 de março de 1965, que o coronel do
Exército Jéferson Cardin de Alencar Osório e o sargento da Brigada Militar
Alberi Vieira dos Santos ingressaram no Rio Grande do Sul para organizar
coluna de pouco mais de 20 homens. O grupo armado, após tomar a cidade
sulina de Três Passos, em 25 de março, dirigiu-se ao oeste do Paraná, onde
no dia 27 foi dispersado após combate desigual com as forças da ditadura.
No combate morreu um sargento das forças repressivas. O objetivo da coluna
do Movimento Nacionalista Revolucionário, ligado a Leonel Brizola, era
sublevar militares oposicionistas no Rio Grande do Sul e a seguir no
Brasil. </P>
<P></P>
<P>Em Porto Alegre, desde começos de 1965, como assinalado, o sargento
Manoel Raimundo, companheiros seus do Comando Geral dos Sargentos e outros
resistentes locais participaram ativamente da organização de dois levantes
de quartéis da Brigada e do Exército da capital. O primeiro contaria com
"entre 40 e 70 pessoas prontas para fazer a insurreição", "espalhadas por
aparelhos em Porto Alegre", e mais outros suboficiais que chegariam do Rio
de Janeiro. O plano teria desandado devido à prisão de Araken Vaz Galvão.
</P>
<P></P>
<P>Em fevereiro-março de 1966, após o fracasso da chamada "Guerrilha de
Três Passos", um segundo projeto de levante em Porto Alegre não prosperou,
devido à denúncia do plano ao comandante Osvino Ferreira Alves, um dia
antes da sua eclosão por capitão da Brigada Militar envolvido no
movimento, com a prisão de oficiais, suboficiais, trabalhadores,
estudantes etc. O fracasso do segundo levante fortaleceu a proposta da
organização da luta antiditatorial através de focos armados rurais,
desejada pelos suboficiais do Exército e Marinha, e à qual Leonel Brizola
resistia. </P>
<P></P>
<P><B>A queda de Manoel Raimundo </B></P>
<P></P>
<P>Às 17h35 da tarde de 11 de março, Manoel Raimundo foi preso ao entregar
entre 500 e 2.000 panfletos, possivelmente por ele escritos, com os
dizeres "Abaixo a ditadura militar", contra a chegada naquele dia a Porto
Alegre do general-ditador Castelo Branco, e a Edu Rodrigues, um civil
alcagüete, em frente ao auditório Araújo Viana. Na distribuição dos
manifestos estariam envolvidos funcionários da Carris, empresa pública com
antiga tradição de luta sindical e política. Conhecido pelo serviço de
informação do Exército como uma das principais lideranças do movimento dos
sargentos e, possivelmente, por seu envolvimento nos movimentos de
resistência em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, Manoel Raimundo era
uma presa valiosa para a repressão, já que, se vergado, causaria baixas
duríssimas entre seus companheiros de luta e no movimento de resistência à
ditadura. </P>
<P></P>
<P>A documentação conhecida assinala que, quando da sua prisão, Manoel
Raimundo militava em pequeno grupo reunindo, principalmente, remanescentes
da "Guerrilha de Três Passos", denominado Movimento Revolucionário 26 de
Março (MR-26). A denominação seria uma homenagem ao primeiro combate
armado com a ditadura, quando da chamada "Guerrilha de Três Passos".
