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<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV> </DIV>
<P align=left><B><FONT face=forte color=#ff0000 size=5>
<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO.
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
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<DIV><IMG alt="" hspace=0 src="cid:029101c9cdd2$ccd0ec00$0200a8c0@vcaixe"
align=baseline border=0></DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV><FONT face="Arial Rounded MT Bold" size=2>Numa quinta-feira de 1971 o
carcereiro com aquelas chaves de motorneiro abria a porta de ferro da Cela 3 do
Presídio Tiradentes para "depositar" mais um preso político que fazia a Ditadura
tremer de ódio. Desta vez entrava na nossa cela, Augusto Boal. Camisa xadrez,
cabelo esvoaçante, simples e simpático. Foi logo recebendo as boas vindas dos
companheiros e a injeção de moral alta. Eram sete beliches. Cedi a minha
cama e subi para o beliche de cima para ele não ter que escalar aquela escadinha
estreita. Demos tempo para ele descançar e chamamos para o jantar em volta da
nossa mesa redonda. Construçãodo companheiro Flávio. Ali fazíamos as nossas
refeições,</FONT><FONT face="Arial Rounded MT Bold" size=2>todos juntos. Ali
era, também o lugar onde todos se reunião para a leitura resumida dos jornais,
as palestras do companheiros da nossa cela ou de outras, inclusive para as
críticas e auto-críticas necessárias. Eram sete celas no Pavilhão um do Presídio
Tiradentes. Boal logo se enturmou ao coletivo e propós falar às sextas-feiras
sobre o teatro, sobretudo do Opinião. Ganhou , no curto espaço que lá
permaneceu, a simpatia de todos. Alípio Freire, Mosca, Flávio, Gorender, Silvio,
Vicente, Buda e outros. Quando saiu deixou um monte de revista e livros para a
biblioteca coletiva. Era o que todos faziam.</FONT></DIV>
<DIV><FONT face="Arial Rounded MT Bold" size=2>Meses depois é entregue
clandestinamente para os companheiros da cela o seu livro relatando aquela
experiência fora e no convívio conosco. (com pseudônimo de cada um) parecia que
era um esboço de uma futura peça.</FONT></DIV>
<DIV><FONT face="Arial Rounded MT Bold" size=2>Vim vê-lo muitos anos depois,
aqui em Ribeirão Preto-SP, numa encenação-ensaio do Teatro do Oprimido. Foi uma
alegria inimaginável e com direito a autógrafo no "Cela 3". E depois um chopp
gelado no Pingüim.</FONT></DIV>
<DIV><FONT face="Arial Rounded MT Bold" size=2>A nossa homenagem ao companheiro
Augusto Boal. Leitor e incentivador da Carta O Berro, até o fim.</FONT></DIV>
<DIV><FONT face="Arial Rounded MT Bold" size=2>Agradecemos a sua luta e a tudo
que nos deixou.</FONT></DIV>
<DIV><FONT face="Arial Rounded MT Bold" size=2>Vanderley Caixe</FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial
size=2>==================================================================================================================================</FONT></DIV>
<DIV>
<P class=chapeu>DEBATE ABERTO</P>
<P class=titulo>Boal está vivo!</P>
<P class=linhafina>Boal detestava a mediocridade, o servilismo e o silêncio dos
que fingem que não vêem o que se passa. Era um homem direto e franco, sem jamais
perder a ternura dos bons. Certamente, depois de morto, será ainda mais
reconhecido, na nossa trágica tradição de valorizar mais os mortos do que os
vivos.</P>
<P class=headline-link>Luís Carlos Lopes</P>
<P class=texto>Canalhas de todo o mundo não fiquem alegres. Boal está vivo!
