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<DIV><FONT face=Forte color=#ff0000 size=6>Carta O Berro<FONT
size=3>..........................................................................................................repassem</FONT></FONT></DIV>
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<P class=titulo><STRONG><FONT size=5>Os 45 anos do comício da Central do
Brasil</FONT></STRONG></P>
<P class=linhafina>Há exatos 45 anos, em 13 de março de 1964, o então presidente
João Goulart resumia com a frase "Progresso com justiça, desenvolvimento com
igualdade" o famoso discurso em frente ao Edifício Central do Brasil, no Rio de
Janeiro. O comício reuniu cerca de 150 mil pessoas, incluindo sindicatos,
associações de servidores públicos e estudantes e proclamou o povo a lutar por
mudanças estruturais no país que iam do campo à cidade e passavam por amplas
reformas na educação, na política tributária e nas leis eleitorais do país.
Muitas destas reivindicações até hoje não saíram efetivamente do papel. </P>
<P class=headline-link>Clarissa Pont</P>
<P class=texto>PORTO ALEGRE - O discurso de João Goulart aniversaria na mesma
semana em que a anistia de Maria Thereza Fontela Goulart, viúva do
ex-presidente, foi publicada no Diário Oficial e que o general Luiz Cesário da
Silveira Filho, ao despedir-se do cargo, exaltou em discurso o golpe militar que
depôs Goulart, em 1964. Segundo Silveira, o golpe militar foi um "memorável
acontecimento", que pode ser chamado de "revolução democrática de 31 de março de
1964, por ter evitado o golpe preparado pelo governo de então contra as
instituições democráticas do país".<BR><BR>O “golpe preparado pelo governo” ao
qual o saudosista general se refere foi, na verdade, um momento privilegiado das
lutas sociais e políticas no Brasil. Na época pré-golpe, amplos setores sociais,
no campo e na cidade, lutavam por reformas sociais e econômicas, bem como a
ampliação da democracia política. O governo de João Goulart, espécie de porta
voz destas reivindicações, perdurou sob o signo do golpe. Se, em agosto de 1961,
o ele pôde ser evitado, em abril de 1964 tornou-se dura e concreta realidade.
Foi um pouco antes, mas já com os dias contados para acabar, que o governo de
João Goulart promoveu um verdadeiro embate político e ideológico no país. Para
muitos historiadores, um dos raros momentos de democracia autêntica no Brasil.
<BR><BR>O movimento estudantil estava no seu auge, assim como o movimento
operário se destacava pela autonomia sindical através do Comando Geral dos
Trabalhadores, uma espécie de diretório central que organizava greves e
reivindicava constantemente a ampliação dos direitos trabalhistas. Nas cidades,
o caráter de massa desse sindicalismo crescia juntamente com sua independência e
autonomia. No campo, as Ligas Camponesas em Pernambuco, sob o comando do
advogado Francisco Julião, fizeram história. <BR><BR>Neste cenário, o Comício na
Central do Brasil, realizado com o apoio do CGT, foi a gota d’água para as
classes dominantes escolherem de que lado ficariam no conflito. Com a promessa
de encaminhar ao Congresso projetos de reformas inéditas no país, Goulart
radicalizava seu discurso anunciando desapropriações de terras que ladeavam
rodovias e ferrovias nacionais e a estatização de refinarias de petróleo. Uma
ampla reforma educacional prometia erradicar o analfabetismo e se baseava em
experiências pioneiras inspiradas em Paulo Freire, 15% da renda produzida no
Brasil seria direcionada à educação. No plano econômico, haveria controle da
remessa de lucros das empresas multinacionais para o exterior e o imposto de
renda seria proporcional ao lucro pessoal. Qualquer semelhança com algumas das
receitas anti-crise vistas na atualidade não é mera coincidência.<BR><BR>A
reforma eleitoral demandava extensão do direito de voto aos analfabetos e aos
militares de baixa patente. Além disso, a desapropriação de terras com mais de
600 hectares e a redistribuição destas à população pelo governo indicava uma
reforma agrária forte. O Brasil ainda não havia conhecido a fúria neoliberal das
privatizações da década de 90, mas a proteção das empresas nacionais era pauta,
traduzido na defesa da Petrobras no discurso de Goulart. Ele defendia “tornar
produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio
especulativo, odioso e intolerável”, cenário um tanto parecido com a quantidade
de áreas agricultáveis brasileiras que hoje são destruídas pelo negócio das
florestas exóticas. A preocupação com a criminalização das manifestações
populares que, àquela época levou o país a um período ditatorial indelével, já
era manifestada. <BR><BR>“O povo quer que se amplie a democracia e que se ponha
fim aos privilégios de uma minoria; que a propriedade da terra seja acessível a
todos; que a todos seja facultado participar da vida política através do voto,
podendo votar e ser votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos
pleitos eleitorais e seja assegurada a representação de todas as correntes
políticas, sem quaisquer discriminações religiosas ou ideológicas Não apenas
pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla,
pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza
da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo
progresso”, disse no dia 13 de março de 1964, em frente ao Edifício Central do
Brasil, sede da Estrada de Ferro Central do Brasil para cerca de 150 mil
pessoas.<BR><BR>A ofensiva contra o programa de governo proposto por Goulart não
tardou a se manifestar. Poucos dias após o comício, cerca de 500 mil pessoas
saíram pelas ruas de São Paulo na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.
