<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
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<BODY bgColor=#ffffff>
<DIV><FONT face=Forte color=#ff0000 size=6>Carta O Berro<FONT
size=3>...................................................................................................................................repassem</FONT></FONT></DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV><FONT face=Arial size=2>
<H1><FONT size=4>BEATRIZ KUSHNIR: A FAMÍLIA FRIAS E A DITADURA
MILITAR</FONT></H1>
<P class=date><SPAN style="FONT-SIZE: 78%"><FONT size=2><A
href="http://caesdeguarda-jornalistasecensores.blogspot.com/2008/02/no-blog-do-azenha.html">No
blog do Azenha</A> </SPAN><BR></FONT></P>
<P>
<P>Beatriz Kushnir escreveu um livro "incômodo" para a mídia brasileira. É "Cães
de Guarda - Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988", que conta
histórias interessantes sobre os bastidores de jornais e emissoras de televisão
durante o regime militar. Fala do funcionário que Victor Civita despachou para
"treinar" censores em Brasília. Fala dos censores que foram trabalhar dentro da
TV Globo. Fala dos policiais que se tornaram "jornalistas" e dos jornalistas que
fizeram papel de policiais. Fala dos bastidores da "Folha da Tarde", o jornal do
grupo Folha que prestou serviços à repressão. Está explicado, portanto, o motivo
pelo qual esse livro quase não foi resenhado. Beatriz hoje é diretora do Arquivo
Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que tem um dos maiores acervos da imprensa
alternativa que floresceu durante o regime militar.</P>
<P><IMG alt="" hspace=0 src="cid:027c01c99607$b5ef0dd0$0200a8c0@vcaixe"
align=baseline border=0><STRONG>CAES DE GUARDA - JORNALISTAS E CENSORES</STRONG>
<BR><SPAN style="FONT-SIZE: 14px; COLOR: #666666"><FONT size=3><STRONG>DO AI-5 À
CONSTITUIÇÃO DE 1988</STRONG></FONT></SPAN> <BR><!-- CONCEITO DO LEITOR --><!-- FIM CONCEITO DO LEITOR --><!-- DADOS --><STRONG>Autor: </STRONG>
<A
href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/catalogo/busca.asp?parceiro=112224&nautor=71292&refino=1&sid=00171574111223488884518325&k5=13F72D39&uid=">KUSHNIR,
BEATRIZ</A> <A
href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/sobre_autor.asp?nautor=71292"></A><BR><STRONG>Editora:</STRONG>
<A
href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/catalogo/busca.asp?parceiro=112224&tipo_pesq=editora&neditora=3463&refino=2&sid=00171574111223488884518325&k5=13F72D39&uid="><I>BOITEMPO
EDITORIAL</I></A><BR><STRONG>Assunto:</STRONG> <A
href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/catalogo/busca.asp?parceiro=112224&bmodo=cat&n1=14&n2=5&refino=3&sid=00171574111223488884518325&k5=13F72D39&uid=">COMUNICAÇAO-JORNALISMO</A></P></FONT></DIV>
<DIV style="FONT: 10pt arial">----- Original Message -----
<DIV style="BACKGROUND: #e4e4e4; font-color: black"><B>From:</B> <A
title=revistaoberro@revistaoberro.com.br
href="mailto:revistaoberro@revistaoberro.com.br">Revista O BERRO</A> </DIV>
<DIV><B>To:</B> <A title=vanderleycaixe@revistaoberro.com.br
href="mailto:vanderleycaixe@revistaoberro.com.br">vanderleycaixe@revistaoberro.com.br</A>
</DIV>
<DIV><B>Sent:</B> Monday, February 23, 2009 1:15 PM</DIV>
<DIV><B>Subject:</B> DITADURA & COLABORACIONISMO e /Entrevista com Beatriz
Kushnir autora do livro(tese) "Cães de Guarda" - editora Boitempo</DIV></DIV>
<DIV><BR></DIV>
<DIV>
<H2 class=date-header>Domingo, 20 de Janeiro de 2008</H2>
<DIV class="post hentry"><A name=109216297807703375></A>
<H3 class="post-title entry-title"><A href="http://www.no.com.br), 10/12/01">"Os
amigos da censura", copyright No. (www.no.com.br), 10/12/01</A> </H3>
<DIV class=post-header-line-1></DIV>
<DIV class="post-body entry-content"><STRONG><FONT size=4>DITADURA &
COLABORACIONISMO</FONT></STRONG><BR>Paulo Vasconcellos</DIV>
<DIV class="post-body entry-content"><FONT face=Arial
size=2></FONT><BR>"Trata-se de ‘Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5
à Constituição de 1988’.(*) A tese de doutorado da historiadora carioca Beatriz
Kushnir, 35 anos, aprovada com louvor em outubro no Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lança suspeitas