Vocês que torturaram o seu corpo, que infamaram seu trabalho, jamais venceram ou
vencerão. Podem causar danos, adiar projetos, mas não conseguirão impedir que
exista espaço para gente talentosa e com forte postura ética. Pobres de vocês,
que jamais serão conhecidos pela honestidade e pela solidariedade com os demais
membros da espécie humana.<BR><BR>É verdade que ele se foi, que não mais o
veremos no plano físico, entretanto, ele jamais morrerá no coração de todos os
oprimidos da face da Terra. Os seus 78 anos bem vividos foram suficientes para
ele dizer a que veio e deixar um legado imortal de um brasileiro, carioca,
suburbano, revolucionário e doce como goiabada.<BR><BR>Vocês que nunca o
compreenderam e nem fizeram questão de melhor conhecê-lo, não sabem o que
perderam. Pessoas como ele não existem em cada esquina. Simples, profundo e
companheiro de todos que possuem o espírito livre e a consciência no lugar. Boal
jamais foi arrogante como vocês. Nunca disse que sabia mais do que ninguém. Não
precisava de marketing pessoal e nem de tietagem comercial.<BR><BR>Sua presença
bastava e se impunha por si só, em tudo o que fazia no Brasil e no exterior.
Deixou uma legião de admiradores e formou gerações de pessoas interessadas em
contribuir para a construção de sociedades mais justas. Sua fama correu mundo,
bem como o respeito pelo seu trabalho. Nada pedia pelo que fazia. Recebeu até
poucas homenagens, considerando a grandeza de sua intervenção no mundo da
vida.<BR><BR>Certamente, depois de morto, será ainda mais reconhecido, na nossa
trágica tradição de valorizar mais os mortos do que os vivos. Não importa. Ele
era o próprio teatro, e ele continuará a usar suas peças e, sobretudo, seu
método e seus infindáveis ensinamentos. Estes retiravam material da alegria de
estar vivo e de olhos abertos. É verdade, Boal detestava a mediocridade, o
servilismo e o silêncio dos que fingem que não vêem o que se passa. Era um homem
direto e franco, sem jamais perder a ternura dos bons. <BR></P><BR>
<P class=linha-fina>Luís Carlos Lopes é professor.</P>
<P
class=linha-fina>==========================================================================================</P>
<P class=linha-fina><IMG
src="http://200.169.228.51/arquivosCartaMaior/FOTO/50/foto_mat_23558.jpg"> </P>
<P class=titulo><FONT size=4><STRONG>O filho do padeiro e a
revolução</STRONG></FONT> </P>
<P class=linhafina>Em uma época na qual a arte se identifica e se organiza em
tendências de temporada, será cada vez mais raro encontrar um artista cuja
tendência radical na direção da justiça é obra de uma vida inteira. Augusto Boal
construiu uma carreira pontuada muitas vezes por lances decisivos, não apenas
pessoalmente, mas para a história do teatro brasileiro. Por meio de sua obra, o
andar de baixo finalmente vem à luz e personagens como operários, cangaceiros e
jogadores de times de várzea ganham o palco. O artigo é de Kil Abreu.</P>
<P class=headline-link>Kil Abreu (*)</P>
<P class=headline-link>Filho de um padeiro português que chegou ao Rio de
Janeiro por se recusar a servir como soldado em uma guerra com a qual não
concordava e de uma certa senhora que abandonara o primeiro noivo praticamente
no altar para casar, por decisão e gosto, com um “aventureiro”, Augusto Boal
aprendeu desde logo que o mundo pode ser mudado, bastando para isso decisão e
coragem. Toda a sua invenção no teatro parece se basear nesta fé sobre o efeito
da ação do homem no mundo, que não é apenas um lance retórico, como no teatro
burguês, e deve ser encontrada nos motivos da vida ordinária. <BR><BR>Foi assim
que ele construiu uma carreira pontuada muitas vezes por lances decisivos, não
apenas pessoalmente, mas para a história do teatro brasileiro. Convidado ao
então promissor Teatro de Arena, em 1956, empresta ao grupo os conhecimentos
aprendidos, de encenação e dramaturgia, em uma recente temporada nos Estados
Unidos. Principal ideólogo nos caminhos de uma cena preocupada em com as
contradições da sociedade, é Boal quem intui que um teatro novo, com assuntos
