<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><SPAN style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Arial"><STRONG><FONT face=Forte 
color=#ff0000 size=6>Carta O Berro<FONT 
size=3>....................................................................repassem</FONT></FONT></STRONG></SPAN></DIV>
<DIV>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN 
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Arial"></SPAN>&nbsp;</P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN 
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Arial">----- Original Message ----- 
<o:p></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="BACKGROUND: #e4e4e4; MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><B><SPAN 
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Arial">From:</SPAN></B><SPAN 
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Arial"> <A title=carceroni48@yahoo.com.br 
href="mailto:carceroni48@yahoo.com.br">carceroni48</A> <o:p></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN 
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Arial">&nbsp;</SPAN><SPAN 
style="FONT-SIZE: 10pt; FONT-FAMILY: Arial"><FONT size=6><FONT 
color=#000080><STRONG>veja.<FONT 
size=4>COM</FONT></STRONG></FONT></FONT></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">&nbsp;<o:p></o:p></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN class=arquivochapeu>18 de 
novembro de 1992</SPAN><o:p></o:p></P>
<P class=arquivosubtitulo style="MARGIN: auto 0cm"><SPAN 
style="FONT-SIZE: 13.5pt"><FONT size=4><STRONG>O depoimento terrível de um 
ex-sargento que transitava no mundo clandestino da repressão militar resgata 
parte da história de uma guerra suja</STRONG></FONT></SPAN><o:p></o:p></P>
<P>Marival Dias Chaves do Canto tem 45 anos, é moreno, musculoso e está bem 
conservado para a idade. Nascido na Bahia, morou muitos anos em São 
<st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName> e hoje é dono de um modesto 
negócio em Vitória, no Espírito Santo. Visto à distância, é um cidadão como 
qualquer outro. De perto, tem algumas peculiaridades. Chaves, como é conhecido, 
é um homem tenso, habituado a represar suas emoções. Usa um linguajar que 
mistura termos policiais e políticos. No seu vocabulário, aparecem com 
freqüência palavras como "subversivos", para designar os militantes de 
organizações de esquerda, ou "elemento", quando se refere a uma pessoa qualquer. 
Na semana passada, Chaves encerrou uma longa série de depoimentos a VEJA e, nas 
páginas do seu relato, constata-se que Chaves está mesmo longe de ser um cidadão 
tranqüilo. Ele é o primeiro ex-agente dos órgãos de informação do Exército a 
contar tudo o que sabe, com os terríveis e esclarecedores detalhes sobre a 
barbárie dos porões dos anos de chumbo da ditadura militar.<o:p></o:p></P>
<P>Há mais de uma década, o ex-sargento Chaves vem amadurecendo sua decisão de 
falar. Quando ainda transitava pelo ventre da besta, entrando e saindo das 
masmorras de tortura e gastando horas lendo depoimentos de presos políticos. 
Chaves preocupava-se em memorizar e anotar detalhes. No mês passado, entendeu 
que a decretação do impeachment do presidente Fernando Collor mudara o país e, 
em especial, as Forças Armadas, que se mantiveram na legalidade de meras 
espectadoras da crise. Resolveu contar tudo. Há duas semanas, chamou a mulher e 
as duas filhas, de 16 e 18 anos, para dizer pela primeira vez que atuava na 
repressão militar. No início, elas reagiram assustadas. Mais adiante, 
emocionadas, acabaram estimulando sua decisão de falar. Uma de suas filhas havia 
saído às ruas para pedir o afastamento de Collor, engrossando o movimento dos 
caras-pintadas e relembrando os anos rebeldes, e só depois soube que o pai 
participara ativamente daquele período. "Elas acharam que era importante contar 
tudo para passar essa parte da História a limpo", afirma Chaves. Tinham 
razão.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VISITA À PONTE</STRONG> - O dramático relato do ex-sargento sobre a 
vida e morte nos porões não tem a abrangência cronológica dos vinte anos de 
ditadura, muito menos o peso do relato de alguém que coordenou as ações e, 
portanto, contava uma visão global do assunto. A partir da derrubada do 
presidente João Goulart em 1964, começou a ser deflagrada uma guerra suja e 
surda no Brasil. Foi menos violenta do que na Argentina, onde houve quase 10.000 
desaparecidos. Mas o ciclo da ditadura no Brasil colocou em ação 13.000 