sobre um dos mitos cultuados pela imprensa brasileira: o de que jornais e
jornalistas foram quixotes na luta contra o regime militar. O trabalho tem 473
páginas e é resultado de cinco anos de pesquisas. Beatriz mirou no que viu e
acertou no que não viu. Começou como um estudo da censura à imprensa alternativa
e acabou desvendando o grau de colaboracionismo com a ditadura incrustado em
algumas redações.<BR>‘Assim como nem todas as redações eram de esquerda, nem
todos os jornalistas fizeram do ofício um ato de resistência ao arbítrio’, diz
Beatriz Kushnir. ‘Há um desconforto diante da desmistificação generalizante de
que os jornalistas combateram a ditadura.’ O trabalho demonstra que os jornais
que tiveram um censor na redação não foram tantos assim, que a primeira
profissão de parte dos censores era o jornalismo e, pior, que havia um elevado
grau de promiscuidade nas relações entre alguns jornalistas e os órgãos de
repressão. Beatriz não foge à polêmica. Para a tese de mestrado na Universidade
Federal Fluminense (UFF) ela escolheu a história das prostitutas judias que se
organizaram em associações de ajuda mútua e ficaram conhecidas como polacas,
citadas nos versos de Aldir Blanc para a música ‘O mestre-sala dos mares’ - não
por acaso uma das vítimas da censura, que vetou o título original: ‘O almirante
negro’.<BR>A historiadora começou a derrubar as ilusões da imprensa brasileira
ao pesquisar os documentos do Departamento de Censura de Diversões Públicas da
Polícia Federal no Arquivo Nacional, em Brasília, entrevistando 11 censores -
exceção para Solange Hernandes, a popular Solange Tesourinha, que mandava cortar
tudo o que é filme, livro, texto de teatro e versos de músicas - e uma penca de
jornalistas. O porão que escondia os instrumentos legais da censura abrigava
também jornalistas de formação. ‘Foi tentando perceber quem eram os censores que
me surpreendi ao encontrar já no primeiro grupo deles dez jornalistas.’
Descobriu ainda policiais de carreira que atuaram como jornalistas colaborando
com a repressão.<BR>Os três primeiros capítulos mostram a evolução da censura
desde a Proclamação da República. É iguaria rara, mas o melhor vem depois. Da
posição cínica defendida por um jornal do Rio, em 1976, em defesa de uma
‘censura inteligente’ - feita por pessoal mais bem preparado política e
intelectualmente - à constatação de que, na prática, os jornais optaram
preferencialmente pela autocensura ao encampar as notas da Polícia Federal
transmitidas pelo Serviço de Informação do Gabinete (Sibag), vinculado ao
gabinete do ministro da Justiça, mas sem registro no organograma dos órgãos
federais - portanto, clandestino. A alternativa era a censura prévia.<BR>Os
censores estiveram nas redações para cortar os ‘excessos’ em poucos periódicos.
No ‘O Estado de S. Paulo’, do AI-5 a janeiro de 1975, e na ‘Tribuna da
Imprensa’, em um período não contínuo, de 1968 a 1978. Na imprensa alternativa
freqüentaram ‘O Pasquim’, de novembro de 1970 a março de 1975, ‘O São Paulo’, de
junho de 1973 a junho de 1978, ‘Opinião’, de janeiro de 1973 a abril de 1977, e
‘Movimento’, de abril de 1975 a junho de 1978. Na Veja, de 1974 a junho de 1976.
A revista foi censurada ainda no berço, logo no número 5, em 1968. Durante todo
o governo do general Emílio Garrastazu Médici seria uma das vítimas favoritas do
regime. A edição com a capa ‘O presidente não admite torturas’ foi proibida de
chegar às bancas.<BR>‘Oliveiros, hoje nós não vamos aí.’<BR>O governo do general
Ernesto Geisel, com a promessa de abertura, ainda que lenta, gradual e segura,
não deixou de estabelecer os parâmetros do que considerava permitido - mesmo que
nos bastidores os ministros Golbery do Couto e Silva, da Casa Civil, e Armando
Falcão, da Justiça, mantivessem diálogos com jornalistas anunciando a retirada
da censura das redações. As notas proibitivas continuaram a ser transmitidas até
fins de 1975. Nos primeiros dias de abril, o número 300 de ‘O Pasquim’ trazia o
editorial intitulado ‘Sem Censura’, escrito por Millôr Fernandes, notificando ao
leitor que desde 24 de março o tablóide se encontrava livre da censura prévia.