Setores das classes médias e da burguesia, sob a bandeira do anticomunismo e da
defesa da propriedade, da fé religiosa e da moral cristã, saíam às ruas nas
maiores capitais do país contra o discurso que Carta Maior reproduz aqui (com
trechos de áudio e vídeo). O resto da história é conhecido. As manifestações
acabaram por criar um clima favorável à intervenção militar e ao
golpe.<BR><BR><B>O discurso de João Goulart</B><BR><BR></EMBED><BR><BR><I>“Devo
agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em
geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de
tão entusiasta e calorosa manifestação. Agradeço aos sindicatos que mobilizaram
os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste
instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela
televisão e pelo rádio.<BR><BR>Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos
que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos
nossos que dão ao brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em
miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para
a grandeza deste país.<BR><BR>Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que
minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.<BR><BR>Vou
falar em linguagem que pode ser rude, mas é sincera sem subterfúgios, mas é
também uma linguagem de esperança de quem quer inspirar confiança no futuro e
tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade do
presente.<BR><BR>Aqui estão os meus amigos trabalhadores, vencendo uma campanha
de terror ideológico e sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou
perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu presidente,
na presença das mais significativas organizações operárias e lideranças
populares deste país.<BR><BR>Chegou-se a proclamar, até, que esta concentração
seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda
fosse a dona da democracia, e a proprietária das praças e das ruas. Desgraçada a
democracia se tiver que ser defendida por tais democratas.<BR><BR>(...)<BR><BR>A
democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do
anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos
interesses dos grupos a que eles servem ou representam.<BR><BR>A democracia que
eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos
monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra
os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo
sacrifício.<BR><BR>Ainda ontem, eu afirmava, envolvido pelo calor do entusiasmo
de milhares de trabalhadores no Arsenal da Marinha, que o que está ameaçando o
regime democrático neste País não é o povo nas praças, não são os trabalhadores
reunidos pacificamente para dizer de suas aspirações ou de sua solidariedade às
grandes causas nacionais. Democracia é precisamente isso: o povo livre para
manifestar-se, inclusive nas praças públicas, sem que daí possa resultar o
mínimo de perigo à segurança das instituições.<BR><BR>(...)<BR><BR>Estaríamos,
sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de
norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de
estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição
do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em
revoltantes condições de miséria.<BR><BR>Ameaça à democracia não é vir
confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo
explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do
anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e
luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos
das mais expressivas figuras do episcopado
brasileiro.<BR><BR>(...)<BR><BR>Àqueles que reclamam do Presidente de República
uma palavra tranqüilizadora para a Nação, o que posso dizer-lhes é que só
conquistaremos a paz social pela justiça social.<BR><BR>Perdem seu tempo os que
temem que o governo passe a empreender uma ação subversiva na defesa de
interesses políticos ou pessoais; como perdem igualmente o seu tempo os que
esperam deste governo uma ação repressiva dirigida contra os interesses do povo.