ainda não levados ao palco, pede também uma cena nova, com dramaturgia própria e
um repertório técnico e artístico que dê conta de suportar a representação da
realidade em chave crítica. Introduz o método de Stanislávski, que havia
estudado no <I>Actor's Studio</I>, com vistas ao naturalismo que seria de grande
valia para a primeira fase de renovação da cena que o Arena promoveria. O andar
de baixo finalmente vem à luz e personagens como operários, cangaceiros e
jogadores de times de várzea ganham o palco. Era a hora da representação dos
temas nacionais, quando dirigiu, entre outros, Chapetuba Futebol Clube, de
Oduvaldo Viana Filho (1959), espetáculo que dá seguimento a Eles não usam
Black-tie, peça de Guarnieri (1958) dirigida por José Renato.<BR><BR>Ainda em
1960, de mãos dadas com os ensinamentos vindos de Brecht e o seu teatro épico,
Boal escreve Revolução na América do Sul , uma mistura de teatro de agitação,
tradições populares e revista musical. O espetáculo tem direção de José Renato e
afirma com grande inventividade as marcas que pautariam toda a sua produção
posterior: de um lado, o espírito criativo iconoclasta, experimental e, de
outro, a certeza de que a experiência estética não é mero formalismo, é meio
para a discussão urgente de algum aspecto da vida em sociedade. <BR><BR>O
período que vai de 64 a 71, contabilizada a grande sede de justiça social
provocada pelo golpe, é o período da resistência que inclui ações em várias
frentes: alinhado ao CPC da UNE, já na ilegalidade, Boal dirige, no Rio, o Show
Opinião, com Zé Ketti, João do Vale e Nara Leão. Em São Paulo cria, com
Guarnieri e Edu Lobo, o musical Arena Conta Zumbi, cuja estrutura modelar seria
aproveitada em outras montagens (Arena conta Bahia, Arena conta Tiradentes,
Arena conta Bolívar). O propósito é evidente: fazer, através de personagens
históricos ligados às lutas populares, o cotejamento com a realidade atual do
país, apontando a necessidade de mobilização e de mudança. Mas não é só. Para
que o efeito crítico seja efetivo os espetáculos trazem, entre outras inovações,
o “sistema coringa”, uma técnica através da qual todos os atores interpretam
todos os personagens e a fábula é conduzida por um narrador, que à maneira
brechtiana faz a mediação crítica e chama a platéia a acompanhar as cenas à luz
da razão. <BR><BR>É ao fim deste duro período, quando finalmente será exilado
depois de passar por tortura e de ver suas montagens censuradas, que está o
nascedouro da experiência que consagraria Boal como um dos artistas brasileiros
mais importantes do mundo. É quando surgem os princípios que vão orientar as
técnicas que mais adiante serão aplicadas ao seu Teatro do Oprimido. É criado o
Núcleo Independente, oriundo do Arena, que teria ação importante na periferia de
São Paulo nos anos 70. O primeiro espetáculo chama-se Teatro Jornal 1a. edição e
inspira-se no trabalho de um grupo de <I>agit-prop</I> americano dos anos 30, o
<I>Living Newspaper</I>. O procedimento fundamental está próximo do que mais
tarde seria o Teatro Fórum: os atores lêem as notícias do dia e criam situações
cênicas para debater pontos de vista e lançar novos olhares sobre o
noticiado.<BR><BR>Expulso do seu país, Boal prossegue com seu trabalho no
exterior, primeiro na Argentina, onde desenvolve a estrutura teórica dos
procedimentos do teatro do oprimido. É quando passa a sistematizar e a praticar
uma revolução verdadeira. Simples como o são as coisas necessárias e urgentes, o
Teatro do Oprimido tem como palco qualquer lugar onde um grupo de cidadãos possa
se reunir e tem como fiinalidade dar voz, através da representação simbólica do
mundo, aos que em geral permanecem calados. Com uma técnica engenhosa, que leva
aquele que seria o espectador do teatro burguês ao lugar de atuante no curso dos
acontecimentos, é uma forma teatral que desmistifica a coisa estética para ver a
beleza no exercício de autonomia do sujeito, quando este é chamado a intervir no
andamento da ação e a dar sentido político à sua própria existência.
