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<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
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<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO.
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
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<P class=data align=left><IMG height=59
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<P class=data align=left>19 DE NOVEMBRO DE 2008 - 20h12</P>
<H1><FONT color=#ff0000>Clovis Moura: 5 anos sem o "pensador quilombola"
</H1><FONT color=#000000><B>por Diorge Alceno Konrad*</B><BR><BR>
<DIV id=lead style="FONT-FAMILY: Arial, Verdana; BACKGROUND-COLOR: #efefef"
align=left>
<P>"Eu aprendi a me conhecer lendo Clóvis Moura. Sou negro e me vi em
<EM>Brasil: raízes do protesto negro</EM>". (Aílson do Carmo de Souza)</P>
<P>Em 23 de dezembro, faz 5 anos que perdemos Clóvis Moura. De forma antecipada,
e como parte das reflexões sobre a Semana da Consciência Negra, nada mais
apropriado do que homenageá-lo. Sua obra e sua militância foram a melhor síntese
da práxis que uniu a reflexão teórica e a luta por um Brasil de igualdade
racial.[1]</P></DIV><BR>
<DIV id=imagem><IMG
src="http://www.vermelho.org.br/ctt/img_upload/clovis-moura.jpg"><BR></DIV>
<DIV id=artigo>
<P><STRONG>Clóvis Moura e a Consciência Negra</STRONG></P>
<P>Desde que Zumbi passou a ser reconhecido como símbolo da luta antiescravista
brasileira, foi reconsiderada parte de nossa visão de história, não feita por
heróis, mas tendo o Quilombo dos Palmares como personificação e síntese da luta
dos negros, nos mais de 300 anos de escravidão em nosso País, e nos quase 500
anos de luta pela liberdade e contra o preconceito. Foi justamente isto que os
movimentos negros, independente de suas correntes, resgataram, através do 20 de
novembro, Dia da Consciência Negra.</P>
<P>Como já afirmou Clóvis Moura, no clássico e pioneiro Rebeliões da senzala:
quilombos, insurreições, guerrilhas, o quilombo foi a unidade básica de
resistência do escravo. Parafraseando-o, poderíamos afirmar que Palmares, como o
maior de todos os quilombos, foi e é a unidade básica simbólica desta
resistência contra o regime servil. Por outro lado, o quilombola, como afirmou o
próprio autor nesta sua obra paradigmática, “era o elemento que, como sujeito do
próprio regime escravocrata, negava-o material e socialmente, solapando o tipo
de trabalho que existia e dinamizava a estratificação social existente”. No
quilombo, o agente fundamental do processo histórico passava de escravo a
quilombola, pois, “quer no seu sentido econômico quer na sua significação
social, o escravo fugido era um elemento da negação da ordem
estabelecida”.[2]</P>
<P>Foi também Clóvis Moura, historiador, sociólogo, jornalista e poeta, um dos
que mais no ensinou sobre a relação entre a escravidão em nosso passado
histórico e a relação com o racismo contemporâneo.</P>
<P>A identidade étnica da comunidade negra brasileira tem sido uma afirmação e
uma conquista do movimento negro e de todos os que são comprometidos com suas
bandeiras. O 20 de novembro (dia da morte de Zumbi dos Palmares), em
substituição ao 13 de maio (Abolição da Escravatura), representa, há mais de 30
anos, o salto da consciência pelo resgate da negritude como um processo de
auto-estima e valorização da cultura afro-descendente no Brasil. E a trajetória
de resistência de Zumbi e dos quilombolas sempre será um norte para seus
pósteros, na batalha atual pela consciência negra de homens e de mulheres em
todos os cantos do Brasil.</P>
<P>Através de seu estudo, compreendemos a contribuição dos negros por sua
liberdade, conquistada na luta contra um modo de produção escravista implantado
de fora para dentro, continuada na contraposição a opressão racial, após a
abolição até os dias atuais. A aproximação de momentos históricos aparentemente
tão distantes, 1695 (a morte de Zumbi) e a atualidade (sua eterna ressurreição
histórica e política) têm como significado a luta pela liberdade e contra a
discriminação racial, luta absolutamente atemporal. Este significado envolve
todos aqueles que buscam, efetivamente, uma sociedade onde a igualdade não seja
apenas preceito legal, mas concretude histórica. No processo de luta pela
igualdade social e contra a discriminação étnica, os quilombos se constituíram
no símbolo dos refúgios criados pelos negros para fugir das desigualdades, da
impiedade com que eram tratados pela sociedade. </P>
<P>A história, enquanto processo, não existiria se não fosse pela mudança. Mas