Praticamente toda a escassa informação disponível publicada sobre Manoel
Raimundo reafirma essa militância. </P>
<P></P>
<P>Jelsi Rodrigues, companheiro de Manoel Raimundo no Rio de Janeiro e em
Porto Alegre, lembra que, naquele então, os suboficiais resistentes
reconheciam-se como membros do Comando Geral dos Sargentos. Quando muito,
Manoel Raimundo se compreenderia como parte do Movimento Nacionalista
Revolucionário, organizado pelos suboficiais do Exército e da Marinha, em
associação com Leonel Brizola e seguidores. Jelsi Rodrigues sequer tem
conhecimento do MR-26. Araken Galvão, com participação destacada na
primeira tentativa de levante em Porto Alegre e um dos companheiros mais
próximos de Manoel Raimundo, declarou: "Ao que eu saiba, Soares nunca
militou no MR-26. Aliás, nem sei que movimento foi esse (...)". </P>
<P></P>
<P><B>Companheiros de farda </B></P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo foi preso no dia 11 de março por dois militares à
paisana, da 6ª Companhia da Polícia do Exército, Carlos Otto Bock e Nilton
Aguiadas, sem qualquer determinação judiciária, ao arrepio das próprias
leis então reconhecidas pela ditadura, devido à denúncia do informante Edu
Rodrigues, como visto. A ordem de prisão teria partido de Darci Gomes
Prange, capitão da referida companhia. Era o início do longo calvário do
jovem paraense, nas mãos dos torcionários do Exército e da Polícia
Política. </P>
<P></P>
<P>Manoel Raimundo foi levado em um táxi DKV verde à sede da Polícia do
Exército, onde, sem delongas, sofreu as primeiras sevícias infligidas por
ex-colegas de farda, o sargento Pedroso e os tenentes Nunes e Glênio
Carvalho de Sousa. A seguir, foi transferido para o mais experiente
Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), no Palácio de Polícia na
avenida João Pessoa, para ser duramente torturado e espancado, por longos
dias, agora pelos delegados Enir Barcelos da Silva, Itamar Fernandes de
Souza, José Morsch, entre outros. </P>
<P></P>
<P>Na época, especialmente no Rio Grande, a tortura não se transformara
ainda em prática institucionalizada, sobretudo nas forças militares. O
ódio acumulado por oficiais golpistas e direitistas contra o destacado
líder do Comando dos Sargentos e sua importância na resistência
antiditatorial talvez expliquem a violência com que foi interrogado. Sem
qualquer resultado. Ainda hoje, os companheiros de Manoel Raimundo
lembram-se emocionados da decisão com que o jovem enfrentou o
interrogatório, não raro cantando o Hino Nacional e a Marselhesa, sem
jamais se dobrar, não revelando sequer um nome de companheiros e depósitos
de armamentos, prontamente transferidos após a sua queda. </P>
<P></P>
<P><B>Depoimentos incontornáveis</B> </P>
<P></P>
<P>Possivelmente a improvisação da repressão na época e a importância e
galhardia de Manoel Raimundo ao enfrentar seus algozes tenham ensejado a
paradoxal exposição pública das duras torturas a que foi submetido,
realidade que se procurou manter sob sigilo, mesmo quando do fechamento do
regime, após o Ato Institucional n.º 5, em fins de 1968. São precisas,
abundantes e concordantes as declarações de outros presos políticos sobre
os maus-tratos sofridos pelo jovem paraense na semana em que permaneceu no
DOPS. </P>
<P></P>
<P>Em depoimento publicado no jornal gaúcho Zero Hora, de 17 de setembro
de 1966, Antônio Giudice, detido no DOPS, de 10 a 15 de março de 1966,
relatou "que conversou com Manoel Raimundo, vendo "os hematomas e
cicatrizes das torturas que vinha sofrendo", pois "era diariamente,
torturado, colocado várias vezes no pau-de-arara, sofrendo choques
elétricos, espancado e queimado por pontas de cigarros". O pau-de-arara é
haste de pau ou ferro, para suspender o prisioneiro durante a tortura, com
os pés e as mãos amarrados para trás, de cabeça para baixo. </P>
<P></P>
<P>Aldo Alves Oliveira, funcionário da Companhia Carris, preso na DOPS
desde 10 de março, testemunhou ter conhecido Manoel Raimundo, que
"mostrava vários sinais de sevícias". Na ocasião, viu, quando o
ex-sargento "estava sentado no corredor" de "acesso à cela", "sem camisa",
"as marcas de queimaduras" e sinais de violência. Tão forte fora o
espancamento que ele "não podia engolir alimentos sólidos, razão pela
qual" Aldo e outros presos forneciam-lhe "alguma porção" do "leite que
lhes era enviado por familiares". </P>
<P></P>
<P><B>As noites e os dias </B></P>
<P></P>
<P>Aldo Alves relatou igualmente que, durante o tempo que esteve preso,