militantes de esquerda, distribuídos em 29 organizações que pegaram em armas e 
outras 22 que optaram pela chamada resistência pacífica. Do outro lado da 
trincheira, havia pelo menos 400 militares envolvidos diretamente 
<st1:PersonName w:st="on" ProductID="em operações clandestinas. Nesse">em 
operações clandestinas. Nesse</st1:PersonName> embate, terroristas assaltaram 
bancos, seqüestraram e assassinaram. Do outro lado, prenderam pessoas 
ilegalmente, torturaram e mataram. No total, mais de 4.600 pessoas tiveram seus 
direitos políticos cassados, cerca de 10.000 foram exiladas e, na lista dos 
desaparecidos, existem 144 nomes.<o:p></o:p></P>
<P>O depoimento de Chaves é um relato parcial. Sua importância reside em mostrar 
por dentro, e pela primeira vez, a rotina da repressão política. Cuidadoso, o 
ex-sargento falou apenas do que tem certeza e calou sobre as dúvidas. Na tarde 
de sexta-feira da semana passada, chegou a tomar um avião para São 
<st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName> e ir à Rodovia SP-255, que dá 
acesso à cidade de Avaré, no interior do Estado. Ali, há duas pontes. Chaves 
queria vê-las para saber de qual delas eram jogados os corpos de presos 
assassinados. Estava satisfeito com seu desabafo. "Foi a cúpula militar que se 
beneficiou com cargos e funções na época da repressão", afirma. "A grande 
maioria silenciosa queria o Exército profissional, como ele é 
hoje."<o:p></o:p></P>
<P>Nos porões, Chaves garante que nunca torturou nem teve envolvimento direto 
com assassinatos ou ocultação de cadáveres. "Se tivesse feito isso, não estaria 
dando esse depoimento", diz. Sua missão era avaliar os depoimentos dos presos e 
cruzá-los com as informações repassadas ao Exército pelos militantes de esquerda 
que haviam se convertido em informantes. Em 1965, entrou para o Exército, 
servindo no Arsenal de Guerra <st1:PersonName w:st="on" 
ProductID="em São Paulo. Três">em São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName>. Três</st1:PersonName> anos mais tarde, já 
sargento, teve o primeiro contato com atividades de informação. "Ficamos sabendo 
que a vanguarda Pós-Revolucionária, do capitão Carlos Lamarca, estava pintando 
um canhão com as cores das Forças Armadas para usar numa ação terrorista", 
relembra Chaves. Depois de fazer cursos de operação na selva, Chaves foi para o 
Destacamento de Operações de Informações, o DOI, chefiado pelo coronel Carlos 
Alberto Brilhante Ustra. Começava seu convívio com o porão.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>PEDIDO DE DEMISSÃO -</STRONG> O ex-sargento Chaves trabalhou no DOI 
paulista até 1976. Dali, mudou-se para Imperatriz, no Maranhão, onde servia num 
Batalhão de Infantaria da Selva. De Imperatriz, passou por Manaus, até ser 
destacado para servir em Brasília, no Comando Militar do Planalto, em 1980. No 
ano seguinte, Chaves, passou para o Centro de Informações do Exército, que 
comandava as operações do porão. Nessa época, chegou a ser destacado para fazer 
a segurança do então ditador da Argentina, Leopoldo Galtieri, durante uma visita 
ao Brasil. Em 1985, tomou uma decisão rara na caserna. Pelos trâmites 
burocráticos normais, encaminhou uma correspondência pedindo sua demissão do 
Exército. "Foi duro. Perdi noites de sono, caminhando pela casa, até resolver 
que não era mais possível suportar aquela pressão", conta. Com sua demissão, 
Chaves renunciou a mais de vinte anos de sua carreira militar e perdeu todos os 
benefícios que recebem os militares quando passam para a reserva. Se tivesse 
permanecido, seria capitão. Hoje, Chaves é um ex-sargento, com a vantagem de que 
não pode ser punido pelas suas revelações.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>A lei da barbárie</STRONG><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>Num relato sobre a selvageria do</STRONG><B><BR><STRONG>porão, o 
ex-sargento conta como</STRONG><BR><STRONG>eram mutilados, esquartejados 
e</STRONG><BR><STRONG>ocultados os corpos de presos 
políticos</STRONG></B><o:p></o:p></P>
<P>Há um ano, o editor Expedito Filho conversou pela primeira vez com o 
ex-sargento Marival Dias Chaves do Canto, que trabalhou dezessete anos como 
agente do Destacamento de Operações Internas, o DOI-Codi, em São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName>, e do Centro de Informações do Exército, em 
Brasília. Há três semanas, Chaves, especializado em análise de informações, 
decidiu enfim revelar tudo o que sabe sobre prisão, tortura, assassinato e 
desaparecimento de cadáveres de presos políticos. Foram mais de vinte horas de 