Ação repressiva, povo carioca, é a que o governo está praticando e vai amplia-la
cada vez mais e mais implacavelmente, assim na Guanabara como em outros estados
contra aqueles que especulam com as dificuldades do povo, contra os que exploram
o povo e que sonegam gêneros alimentícios e jogam com seus preços.<BR><BR>Não
receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e
continuarei a proclamando em todos os recantos da Pátria – a necessidade da
revisão da Constituição, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios
do desenvolvimento desta Nação.<BR><BR>Essa Constituição é antiquada, porque
legaliza uma estrutura sócio-econômica já superada, injusta e desumana; o povo
quer que se amplie a democracia e que se ponha fim aos privilégios de uma
minoria; que a propriedade da terra seja acessível a todos; que a todos seja
facultado participar da vida política através do voto, podendo votar e ser
votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos pleitos eleitorais e
seja assegurada a representação de todas as correntes políticas, sem quaisquer
discriminações religiosas ou ideológicas.<BR><BR>Todos têm o direito à liberdade
de opinião e de manifestar também sem temor o seu pensamento. É um princípio
fundamental dos direitos do homem, contido na Carta das Nações Unidas, e que
temos o dever de assegurar a todos os brasileiros.<BR><BR>(...)<BR><BR>É apenas
de lamentar que parcelas ainda ponderáveis que tiveram acesso à instrução
superior continuem insensíveis, de olhos e ouvidos fechados à realidade
nacional.<BR><BR>São certamente, trabalhadores, os piores surdos e os piores
cegos, porque poderão, com tanta surdez e tanta cegueira, ser os responsáveis
perante a História pelo sangue brasileiro que possa vir a ser derramado, ao
pretenderem levantar obstáculos ao progresso do Brasil e à felicidade de seu
povo brasileiro.<BR><BR>(...)<BR><BR>E podeis estar certos, trabalhadores, de
que juntos o governo e o povo – operários , camponeses, militares, estudantes,
intelectuais e patrões brasileiros, que colocam os interesses da Pátria acima de
seus interesses, haveremos de prosseguir de cabeça erguida, a caminhada da
emancipação econômica e social deste país.<BR><BR>O nosso lema, trabalhadores do
Brasil, é “progresso com justiça, e desenvolvimento com
igualdade”.<BR><BR>(...)<BR><BR>Vamos continuar lutando pela construção de novas
usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, por
novas escolas, por mais hospitais para o nosso povo sofredor; mas sabemos que
nada disso terá sentido se o homem não for assegurado o direito sagrado ao
trabalho e uma justa participação nos frutos deste desenvolvimento.<BR><BR>Não,
trabalhadores; sabemos muito bem que de nada vale ordenar a miséria, dar-lhe
aquela aparência bem comportada com que alguns pretendem enganar o povo.
Brasileiros, a hora é das reformas de estrutura, de métodos, de estilo de
trabalho e de objetivo. Já sabemos que não é mais possível progredir sem
reformar; que não é mais possível admitir que essa estrutura ultrapassada possa
realizar o milagre da salvação nacional para milhões de brasileiros que da
portentosa civilização industrial conhecem apenas a vida cara, os sofrimentos e
as ilusões passadas.<BR><BR>O caminho das reformas é o caminho do progresso pela
paz social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem
econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que
vivemos.<BR><BR>Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da SUPRA com o
pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de
nossa Pátria. Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos.<BR><BR>Ainda
não é a reformulação de nosso panorama rural empobrecido.<BR>Ainda não é a carta
de alforria do camponês abandonado.<BR>Mas é o primeiro passo: uma porta que se
abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro. <BR><BR>O que se
pretende com o decreto que considera de interesse social para efeito de
desapropriação as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias,
açudes públicos federais e terras beneficiadas por obras de saneamento da União,
é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um
comércio especulativo, odioso e intolerável. <BR><BR>Não é justo que o benefício
de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos
interesses dos especuladores de terra, que se apoderaram das margens das
estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70 bilhões de
dinheiro do povo, não deve beneficiar os latifundiários, pela multiplicação do
valor de suas propriedades, mas sim o povo.<BR><BR>(...)<BR><BR>Reforma agrária
com pagamento prévio do latifundio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é
