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<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO.
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
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<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
class=noticiadata>22.12.08 - </SPAN><o:p></o:p></P></TD>
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<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN class=noticiatitulo><FONT
size=5><STRONG>Natal, singelos propósitos</STRONG></FONT></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><SPAN
class=noticiatitulo></SPAN><BR><SPAN class=noticiaautor>Frei Betto
*</SPAN><o:p></o:p></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><BR><SPAN
class=noticiacidade>Adital - </SPAN><SPAN
class=noticiatexto><o:p></o:p></SPAN></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><BR>Neste Natal, guardarei em
caixas bem fechadas o que me transmuta naquele que não sou: a inveja, o ciúme, a
sede de vingança, e todos os ressentimentos que me corroem as vísceras. Lacradas
as caixas, atirarei todas nas profundezas do mar do olvido. <o:p></o:p></P>
<P>Neste Natal, esvaziarei o escaninho de minhas torpes intenções; as gavetas de
tantas vãs ilusões; os armários de compulsivas ambições. De pés descalços,
trilharei a senda saudável de uma existência modesta, por vezes solitária,
sempre solidária.<o:p></o:p></P>
<P>Não darei ouvidos ao crocitar dos corvos em minhas janelas, nem ficarei
indiferente às aquarelas pinceladas pela dor alheia, e manterei vedada a chaminé
à entrada consumista de Papai Noel.<o:p></o:p></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt">
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Tecerei, com as agulhas do acalanto e os fios invisíveis do mistério, o tapete
promissor dos sonhos que me fomentam o entusiasmo. Recolherei as bandeiras da
altivez militante e, numa caneca de barro, derramarei singelos propósitos:
refrear a língua de maldizer outrem; reconhecer as próprias fraquezas; exercer a
difícil arte de perdoar. Sorverei de um só gole até inebriar-me de compaixão.
<o:p></o:p></P>
<P>Armarei, na varanda de casa, uma árvore de Natal cujo tronco será da mesma
madeira que os princípios que me norteiam os passos; os galhos, as sedutoras
vias às quais ousei dizer não; as flores, a paz colhida ao enclausurar-me no
silêncio interior; os frutos, essa esperança-lagarta que insiste em
metamorfosear-se em utopia sobrevoando o pessimismo que me
assalta.<o:p></o:p></P>
<P>Aos pés de minha árvore deixarei vazios os sapatos de minhas erráticas
peregrinações ao mundo inconsútil dos apegos que me sonegam o que a vida melhor
oferece: a experiência amorosa de transcendê-la. Ao lado, minha lista de
pedidos: a leveza imponderável da meditação; o dom de respeitar o limite das
palavras; a felicidade de saciar-me na brevidade dos meus dias.<o:p></o:p></P>
<P>Neste Natal, montarei no canto da sala o presépio de minhas inquietudes. No
lugar de franciscanos animais, a Declaração Universal dos Direitos Humanos; como
são José, um árabe fiel ao Alcorão; Maria, uma jovem judia semelhante a de
Nazaré; Jesus, a criança africana carcomida pela fome.<o:p></o:p></P>
<P>Tragam os reis magos três oferendas: o ramo de oliveira preso ao bico da
pomba que anunciou a Noé o fim do dilúvio; a brisa suave que soprou sobre Elias;
o pão repartido na estalagem de Emaús.<o:p></o:p></P>
<P>Não celebrarei liturgias solenes em dissonância com o Glória cantado pelos
anjos do presépio; não me fartarei em ceias pantagruélicas enquanto o Menino se
abriga ao relento num cocho; nem darei presentes que me doem no bolso e no
coração, embalados em falsos sentimentos.<o:p></o:p></P>
<P>Sim, me farei presente lá onde a família de sem-teto, escorraçada de Belém,
ocupa um pedaço de terra nas cercanias da cidade para que do ventre de Maria
brote a certeza de que a justiça haverá de brilhar como a estrela de
Davi.<o:p></o:p></P>
<P>Neste Natal, serei todo orações, dançarei ao som das cítaras do reino de
Salomão, sairei pelas ruas cantarolando salmos, despirei todos os adereços de
neve e, neste país tropical, deixarei que o sol pouse em minha
alma.<o:p></o:p></P>
<P>Colherei as lágrimas dos desesperados para regar meu jardim de girassóis, e
arrancarei os impropérios da boca dos irados para revogar a lei do talião. Nos
becos da cidade, celebrarei com os bêbados, os mendigos, as prostitutas, a quem
tratarei por um único nome: Emanuel. E, num grande circo místico, buscarei com
eles a resposta à pergunta que jamais se cala: "o que será que será que cantam
os poetas mais delirantes e que não tem governo nem nunca terá?"<o:p></o:p></P>
<P>Neste Natal, rogo a Deus ressuscitar a criança escondida em algum recanto de
minha memória, a que um dia fui, menino que sabia confiar e, desprovido do pudor
do ócio, livre das agruras do tempo, era capaz de imprimir fantasias coloridas
ao lado obscuro da vida.<o:p></o:p></P>
<P>Quero um Natal de brindes à alegria de viver, hinos à gratidão da fé, odes à
inefável magia da amizade. Natal cujo presépio seja o meu próprio coração, no
qual o Menino Jesus desfaça laços e faça desabrochar todo o amor que se oculta
nos sombrios porões do meu ego.<o:p></o:p></P>
<P>[Autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros
livros].<o:p></o:p></P>
<P class=MsoNormal style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><BR><SPAN class=noticiaautor>*
Escritor e assessor de movimentos sociais</SPAN><o:p></o:p></P>
<P class=MsoNormal
style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt"><o:p> </o:p></P></DIV></BODY></HTML>