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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT face=Forte color=#ff0000 size=6>Carta O Berro<FONT 
size=3>..........................................................................................................repassem</FONT></FONT></DIV>
<DIV><FONT face=Forte color=#ff0000></FONT>&nbsp;</DIV>
<DIV><IMG alt="" hspace=0 src="cid:034a01c9a42c$c2854540$0200a8c0@vcaixe" 
align=baseline border=0></DIV>
<DIV>&nbsp;</DIV>
<DIV><IMG 
src="http://200.169.228.51/arquivosCartaMaior/FOTO/49/foto_mat_23369.jpg"> 
<P class=titulo><STRONG><FONT size=5>Os 45 anos do comício da Central do 
Brasil</FONT></STRONG></P>
<P class=linhafina>Há exatos 45 anos, em 13 de março de 1964, o então presidente 
João Goulart resumia com a frase "Progresso com justiça, desenvolvimento com 
igualdade" o famoso discurso em frente ao Edifício Central do Brasil, no Rio de 
Janeiro. O comício reuniu cerca de 150 mil pessoas, incluindo sindicatos, 
associações de servidores públicos e estudantes e proclamou o povo a lutar por 
mudanças estruturais no país que iam do campo à cidade e passavam por amplas 
reformas na educação, na política tributária e nas leis eleitorais do país. 
Muitas destas reivindicações até hoje não saíram efetivamente do papel. </P>
<P class=headline-link>Clarissa Pont</P>
<P class=texto>PORTO ALEGRE - O discurso de João Goulart aniversaria na mesma 
semana em que a anistia de Maria Thereza Fontela Goulart, viúva do 
ex-presidente, foi publicada no Diário Oficial e que o general Luiz Cesário da 
Silveira Filho, ao despedir-se do cargo, exaltou em discurso o golpe militar que 
depôs Goulart, em 1964. Segundo Silveira, o golpe militar foi um "memorável 
acontecimento", que pode ser chamado de "revolução democrática de 31 de março de 
1964, por ter evitado o golpe preparado pelo governo de então contra as 
instituições democráticas do país".<BR><BR>O “golpe preparado pelo governo” ao 
qual o saudosista general se refere foi, na verdade, um momento privilegiado das 
lutas sociais e políticas no Brasil. Na época pré-golpe, amplos setores sociais, 
no campo e na cidade, lutavam por reformas sociais e econômicas, bem como a 
ampliação da democracia política. O governo de João Goulart, espécie de porta 
voz destas reivindicações, perdurou sob o signo do golpe. Se, em agosto de 1961, 
o ele pôde ser evitado, em abril de 1964 tornou-se dura e concreta realidade. 
Foi um pouco antes, mas já com os dias contados para acabar, que o governo de 
João Goulart promoveu um verdadeiro embate político e ideológico no país. Para 
muitos historiadores, um dos raros momentos de democracia autêntica no Brasil. 
<BR><BR>O movimento estudantil estava no seu auge, assim como o movimento 
operário se destacava pela autonomia sindical através do Comando Geral dos 
Trabalhadores, uma espécie de diretório central que organizava greves e 
reivindicava constantemente a ampliação dos direitos trabalhistas. Nas cidades, 
o caráter de massa desse sindicalismo crescia juntamente com sua independência e 
autonomia. No campo, as Ligas Camponesas em Pernambuco, sob o comando do 
advogado Francisco Julião, fizeram história. <BR><BR>Neste cenário, o Comício na 
Central do Brasil, realizado com o apoio do CGT, foi a gota d’água para as 
classes dominantes escolherem de que lado ficariam no conflito. Com a promessa 
de encaminhar ao Congresso projetos de reformas inéditas no país, Goulart 
radicalizava seu discurso anunciando desapropriações de terras que ladeavam 
rodovias e ferrovias nacionais e a estatização de refinarias de petróleo. Uma 
ampla reforma educacional prometia erradicar o analfabetismo e se baseava em 
experiências pioneiras inspiradas em Paulo Freire, 15% da renda produzida no 
Brasil seria direcionada à educação. No plano econômico, haveria controle da 
remessa de lucros das empresas multinacionais para o exterior e o imposto de 
renda seria proporcional ao lucro pessoal. Qualquer semelhança com algumas das 
receitas anti-crise vistas na atualidade não é mera coincidência.<BR><BR>A 
reforma eleitoral demandava extensão do direito de voto aos analfabetos e aos 
militares de baixa patente. Além disso, a desapropriação de terras com mais de 
600 hectares e a redistribuição destas à população pelo governo indicava uma 
reforma agrária forte. O Brasil ainda não havia conhecido a fúria neoliberal das 
privatizações da década de 90, mas a proteção das empresas nacionais era pauta, 
traduzido na defesa da Petrobras no discurso de Goulart. Ele defendia “tornar 
produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio 
especulativo, odioso e intolerável”, cenário um tanto parecido com a quantidade 
de áreas agricultáveis brasileiras que hoje são destruídas pelo negócio das 
florestas exóticas. A preocupação com a criminalização das manifestações 
populares que, àquela época levou o país a um período ditatorial indelével, já 
era manifestada. <BR><BR>“O povo quer que se amplie a democracia e que se ponha 