entrevista, cujos principais trechos são publicados a seguir:<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA </STRONG>- <EM>Como eram mortos os presos 
políticos</EM>?<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Sei que em São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName> alguns morriam na tortura. Os que resistiam 
eram liquidados pelos agentes da repressão política com uma injeção usada para 
matar cavalos de até 500 quilos. A injeção era aplicada na veia do preso 
político, que morria na hora. Quem já assistiu a uma cena dessas sabe que é uma 
das coisas mais grotescas e repugnantes que se pode fazer a um ser humano. Eles 
matavam e esquartejavam. Agentes que estiveram numa casa mantida pelo Centro de 
Informações do Exército em Petrópolis, no Rio de Janeiro, me contaram que os 
cadáveres eram esquartejados, às vezes até em catorze pedaços, como se faz com 
boi num matadouro. Era um negócio terrível. Eles faziam isso para dificultar a 
descoberta e a identificação do morto. Cada membro decepado era colocado num 
saco e enterrado <st1:PersonName w:st="on" ProductID="em local diferente. A">em 
local diferente. A</st1:PersonName> casa de Petrópolis foi onde o Centro de 
Informações do Exército mais matou presos e ocultou cadáveres. Os militantes 
detidos em diversas regiões do país eram enviados dos Estados diretamente para 
Petrópolis.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Quantas casas de tortura e morte eram mantidas 
pelo Centro de Informações do Exército?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Do final da década de 60 até o início dos anos 70, 
havia uma casa no bairro de São Conrado, no Rio. Depois, por razões de 
segurança, mudou-se o centro de tortura e morte para Petrópolis. Eram levados 
para lá os presos condenados à morte, mas alguns conseguiram sobreviver. Em 
1972, o II Exército, em São <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName>, 
montou os seus centros clandestinos de tortura e assassinatos. Durante um curto 
período, o Destacamento de Operações de Informações, o DOI, utilizou um sítio na 
região sul de São <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName>. Ali foram 
assassinados Antônio Bicalho Lana e a sua companheira Sônia Moraes, ambos da 
Ação Libertadora Nacional, a ALN.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Mas a versão oficial é de que Lana e Sônia teriam 
morrido durante um tiroteio...</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> É mentira. Eles foram torturados e assassinados com 
tiros no tórax, cabeça e ouvido. Os cadáveres foram colocados no porta-malas de 
um carro e levados até o bairro de Santo Amaro, na Zona Sul de São 
<st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName>. Ali, encenou-se a farsa do 
tiroteio para simular a morte deles.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Depois de abandonar esse sítio, o Destacamento de 
Operações de Informações abriu outro em São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName>?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Sim. Era uma época de matança febril. No final de 
1973, o DOI usou uma casa no bairro do Ipiranga, na Zona Sul de São 
<st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName>. Nesse período montou outro 
centro clandestino na estrada de Itapevi. Entre 1965 e 1966, funcionou ali uma 
boate chamada Querosene, que pertencia ao irmão do então subtenente Carlos, 
fundador da Operação Bandeirantes, a Oban. Só em 1975, por questões de 
segurança, o cárcere de Itapevi foi substituído por uma fazenda, na beira da 
Rodovia Cas<st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName>lo Branco, a 
<st1:metricconverter w:st="on" ProductID="30 quilômetros">30 
quilômetros</st1:metricconverter> de São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName>. A fazenda era de um amigo do major do exército 
André Leite Pereira Filho.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Como eram equipados os centros de 
matança?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Eles tinham as coisas de uma casa normal, além dos 
aparatos de repressão. Nas casas do Ipiranga e da estrada de Itapevi, havia até 
grilhões para acorrentar os pés e as mãos dos presos às camas e a blocos de 
cimento.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>A ocultação dos cadáveres era uma operação 
improvisada ou havia algum plano?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Matar subversivos era uma atividade altamente 
