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<DIV><BR></DIV>
<DIV>&nbsp;</DIV>
<DIV><FONT face=Forte color=#ff0000 size=6>Carta O Berro<FONT 
size=3>..................................................................................................repassem</FONT></FONT></DIV>
<DIV>&nbsp;</DIV>
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<DIV><IMG alt="" hspace=0 src="cid:015c01c97c16$a4f823a0$0200a8c0@vcaixe" 
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src="http://200.169.228.51/arquivosCartaMaior/FOTO/47/foto_mat_22609.jpg"> 
<P class=titulo><FONT size=5><STRONG>Os limites do capital são os limites da 
Terra</STRONG></FONT> </P>
<P class=linhafina>Em 1961 precisávamos de metade da Terra para atender as 
demandas humanas. Em 1981 empatávamos: precisávamos de um Terra inteira. Em 1995 
já ultrapassamos em 10% de sua capacidade de regeneração, mas era ainda 
suportável. Em 2008 passamos de 40% e a Terra está dando sinais inequívocos de 
que já não agüenta mais. Se mantivermos o crescimento do PIB mundial entre 2-3% 
ao ano, em 2050 vamos precisar de duas Terras, o que é impossível. A análise é 
de Leornado Boff, em seu artigo de estréia como colunista da Carta Maior.</P>
<P class=headline-link>Leonardo Boff</P>
<P class=texto>Uma semana após o estouro da bolha econômico-financeira, no dia 
23 de setembro, ocorreu o assim chamado <I>Earth Overshoot Day</I> , quer dizer, 
"o dia da ultrapassagem da Terra". Grandes institutos que acompanham 
sistematicamente o estado da Terra anunciaram: a partir deste dia o consumo da 
humanidade ultrapassou em 40% a capacidade de suporte e regeneração do 
sistema-Terra. Traduzindo: a humanidade está consumindo um planeta inteiro e 
mais 40% dele que não existe. O resultado é a manifestação insofismável da 
insustentabilidade global da Terra e do sistema de produção e consumo imperante. 
Entramos no vermelho e assim não poderemos continuar porque não temos mais 
fundos para cobrir nossas dívidas ecológicas. <BR><BR>Esta notícia, alarmante e 
ameaçadora, ganhou apenas algumas linhas na parte internacional dos jornais, ao 
contrário da outra que até hoje ocupa as manchetes dos meios de comunicação e os 
principais noticiários de televisão. Lógico, nem poderia ser diferente. O que 
estrutura as sociedades mundiais, como há muitos anos o analisou Polaniy em seu 
famoso livro <I>A Grande Transformação</I>, não é nem a política nem a ética e 
muito menos a ecologia, mas unicamente a economia. Tudo virou mercadoria, 
inclusive a própria Terra. E a economia submeteu a si a política e mandou para o 
limbo a ética.<BR><BR>Até hoje somos castigados dia a dia a ler mais e mais 
relatórios e análises da crise econômico-financeira como se somente ela 
constituisse a realidade realmente existente. Tudo o mais é secundarizado ou 
silenciado.<BR><BR>A discussão dominante se restringe a esta questão: que 
correções importa fazer para salvar o capitalismo e regular os mercados? Assim 
poderíamos continuar <I>as usual</I> a fazer nossos negócios dentro da lógica 
própria do capital que é: quanto posso ganhar com o menor investimento possível, 
no lapso de tempo mais curto e com mais chances de aumentar o meu poder de 
competição e de acumulação? Tudo isso tem um preço: a delapidação da natureza e 
o esquecimento da solidariedade generacional para com os que virão depois de 
nós. Eles precisam também satisfazer suas necessidades e habitar um planeta 
minimamente saudável. Mas esta não é a preocupação nem o discurso dos principais 
atores econômicos mundiais mesmo da maioria dos Estados, como o brasileiro que, 
nesta questão, é administrado por analfabetos ecológicos.<BR><BR>Poucos são os 
que colocam a questão axial: afinal se trata de salvar o sistema ou resolver os 
problemas da humanidade? Esta é constituída em grande parte por sobreviventes de 
uma tribulação que não conhece pausa nem fim, provocada exatamente por um 
sistema econômico e por políticas que beneficiam apenas 20% da humanidade, 
deixando os demais 80% a comer migualhas ou entregues à sua própria sorte. 