no Brasil, os processos de mudanças são incompletos. A luta contra a escravidão
não resultou na igualdade racial. Pelo contrário, a exploração econômica e
social do escravo, justificada e construída pela discriminação cultural e
étnica, resultou no racismo passado e presente, como forma de manutenção
ideológica da dominação de classe, que o fim da escravidão não extinguiu.</P>
<P>O fim da escravidão no Brasil aprofundou a existência dos sem-teto e
sem-terra, de maioria negra. O fim da escravidão no Brasil perpetuou a dominação
de uma classe dominante de maioria branca, que transformou o trabalho
assalariado, um avanço histórico, em novas formas de discriminação, colocando os
descendentes de escravos nos salários mais baixos - quando tiveram acesso a ele,
no desemprego, no subemprego. Esta é a herança mais perversa do "medo branco"
(termo apropriadamente referendado pela historiadora Célia Marinho de Azevedo),
em relação à maioria negra do Brasil, a fim de que esta não tivesse, com o fim
da escravidão, a igualdade social, econômica, política e cultural.</P>
<P>Ainda temos muito a refletir em termos de consciência negra. A
consciência é um processo de construção coletiva e social que reflete sob o
ponto de vista individual. No Brasil, as idéias dominantes e oficiais ainda são
as idéias da classe dominante, hegemonicamente racistas, preconceituosas e
excludentes, mesmo que em tese afirmem o contrário. Portanto, resgatar a
história de Palmares, de João Cândido e da Revolta da Chibata, do Massacre dos
Lanceiros Negros, em Porongos, durante a Revolução Farroupilha, e de tantas
outras formas e exemplos de resistência antiescravista e contra o preconceito
racial enraizado no Brasil, faz parte desta reflexão. Reflexão para a ampliação
da consciência negra, em particular, e da consciência de todos, em geral. No
rumo da construção de uma sociedade na qual a discriminação e o preconceito
étnico, bem como a exploração social e econômica (também fundada na
discriminação e no preconceito), sejam parte do passado de nossa história.</P>
<P>Boa parte disso aprendemos com as obras e os estudos de Clóvis Moura.[3]</P>
<P><BR><STRONG>Clóvis Moura: engajamento como parte da práxis</STRONG> </P>
<P>Clóvis Steiger de Assis Moura nasceu em 10 de julho de 1925, em Amarante, no
Piauí. Jornalista, historiador, poeta, sociólogo, professor e escritor.</P>
<P>Membro de uma família de classe média-baixa, filho de mãe branca e pai negro
tem, entre seus antepassados, um barão do Império prussiano, seu bisavô
Ferdinando Von Steiger; pelo lado paterno, a escrava Carlota, sua avó e escrava
de seu avô, senhor de engenho do Nordeste açucareiro. Clóvis, ainda criança,
mudou-se com a família para Natal (RN), onde residiu de 1935 a 1941. Ali, a
partir da Insurreição Comunista de 1935, passou a simpatizar com as idéias da
esquerda. Iniciou seus estudos num colégio de padres maristas, o Colégio Santo
Antônio. Ainda muito jovem fundou, à revelia dos irmãos maristas, o Grêmio
Cívico-Literário "12 de Outubro", onde eram realizadas reuniões semanais para
discussão de literatura e política. Segundo Moura, o grêmio cresceu e prosperou,
chegando a possuir quarenta membros, participantes ativos, "cada um com seu
patrono à maneira da Academia Brasileira de Letras". Comenta, ainda, que "o
Grêmio contou com sócios honoráveis, como Luís da Câmara Cascudo, Elói de Souza,
dentre outros autores regionais de renome". Possuiu também um jornal literário
de nome O Potiguar, sob sua direção, no qual publicou o primeiro de muitos
artigos sobre o Brasil, este versando sobre a Inconfidência Mineira.</P>
<P>Quando Clóvis Moura e seu irmão se mudaram para Salvador, em 1942, findou-se
o Grêmio, muito conhecido pelos debates e publicações literárias. Na Bahia,
Clóvis não chega a graduar-se em Humanidades naquele ano, e ingressou na
carreira jornalística por meio do jornal O Momento, diário do Partido Comunista
do Brasil - PCB. É quando há o contato com o PCB, em Juazeiro, que se constitui
na oportunidade para que ele se aprofundasse nas teorias marxistas e pecebista
da III e IV Internacionais. Já em 1945 tornou-se militante e, em 1947, elegeu-se
deputado estadual pelo Partido, mas tem sua candidatura cassada pelo Tribunal
Eleitoral, devido a uma manobra política proveniente dos partidos de ocasião, em
torno de um comício no qual estava em Juazeiro, no dia 1º de maio.[4]</P>
<P>Em seguida, transferiu-se para São Paulo, atuando no periódico Notícias de
Hoje e na Frente Cultural do PCB, ao lado de Caio Prado Jr., Villanova Artigas e