reforma agrária. É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário,
radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro. Por isso o decreto da
SUPRA não é a reforma agrária.<BR><BR>Sem reforma constitucional, trabalhadores,
não há reforma agrária. Sem emendar a Constituição, que tem acima de dela o povo
e os interesses da Nação, que a ela cabe assegurar, poderemos ter leis agrárias
honestas e bem-intencionadas, mas nenhuma delas capaz de modificações
estruturais profundas.<BR><BR>Graças à colaboração patriótica e técnica das
nossas gloriosas Forças Armadas, em convênios realizados com a SUPRA, graças a
essa colaboração, meus patrícios espero que dentro de menos de 60 dias já
comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios
aos lados das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado
das obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação. E, feito isto, os
trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a
sua mais sentida e justa reinvindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra
para trabalhar, um pedaço de terra para cultivar. Aí, então, o trabalhador e sua
família irão trabalhar para si próprios, porque até aqui eles trabalham para o
dono da terra, a quem entregam, como aluguel, metade de sua produção. E não se
diga, trabalhadores, que há meio de se fazer reforma sem mexer a fundo na
Constituição. Em todos os países civilizados do mundo já foi suprimido do texto
constitucional parte que obriga a desapropriação por interesse social, a
pagamento prévio, a pagamento em dinheiro.<BR><BR>No Japão de pós-guerra, há
quase 20 anos, ainda ocupado pelas forças aliadas vitoriosas, sob o patrocínio
do comando vencedor, foram distribuídos dois milhões e meio de hectares das
melhores terras do país, com indenizações pagas em bônus com 24 anos de prazo,
juros de 3,65% ao ano. E quem é que se lembrou de chamar o General MacArthur de
subversivo ou extremista?<BR><BR>Na Itália, ocidental e democrática, foram
distribuídos um milhão de hectares, em números redondos, na primeira fase de uma
reforma agrária cristã e pacífica iniciada há quinze anos, 150 mil famílias
foram beneficiadas.<BR><BR>No México, durante os anos de 1932 a 1945, foram
distribuídos trinta milhões de hectares, com pagamento das indenizações em
títulos da dívida pública, 20 anos de prazo, juros de 5% ao ano, e
desapropriação dos latifúndios com base no valor fiscal.<BR><BR>Na Índia foram
promulgadas leis que determinam a abolição da grande propriedade mal
aproveitada, transferindo as terras para os camponeses. <BR><BR>Essas leis
abrangem cerca de 68 milhões de hectares, ou seja, a metade da área cultivada da
Índia. Todas as nações do mundo, independentemente de seus regimes políticos,
lutam contra a praga do latifúndio improdutivo. <BR><BR>Nações capitalistas,
nações socialistas, nações do Ocidente, ou do Oriente, chegaram à conclusão de
que não é possível progredir e conviver com o latifúndio.<BR><BR>A reforma
agrária é também uma imposição progressista do mercado interno, que necessita
aumentar a sua produção para sobreviver.<BR><BR>Os tecidos e os sapatos sobram
nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de
sua capacidade. Ao mesmo tempo em que isso acontece, as nossas populações mais
pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não tem dinheiro para
comprar.<BR><BR>Assim, a reforma agrária é indispensável não só para aumentar o
nível de vida do homem do campo, mas também para dar mais trabalho às industrias
e melhor remuneração ao trabalhador urbano.<BR><BR>Interessa, por isso, também a
todos os industriais e aos comerciantes. A reforma agrária é necessária, enfim,
à nossa vida social e econômica, para que o país possa progredir, em sua
indústria e no bem-estar do seu povo.<BR><BR>Como garantir o direito de
propriedade autêntico, quando dos quinze milhões de brasileiros que trabalham a
terra, no Brasil, apenas dois milhões e meio são proprietários?<BR><BR>O que
estamos pretendendo fazer no Brasil, pelo caminho da reforma agrária, não é
diferente, pois, do que se fez em todos os países desenvolvidos do mundo. É uma
etapa de progresso que precisamos conquistar e que haveremos de
conquistar.<BR><BR>Esta manifestação deslumbrante que presenciamos é um
testemunho vivo de que a reforma agrária será conquistada para o povo
brasileiro. O próprio custo daprodução, trabalhadores, o próprio custo dos
gêneros alimentícios está diretamente subordinado às relações entre o homem e a
terra. Num país em que se paga aluguéis da terra que sobem a mais de 50 por
cento da produção obtida daquela terra, não pode haver gêneros baratos, não pode
haver tranquilidade social. No meu Estado, por exemplo, o Estado do deputado