Depois de um telefonema do Dr. Romão, o último dos quase 30 censores que o
jornal teve em cinco anos, estava decretado que a responsabilidade passava a ser
da redação. Sentença semelhante recebeu o então secretário de redação de ‘O
Estado de S. Paulo’, Oliveiros S. Ferreira. ‘Eles ficaram do AI-5, em 13 de
dezembro de 1968, até 3 de janeiro de 1975, um dia antes do centenário do
jornal’, relembra Ferreira. Foi quando ele recebeu um telefonema do chefe dos
censores:<BR>- Oliveiros, hoje nós não vamos aí.<BR>Oliveiros:<BR>- Mas, então,
quem responde pelo jornal?<BR>- Ah, isso é problema seu. Até logo!<BR>Um ano
antes, o humorista Ziraldo, do ‘Pasquim’, havia escrito uma carta ao ministro da
Justiça, Armando Falcão, pedindo a volta da censura do jornal para o Rio, que
havia seis meses, em represália, era feita em Brasília para atrasar
propositadamente o fechamento das edições. Ao fim da carta, além da assinatura,
um desenho: a mão de um homem que se afogava e a palavra ‘help’. ‘Millôr
Fernandes já havia advertido em seu editorial que o rompimento repentino da
censura embutia a noção de que deixar de intervir era uma concessão que deveria
ser paga com responsabilidade’, lembra Beatriz. ‘Sem censura não quer dizer com
liberdade’, terminava o texto de Millôr.<BR>A censura espalhou vítimas para
todos os lados. O cineasta francês Jean Luc Godard foi uma delas. No regime
militar teve proibido o filme ‘A chinesa’. Em 1984, a censura a outro de seus
filmes, ‘Je vous salue, Marie’, geraria protestos calorosos, a demissão do
ministro da Justiça, na época o deputado federal pernambucano Fernando Lyra, e a
exposição da permanência de atos censórios em um período de suposta
redemocratização. Alguns jornais e jornalistas que não aderiram à resistência se
bandearam para o outro lado. ‘Cães de guarda’ revela o papel duplo de uns e
outros. Jornalistas que foram censores federais - e também policiais - e
vice-versa dividiam as redações com as chamadas bases esquerdistas que, segundo
o regime militar, sempre as dominaram. ‘No Brasil da censura existiam também os
jornalistas colaboracionistas’, afirma Beatriz. ‘Eles foram verdadeiros cães de
guarda.’<BR>Um deles, segundo a tese, tomou conta do jornal ‘Folha da Tarde’, do
Grupo Folha da Manhã, de 1967 a 1984. Todo o quarto capítulo narra a trajetória
do jornal nos seus dois períodos: do renascimento, em 1967, até o AI-5. Beatriz
Kushnir investigou a redação da ‘Folha da Tarde’ de 1967, que estava vinculada à
cobertura dos movimentos políticos da época e tinha em seus quadros militantes
de esquerda, até ser conhecida como ‘Diário Oficial da Oban’ (Operação
Bandeirantes). ‘Cheguei à história da ‘Folha da Tarde’ por acaso’, conta. A
historiadora tentava uma entrevista com o senador Romeu Tuma (PFL-SP), diretor
do Departamento de Polícia Federal que rompeu com a tradição de militares no
cargo desde a sua criação, em 1964. Chegou a entrar em contato com o seu
assessor de Imprensa, em São Paulo, mas não conseguiu agendar um encontro. Ao
entrevistar o jornalista Boris Casoy, âncora do Jornal da Record, para
compreender os reflexos da censura na redação da ‘Folha de S. Paulo’, que ele
dirigia na época, ficou sabendo quem era o assessor do senador e o significado
da frase ‘o jornal de maior tiragem’.<BR>Nos dois casos bateu na figura de
Antonio Aggio Jr. A queda com o AI-5 do jornalista Jorge Miranda Jordão, hoje em
‘O Dia’, da direção de redação da ‘Folha da Tarde’, abriu espaço para outro
grupo de profissionais. Antonio Pimenta Neves, que mais de 30 anos depois
responde a processo pelo assassinato da namorada, era um deles. Aggio, ex-editor
do jornal ‘Cidade de Santos’, viria depois. ‘Sob o comando dele o jornal deu uma
guinada à direita’, diz Beatriz. ‘O clima de delegacia policial resistiu 15 anos
e o jornal ganhou o apelido de ser o de ‘maior tiragem’ em São Paulo, não por