profissional. Nas casas de São <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName>, 
havia uma equipe especializada na ocultação dos cadáveres. Os agentes sabiam 
exatamente o que fazer. Primeiro, amputavam as falangetas dos dedos, para evitar 
que os mortos fossem reconhecidos através das impressões digitais. Depois, 
amarravam as pernas para trás, de que forma que o corpo ficasse reduzido à 
metade, e esfaqueavam a barriga. O esfaqueamento era para evitar que o corpo, se 
jogado num rio, viesse à tona algum tempo depois. Eles também colocavam o corpo 
dentro de um saco e amarravam-no num concreto, de <st1:metricconverter w:st="on" 
ProductID="40 a">40 a</st1:metricconverter> 50 quilos, para garantir que o corpo 
ficaria no fundo do rio.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Há dezenas de famílias que até hoje não sabem 
onde encontrar os corpos dos seus parentes. O senhor tem idéia de onde eram 
enterrados?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Tenho. Boa parte dos mortos não está sob a terra 
mas sob a água. Se alguém fizer uma busca no rio debaixo de uma ponte que fica 
na estrada que liga a cidade de Avaré, no interior de São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName>, à Rodovia Cas<st1:PersonName 
w:st="on">tel</st1:PersonName>lo Branco, poderá achar muitos corpos. Existe ali 
um cemitério debaixo d'água.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O senhor sabe identificar alguns esaparecidos que 
estejam no rio de Avaré?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Conheço a identidade de oito deles, todos do Comitê 
Central do Partido Comunista Brasileiro - o antigo PCB. Boa parte deles caiu nas 
mãos da repressão durante a Operação Radar.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O que foi essa Operação 
Radar?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Foi uma grande ofensiva do Exército, iniciada em 
1973, para dizimar o PCB. A Operação Radar culminou com a apreensão da gráfica 
do jornal Voz Operária, do PCB.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Foi nessa operação que parte do Comitê Central do 
PCB foi capturada?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Sim, e depois jogada no rio de Avaré. É o caso de 
Hiram de Lima Pereira, interrogado em Itapevi, e de Luís Inácio Maranhão Filho, 
preso em São <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName> em 1974. Levado 
para Itapevi, Maranhão Filho morreu com a injeção para matar cavalo. João 
Massena Melo é outro. Também está no rio e morreu com a injeção para cavalo. 
Orlando Bonfim Júnior, da cúpula do PCB, está no rio de Avaré. Bonfim foi preso 
no Rio pelo Destacamento de Operações de Informações de São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName> e levado para o cárcere na Rodovia 
Cas<st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName>lo Branco. Outro que está no 
rio é Elson Costa, assassinado em 1975. Ele era o encarregado da seção de 
agitação e propaganda do partido. Na casa de Itapevi, foi interrogado durante 
vinte dias e submetido a todo tipo de tortura e barbaridade. Seu corpo foi 
queimado. Banharam-no com álcool e tocaram fogo. Depois, Elson ainda recebeu a 
injeção para matar cavalo. O corpo de Itair José Veloso também foi jogado da 
ponte. Ele foi preso no Rio, pelo DOI de São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName>. Era o inverno de 1975 e <st1:PersonName 
w:st="on" ProductID="o que o">o que o</st1:PersonName> levou à morte foi banho 
de água gelada. Morreu de choque térmico.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Por que o DOI de São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName> fazia prisões no Rio?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Durante a Operação Radar, o DOI de São 
<st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName> passou a fazer uma série de 
operações no Rio de forma absolutamente clandestina e ilegal. O Rio não era área 
de jurisdição do DOI de São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName>.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Como era a rivalidade entre os órgãos de 
informação do Exército, da Marinha e da Aeronáutica?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Existia uma rivalidade grande entre o Centro de 
Informações do Exército e o Centro de Informações da Marinha, o Cenimar. O 
Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica, o Cisa, chegou a juntar-se ao 
Exército numa campanha contra os arapongas da Marinha. Era uma 