"percebia que, quase todas as noites, pela madrugada, o ex-sargento Manoel
Raimundo Soares era torturado, o que podia ser comprovado pelos gritos da
vítima e também pelo aspecto físico que apresentava quando era trazido de
volta a sua cela e passava defronte a porta em que se encontrava o
depoente [...]". </P>
<P></P>
<P>Também presa no DOPS em março de 1966, a advogada Élida Costa afirmou
que, ao ouvir "gritos, urros de dor e ruídos de coisas que caíam", um
"agente policial" lhe explicara que "se tratava de uma festa em [um] outro
andar". Ao deparar-se com "uns seis ou oito presos, todos da Carris",
quando ia ao banheiro, ela contou-lhes o que passava, "e o risco que todos
(eles) corriam". </P>
<P></P>
<P>Élida passou a noite temendo "que o mesmo poderia lhe suceder". Temor
acrescido quando, de madrugada, "viu, com os próprios olhos, um rapaz que,
pelo estado de seu corpo, que estava inclinado para frente, ia sendo
carregado por dois homens". Na ocasião, "ouviu dizer" que o preso estava
ferido, sangrava e se encontrava em "coma" e que "fora recolhido a uma
cela fechada à chave". Mais tarde, o ex-sargento "foi levado", com
dificuldades, "pelos presos", até a advogada, que ouviu do mesmo se chamar
Soares. </P>
<P></P>
<P><B>Na ilha do Presídio</B> </P>
<P></P>
<P>Por não se dobrar às exigências dos algozes, Manoel Raimundo foi
torturado em forma incessante, por mais de uma semana pelos torcionários à
procura de informação sobre seus companheiros de luta e de ideal, sendo
recolhido apenas em 19 de março de 1966, nove dias após sua prisão, à ilha
do Presídio, no rio Guaíba, destinada desde o golpe militar também ao
encarceramento de presos políticos. A ilha contaria com guarnição de mais
de 30 policiais. </P>
<P></P>
<P>A pequenina ilha do Presídio, com uns 150 metros de comprimento por 30
a 80 de largura, destaca-se por suas grandes pedras de granito, a pouco
mais de dois quilômetros da costa de Guaíba. Conhecida inicialmente como
ilha das Pedras Brancas, fora ponto estratégico de ataque-defesa de Porto
Alegre na Guerra dos Farrapos. Passara a ser denominada de ilha da
Pólvora, ao receber duas construções para armazenar munição, em 1857. De
1956 a 1973 e de 1980 a 1983 funcionara como presídio, o que lhe assegurou
sua última denominação. </P>
<P></P>
<P>A ilha do Presídio, caracterizada pela forte umidade, era local onde os
prisioneiros políticos encontravam-se relativamente protegidos das
torturas policiais, devido à estreiteza das instalações, ao elevado número
de detidos, às dificuldades dos inquisidores de se deslocarem até ela.
Para serem interrogados, os prisioneiros eram habitualmente levados de
volta a Porto Alegre, onde ficavam entregues à violência e ao arbítrio dos
militares e policiais torturadores. Hoje, as instalações da ilha
encontram-se abandonadas e depredadas. </P>
<P></P>
<P>Em 1966, o guarda civil Selço José Muller dos Santos permaneceu
encarcerado na ilha por dez dias. Mais tarde, declarou que, na ocasião,
auxiliou Manoel Raimundo a se mover "até sua cela", pois se encontrava
"bastante ferido", com "dificuldade para locomover-se". À noite, Selço
preparava "salmoura para passar nas costas e pernas de Manoel", partes do
corpo muito feridas devido aos espancamentos, segundo relatou o próprio
Manoel. Selço teria aconselhado ao sargento que "pusesse água com açúcar"
em "uma espécie de hematoma" que tinha no olho. Devido a ferimento
propiciado pelo tenente Nunes durante a tortura, Manoel Raimundo perdera
parcialmente a visão de um olho. </P>
<P></P>
<P><B>Para ler a primeira parte do artigo, <A
href="http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3151/9/"><FONT
color=#cc3300>clique aqui.</FONT></A> </B></P>
<P></P>
<P><B>Mário Maestri, historiador, é doutor em História pela UCL, Bélgica,
e professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de
Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul. E-mail:
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</SPAN>Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que
o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de
email </B></P>
<P></P><B>Helen Ortiz, historiadora, é mestre em História pela
Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul. </B>
<P></P>
<P><B>Publicado em: <EM>O direito na história</EM>: o caso das mãos
amarradas. Porto Alegre: Tribunal Regional Federal da 4ª. Região, 2008.
pp. 177-200. </B></P>
<P></P>
<P><BR></P></TD></TR></TBODY></TABLE></DIV></BODY></HTML>