causa da circulação, mas pelo número de tiras (policiais) que
empregava.’<BR>Acusado de colaborar, Aggio diz que também foi parar na
Oban<BR>Aggio rebate. ‘Essa tese é um negócio tortuoso para garantir o título de
doutora à historiadora.’ Segundo o assessor do senador Tuma, a reformulação da
‘Folha da Tarde’ e o Projeto Folha, de 1984, quando o jornal passaria por nova
mudança, nada teve a ver com ideologia, mas com mercado. ‘Nunca houve uma
redação mais democrática que a da Folha da Tarde. Nunca se perguntou a coloração
ideológica de ninguém por lá. Muitos esquerdistas trabalham no jornal até hoje’,
afirma o jornalista. Aggio diz que todo o noticiário policial e militar tinha
como fonte a Agência Folha e era publicado por todos os jornais do grupo. ‘Uma
vez houve um incidente com o pessoal da luta armada em Osasco e como a ‘Folha da
Tarde’ deu a notícia fui parar na Oban e no II Exército. Se fosse ligado à
repressão não teriam me chamado para prestar esclarecimentos.’<BR>‘Havia pressão
psicológica e armada, além de econômica, mas nunca a família Frias me pediu para
mudar a linha do jornal para aderir ao regime. Obedecíamos ao que a censura
impunha porque não havia saída. Depois que deixei a direção do jornal, ele mudou
de linha editorial’, diz Jorge Miranda Jordão, antecessor de Antonio Aggio na
‘Folha da Tarde’. ‘A imprensa nunca foi quixote, mas também não chegou a ser um
Exército de Brancaleone. Talvez uns dez por cento das redações apoiassem o
regime até por convicção política.’<BR>‘Cães de guarda’ remexe em histórias nada
edificantes. É o caso de uma manchete estampada pela ‘Folha da Tarde’ em abril
de 1971 anunciando a morte do guerrilheiro Roque em confronto com a polícia
paulistana. Roque era o codinome do metalúrgico Joaquim Seixas, preso com o
filho Ivan, então com 16 anos. Militantes do Movimento Revolucionário Tiradentes
(MRT), os dois tinham sido presos acusados pelo assassinato do industrial Enning
Boilesen, um dos financiadores da Operação Bandeirantes, apenas um dia depois do
crime, e foram torturados na Oban. Ivan leu a manchete sobre a morte do pai em
uma banca de jornal ao ser levado pelos policiais para um ‘passeio’. Na volta
ainda encontrou Joaquim vivo. Ele seria morto, de fato, horas depois. Os jornais
do dia seguinte se limitariam a reproduzir a nota oficial dos órgãos de
repressão com a notícia que a ‘Folha da Tarde’ havia estampado na véspera com
detalhes, segundo a tese, como se tivesse repórter no local.<BR>‘Toda a caçada
ao capitão Carlos Lamarca, que havia desertado do Exército levando armas e
munições do quartel de Quintaúna, em São Paulo, comandado pelo coronel Antônio
Lapiane, tio de Ággio, que até hoje é vinculado à Secretaria de Segurança
Pública de São Paulo, vinha carregada de tintas fortes e se referia ao
guerrilheiro como ‘louco’, afirma Beatriz. ‘A esquerda atribui à ‘Folha da
Tarde’ a legalização de muitas mortes em tortura e `assassinatos acidentais´ de
militantes em confronto com a polícia. Se sumissem todos os jornais que
circularam um dia depois da missa ecumênica pela morte do jornalista Wladimir
Herzog e só restasse a ‘Folha da Tarde’, não se saberia de nada. A cerimônia
parou São Paulo, mas a FT não deu uma linha.’<BR>A relação entre jornalistas e
policiais já tinha sido exposta por Percival de Souza, repórter setorista de
Polícia de ‘O Estado de S. Paulo’ e do ‘Jornal da Tarde’ e autor de biografias
de figuras sombrias da ditadura, como o delegado Sérgio Paranhos Fleury, o
temido e sanguinário torturador do Deops do Largo General Osório, em São Paulo,
desenhado por ele como um amante adolescente. ‘Cães de guarda’ vai além. Esmiúça
até à sarjeta o papel da imprensa na ditadura. Para se adaptar à autocensura não
faltaram estratégias peculiares. A editora de uma revista de circulação nacional
preparou um funcionário para dar curso aos censores de como realizar a tarefa.
