<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
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<P align=left><B><FONT face=forte color=#ff0000 size=6>
<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO.
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
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<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT><FONT face=Arial size=2></FONT> </DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>A <FONT size=3>Carta O Berro</FONT> publica
à partir de hoje, o primeiro de quatro séries do texto produzido por
dois historiadores, Mário Maestri e Helin Ortiz, sobre</STRONG> <STRONG><FONT
face="Times New Roman" size=5>Vida, luta e martírio do sargento Manoel Raimundo
Soares .</FONT></STRONG></FONT></DIV>
<DIV><STRONG><FONT face=Arial size=2>Vocês vão conhecer, na história do Brasil,
a experiência de vida e de luta, assim como o mártírio do sargento Manoel
Raimundo </FONT><FONT face=Arial size=2>Soares, com a instalação da ditadura,
suas práticas, seus métodos e a maneira de silenciar seus
opositores.</FONT></STRONG></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Uma história fantástica com toda a dimensão
do que foi 1964.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>São quatro séries - publicados inicialmente
no <FONT size=3>Correio da Cidadania</FONT>.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Este é o primeiro texto. Aguarde os demais
nos sábados seguintes.</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2><STRONG>Vanderley</STRONG></FONT></DIV>
<DIV><STRONG><FONT face=Arial size=2></FONT></STRONG> </DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2></FONT><BR></DIV>
<DIV>
<TABLE class=contentpaneopen>
<TBODY>
<TR>
<TD class=contentheading width="100%">
<DIV><FONT size=5><STRONG>Vida, luta e martírio do sargento Manoel
Raimundo Soares (1)</STRONG></FONT> </DIV>
<DIV><STRONG><FONT size=5></FONT></STRONG> </DIV></TD>
<TD class=buttonheading align=right width="100%"><A title=PDF
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<TABLE class=contentpaneopen>
<TBODY>
<TR>
<TD vAlign=top align=left width="70%" colSpan=2><SPAN class=small><FONT
face=Tahoma color=#999999 size=1>Escrito por Mário Maestri e Helen Ortiz
</FONT></SPAN> </TD></TR>
<TR>
<TD class=createdate vAlign=top colSpan=2>-Abr-2009 </TD></TR>
<TR>
<TD vAlign=top colSpan=2>
<P></P>
<P>Fundada há quase 400 anos na boca do Amazonas, a cidade de Belém domina
o norte brasileiro. Hoje, sua região metropolitana supera os dois milhões
de habitantes, vivendo em condições que lembram as que ensejaram, há mais
de 160 anos, a luminar revolta social cabana. Em fins dos anos 1930, Belém
mantinha seu perfil colonial, com seus suntuosos casarões e as mangueiras
que, ao longo das ruas centrais, esforçavam-se para amainar o calor
equatorial opressivo. Na época, possuiria pouco mais de cem mil moradores,
em geral de pele morena, herdada dos antigos senhores dessas regiões. </P>
<P></P>
<P>Em 15 de março de 1936, Etelvina Soares dos Santos pariu Manoel
Raimundo, possivelmente em sua residência humilde. Como tantas outras
mulheres paraenses fortes, criou o menino e seus dois irmãos
desejando-lhes um futuro melhor como trabalhadores dignos. Manoel Raimundo
mostrou-se logo menino muito inteligente e de fibra. Após concluir o
primário no Grupo Escolar Paulino de Brito, cursou estudos técnicos no
Instituto Lauro Sodré, enquanto trabalhava em oficina mecânica. </P>
<P></P>
<P>Em 1953, com apenas 17 anos, Manoel Raimundo abandonou a pacata Belém
para morar com conhecidos na capital federal, então grande palco dos
fortes confrontos políticos e sociais que dilaceravam o Brasil. Por se
envolver neles, mais e mais, com a galhardia dos velhos guerreiros