Leonel Brizola, 65% da produção de arroz é obtida em terras alugadas e o
arrendamento ascende a mais de 55% do valor da produção. O que ocorre no Rio
Grande é que um arrendatário de terras para plantio de arroz paga, em cada ano,
o valor total da terra que ele trabalhou para o proprietário. Esse inquilinato
rural desumano é medieval é o grande responsável pela produção insuficiente e
cara que torna insuportável o custo de vida para as classes populares em nosso
país.<BR><BR>(...)<BR><BR>E é claro, trabalhadores, que só se pode iniciar uma
reforma agrária em terras economicamente aproveitáveis. E é claro que não
poderíamos começar a reforma agrária, para atender aos anseios do povo, nos
Estados do Amazonas ou do Pará. A reforma agrária deve ser iniciada nas terras
mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil
para o seu escoamento.<BR><BR>(...)<BR><BR>Não me animam, trabalhadores – e é
bom que a nação me ouça – quaisquer propósitos de ordem pessoal. Os grandes
beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os
governos que me sucederem. A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação
engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter
resolvido mais uma vez, pacificamente, os graves problemas que a História nos
legou. Dentro de 48 horas, vou entregar à consideração do Congresso Nacional a
mensagem presidencial deste ano.<BR><BR>Mas estaria faltando ao meu dever se não
transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas 150 ou 200 mil
pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso Nacional para que venha ao
encontro das reinvindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os
anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente para
melhores dias. Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que
acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas destes país. Acabei
de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de
encampação de todas as refinarias particulares.<BR><BR>A partir de hoje,
trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava,
Ipiranga, Manguinhos, Amazonas, e Destilaria Rio Grandense passam a pertencer ao
povo, passam a pertencer ao patrimônio nacional.<BR><BR>Ao anunciar, à frente do
povo reunido em praça pública, o decreto de encampação de todas as refinarias de
petróleo particulares, desejo prestar homenagem de respeito àquele que sempre
esteve presente nos sentimentos do nosso povo, o grande e imortal Presidente
Getúlio Vargas.<BR><BR>(...)<BR><BR>Na mensagem que enviei à consideração do
Congresso Nacional, estão igualmente consignadas duas outras reformas que o povo
brasileiro reclama, porque é exigência do nosso desenvolvimento e da nossa
democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todos
os brasileiros maiores de 18 anos ajudar a decidir dos seus destinos, que
permita a todos os brasileiros que lutam pelo engrandecimento do país a influir
nos destinos gloriosos do Brasil. Nesta reforma, pugnamos pelo princípio
democrático, princípio democrático fundamental, de que todo alistável deve ser
também elegível.<BR><BR>Também está consignada na mensagem ao Congresso a
reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros. Pelos
universitários, classe que sempre tem estado corajosamente na vanguarda de todos
os movimentos populares nacionalistas.<BR><BR>(...)<BR><BR>Dentro de poucas
horas, outro decreto será dado ao conhecimento da Nação. É o que vai
regulamentar o preço extorsivo dos apartamentos e residências desocupados,
preços que chegam a afrontar o povo e o Brasil, oferecidos até mediante o
pagamento em dólares. Apartamento no Brasil só pode e só deve ser alugado em
cruzeiros, que é dinheiro do povo e a moeda deste país. Estejam tranqüilos que
dentro em breve esse decreto será uma realidade.<BR><BR>(...)<BR><BR>Ao
encerrar, trabalhadores, quero dizer que me sinto reconfortado e retemperado
para enfrentar a luta que tanto maior será contra nós quanto mais perto
estivermos do cumprimento de nosso dever. À medida que esta luta apertar, sei
que o povo também apertará sua vontade contra aqueles que não reconhecem os
direitos populares, contra aqueles que exploram o povo e a Nação.<BR><BR>Hoje,
com o alto testemunho da Nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça
que só ao povo pertence, o governo, que é também o povo e que também só ao povo
pertence, reafirma os seus propósitos inabaláveis de lutar com todas as suas
forças pela reforma da sociedade brasileira. Não apenas pela reforma agrária,
mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do
analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida
democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do
Brasil”.</I></P></DIV></BODY></HTML>