Uma rede de televisão contratou ex-censores para delimitar o permitido. Por
abrigar jornalistas colaboracionistas algumas redações ficaram conhecidas como
‘ninho de gansos’. Era assim que eles eram tratados nos órgãos de repressão. Os
jornalistas da ‘casa’ que cobriam o Deops não passavam pela revista a que eram
submetidos os colegas com menos intimidade com os porões da ditadura - seguiam
direto por uma entrada lateral, reservada aos policiais, apelidada de ‘passagem
dos gansos’.<BR>‘Muitos jornalistas trocaram a narrativa de um acontecimento
pela publicação de versões que corroborassem o ideário repressivo’, diz Beatriz.
‘Fiéis aos seus donos, os cães de guarda farejaram uma brecha e, ao defender o
castelo, nos venderam uma imagem errada. Quando o tabuleiro do poder mudou,
muitos desses servidores foram aposentados, outros construíram para si uma
imagem positiva e até mesmo heróica, distanciando-se do que haviam feito. Outros
tantos se readaptaram e estão na mídia como sempre.’ Talvez alguns jornais
brasileiros nunca tenham se aproximado tanto da imagem de papel de embrulhar
peixe.</DIV>
<DIV
class="post-body entry-content">=========================================================================================================================</DIV>
<DIV class="post-body entry-content"><FONT size=3><STRONG><SPAN
style="FONT-SIZE: 78%">"CÃES DE GUARDA" FALA DA MÍDIA E DE JORNALISTAS QUE
COLABORARAM COM A DITADURA MILITAR<BR>Atualizado em 15 de fevereiro de 2008 às
19:07 </SPAN><BR></STRONG></FONT><SPAN style="FONT-SIZE: 78%"><STRONG><FONT
size=3>Publicado em 15 de fevereiro de 2008 às 14:30<BR>DO JORNAL UNIDADE, DO
SINDICATO DOS JORNALISTAS DE SÃO PAULO</FONT></STRONG><FONT size=2>
</FONT></SPAN></DIV>
<DIV class="post-body entry-content"><SPAN style="FONT-SIZE: 78%"><FONT
size=2><A
href="http://caesdeguarda-jornalistasecensores.blogspot.com/2008/02/no-blog-do-azenha.html">No
blog do Azenha</A> </SPAN><BR><BR></DIV></FONT>
<DIV class="post-body entry-content" align=justify><SPAN
style="FONT-FAMILY: georgia">"Lançado pela editora Boitempo o livro que,
certamente, tomará de assalto as rodas de discussão dentro das redações. É a
edição da tese de doutorado da historiadora Beatriz Kushnir, ‘Cães de Guarda:
Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988’.(*)<BR>Até agora, a
imprensa ignorou por completo o trabalho, fruto de tese já defendida com sucesso
no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp).<BR>Beatriz é mestre em História pela Universidade Federal
Fluminense e sua tese pesquisou a postura colaboracionista de jornalistas e
órgãos de imprensa durante a ditadura militar pós-68.<BR>Em sua tese, Beatriz
mostra a estreita relação que houve naquele período entre jornalistas e
policiais, como também investiga os estratagemas da direção das empresas de
comunicação, ao aceitarem praticar a autocensura, como ‘sugeria’ o governo
militar.<BR>O estudo focaliza a relação dos jornalistas com os censores no
Brasil de 1968 a 1988. Ela demonstra, com todas as tintas, a existência de
jornalistas que foram censores federais, e que também foram policiais enquanto
jornalistas nas redações. Escrevendo nos jornais, ou riscando o que não poderia
ser dito ou impresso, colaboraram com o sistema autoritário daquele período. Ela
relata: ‘Assim como nem todas as redações eram de esquerda, nem todos os
jornalistas fizeram do ofício um ato de resistência ao arbítrio’.<BR>Para
realizar seu trabalho acadêmico, privilegiou o período do AI-5 à Constituição de
1988. Recuou a março de 64 e à legislação censória no período
republicano.<BR>Ela focou sua pesquisa nos jornalistas de formação e atuação,
que trocaram as redações pela burocracia e fizeram parte do DCDP (Departamento
de Censura de Diversões Públicas), órgão subordinado ao Ministério da Justiça,
cargo de Técnicos de Censura. Outro foco da pesquisa foram os policiais de
carreira que atuaram como jornalistas, colaborando com o sistema repressivo e
censor do pós-64. Para encontrar esse grupo, Beatriz pesquisou a trajetória do
jornal Folha da Tarde, do Grupo Folha da Manhã, de 1967 a 1984. Ela teve acesso
ao Banco de Dados da Folha, ao DEDOC da Editora Abril, aos arquivos pessoais do