cabanos, o menino de dona Etelvina conheceria a morte, na luta por seus
ideais, aos trinta anos, distante de sua terra natal, nas águas geladas do
rio-estuário da capital do Brasil meridional. </P>
<P></P>
<P><B>A crise do nacional-desenvolvimentismo </B></P>
<P></P>
<P>Em 1950, três anos antes de Manoel Raimundo chegar ao Rio de Janeiro, o
rio-grandense Getúlio Vargas elegera-se presidente da República, com 48,7%
dos votos, pelo PSD, PTB e PSB, propondo continuar a industrialização
nacional autônoma, apoiada no mercado interno. Durante a campanha
eleitoral, atacara a "velha democracia liberal e capitalista" e defendera
o "industrialismo" e os "direitos trabalhistas". Seu governo seria varado
por graves conflitos e contradições. </P>
<P></P>
<P>A valorização do cruzeiro e a desvalorização do preço das
matérias-primas no mercado internacional deprimiam o valor das
exportações, exigindo o controle governamental das remessas de lucros e de
dividendos, necessário à compra de tecnologia, de equipamentos, de
petróleo etc. Como no Estado Novo, o getulismo expressava, sobretudo, a
burguesia industrial e os proprietários agropastoris voltados para o
mercado interno, e, agora, secundariamente, o operariado fabril, mantido
na subordinação social, política e ideológica. </P>
<P></P>
<P>O governo Vargas iniciou-se com orientação nacional-desenvolvimentista
moderada, oferecendo abertura aos capitalistas estrangeiros, desde que
associados aos nacionais e respeitosos aos "interesses do país". Então, o
Brasil tinha 52 milhões de habitantes. As classes industriais, médias e
operárias haviam se fortalecido grandemente em relação ao Estado Novo,
enquanto decrescera o poder dos exportadores, organizados, sobretudo, na
UDN, que expressava igualmente o imperialismo e o capital financeiro. </P>
<P></P>
<P><B>Nova relação de forças </B></P>
<P></P>
<P>O novo governo Vargas ampliou a intervenção do Estado na economia que
levara, no Estado Novo, à criação da Companhia Siderúrgica Nacional e da
Companhia Hidroelétrica do Vale do São Francisco. Foram fundados os bancos
da Amazônia e do Nordeste; o BNDE e a Eletrobrás. Em 1951, ditou-se o
monopólio estatal sobre o petróleo e minerais radioativos. Em 1953, a
fundação da Petrobrás galvanizou os sentimentos nacionalistas da população
e, a seguir, restringiu a hemorragia das contas públicas com as
importações do petróleo. </P>
<P></P>
<P>A estreiteza do mercado interno e da poupança nacional emperrava o
nacional-desenvolvimentismo. O mercado urbano era limitado e o rural,
menor. Os salários fabris aproximavam-se ao mínimo necessário à
subsistência. O prosseguimento do padrão nacional-desenvolvimentista
burguês exigia maiores investimentos e maior consumo, através do fim do
latifúndio (sem indenização), da generalização das leis trabalhistas, da
elevação dos salários, de maior participação estatal na economia etc. </P>
<P></P>
<P>Essas medidas democrático-burguesas sequer interessavam aos
industrialistas ligados ao governo, pois fortaleceriam o mundo do trabalho
e quebrariam o pacto agrário-industrial, que assegurava a manutenção do
latifúndio. Em agosto de 1954, o suicídio de Vargas assinalou o fim da
capacidade e disposição do capital industrial nacional de garantir ao país
desenvolvimento capitalista tendencialmente autônomo. Nesse momento, ele
já abandonara maciçamente a política populista, com a qual subordinara os
trabalhadores industriais urbanos aos seus interesses. </P>
<P></P>
<P><B>Rápida progressão </B></P>
<P></P>
<P>Em 1955, meses após a comoção nacional causada pelo suicídio de Getúlio
Vargas, Manoel Raimundo Soares, com 19 anos, alistou-se no Exército,
alcançando o posto de segundo sargento, após quatro promoções. Em 20 de
setembro do mesmo ano, após namoro de apenas três meses, casou-se com a