Recentemente o Teatro Legislativo, gênero derivado do TO e surgido durante o
mandato de Boal como vereador no Rio de Janeiro, foi responsável pela criação de
treze Leis municipais, todas nascidas da discussão comunitária, em encontros nos
quais a população apresentou, através do teatro, as suas
demandas.<BR><BR>Nomeado pela Unesco Embaixador Mundial do Teatro em março deste
ano, Boal deixa seus livros traduzidos em vinte idiomas e centros de teatro do
oprimido espalhados por mais de setenta países.<BR><BR>Nesta semana de
homenagens póstumas não será demais lembrar uma fala, na apresentação da sua
autobiografia, em que ele dizia que a idéia de se autobiografar é algo quase
imoral, pois que o importante é a obra, não o homem. Mas o fato é que seu gênio
artístico fará falta, sim, e tende a parecer cada vez mais uma anomalia, um
idealismo ingênuo – como, aliás, está tratado já subliminarmente, nas falas de
despedida, pela grande mídia e por vários dos seus companheiros de jornada, hoje
rendidos ao mercado do entretenimento. Em uma época na qual a arte se identifica
e se organiza em tendências de temporada, será cada vez mais raro encontrar um
artista cuja tendência radical na direção da justiça é obra de uma vida
inteira.<BR><BR><I>(*) Kil Abreu é jornalista, crítico e pesquisador do teatro.
É curador do Festival Recife do Teatro nacional e coordena o Núcleo de Estudos
do teatro contemporâneo da Escola Livre de Santo André.</I></P>
<P
class=headline-link><EM>========================================================================</EM></P>
<P class=headline-link><IMG
src="http://200.169.228.51/arquivosCartaMaior/FOTO/50/foto_mat_23556.jpg"> </P>
<P class=titulo>Carta do MST a Augusto Boal</P>
<P class=linhafina>"O teatro mundial perde um mestre, o Brasil perde um lutador,
e o MST um companheiro. Nos solidarizamos com a família nesse momento difícil, e
com todos e todas praticantes de Teatro do Oprimido no mundo", diz carta do
Movimento dos Sem Terra em homenagem a Augusto Boal. "Aprendemos contigo que
podemos nos divertir e aprender ao mesmo tempo, que podemos fazer política
enquanto fazemos teatro, e fazer teatro enquanto fazemos política. Poucos
artistas souberam evitar o poder sedutor dos monopólios da mídia, mesmo quando
passaram por dificuldades financeiras. Você, companheiro, não se vergou, não se
vendeu, não se calou".</P>
<P class=headline-link>Redação</P>
<P class=texto>O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) divulgou a
seguinte carta escrita em homenagem a Augusto Boal, falecido neste sábado, 2 de
maio:<BR><BR><I><STRONG>Companheiro Boal,<BR><BR>A ti sempre estimaremos por nos
ter ensinado que só aprende quem ensina. Tua luta, tua consciência política, tua
solidariedade com a classe trabalhadora é mais que exemplo para nós,
companheiro, é uma obra didática, como tantas que escreveu. Aprendemos contigo
que os bons combatentes se forjam na luta.<BR><BR>Quando ingressou no coletivo
do Teatro de Arena, soube dar expressão combativa ao anseio daqueles que queriam
dar a ver o Brasil popular, o povo brasileiro. Sem temor, nacionalizou obras
universais, formou dramaturgos e atores, e escreveu algumas das peças mais
críticas de nosso teatro, como Revolução na América do Sul (1961). Colaborou com
a criação e expansão pelo Brasil dos Centros Populares de Cultura (CPC), e as
ações do Movimento de Cultura Popular (MCP), em Pernambuco.<BR><BR>Mostrou para
a classe trabalhadora que o teatro pode ser uma arma revolucionária a serviço da
emancipação humana.<BR><BR>Aprendeu, no contato direto com os combatentes das
Ligas Camponesas, que só o teatro não faz revolução,. Quantas vezes contou nos
teus livros e em nossos encontros de teu aprendizado com Virgílio, o líder
camponês que te fez observar que na luta de classes todos tem que correr o mesmo
risco.<BR><BR>Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas histórias, seu
método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem
jamais parar a luta.<BR><BR>Na ditadura, foi preso, torturado e exilado. No
contra-ataque, desenvolveu o Teatro do Oprimido, com diversas táticas de combate
e educação por meio do teatro, que hoje fazemos uso em nossas escolas do campo,
em nossos acampamentos e assentamentos, e no trabalho de formação política que
desenvolvemos com as comunidades de periferia urbana.<BR><BR>Poucas pessoas no
Brasil atravessaram décadas a fio sem mudar de posição política, sem abrandar o
discurso, sem fazer concessões, sem jogar na lata de lixo da história a
experiência revolucionária que se forjou no teatro brasileiro até seu
esmagamento pela burguesia nacional e os militares, com o golpe militar de
1964.<BR><BR>Aprendemos contigo que podemos nos divertir e aprender ao mesmo
tempo, que podemos fazer política enquanto fazemos teatro, e fazer teatro
enquanto fazemos política.<BR><BR>Poucos artistas souberam evitar o poder
sedutor dos monopólios da mídia, mesmo quando passaram por dificuldades
financeiras. Você, companheiro, não se vergou, não se vendeu, não se
calou.<BR><BR>Aprendemos contigo que um revolucionário deve lutar contra todas,
absolutamente todas as formas de opressão. Contemporâneo de Che Guevara, soube
como ninguém multiplicar o legado de que é preciso se indignar contra todo tipo
de injustiça.<BR><BR>Poucos atacaram com tanta radicalidade as criminosas leis
de incentivo fiscal para o financiamento da cultura brasileira. Você,
companheiro, não se deixou seduzir pelos privilégios dos artistas renomados. Nos
ensinou a mirar nos alvos certeiros.<BR><BR>Incansável, meio século depois de
teus primeiros combates, propôs ao MST a formação de multiplicadores teatrais em
nosso meio. Em 2001 criamos contigo, e com os demais companheiros e companheiras
do Centro do Teatro do Oprimido, a Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do
Assaré. Você que na década de 1960 aprendeu com Virgílio que não basta o teatro
dizer ao povo o que fazer, soube transferir os meios de produção da linguagem
teatral para que nós, camponeses, façamos nosso próprio teatro, e por meio dele
discutir nossos problemas e formular estratégias coletivas para a transformação
social.<BR><BR>Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo o
Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto
combatemos, lhes rendemos homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir
combatendo em todas as trincheiras. No que depender de nós, tua vida e tua luta
não será esquecida e transformada em mercadoria.<BR><BR>O teatro mundial perde
um mestre, o Brasil perde um lutador, e o MST um companheiro. Nos solidarizamos
com a família nesse momento difícil, e com todos e todas praticantes de Teatro
do Oprimido no mundo.<BR><BR>Dos companheiros e companheiras do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem
Terra</STRONG><BR><BR>=================================================================================</I></P>
<H1 class=documentFirstHeading>Entrevista: No palco, soluções para a vida
real</H1>
<DIV>
<DIV class=documentByLine><SPAN class=documentAuthor>por <A
href="http://www.brasildefato.com.br/v01/author/cristiano"><FONT
color=#77929f>cristiano</FONT></A></SPAN> <SPAN
class=documentModified><SPAN>última modificação</SPAN> 05/05/2009 13:51 </SPAN>
<DIV class=reviewHistory></DIV></DIV></DIV>
<P class=documentDescription>Entrevista publicada em novembro de 2005 na edição
141 do <STRONG><FONT size=4><U>Brasil de Fato</U></FONT></STRONG></P>
<DIV class=newsImageContainer><IMG class=newsImage
title="Entrevista publicada em novembro de 2005 na edição 141 do Brasil de Fato"
alt="Entrevista publicada em novembro de 2005 na edição 141 do Brasil de Fato"
src="http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/entrevista-no-palco-solucoes-para-a-vida-real/image_mini">
</DIV>
<DIV class=plain>
<P></P>
<P><BR></P>
<P>“Augusto Boal inovou e reinventou o teatro”, já disse sobre ele o presidente