confusão.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Voltando ao rio de Avaré. O senhor falou em oito 
nomes, mas contou só seis.</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Um é Jayme Amorim de Miranda, também preso na 
Operação Radar, numa das incursões do DOI de São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName> ao Rio. Foi transferido para Itapevi. Seu irmão 
Nilson Miranda, que era secretário-geral do PCB de Porto Alegre, estava preso no 
Ipiranga. Um não sabia onde estava o outro. O Nilson sobreviveu. O último corpo 
que sei ter sido jogado da ponte é o de José Montenegro de Lima. Mas esse é um 
caso especial.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Especial por quê?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Porque mostra que dentro dos órgãos de repressão 
também havia uma quadrilha de ladrões. Logo depois da invasão da gráfica do Voz 
Operária, Montenegro recebeu do partido 60.000 dólares para recuperar uma 
estrutura de impressão do jornal. Uma equipe do DOI prendeu Montenegro, matou-o 
com a injeção, e depois foi na sua casa pegar os 60.000 dólares. O dinheiro foi 
rateado na cúpula do DOI.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Até agora o senhor falou de gente presa no Rio e 
levada para São <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName>. E no sentido 
inverso?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Também havia. É o caso de Issami Okano, da ALN, e 
de Walter de Souza Ribeiro, do PCB. Também morreram <st1:PersonName w:st="on" 
ProductID="em Petrópolis David Capistrano">em Petrópolis David 
Capistrano</st1:PersonName> (pai do candidato à prefeitura de Santos pelo PT, 
David Capistrano Filho) e José Romam, ambos do PCB. O major Brand chefiava a 
equipe que os prendeu. Capistrano foi levado para o Rio. Ambos foram mortos em 
Petrópolis, onde a prática de ocultação dos corpos era através do 
esquartejamento. Foi o caso também de <st1:PersonName 
w:st="on">Ana</st1:PersonName> Rosa Kucinski e seu marido, Wilson Silva. Foram 
delatados por um cachorro, presos em São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName> e levados para a casa de Petrópolis. Acredito 
que seus corpos também foram despedaçados.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O que eram os "cachorros"?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Era assim que chamávamos os infiltrados. Os 
militantes de grupos. de esquerda que colaboravam com a repressão, contando os 
planos das suas organizações e delatando seus companheiros.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O senhor coordenava os 
cachorros?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Não. Meu trabalho consistia em fazer a&nbsp; 
análise de informações. Eu lia os depoimentos de presos políticos tomados sob 
tortura e examinava as informações enviadas pelos nossos infiltrados no PCB, na 
ALN, no PC do B e na VAR-Palmares. Também fazia coleta de dados, investigações, 
vigilância e escuta <st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName>efônica. Quem 
coordenava os cachorros era um oficial. Tivemos o doutor Patrício e o doutor 
Jairo, que conheço só pelos codinomes.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O senhor conheceu algum 
infiltrado?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES </STRONG>- Conheci vários. Severino Teodoro de Mello, do PCB, 
João Henrique Ferreira de Carvalho, o "Jota", da ALN. Sabia também de três 
infiltrados do PC do B. Eram o Luciano Rosa de Siqueira, o advogado Hamilton de 
França e o médico Fiúza de Mello. Todos trabalhavam para o 
Exército.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Como se convencia esses militantes a fazerem 
espionagem para o Exército?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Não havia um modelo. Teodoro de Mello, por exemplo, 
foi preso em 1974 e levado para Itapevi. De lá, foi transferido para outro 
cárcere, na cidade de São <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName>. 
Depois de interrogado, ele assinou um contrato de trabalho e recebeu uma 
importância em dinheiro. Não me lembro quanto.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Como foi a cooptação de Luciano de Siqueira, do 
PC do B?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Luciano virou cachorro numa operação do Centro de 
Informações do Exército em Pernambuco, que visava desman<st1:PersonName 
w:st="on">tel</st1:PersonName>ar a Ação Popular, a AP, e o próprio PC do B. 