fim aos privilégios de uma minoria; que a propriedade da terra seja acessível a 
todos; que a todos seja facultado participar da vida política através do voto, 
podendo votar e ser votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos 
pleitos eleitorais e seja assegurada a representação de todas as correntes 
políticas, sem quaisquer discriminações religiosas ou ideológicas Não apenas 
pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, 
pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza 
da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo 
progresso”, disse no dia 13 de março de 1964, em frente ao Edifício Central do 
Brasil, sede da Estrada de Ferro Central do Brasil para cerca de 150 mil 
pessoas.<BR><BR>A ofensiva contra o programa de governo proposto por Goulart não 
tardou a se manifestar. Poucos dias após o comício, cerca de 500 mil pessoas 
saíram pelas ruas de São Paulo na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. 
Setores das classes médias e da burguesia, sob a bandeira do anticomunismo e da 
defesa da propriedade, da fé religiosa e da moral cristã, saíam às ruas nas 
maiores capitais do país contra o discurso que Carta Maior reproduz aqui (com 
trechos de áudio e vídeo). O resto da história é conhecido. As manifestações 
acabaram por criar um clima favorável à intervenção militar e ao 
golpe.<BR><BR><B>O discurso de João Goulart</B><BR><BR></EMBED><BR><BR><I>“Devo 
agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em 
geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de 
tão entusiasta e calorosa manifestação. Agradeço aos sindicatos que mobilizaram 
os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste 
instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela 
televisão e pelo rádio.<BR><BR>Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos 
que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos 
nossos que dão ao brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em 
miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para 
a grandeza deste país.<BR><BR>Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que 
minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.<BR><BR>Vou 
falar em linguagem que pode ser rude, mas é sincera sem subterfúgios, mas é 
também uma linguagem de esperança de quem quer inspirar confiança no futuro e 
tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade do 
presente.<BR><BR>Aqui estão os meus amigos trabalhadores, vencendo uma campanha 
de terror ideológico e sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou 
perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu presidente, 
na presença das mais significativas organizações operárias e lideranças 
populares deste país.<BR><BR>Chegou-se a proclamar, até, que esta concentração 
seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda 
fosse a dona da democracia, e a proprietária das praças e das ruas. Desgraçada a 
democracia se tiver que ser defendida por tais democratas.<BR><BR>(...)<BR><BR>A 
democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do 
anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos 
interesses dos grupos a que eles servem ou representam.<BR><BR>A democracia que 
eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos 
monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra 
os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo 
sacrifício.<BR><BR>Ainda ontem, eu afirmava, envolvido pelo calor do entusiasmo 
de milhares de trabalhadores no Arsenal da Marinha, que o que está ameaçando o 
regime democrático neste País não é o povo nas praças, não são os trabalhadores 
reunidos pacificamente para dizer de suas aspirações ou de sua solidariedade às 
grandes causas nacionais. Democracia é precisamente isso: o povo livre para 
manifestar-se, inclusive nas praças públicas, sem que daí possa resultar o 
mínimo de perigo à segurança das instituições.<BR><BR>(...)<BR><BR>Estaríamos, 
sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de 
norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de 
estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição 
do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em 
revoltantes condições de miséria.<BR><BR>Ameaça à democracia não é vir 
confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo 
explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do 
anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e 
luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos 
das mais expressivas figuras do episcopado 
brasileiro.<BR><BR>(...)<BR><BR>Àqueles que reclamam do Presidente de República 
uma palavra tranqüilizadora para a Nação, o que posso dizer-lhes é que só 
conquistaremos a paz social pela justiça social.<BR><BR>Perdem seu tempo os que 
temem que o governo passe a empreender uma ação subversiva na defesa de 
interesses políticos ou pessoais; como perdem igualmente o seu tempo os que 
esperam deste governo uma ação repressiva dirigida contra os interesses do povo. 