da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Mais importante do que assistir a um
filme, diz o dramaturgo, é que as pessoas pensem também ser capazes de fazer
filmes. Ou que as pessoas que recebam um livro para ler sejam também
incentivadas a escrever livros elas mesmas. Essas afirmações definem não apenas
Boal como todo o seu trabalho, mais que conhecido – praticado nos cinco
continentes. Criador do Teatro do Oprimido, ele foi o diretor artístico do
Festival Nacional do Teatro Legislativo, que aconteceu entre os dias 25 e 30 de
outubro, no Rio de Janeiro.</P>
<P><BR></P>
<P>Nesta entrevista ao <B>Brasil de Fato</B>, Boal fala de seu trabalho e conta
que a primeira lei brasileira de proteção às testemunhas de crimes importantes
surgiu a partir de um projeto do Centro do Teatro do Oprimido, no qual os grupos
populares apresentavam espetáculos em que o público é convidado a entrar em
cena, substituir o protagonista e buscar alternativas para o problema
encenado.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P></P>
<P><B>Brasil de Fato – O que é o Teatro Legislativo? </B></P>
<P><B>Augusto Boal –</B> O Teatro Legislativo foi a necessidade que nós
sentíamos, antes de eu ser vereador, de transformar em lei aquilo que era um
desejo manifestado pela população do Teatro Fórum. Neste, você apresenta o
problema, e não as soluções possíveis. Por exemplo, o Shakespeare tem uma peça,
Hamlet, em que ele fala que o texto deve ser um espelho, e esse espelho deve
refletir a realidade como ela é: com nossos vícios e nossas virtudes. Isso é a
opinião dele, o teatro é um espelho. Eu acho isso bonito e tudo. Mas ao mesmo
tempo acho que a gente não tem que pensar só em compreender a realidade. Tem que
procurar transformar a realidade. Esta sempre deve ser passível de uma
transformação e vai necessitar sempre da transformação. Então, eu gostaria que o
teatro fosse um espelho mágico, no qual você penetra e, não gostando da imagem
que ele reflete, você vai lá dentro e lá modifica essa imagem. A gente sentiu
que estava tendo idéias muito boas e tudo isso, mas na realidade a gente
precisava de alguma lei. Mesmo que a gente saiba que as leis não são respeitadas
no Brasil, é melhor tê-las ao nosso lado do que contra, contra nós. Então a
gente começou a pensar na idéia de transformar em lei, entrando para a Câmara
dos Vereadores. E eu fui candidato, fui eleito, por quatro anos.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – Por qual partido?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Pelo Partido dos Trabalhadores. Durante quatro anos a gente
criou quase 20 grupos, no Rio de Janeiro inteiro, fazendo o Teatro Fórum. De
1993 a 1996. Chegamos a produzir quase 50 projetos de lei. Desses, 13 foram
aprovados e hoje são leis. Algumas foram leis bastante localizadas.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – Projetos de lei surgiram dessas encenações?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Sim, com a platéia entrando em cena, havendo a discussão
contraditória. Quer dizer, a peça trazia um problema, mas o primeiro espectador
não achou uma solução boa, contra o segundo, o terceiro, o quinto. Então,
fazendo muito o Teatro Fórum, a gente chegou a poder dizer: bom, o que eles
estão querendo é uma lei nesse sentido. E eu apresentava essa lei. Entre elas, a
primeira lei brasileira de proteção às testemunhas de crimes. Não havia nenhuma
lei que protegesse as testemunhas. Nós fizemos durante meio ano, nas ruas, nas
igrejas, nos sindicatos, nas escolas, em toda parte a gente ia, levava as peças
e depois fazia a discussão teatral, com o espectador entrando em cena e dando
sugestões. E aí, essa foi a primeira lei brasileira, que depois se transformou
em uma lei estadual no Espírito Santo. E passou também a ser a base da lei
federal.</P>
<P><BR></P>