jovem Elisabeth Chalupp, mineira de origem humilde, criada por família
estranha, trabalhando no Rio de Janeiro como operária industrial. Manoel
Raimundo gostava de chamar a esposa de Betinha e Beta. </P>
<P></P>
<P>Falta-nos ainda informação mais precisa sobre a precoce e destacada
participação do jovem sargento paraense nos conflitos vividos pela
sociedade e, junto com ela, pelas Forças Armadas, nesses anos em que o
país foi fortemente tensionado por iniciativas golpistas conservadoras,
com destaque para a tentativa de deposição de Goulart, em 1961. Ensaio
golpista derrotado que transformou o jovem governador sulino Leonel
Brizola no principal líder popular-nacionalista e grande referência para o
movimento dos suboficiais do Exército, Marinha e Aeronáutica. </P>
<P></P>
<P>Desde o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), Manoel Raimundo
começara a despontar como militante de vanguarda da luta pela organização
sindical e política dos suboficiais do Exército. Araken Vaz Galvão, seu
companheiro de farda e de luta, assinala que, por volta de 1958, ele vivia
em Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e servia, como escrevente, no Batalhão
Escola de Saúde, em Magalhães Bastos. </P>
<P></P>
<P>Nesse então, Manoel Raimundo exercia o que Araken definiu como
"liderança suave, relacionada com os problemas" dos sargentos discutidos
no Clube da classe, transformando-se, logo, em um dos "principais
fundadores" do "Movimento dos Sargentos", assim batizado por ele. Além de
outras reivindicações sindicais e democráticas, os suboficiais do Exército
mobilizavam-se pelo direito de progressão ao oficialato; pelo direito de
casamento civil, sem autorização do Exército; pela estabilidade após cinco
anos de serviço; pela elegibilidade ao parlamento dos suboficiais. </P>
<P></P>
<P>Por sua cultura, inteligência e decisão, Manoel Raimundo era referência
para seus companheiros de farda. O ex-subtenente pára-quedista do Exército
Jelsi Rodrigues descreve-o como homem de estatura baixa e corpo franzino,
"cabeçudo", de "bigodinho", de pele levemente morena, habitual do
paraense, muito culto e sobremaneira corajoso. O ex-sargento Araken
Galvão, seu particular amigo, lembra que era um "grande orador" e
"neurótico por cultura", tendo procurado intelectuais como o sociólogo
Vinícius Caldeira Brant, o filósofo Álvaro Vieira Pinto, entre outros,
para ampliar os horizontes do movimento dos sargentos. Antes mesmo do
golpe, Manoel Raimundo interessava-se pela literatura marxista, lendo e
divulgando Marx, Engels, Lênin. </P>
<P></P>
<P><B>Na ante-sala do golpe </B></P>
<P></P>
<P>No mínimo desde 1963, Manoel Raimundo preocupava-se com a necessidade
de organizar resistência ao golpe militar, que se aproximava, tendo
procurado preparar as condições para resistência, na Serra do Mar, nas
proximidades do Rio de Janeiro, possivelmente inspirado na experiência
cubana. O que lhe ensejou inquérito no Exército, por desvio de armas e
cooptação de sargentos. </P>
<P></P>
<P>Devido à manifestação de sargentos do Exército, em 11 de maio de 1963,
no Sindicato dos Comerciários, no centro do Rio de Janeiro, Manoel
Raimundo sofreu pena disciplinar e foi transferido, do Rio de Janeiro para
Campo Grande, no Mato Grosso, o mesmo ocorrendo com seus companheiros,
promotores da reunião, do Comando Geral dos Sargentos, enviados para o
mesmo estado e para outras destinações. </P>
<P></P>
<P>Do manifesto de posições muito duras lido quando da manifestação, faria
parte frase de autoria de Manoel Raimundo que dizia: "O martelar das
oficinas, o ribombar dos tambores confundir-se-ão com o choro das crianças
famintas. O instrumento de trabalho dos sargentos é o fuzil". A repressão
afastou da capital da República grande parte do núcleo central do Comando