Ação repressiva, povo carioca, é a que o governo está praticando e vai amplia-la 
cada vez mais e mais implacavelmente, assim na Guanabara como em outros estados 
contra aqueles que especulam com as dificuldades do povo, contra os que exploram 
o povo e que sonegam gêneros alimentícios e jogam com seus preços.<BR><BR>Não 
receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e 
continuarei a proclamando em todos os recantos da Pátria – a necessidade da 
revisão da Constituição, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios 
do desenvolvimento desta Nação.<BR><BR>Essa Constituição é antiquada, porque 
legaliza uma estrutura sócio-econômica já superada, injusta e desumana; o povo 
quer que se amplie a democracia e que se ponha fim aos privilégios de uma 
minoria; que a propriedade da terra seja acessível a todos; que a todos seja 
facultado participar da vida política através do voto, podendo votar e ser 
votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos pleitos eleitorais e 
seja assegurada a representação de todas as correntes políticas, sem quaisquer 
discriminações religiosas ou ideológicas.<BR><BR>Todos têm o direito à liberdade 
de opinião e de manifestar também sem temor o seu pensamento. É um princípio 
fundamental dos direitos do homem, contido na Carta das Nações Unidas, e que 
temos o dever de assegurar a todos os brasileiros.<BR><BR>(...)<BR><BR>É apenas 
de lamentar que parcelas ainda ponderáveis que tiveram acesso à instrução 
superior continuem insensíveis, de olhos e ouvidos fechados à realidade 
nacional.<BR><BR>São certamente, trabalhadores, os piores surdos e os piores 
cegos, porque poderão, com tanta surdez e tanta cegueira, ser os responsáveis 
perante a História pelo sangue brasileiro que possa vir a ser derramado, ao 
pretenderem levantar obstáculos ao progresso do Brasil e à felicidade de seu 
povo brasileiro.<BR><BR>(...)<BR><BR>E podeis estar certos, trabalhadores, de 
que juntos o governo e o povo – operários , camponeses, militares, estudantes, 
intelectuais e patrões brasileiros, que colocam os interesses da Pátria acima de 
seus interesses, haveremos de prosseguir de cabeça erguida, a caminhada da 
emancipação econômica e social deste país.<BR><BR>O nosso lema, trabalhadores do 
Brasil, é “progresso com justiça, e desenvolvimento com 
igualdade”.<BR><BR>(...)<BR><BR>Vamos continuar lutando pela construção de novas 
usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, por 
novas escolas, por mais hospitais para o nosso povo sofredor; mas sabemos que 
nada disso terá sentido se o homem não for assegurado o direito sagrado ao 
trabalho e uma justa participação nos frutos deste desenvolvimento.<BR><BR>Não, 
trabalhadores; sabemos muito bem que de nada vale ordenar a miséria, dar-lhe 
aquela aparência bem comportada com que alguns pretendem enganar o povo. 
Brasileiros, a hora é das reformas de estrutura, de métodos, de estilo de 
trabalho e de objetivo. Já sabemos que não é mais possível progredir sem 
reformar; que não é mais possível admitir que essa estrutura ultrapassada possa 
realizar o milagre da salvação nacional para milhões de brasileiros que da 
portentosa civilização industrial conhecem apenas a vida cara, os sofrimentos e 
as ilusões passadas.<BR><BR>O caminho das reformas é o caminho do progresso pela 
paz social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem 
econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que 
vivemos.<BR><BR>Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da SUPRA com o 
pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de 
nossa Pátria. Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos.<BR><BR>Ainda 
não é a reformulação de nosso panorama rural empobrecido.<BR>Ainda não é a carta 
de alforria do camponês abandonado.<BR>Mas é o primeiro passo: uma porta que se 
abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro. <BR><BR>O que se 
pretende com o decreto que considera de interesse social para efeito de 
desapropriação as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias, 
açudes públicos federais e terras beneficiadas por obras de saneamento da União, 
é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um 
comércio especulativo, odioso e intolerável. <BR><BR>Não é justo que o benefício 
de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos 
interesses dos especuladores de terra, que se apoderaram das margens das 
estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70 bilhões de 
dinheiro do povo, não deve beneficiar os latifundiários, pela multiplicação do 
valor de suas propriedades, mas sim o povo.<BR><BR>(...)<BR><BR>Reforma agrária 
com pagamento prévio do latifundio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é 