Nessa operação, ele foi preso, torturado e virou infiltrado. Em 1977, quando o 
general <st1:PersonName w:st="on">Sylvio</st1:PersonName> Frota foi demitido do 
Ministério do Exército, o Centro de Informações do Exército abandonou todos os 
cachorros e só restabeleceu contato com eles em 1982. Participei desse 
recontato, que foi chefiado pelo <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName> Malhães. Não estive pessoalmente com Luciano, 
mas sei que ele morava no bairro Janga, próximo a Olinda, 
Pernambuco.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Que tipo de informação os cachorros 
passavam?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> O Luciano Siqueira fez várias tarefas. Foi ele quem 
permitiu a prisão de muita gente da AP e do PC do B no Nordeste. Em 1982, quando 
o PC do B estava lançando candidatos a deputados pelo PMDB, ele fez relatos 
detalhados sobre essas reuniões. Quando estava em São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName>, participando de reuniões do partido, ele em 
coordenado pelo coronel Ênio da Silveira. Já o Teodoro de Mello, do PCB, foi 
quem elucidou uma série de dúvidas durante a Operação Radar. Ele ajudou a 
identificar muita gente que só conhecíamos pelo nome de guerra. Com isso, 
descobrimos que era gente graúda, da direção do partido. Mello foi um divisor de 
águas. A partir de suas informações, foi possível prender, torturar e assassinar 
vários comunistas.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O CIE dava algum tipo de proteção aos 
cachorros?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Claro. Às vezes até os companheiros dos cachorros 
se beneficiavam disso. Dou um exemplo. O Alanir Cardoso, ex-preso político, até 
hoje diz que Luciano Siqueira não era infiltrado porque não contou que tinha um 
encontro com Alanir marcado para o dia seguinte à sua prisão. Só que se 
prendêssemos Alanir ficaria evidente que Luciano era um 
infiltrado.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Mas não havia segurança direta para os 
cachorros?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Havia. Em 1975, Teodoro de Mello viajou acompanhado 
por uma equipe de agentes do Destacamento de Operações de Informações, chefiada 
pelo coronel Ênio da Silveira, até Rivera, no Uruguai. Fiz contato pessoal com 
Mello durante o trajeto. Sozinho, ele poderia ter problemas com autoridades no 
sul, já que era procurado por toda parte.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA </STRONG>- <EM>Não seria mais prático deixar Mello no 
Brasil?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Ele tinha de sair do país porque nessa fase o PCB 
estava sofrendo muitas baixas em função da repressão. Era perigoso que ele 
continuasse no Brasil. Ele era infiltrado do Destacamento de Operações de 
Informações e poderia ser preso por um outro órgão, como o Cenimar da Marinha, 
ou o Dops. Na Argentina, ele se encontraria com o dirigente comunista Armando 
Ziller e depois iria para a União Soviética. Em Moscou, trabalhou como 
secretário de Luís Carlos Prestes, secretário-geral do partido, e chegou a 
mandar de lá cartas para o coronel Ênio da Silveira, relatando os planos dos 
dirigentes comunistas brasileiros.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA - </STRONG><EM>Havia algum cachorro que trabalhasse tão bem a 
ponto de servir como modelo?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Sim, <st1:PersonName w:st="on" ProductID="o João">o 
João</st1:PersonName> Henrique de Carvalho, o "Jota". Ele deu o tiro de 
misericórdia na ALN e em outras organizações que tinham ligações com a ALN. Por 
seu trabalho, Jota era citado pela antiga Escola Nacional de Informações como 
modelo de infiltrado.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Jota contribuía diretamente para a morte de 
alguns de seus companheiros?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Sem dúvida. A delação dele permitiu a eliminação de 
pelo menos umas vinte pessoas. Ele é responsável pela morte de Antônio Bicalho 
Lana e sua mulher, Sônia Moraes. Também delatou Issami Okano, de ALN. A partir 
de 1973, Jota delatou todos os comandos da ALN. Foi por causa do seu trabalho 
que Wilson Silva e sua mulher, <st1:PersonName w:st="on">Ana</st1:PersonName> 
Rosa Kucinscki, foram presos, torturados e mortos.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O senhor tem alguma informação sobre a morte do 