Geral dos Sargentos. </P>
<P></P>
<P><B>O golpe de Estado de 1964 </B></P>
<P></P>
<P>Em 1964, as burguesias industrial e financeira nacionais romperam com o
projeto nacional-desenvolvimentista autônomo, para impor padrão de
acumulação de capitais através de maior integração ao capital mundial;
super-exploração do trabalho; orientação do consumo aos segmentos ricos
nacionais e ao comércio mundial etc. O golpe iniciou em Minas Gerais, em
31 de março, chefiado por militar ex-integralista, com o apoio dos EUA,
que preparou intervenção no Brasil, caso houvesse resistência – Operação
Brother Sam. </P>
<P></P>
<P>Em Porto Alegre, Leonel Brizola tentou reviver a Legalidade, apoiado
pelo comandante do 3º Exército, pela Brigada, pelos suboficiais do
Exército e da Aeronáutica, por populares. Em 2 de abril, já na capital
sulina, João Goulart negou-se a chefiar a resistência, permitindo que o
golpismo se instalasse praticamente sem oposição. João Goulart viajou para
uma sua estância em São Borja e, dali, para o Uruguai. O PCB, única
organização de esquerda com força sindical e popular, subordinara a
oposição ao golpismo à direção de Goulart e ao esquema militar organizado
em torno de altos membros das forças golpistas. </P>
<P></P>
<P>Políticos e historiadores defenderam e defendem a negativa de João
Goulart de opor-se ao golpe como ato que impediu "derramamento de sangue"
no Brasil, tese proposta pelo próprio ex-presidente. A imposição da
ditadura sem resistência ensejou a maior derrota histórica que o mundo do
trabalho e da democracia jamais viveu no Brasil, com gravíssimas
conseqüências para o país, para a América Latina e para o mundo, que se
mantêm até hoje. </P>
<P></P>
<P><B>Golpismo em marcha </B></P>
<P></P>
<P>Após o golpe e o "Ato Institucional" n.º1, de 9 de abril, ao qual
seguiriam outros, a alta oficialidade militar interveio nas associações
sindicais e profissionais, no legislativo, no executivo e no judiciário;
expurgaram, prenderam, torturaram opositores, que abandonaram comumente o
país, quando puderam, sobretudo pelo Uruguai, onde se encontravam João
Goulart e Leonel Brizola, com as relações políticas e pessoais cortadas.
</P>
<P></P>
<P>O golpe militar, apoiado pelas classes proprietárias do Brasil,
objetivava relançar o padrão de acumulação de capital, a partir de bases
distintas das nacional-desenvolvimentistas, que exigiam, como visto,
reformas estruturais não aceitas mesmo pelo capital industrial nacional. A
ditadura militar expressava também a necessidade dos capitais externos,
sobretudo estadunidenses, de intervenção mais direta no país, onde haviam
conquistado maiores posições. </P>
<P></P>
<P>Sob a direção do general Castelo Branco, expressão do capital
financeiro e imperialista, o governo implementou política liberal e
recessiva, que estendeu a seguir o descontentamento até mesmo a setores
que haviam apoiado o golpe, com destaque para as classes médias, ensejando
a primeira tentativa de reunificação de oposição anti-ditatorial política
superestrutural, a fracassada Frente Ampla, de 1966, promovida sobretudo
por Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart. </P>
<P></P>
<P><B>Mário Maestri, historiador, é doutor em História pela UCL, Bélgica,
e professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de
Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul. E-mail:
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<P></P>
<P><B>Helen Ortiz, historiadora, é mestre em História pela Universidade de
Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul. </B></P>
<P></P>
<P><B>Publicado em: <EM>O direito na história</EM>: o caso das mãos
amarradas. Porto Alegre: Tribunal Regional Federal da 4ª. Região, 2008.
pp. 177-200. </B></P>
<P></P></TD></TR></TBODY></TABLE></DIV></BODY></HTML>