Curiosamente, as vitimas que são a maioria sequer estão presentes ou 
representadas nos foros em que se discute o caos econômico atual. E <I>pour 
cause</I>, para o mercado são tidos como zeros econômicos, pois o que produzem e 
o que consomem é irrelevante para contabilidade geral do sistema.<BR><BR>A crise 
atual constitui uma oportunidade única de a humanidade parar, pensar, ver onde 
se cometeram erros, como evitá-los e que rumos novos devemos conjuntamente 
construir para sair da crise, preservar a natureza e projetar um horizonte de 
esperança, promissor para toda a comunidade de vida, incluídas as pessoas 
humanas. Trata-se sem mais nem menos de articular um novo padrão de produção e 
de consumo com uma repartição mais equânime dos benefícios naturais e 
tecnológicos, respeitando a capacidade de suporte de cada ecosistema, do 
conjunto do sistema-Terra e vivendo em harmonia com a natureza. <BR><BR>Milkahil 
Gorbachev, presidente da Cruz Verde Internacional e um dos principais animadores 
da Carta da Terra, grupo o qual pertenço, advertiu recentemente: Precisamos de 
um novo paradigma de civilização porque o atual chegou ao seu fim e exauriu suas 
possibilidades. Temos que chegar a um consenso sobre novos valores. Em 30 ou 40 
anos a Terra poderá existir sem nós.<BR><BR>A busca de um novo paradigma 
civilizatório é condição de nossa sobrevivência como espécie. Assim como está 
não podemos continuar. Na última página de seu livro A era dos extremos diz 
enfaticamente Eric Hobsbawm: Nosso mundo corre o risco de explosão e de 
implosão. Tem de mudar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a 
mudança da sociedade é a escuridão.<BR><BR>Importa entender que estamos 
enredados em quatro grandes crises: duas conjunturais – a econômica e a 
alimentar – e duas estruturais – a energética e a climática. Todas elas estão 
interligadas e a solução deve ser includente. Não dá para se ater apenas à 
questão econômica, como é predominante nos dabates atuais. Deve-se começar pelas 
crises estruturais pois que se não forem bem encaminhadas, tornarão 
insustentáveis todas as demais. <BR><BR>As crises estruturais, portanto, são as 
que mais atenção merecem. A crise energética revela que a matriz baseada na 
energia fóssil que movimenta 80% da máquina produtiva mundial tem dias contados. 
Ou inventamos energias alternativas ou entraremos em poucos anos num 
incomensurável colapso.<BR><BR>A crise climática possui traços de tragédia. Não 
estamos indo ao encontro dela. Já estamos dentro dela. A Terra já começou a se 
aquecer. A roda começou a girar e nao há mais como pará-la, apenas diminuir sua 
velocidade ao minimizar seus efeitos catastróficos e ao adaptar-se a ela. 
Bilhões e bilhões de dólares devem ser investidos anualmente para estabilzar o 
clima entorno de 2 a 3 graus Celsius já que seu aquecimento poderá ficar entre 
1,6 a 6 graus, o que poderia configurar uma devastação gigantesca da 
biodiversidade e o holocausto de milhões de seres humanos.<BR><BR>De todas as 
formas, mesmo mitigado, este aquecimento vai produzir transtornos significativos 
no equilíbrio climático da Terra e provocar nos próximos anos cerca de 150-200 
milhões de refugiados climáticos segundo dados fornecidos pelo atual Presidente 
da Assembléia Geral da ONU, Miguel d'Escoto, em seu discurso inaugural em meados 
de outubro de 2008. E estes dificilmente aceitarão o veredito de morte sobre 
suas vidas. Romperão fronteiras nacionais, desestabilizando politicamente muitas 
nações.<BR><BR>Estas duas crises estruturais vão inviabilizar o projeto do 
capital. Ele partia do falso pressuposto de que a Terra é uma espécie de baú do 
qual podemos tirar recursos indefinidamente. Hoje ficou claro que a Terra é um 
planeta pequeno, velho e limitado que não suporta um projeto de exploração 
ilimitada..<BR><BR>Em 1961 precisávamos de metade da Terra para atender as 
demandas humanas. Em 1981 empatávamos: precisávamos de um Terra inteira. Em 1995 
já ultrapassamos em 10% de sua capacidade de regeneração, mas era ainda 
suportável. Em 2008 passamos de 40% e a Terra está dando sinais inequívocos de 
que já não agüenta mais. Se mantivermos o crescimento do PIB mundial entre 2-3% 