jornalista Wladimir Herzog, em 1975?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Quem pode esclarecer tudo sobre a morte de Herzog é 
o major André Leite Pereira Filho. Ele era o chefe das equipes de 
interrogatório, inclusive da que matou Herzog.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O senhor sabe o paradeiro do ex-deputado Rubens 
Paiva?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Ele foi levado por um destacamento do I Exército 
para a casa de Petrópolis, onde o mataram. Usaram o método de cortar o corpo aos 
pedaços e enterrar em locais diferentes.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Mas Amilcar Lobo, o médico do Exército que 
costumava tratar dos torturados, garante que atendeu Rubens Paiva no 
quar<st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName> da Polícia do Exército do Rio 
de Janeiro...</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> A ex-guerrilheira Inês Etienne já desmentiu Amilcar 
Lobo. Ele pode ter visto Rubens Paiva vivo na Polícia do Exército, mas ele 
morreu em Petrópolis. Todo mundo sabe que Amilcar Lobo atendia os torturados na 
casa de Petrópolis. Além disso, duas pessoas participaram do episódio Rubens 
Paiva: os irmãos Jacy e Jurandyr Ochsendorf e Souza.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>É verdade que alguns desaparecidos foram 
enterrados numa fazenda em Rio Verde, no interior de Goiás?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Márcio Beck Machado e Maria Augusta Thomaz, ambos 
do Movimento da Libertação Popular, o Molipo, foram mortos e enterrados numa 
fazenda de Rio Verde. Grupos de direitos humanos estavam próximos de chegar ao 
local onde eles estavam enterrados. Mas o Centro de Informações do Exército 
soube da atividade dos grupos de direitos humanos e, através do major Leite 
Pereira, montou uma equipe para desenterrar os cadáveres e sumir com os corpos. 
Só o major pode dizer onde os dois estão hoje.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Há muita mentira sobre o destino de presos 
políticos?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Acho que nunca se mentiu tanto nem se cometeu tanta 
atrocidade. Há inúmeros exemplos. A repressão fez noticiar que João Batista 
Franco Drummond, do PC do B, morrera num atropelamento. Mentira. Ele morreu no 
Departamento de Operações de Informações do II Exército. Foi torturado, escapou 
da segurança, subiu numa torre de transmissão e de lá voou para a morte. Eduardo 
Leite, da Ação Libertadora Nacional, foi preso em 1970 pela equipe do delegado 
Sérgio Paranhos Fleury e ficou na casa da morte de São Conrado. Depois, foi 
transferido para São <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName> e 
assassinado. Para despistar, fizeram um teatrinho.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O que eram esses teatrinhos?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES </STRONG>- O preso morto era levado para um local público, 
onde equipes do DOI simulavam um tiroteio com mortes. Na hora de levar o "corpo" 
para o IML, faziam-se substituições. O agente que se fingiu de morto era 
substituído pelo corpo do preso. No IML o legista Harry Shibata e outros 
legalizavam a morte em combate.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Não havia entre os agentes algum comentário de 
repúdio a essa matança, alguma indignação?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Pelo contrário. Os comentários eram ufanistas. No 
caso da prisão de Antônio Bicalho Lana houve vibração. Na repressão existiam 
dois tipos de pessoa. O primeiro, com vocação para matar, inspirado pelo ódio. O 
outro, não tinha vocação para o crime, mas estava impregnado pela doutrina da 
segurança nacional. Esses matavam por achar que estavam salvando o país do 
comunismo.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Como o senhor se sentia diante 
disso?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Muito mal. Cheguei a passar muitas noites sem 
dormir. Mas procurava levar uma vida normal. Anotava alguns relatos em folhas de 
papel e ficava pensando no dia em que contaria tudo. Eu era um homem acuado. Não 
tinha amigos e não podia desabafar sequer com minha mulher. Ao acordar, 
enfrentava a mesma rotina. Era um horror.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Como se comportavam os que comandavam a 
repressão? Eram pessoas violentas no dia-a-dia?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> O coronel Ênio da Silveira era extremamente 