jornalista José Silveira (Jornal do Brasil) e da jornalista Ana Maria Machado
(Rádio JB). Entrevistou 19 jornalistas que passaram pela FT, onze censores - só
dois autorizaram a divulgação de seus nomes, e um grupo de 26 jornalistas, entre
eles Bernardo Kucinski, Mino Carta e Jorge Miranda Jordão.<BR><STRONG>Dez
jornalistas, dez censores</STRONG><BR>A historiadora conta, em uma passagem da
tese, que os dez primeiros censores que estiveram em Brasília, quando da mudança
da Capital, eram jornalistas. Eram profissionais que foram transferidos para as
redações de Brasília e lá acumularam cargos na burocracia do Estado, situação
comum à época. Mas eles preferiram ficar com apenas uma atividade. Dez
jornalistas optaram pelo trabalho no Departamento de Censura, onde se ganhava
mais. Dois deles escreveram um livro explicando aos censores como se deve
censurar e quais os artigos que se deve cortar.<BR><STRONG>O caso Folha da
Tarde</STRONG><BR>Um dos episódios destacados pela tese de Beatriz Kushnir narra
a trajetória da Folha da Tarde. Segundo a tese, o jornal foi o reduto, entre
1967 e 1984, de um grupo de jornalistas colaboracionistas, os chamados ‘cães de
guarda’, que dirigiram a redação como uma delegacia de polícia. Na epóca, a FT
era chamada no meio jornalístico como o jornal de maior ‘tiragem’, uma ironia à
grande presença de ‘tiras’ na redação.<BR>Em 1967, a FT renasce sob o comando de
Miranda Jordão - que hoje dirige a redação de O Dia, no Rio de Janeiro - para
fazer frente ao Jornal da Tarde. Sua redação se caracteriza por abrigar bons
jornalistas, muitos deles simpatizantes da esquerda. Essa fase não foi longa.
Finalmente, com o AI-5, Miranda Jordão é demitido e assume a redação Antonio
Pimenta Neves e, posteriormente, Antonio Aggio Jr., hoje assessor de imprensa do
senador Romeu Tuma. Aggio vinha do jornal Cidade de Santos.<BR>Segundo a tese,
durante uma década e meia o jornal ficou sob o comando da direita e muitos dos
seus jornalistas tinham cargos na Secretaria de Segurança Pública do Estado de
São Paulo.<BR>Durante esse período, alguns fatos marcaram a redação. A prisão de
Frei Betto, em 11 de novembro de 1969, foi minimizada pelo jornal, que não citou
uma importante passagem em sua biografia: Frei Betto foi chefe de reportagem da
Folha da Tarde.<BR>No episódio Vladimir Herzog, assassinado nos porões da OBAN
(Operação Bandeirante) em 25 de outubro de 1975, a FT ignorou por completo a
missa ecumênica realizada na Catedral da Sé, alguns dias depois da sua
morte.<BR>Outra prática, que se estendeu a outros órgãos de imprensa, mas foi
exemplar na FT, foi a de transmitir integralmente a versão do Estado para
desaparecimentos e assassinatos, como no caso de uma manchete de abril de 1971
que anunciava a morte do guerrilheiro Roque, em confronto com a polícia de São
Paulo. Roque era o codinome do metalúrgico Joaquim Seixas, que havia sido preso
com o filho Ivan Seixas, hoje jornalista. Os dois eram militantes do MRT
(Movimento Revolucionário Tiradentes), e tinham sido acusados de matar o
industrial Enning Boilesen, um dos financiadores da OBAN. Foram presos e
torturados.<BR>Num certo dia, Ivan foi levado pelos policiais para um ‘passeio’
fora da OBAN e leu em uma banca de jornal a notícia da morte do pai. Quando
voltou do ‘passeio’ ainda encontrou seu pai vivo. Joaquim Seixas viria a morrer
horas depois. Os jornais do dia seguinte reproduziram friamente a nota oficial
dos órgãos de repressão, mas a FT havia publicado a notícia um dia antes, com
detalhes. Muitos atribuem à FT a legalização de mortes em tortura.<BR>Além do
caso FT, a tese mostra como redações, entre 1972 e 1975, ‘acatavam’ os
bilhetinhos do Sigab (Serviço de Informação do Gabinete), que notificavam
diariamente os jornais sobre o que se podia e o que não se podia
publicar.<BR>Beatriz cita o professor Bernardo Kucinski, que lembra: ‘A maior
parte da grande imprensa brasileira aceitou, ou se submeteu a esse pacto. Para
Médici, era melhor que o próprio jornalista se autocensurasse’.<BR>As empresas
escolheram então os seus ‘quadros de confiança’. Por abrigar jornalistas
colaboracionistas algumas redações ficaram conhecidas como ‘ninhos de gansos’.