<P><B>BF – Fruto de uma encenação do Teatro do Oprimido?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Sim, de vários grupos, sobre o mesmo tema. Claro que depois o
tema foi para Brasília, se ampliou enormemente, porque as possibilidades
federais são bem maiores que as municipais. Quando eu saí (da Câmara de
Vereadores) a gente continuou fazendo isso. Tem agora três ou quatro leis
aprovadas depois que eu saí, porque é muito mais difícil manter a lei, sem ter
um vereador ou deputado, assim totalmente empenhado.</P>
<P><B></B> </P>
<P><B>BF – Como nasceu o Teatro do Oprimido?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Em 1970, quando eu trabalhei uma forma chamada Teatro Jornal,
eram doze técnicas para ajudar as pessoas a transformarem notícias de jornal em
cena teatral. Foi aí a semente do Teatro do Oprimido. O que aconteceu é que a
gente não podia mais fazer teatro, tinha censura, invasão da polícia, prisões e
tudo. Aí a gente falou: em vez de dar o produto acabado, vamos dar os meios de
produção, a platéia produz o seu teatro.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – Um meio de produção cultural?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Sim, e teatral. Depois eu fui exilado, em 1971. Antes fui
preso, torturado, aquela coisa “normal” da época. Fui banido, expulso do país.
Na Argentina, comecei a desenvolver formas de teatro, como, por exemplo, o
Teatro Invisível, em que a gente vai para a rua e faz uma cena, e não revela que
é teatro, para que todo mundo participe. Depois, no Peru, é que eu comecei com o
Teatro Fórum, em que a gente apresenta o problema, o espectador entra em cena e
mostra alternativas. Então fui para Portugal, de lá passei a trabalhar em quase
todos os países da Europa.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – E nesses países ficaram frutos de seu trabalho?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Sim, até hoje e cada vez mais. Na internet existe um página
internacional do Teatro do Oprimido.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – Qual o endereço?</B></P>
<P><B>Boal –</B> O nome é em inglês, porque a página é holandesa:
www.theatreoftheoppressed.org/en. Então, você acessando aí vê que tem um
mapa-mundi e aí você clica em qualquer continente e aparecem todos os países
onde se pratica o Teatro do Oprimido. São, setenta, oitenta países. É o primeiro
método da América Latina, de um continente do Hemisfério Sul, que é praticado no
mundo inteiro.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – Por que você e o Teatro do Oprimido são excluídos da grande
mídia?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Eu acho que todos aqueles artistas que fazem alguma coisa que é
extremamente útil para a população e tudo, mas que não tem um gancho, como por
exemplo um ator de televisão conhecido, ou algum outro evento que individualize
as pessoas, esses são excluídos. Não é o Teatro do Oprimido, nem eu. É qualquer
artista que não fizer assim. É excluído mesmo. Em geral, a mídia se interessa
pela individualidade, só. E o que nós estamos tentando é fazer com que o Teatro
do Oprimido seja usado em todo o tecido social. Não é ver, por exemplo, onde
estão os talentos da favela da Maré. Nós não queremos transformá-los em atores
de televisão, não é isso. Agora estamos lançando um projeto novo, que é a
Estética do Oprimido. Nosso objetivo não é descobrir qual é o melhor poeta de
Jacarepaguá, ou qual é o melhor pintor de tal lugar.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – Então, o que vocês querem não é o produto final, mas o processo de
elaboração.</B></P>
<P><B>Boal –</B> Sim, o processo estético é mais importante que o produto
artístico. Agora, para quê a gente quer isso, não é um capricho, não é? É que a
gente vive na Terceira Guerra Mundial, clara, e estamos perdendo. E essa guerra
mundial que estamos perdendo é a guerra da informação. Liga a televisão, hoje, e
você vai ver somente filmes estadunidenses, e só de violência. Você nota se o