violento. Para ele, a doutrina de segurança nacional estava acima de qualquer 
coisa. Ele tinha curso de todos os níveis na área de informação. Com os 
comandados, era até gentil. Mas quando queria, era duro e enérgico. Suicidou-se 
em 1986. O coronel <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName> Malhães, que 
chefiava contatos com os infiltrados, rezava pela mesma cartilha. Ele esteve no 
Chile, onde interrogou e torturou brasileiros e chilenos. Já o coronel Fred 
Perdigão, que pertencia ao Centro de Informações do Exército desde a sua época 
de capitão, tinha influência suficiente no porão para viver levando presos de 
São <st1:PersonName w:st="on">Paulo</st1:PersonName> para Petrópolis. Ele 
participou do desaparecimento de <st1:PersonName w:st="on">Ana</st1:PersonName> 
Kucinski e Wilson Silva.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA </STRONG><EM><B>-</B> Havia um pacto de silêncio entre matadores 
e torturadores?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Depois de cada caso, na hora do almoço, e durante 
viagens em quartos de ho<st1:PersonName w:st="on">tel</st1:PersonName>, os 
agentes comentavam o que tinha ocorrido. As conversas eram simuladas e ninguém 
dizia claramente: eu matei.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Nenhum agente ameaçou sair do Exército e contar 
tudo?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> O sujeito que durante a repressão tentasse se 
afastar corria o risco de ser justiçado. Um agente, que conheço só pelo codinome 
de "Júnior", foi afastado da seção de investigações por tentar extorquir 
dinheiro do jornalista Bernardo Kucinski, irmão de <st1:PersonName 
w:st="on">Ana</st1:PersonName>, em troca de informações sobre o paradeiro dela. 
A seção de investigação pensou em justiçá-lo porque ele disse que iria procurar 
a Comissão de Justiça e Paz de São <st1:PersonName 
w:st="on">Paulo</st1:PersonName> para denunciar fatos sobre a 
subversão.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Por que o senhor resolveu 
falar?</EM><BR><BR><STRONG>CHAVES -</STRONG> As atividades de combate à 
subversão aos poucos foram me dando nojo, enjôo, náuseas, vômitos, tudo que você 
pode imaginar. Eu via as coisas acontecerem, discordava e não podia me 
manifestar. O regulamento disciplinar do Exército era muito rígido. Existia 
ainda a norma geral de ação, que impedia o integrante do órgão de informação de 
se manifestar ou discutir uma ordem. Se deixasse de cumprir, ocorriam punições 
e, em seguida, a pecha de contrário à Revolução de 64. Não fui formado para esse 
tipo de atividade. Fui cooptado e quando acordei estava envolvido. O próprio 
sistema procurava comprometer os envolvidos. O medo da repressão era muito 
grande. Eles criavam símbolos na própria força para mostrar que ninguém poderia 
reagir. Matar o capitão Carlos Lamarca, por exemplo, foi questão de honra. Por 
isso, da mesma forma que eu, muita gente acabou ficando, apesar de discordar. Em 
1985, senti que era hora de me afastar porque os governos militares tinham 
chegado ao fim. Era a hora de me afastar sem me comprometer.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O senhor acha que não se 
comprometeu?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Se tivesse matado alguém não faria este depoimento. 
É claro que meu trabalho, e aí faço mea-culpa, contribuiu muito para causar 
esses males. Há pessoas honestas que participaram da repressão e não concordavam 
com aquela violência insana. Mas até hoje não têm coragem de contar o que sabem, 
que a única lei do porão era a barbárie.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>O senhor se considera um 
democrata?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Nosso país só será grande vivendo uma profunda 
democracia. Eu estive dentro dos porões da repressão e sei o que uma ditadura 
sangrenta significa. E espero que esse depoimento contribua para o aprimoramento 
da democracia.<o:p></o:p></P>
<P><STRONG>VEJA -</STRONG> <EM>Se uma entidade de defesa dos direitos humanos o 
procurar para falar sobre desaparecidos, o senhor irá 
colaborar?</EM><o:p></o:p></P>
<P><STRONG>CHAVES -</STRONG> Estou disposto a ajudar em todos os sentidos. Quero 
prestar um serviço ao país.<o:p></o:p></P>
<P class=MsoNormal 
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><o:p>&nbsp;</o:p></P></DIV></BODY></HTML>