Os jornalistas de confinça que cobriam o Deops, por exemplo, não passavam pela
revista e seguiam direto por uma entrada lateral, reservada aos policiais,
apelidada ‘passagem dos gansos’.<BR>‘A censura para mim é sempre
política’<BR><EM>UNIDADE</EM> - Qual a intenção inicial de sua
pesquisa?<BR><EM>Beatriz</EM> - Eu tinha planejado fazer uma tese sobre a
apreensão de imprensa clandestina pelo aparelho do DOPS. Comecei a trabalhar com
essa documentação em Brasília, há toda a documentação do Departamento de Censura
de Diversões Públicas. Mas a partir daí, percebi que eu podia pensar a censura
diferentemente do que havia sido trabalhado. Não como os jornalistas receberam
os censores na redação, mas quem eram esses censores, que tipo de trabalho eles
faziam, ou seja, a censura contando a sua própria história. É o que faço nos
três primeiros capítulos da tese.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Como surgiu o interesse
pelo caso Folha da Tarde?<BR><EM>Beatriz</EM> - Num determinado momento Maurício
Maia, filho do Carlito, me contou como os órgãos de imprensa publicavam notícias
falsas de mortes de militantes, e me chegou a história do Ivan Seixas, que era
um militante político do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), um braço da
ALN (Aliança Libertadora Nacional). Ele é preso com o pai, são levados para a
OBAN (Operação Bandeirante) e são torturados. O Ivan é levado para dar ‘uma
volta’ e fora da prisão recebe uma informação de que o pai morreu, noticiada
pela Folha da Tarde. Quando ele volta à OBAN o pai ainda está vivo, só morreria
horas depois. A FT foi considerada o diário oficial da OBAN. A Folha da Tarde é
um jornal que renasce em 1967, com o Miranda Jordão, para ser um jornal de
oposição ao Jornal da Tarde. Depois do AI-5, ela se torna cada vez mais à
direita. O Miranda foge pela fronteira, o Frei Betto, que integrava a equipe do
jornal, também sai. Aí assume Antonio Ággio Jr. Tento mostrar como é falsa essa
imagem de que a imprensa combateu arduamente a censura. Isso é uma coisa muito
delicada para os jornalistas. É delicado perceber que havia autocensura nas
redações. A Folha da Tarde se prestava muito para se perceber isso. Se você
perceber realmente quando os jornais tiveram censores dentro da redação, então
você nota que a autocensura funcionou muito mais do que o censor. Você tem
poucos censores nas redações da grande imprensa. Eles estavam na imprensa
alternativa.<BR>Gosto muito de uma matéria do Jânio de Freitas, sobre os 30 anos
do AI-5, quando ele diz que 30 anos depois são de novo os mesmos jornalistas que
estão contando a sua história, e 30 anos depois eles contam a história que eles
querem.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Você quantificou o número de jornalistas que
poderiam ter se envolvido com o colaboracionismo? Ou se deteve mais no caso da
FT?<BR><EM>Beatriz</EM> - Eu não tive essa preocupação de quantificar. A Folha
da Tarde é um estudo de caso nos dois últimos capítulos da tese. Mas o que
acontece naquela redação? Durante um ano e pouco ela é uma redação de esquerda e
durante quinze anos ela vai se tornar uma redação extremamente de direita.
Existiam nos anos 70 uns casos que se chamavam desbundes, que eram presos
políticos que são presos e depois colocados na televisão para fazer um mea
culpa. Alguns desses mea culpa vão se tornar jornalistas da Folha da Tarde,
mostrando um pouco dessa relação tão permissiva.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Conte o
que aconteceu com a Folha de S. Paulo e Frias em 1977.<BR><EM>Beatriz</EM> - Em
1977, o Boris Casoy assume a redação da Folha. São tirados todos os nomes dos
Frias do expediente, que só vão ser recolocados no jornal em 1984, na época das
Diretas. É toda uma jogada de marketing da Folha. Se você repensar hoje o
Projeto Folha, ele está muito longe de qualquer análise que diga: ali tínhamos
uma redação neutra. Mas as pessoas continuam lendo o projeto Folha como isso.
Como um momento em que a Folha vai sair de tudo isso como se nada desse passado
tivesse a ver com a família Frias, e vai entrar limpa para a história, nesse
momento redemocrático do País (as Diretas), o que não é
verdade.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Como os jornalistas que já leram a sua tese a
receberam?<BR><EM>Beatriz</EM> - A tese fez muita gente pular. Muitos
jornalistas não aguentam ver. Por mais que sejam críticos, preferem dizer: o
historiador errou na sua análise.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Durante a elaboração da
tese, foi difícil a relação historiadora-jornalistas?<BR><EM>Beatriz</EM> - Num
primeiro capítulo eu faço uma longa discussão entre jornalistas e historiadores.