filme é estadunidense ou não, de inspiração em Hollywood ou não, se em cada
cinco minutos tem um soco, um tiro, ou uma explosão. Aí isso é estadunidense. O
filme europeu raramente tem isso.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – E o Teatro do Oprimido, também por não fazer isso não sai na
mídia?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Não sai. Porque a gente quer é o contrário, quer que as pessoas
em vez de ficar assimilando, produzam, produzam. Então elas vão questionar,
inclusive, as informações recebidas. Se você é obrigado a escrever um poema,
depois você se anima, porque os poetas se animam. Entre as domésticas, tem uma
que não pára de escrever. Atola a gente de poemas.</P><BR>
<P><B>BF – Essa é a Estética do Oprimido?</B></P>
<P><B>Boal –</B> É isso, é fazer com que as pessoas se apropriem da arte. Não
sejam massacradas pela informação.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – E como é o seu trabalho com os movimentos sociais?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o trabalho
é muito bom, mas seria melhor se a gente tivesse meios para isso. Há alguns
anos, eles começaram a vir ao Rio de Janeiro, do Brasil inteiro. Trabalharam com
a gente durante algum tempo, e passamos para eles o que podemos. Depois eles
voltaram para seus Estados, Rio Grande do Sul, Pará, Pernambuco etc., e lá eles
começaram a desenvolver o Teatro o Oprimido.</P>
<P><BR></P>
<P><B>BF – São dificuldades logísticas?</B></P>
<P><B>Boal –</B> E econômicas. Mas a gente trabalha com eles. E também com os
sindicatos dos bancários, dos professores. E estamos trabalhando com dez grupos
da periferia. Nas prisões, em seis ou sete Estados brasileiros. Com um projeto
de um ano e meio, com o Ministério da Justiça apoiando. E sai caro, porque você
imagina ir daqui para Recife e voltar.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – Trabalho com os prisioneiros?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Fazemos as duas coisas. Desta vez tentamos fazer com os
funcionários, para que se sintam também participantes desse processo. Quer
dizer, que eles entendam que são oprimidos também, e que não resolvem a opressão
deles oprimindo outros.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – E o que é para o senhor a democratização da cultura e meios de
produção cultural?</B></P>
<P><B>Boal –</B> Democratização da cultura é uma expressão que está sendo muito
usada, mas num sentido que não me agrada. Porque é como se dissessem assim:
existem algumas pessoas excepcionais, que são os produtores de cultura. Então,
esses produtores de cultura vão democratizá-la levando a um maior número de
pessoas. Mas o maior número é entendido como de consumidores, e não como de
produtores de cultura. Acho mais importante ainda que as pessoas que recebem o
filme sejam também capazes de poder pensar em fazer filme. Ou as pessoas que
recebem um livro para ler sejam também incentivadas a escrever elas mesmas.</P>
<P><BR></P>
<P></P>
<P><B>BF – É o que acontece com a democratização da comunicação, também queremos
democratizar os meios de fabricar o jornal. </B></P>
<P><B>Boal –</B> É, se você só democratizar a leitura, a exibição e tal, e
transformar os outros somente em consumidores, é ruim. Mas tem que ser
complementado com dizer: bom, nós viemos mostrar a vocês esses poemas. Agora
escrevam vocês mesmos, vocês têm que escrever também. Democratizar a cultura é
permitir que as pessoas criem cultura. É democratizar os produtores de cultura e
não apenas da produção terminada. Senão se está criando mercados, e criar
mercados não é o objetivo da cultura. E na informação é a mesma coisa, a gente
tem que criar meios de informar, de contra-informar, de se opor informações para
que dessa confrontação, para que dessas dúvidas, inclusive, nasçam certezas. E é
isso o que a gente está tentando fazer.</P></DIV>
<P class=texto><FONT face=Arial
size=2></FONT><BR><BR> </P></DIV></BODY></HTML>