reforma agrária. É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, 
radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro. Por isso o decreto da 
SUPRA não é a reforma agrária.<BR><BR>Sem reforma constitucional, trabalhadores, 
não há reforma agrária. Sem emendar a Constituição, que tem acima de dela o povo 
e os interesses da Nação, que a ela cabe assegurar, poderemos ter leis agrárias 
honestas e bem-intencionadas, mas nenhuma delas capaz de modificações 
estruturais profundas.<BR><BR>Graças à colaboração patriótica e técnica das 
nossas gloriosas Forças Armadas, em convênios realizados com a SUPRA, graças a 
essa colaboração, meus patrícios espero que dentro de menos de 60 dias já 
comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios 
aos lados das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado 
das obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação. E, feito isto, os 
trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a 
sua mais sentida e justa reinvindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra 
para trabalhar, um pedaço de terra para cultivar. Aí, então, o trabalhador e sua 
família irão trabalhar para si próprios, porque até aqui eles trabalham para o 
dono da terra, a quem entregam, como aluguel, metade de sua produção. E não se 
diga, trabalhadores, que há meio de se fazer reforma sem mexer a fundo na 
Constituição. Em todos os países civilizados do mundo já foi suprimido do texto 
constitucional parte que obriga a desapropriação por interesse social, a 
pagamento prévio, a pagamento em dinheiro.<BR><BR>No Japão de pós-guerra, há 
quase 20 anos, ainda ocupado pelas forças aliadas vitoriosas, sob o patrocínio 
do comando vencedor, foram distribuídos dois milhões e meio de hectares das 
melhores terras do país, com indenizações pagas em bônus com 24 anos de prazo, 
juros de 3,65% ao ano. E quem é que se lembrou de chamar o General MacArthur de 
subversivo ou extremista?<BR><BR>Na Itália, ocidental e democrática, foram 
distribuídos um milhão de hectares, em números redondos, na primeira fase de uma 
reforma agrária cristã e pacífica iniciada há quinze anos, 150 mil famílias 
foram beneficiadas.<BR><BR>No México, durante os anos de 1932 a 1945, foram 
distribuídos trinta milhões de hectares, com pagamento das indenizações em 
títulos da dívida pública, 20 anos de prazo, juros de 5% ao ano, e 
desapropriação dos latifúndios com base no valor fiscal.<BR><BR>Na Índia foram 
promulgadas leis que determinam a abolição da grande propriedade mal 
aproveitada, transferindo as terras para os camponeses. <BR><BR>Essas leis 
abrangem cerca de 68 milhões de hectares, ou seja, a metade da área cultivada da 
Índia. Todas as nações do mundo, independentemente de seus regimes políticos, 
lutam contra a praga do latifúndio improdutivo. <BR><BR>Nações capitalistas, 
nações socialistas, nações do Ocidente, ou do Oriente, chegaram à conclusão de 
que não é possível progredir e conviver com o latifúndio.<BR><BR>A reforma 
agrária é também uma imposição progressista do mercado interno, que necessita 
aumentar a sua produção para sobreviver.<BR><BR>Os tecidos e os sapatos sobram 
nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de 
sua capacidade. Ao mesmo tempo em que isso acontece, as nossas populações mais 
pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não tem dinheiro para 
comprar.<BR><BR>Assim, a reforma agrária é indispensável não só para aumentar o 
nível de vida do homem do campo, mas também para dar mais trabalho às industrias 
e melhor remuneração ao trabalhador urbano.<BR><BR>Interessa, por isso, também a 
todos os industriais e aos comerciantes. A reforma agrária é necessária, enfim, 
à nossa vida social e econômica, para que o país possa progredir, em sua 
indústria e no bem-estar do seu povo.<BR><BR>Como garantir o direito de 
propriedade autêntico, quando dos quinze milhões de brasileiros que trabalham a 
terra, no Brasil, apenas dois milhões e meio são proprietários?<BR><BR>O que 
estamos pretendendo fazer no Brasil, pelo caminho da reforma agrária, não é 
diferente, pois, do que se fez em todos os países desenvolvidos do mundo. É uma 
etapa de progresso que precisamos conquistar e que haveremos de 
conquistar.<BR><BR>Esta manifestação deslumbrante que presenciamos é um 
testemunho vivo de que a reforma agrária será conquistada para o povo 
brasileiro. O próprio custo daprodução, trabalhadores, o próprio custo dos 
gêneros alimentícios está diretamente subordinado às relações entre o homem e a 
terra. Num país em que se paga aluguéis da terra que sobem a mais de 50 por 
cento da produção obtida daquela terra, não pode haver gêneros baratos, não pode 
haver tranquilidade social. No meu Estado, por exemplo, o Estado do deputado 