Como nós dois estamos fazendo uma história do tempo presente. Só que às vezes o
jornalista não percebe que ele é nossa fonte, ele não faz uma reflexão. Vocês
fazem a história do imediato e a gente faz o que se chama uma história do tempo
presente, que é uma reflexão do tempo presente. O que o jornal faz é uma
história do instantâneo, e o historiador vai usar aquilo como fonte. Muito pouco
da imprensa você tem como espaço de reflexão. Você não tem mais isso hoje em
dia. No momento as revistas falam em comportamento, há muito pouca
reflexão.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Ao escrever a tese você se desiludiu com a
imprensa e com os jornalistas?<BR><EM>Beatriz</EM> - O momento dessa tese é um
momento de desilusões. Não existe esse jornalista quixotesco. Ou melhor, não que
ele não exista. Ele existe pontualmente, mas não é o que paira na maioria da
imprensa.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Você encontrou dificuldades para editar a
tese?<BR><EM>Beatriz</EM> - Várias editoras top de linha a pegaram e disseram:
você não entrevistou a família Frias. (Os Frias se negaram a falar com Beatriz)
A Boitempo foi muito legal. Aceitou dividir a tese em dois livros. Queria
escrever mais um capítulo com as 60 horas que eu tenho de entrevista com os
censores e não cabia na tese, e ela topou.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Você fez uma
divulgação grande da tese e deu várias entrevistas que não saíram na grande
imprensa. Isso é censura?<BR><EM>Beatriz</EM> - É uma censura. É mais fácil
denegrir um trabalho do que você tentar dialogar com ele.<BR><EM>UNIDADE</EM> -
No momento do assassinato Herzog como se comportou a
imprensa?<BR><EM>Beatriz</EM> - A Veja foi proibida de falar sobre o Herzog. Tem
um editorial do Mino no qual ele escreve, em dois parágrafos, que ele tem uma
dívida com a população naquele momento, porque não está podendo contar uma
coisa, e ele espera que a visita do Geisel a São Paulo possibilite que um dia a
Veja possa resgatar aquela não-fala, naquele momento. Não-fala é não poder dizer
que o Herzog havia sido assassinado. O ano de 75 é o momento em que Geisel vem
com o discurso da abertura. Naquele momento os jornais continuam sendo
censurados, a autocensura continua presente nas redações. É uma falsa idéia que
a censura está acabando naquele período, não é verdade.<BR><EM>UNIDADE</EM> -
Quando falamos de censura devemos falar dos jornalistas ou dos donos dos
jornais?<BR><EM>Beatriz</EM> - Não dá pra se eximir. Quem tem mais culpa? É o
dono do jornal, é o jornalista? São circunstâncias que se dialogam. Não estou
dizendo que todo jornalista exerceu um papel de colaboração, nem que todas as
empresas de jornalismo foram colaboracionistas. Eu analisei o caso específico de
um grande jornal, mas que você pode estender para outros casos.<BR>Esse termo do
colaboracionismo é um termo que doi de ouvir. Isso reflete muito do país, da
formação, dos processos econômicos.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Muita gente preferiu
não dar depoimento para a tese, não foi?<BR><EM>Beatriz</EM> - Com os Frias eu
fiz várias investidas. Alegaram que não podiam, não tinham tempo. Como um
empresário que vende esse tipo de serviço se recusa a conversar sobre isso? A
minha negociação com o Ággio levou meses e meses, e depois que ele me deu uma
longa entrevista, se sentiu tão mal que me mandou um fax, no dia seguinte, sobre
o que ele entendia de política. É aquela contradição da
contradição.<BR><EM>UNIDADE</EM> - A censura está presente em toda a trajetória
republicana brasileira?<BR><EM>Beatriz</EM> - Eu tento mapear a censura na
República, mostrando que ela não é exclusiva de momentos de exceção. No Brasil,
mesmo em momentos democráticos ela existiu.<BR><EM>UNIDADE</EM> - Qual é a cara
dessa censura?<BR><EM>Beatriz</EM> - Ela tem uma capa de moral e bons costumes,
que em períodos de exceção se divide em política. Mas para mim a censura é
sempre política, porque ela está sempre querendo regular o ato político do
cidadão."<BR>PS: O livro e a matéria são antigos. Trouxe de volta o assunto para
mostrar que mídia ruim, de fato, "mata"</SPAN></DIV></DIV></DIV></BODY></HTML>