ao ano, em 2050 vamos precisar de duas Terras, o que é impossível. Mas não 
chegaremos lá. Resta ainda lembrar que entre 1900 quando a humanidade tinha 1,6 
bilhões de habitantes e 2008 com 6,7 bilhões, o consumo aumentou 16 vezes. Se os 
paises ricos quissessem generalizar para toda a humanidade o seu bem-estar - 
cálculos já foram feitos - iríamos precisar de duas Terras iguais a 
nossa.<BR><BR>A crise de 1929 dava por descontada a sustentabilidade da Terra. A 
nossa não pode mais contar com este fato e com a abundancia dos recursos 
naturais. Nenhuma solução meramente econômica da crise pode suprir este déficit 
da Terra. Não considerar este dado torna a análise manca naquilo que é a 
determinação fundamental e a nova centralidade.<BR><BR>Tudo isso nos convence de 
que a crise do capital não é crise cíclica. É crise terminal. Em 300 anos de 
hegemonia praticamente mundial, esse modo de produção com sua expressão 
política, o liberalismo, destruiu com sua voracidade desenfreada, as bases que o 
sustentam: a força de trabalho, substituindo-a pela máquina e a natureza 
devastando-a a ponto de ela não conseguir, sozinha, se auto-regenerar. Por mais 
estragemas que seus ideólogos vindos da tradição marxiana, keneysiana ou outras 
tentem inventar saídas para este corpo moribundo, elas não seráo capazes de 
reanimáa-lo. Suas dores não são de parto de um novo ser mas dores de um 
moribundo. Ele não morrerá nem hoje nem amanhã. Possui capacidade de prolongar 
sua agonia mas esgotou sua virtualidadae de nos oferecer um futuro dicernível. 
Quem o está matando não somos nós, já que não nos cabe matá-lo mas superá-lo, na 
boa tradição marxiana bem lembrada por Chico Oliveria em sua lúcida entrevista, 
mas a própria natureza e a Terra. <BR><BR>Repetimos: os limites do capitalismo 
são os limites da Terra. Já encostamos nestes limites tanto da Terra quanto do 
capitalismo. A continuar seremos destruídos por Gaia pois ela, no processo 
evolucionário, sempre elimina aquelas espécies que de forma persistente e 
continuada ameaçam a todas as demais. Nós, <I>homo sapiens e demens</I>, nos 
fizemos, na dura expressão do grande biólogo E. Wilson, o Satã da Terra, quando 
nossa vocação era o de sermos seu cuidador, guardião e anjo bom.<BR><BR>Para 
onde iremos? Nem o Papa nem o Dalai Lama, nem Barack Obama nem muito menos os 
economistas nos poderão apontar uma solução. Mas pelo menos podemos indicar uma 
direção. Se esta estiver certa, o caminho poderá fazer curvas, subir e descer e 
até conhecer atalhos, esta direção nos levará a uma terra na qual os seres 
humanos podem ainda viver humananente e tratar com cuidado, com compaixão e com 
amor a Terra, Pacha Mama, Nana e nossa Grande Mãe.<BR><BR>Esta direção, como 
tantos outros já o assinalaram, se assenta nestes cinco eixos: (1) um uso 
sustentável, responsável e solidário dos limitados recursos e serviços da 
natureza; (2) o valor de uso dos bens deve ter prioridade sobre seu valor de 
troca; (3) um controle democrático deve ser construído nas relações sociais, 
especialmente sobre os mercados e os capitais especulativos; (4) o ethos mínimo 
mundial deve nascer do intercâmbio multicultural, dando ênfase à ética do 
cuidado, da compaixão, da cooperação e da responsabilidade universal; (5) a 
espiritualidade, como expressão da singularidade humana e não como monopólio das 
religiões, deve ser incentivada como uma espécie de aura benfazeja que acompanha 
a trajetória humana, pois ancora o ser humano e a história numa dimensão para 
além do espaço e do tempo, conferindo sentido à nossa curta passagem por este 
pequeno planeta.<BR><BR>Devemos crer, como nos ensinam os cosmólogos 
contemporâneos, nas virtualidades escondidas naquela Energia de fundo da qual 
tudo provém, que sustenta o universo, que atua por detrás de cada ser e que 
subjaz a todos os eventos históricos e que permite emergências surpreendentes. É 
do caos que nasce a nova ordem. Devemos fazer de tudo para que o atual caos não 
seja destrutivo mas criativo. Então sobrevivemos com o mesmo destino da Terra, a 
única casa comum que temos para morar.<BR></P></DIV></BODY></HTML>