Leonel Brizola, 65% da produção de arroz é obtida em terras alugadas e o 
arrendamento ascende a mais de 55% do valor da produção. O que ocorre no Rio 
Grande é que um arrendatário de terras para plantio de arroz paga, em cada ano, 
o valor total da terra que ele trabalhou para o proprietário. Esse inquilinato 
rural desumano é medieval é o grande responsável pela produção insuficiente e 
cara que torna insuportável o custo de vida para as classes populares em nosso 
país.<BR><BR>(...)<BR><BR>E é claro, trabalhadores, que só se pode iniciar uma 
reforma agrária em terras economicamente aproveitáveis. E é claro que não 
poderíamos começar a reforma agrária, para atender aos anseios do povo, nos 
Estados do Amazonas ou do Pará. A reforma agrária deve ser iniciada nas terras 
mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil 
para o seu escoamento.<BR><BR>(...)<BR><BR>Não me animam, trabalhadores – e é 
bom que a nação me ouça – quaisquer propósitos de ordem pessoal. Os grandes 
beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os 
governos que me sucederem. A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação 
engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter 
resolvido mais uma vez, pacificamente, os graves problemas que a História nos 
legou. Dentro de 48 horas, vou entregar à consideração do Congresso Nacional a 
mensagem presidencial deste ano.<BR><BR>Mas estaria faltando ao meu dever se não 
transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas 150 ou 200 mil 
pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso Nacional para que venha ao 
encontro das reinvindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os 
anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente para 
melhores dias. Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que 
acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas destes país. Acabei 
de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de 
encampação de todas as refinarias particulares.<BR><BR>A partir de hoje, 
trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava, 
Ipiranga, Manguinhos, Amazonas, e Destilaria Rio Grandense passam a pertencer ao 
povo, passam a pertencer ao patrimônio nacional.<BR><BR>Ao anunciar, à frente do 
povo reunido em praça pública, o decreto de encampação de todas as refinarias de 
petróleo particulares, desejo prestar homenagem de respeito àquele que sempre 
esteve presente nos sentimentos do nosso povo, o grande e imortal Presidente 
Getúlio Vargas.<BR><BR>(...)<BR><BR>Na mensagem que enviei à consideração do 
Congresso Nacional, estão igualmente consignadas duas outras reformas que o povo 
brasileiro reclama, porque é exigência do nosso desenvolvimento e da nossa 
democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todos 
os brasileiros maiores de 18 anos ajudar a decidir dos seus destinos, que 
permita a todos os brasileiros que lutam pelo engrandecimento do país a influir 
nos destinos gloriosos do Brasil. Nesta reforma, pugnamos pelo princípio 
democrático, princípio democrático fundamental, de que todo alistável deve ser 
também elegível.<BR><BR>Também está consignada na mensagem ao Congresso a 
reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros. Pelos 
universitários, classe que sempre tem estado corajosamente na vanguarda de todos 
os movimentos populares nacionalistas.<BR><BR>(...)<BR><BR>Dentro de poucas 
horas, outro decreto será dado ao conhecimento da Nação. É o que vai 
regulamentar o preço extorsivo dos apartamentos e residências desocupados, 
preços que chegam a afrontar o povo e o Brasil, oferecidos até mediante o 
pagamento em dólares. Apartamento no Brasil só pode e só deve ser alugado em 
cruzeiros, que é dinheiro do povo e a moeda deste país. Estejam tranqüilos que 
dentro em breve esse decreto será uma realidade.<BR><BR>(...)<BR><BR>Ao 
encerrar, trabalhadores, quero dizer que me sinto reconfortado e retemperado 
para enfrentar a luta que tanto maior será contra nós quanto mais perto 
estivermos do cumprimento de nosso dever. À medida que esta luta apertar, sei 
que o povo também apertará sua vontade contra aqueles que não reconhecem os 
direitos populares, contra aqueles que exploram o povo e a Nação.<BR><BR>Hoje, 
com o alto testemunho da Nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça 
que só ao povo pertence, o governo, que é também o povo e que também só ao povo 
pertence, reafirma os seus propósitos inabaláveis de lutar com todas as suas 
forças pela reforma da sociedade brasileira. Não apenas pela reforma agrária, 
mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do 
analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida 
democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do 
Brasil”.</I></P></DIV></BODY></HTML>