Artur Neves e outros. Na ruptura dos comunistas, em 1962, foi um dos raros
intelectuais a acompanhar o PCdoB.</P>
<P>A partir dos anos 1970, destacou-se pela militância junto ao movimento negro
brasileiro. Participou da criação, em 1975, do Instituto Brasileiro de Estudos
Africanistas, uma organização voltada ao estudo do racismo no Brasil e que
promovia cursos, debates, seminários, etc., juntamente com o movimento negro,
quando este começava a se reorganizar.</P>
<P>Ainda na década de 1970, contribuiu para a construção do Movimento Negro
Unificado (MNU), escrevendo o programa da entidade.</P>
<P>Em 1980, nos estertores da Ditadura Civil-Militar, depois de anos de
repressão política, ao analisar os resultados do Censo do IBGE, escreveu que “a
identidade e a consciência étnicas são profundamente escamoteada pelos
brasileiros”. Na ocasião, alertava para o fato de que a negação da
identidade negra demonstrava como o brasileiro fugia da sua verdade étnica,
procurando, através de “simbolismos de fuga”, situar-se “o mais possível próximo
do modelo de cor tido como superior”.</P>
<P>Até a sua morte, nos finais de 2003, no combate à imagem de que os
afro-descendentes teriam sido passivos perante aos suplícios a que foram
submetidos no País, que Moura obteve o maior reconhecimento. Suas teses foram
demonstradas seja pelas revoltas escravas, as quais foram muitas, seja pelo
processo de aquilombamento.</P>
<P>Pouco antes de morrer, estava muito próximo do Movimento dos Trabalhadores
Sem-Terra (MST), quando produziu uma história de Canudos, símbolo da luta da
resistência pela terra, além de produzir textos para a luta do movimento. Nos
últimos anos se considerava um “comunista sem partido”, produzindo ensaios e
trabalhos para a editora Expressão Popular.</P>
<P>Em toda a sua trajetória, foi um importante estudioso dos movimentos sociais
brasileiros, particularmente dos movimentos do campo, sem deixar de estender seu
principal foco para a questão dos negros no Brasil.</P>
<P>Também estudou a Frente Negra Brasileira, criada em 1931 e fechada por
Getúlio Vargas, no início do Estado Novo (1937-1945). Para Clóvis Moura, esta
frente, que chegou a ter mais de 70 mil membros ainda está a espera de estudos
mais consistentes.</P>
<P>Tinha aversão aos estudiosos de gabinete, os quais sempre trataram o povo e
os movimentos sociais apenas como objeto de suas pesquisas, de forma distante e
fria. Ao contrário daqueles, Clóvis Moura fez parte da pesquisa que fazia, sendo
um ator do processo que estudava ou herdeiro das tradições de lutas que buscava
compreender. Por isso, a militância dos trabalhadores, dos operários, dos negros
e dos camponeses o reconhecem como aquele que colocou a sua arte e seu
conhecimento a serviço da libertação dos oprimidos, sendo um intelectual
indignado e, ao mesmo tempo, generoso, movido pela razão, mas também pela
emoção.</P>
<P>Escreveu, entre outros, Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha (1964),
O preconceito de cor na literatura de cordel (1976), O negro: de bom escravo a
mau cidadão? (1976), Os quilombos e a rebelião negra (1981), Brasil: raízes do
protesto negro (1983), Diário da Guerrilha do Araguaia (Apresentação, de 1985),
Quilombos – resistência ao escravismo (1987), Sociologia do negro brasileiro
(1988), História do negro brasileiro (1989), As injustiças de Clio: o negro na
historiografia brasileira (1990), Dialética radical do Brasil Negro (1994),
Sociologia política da guerra camponesa de Canudos: da destruição de Belo Monte
ao aparecimento do MST (2000), Os quilombos na dinâmica social do Brasil (2001),
Dicionário da escravidão no Brasil (2004)[5] e o clássico Rebeliões de senzala,
editado pela primeira vez em 1959, com reedições em 1972, 1981 e 1988.</P>
<P>Em seus estudos, como bem observou José Carlos Ruy,[6] destacaram-se a
premissa teórica marxista fundamental: a existência da luta de classes na
sociedade escravista também existiu luta de classes, abrindo “uma vertente que
levaria, nos anos seguintes, a um reconhecimento aprofundado da luta escrava e
sua importância para a dinâmica da sociedade brasileira”, levando ao
“reconhecimento de que a história do negro no Brasil se confunde com a história
do povo brasileiro”. Sobretudo com Rebeliões, podemos “compreender como, a
partir daquelas contradições de nosso passado histórico, o Brasil tornou-se o
que é hoje”, pois “foi a relevância numérica da escravidão, seu tempo de duração
e a forma como foi abolida no Brasil que "determinaram a emergência do modelo do
capitalismo dependente em que vivemos até hoje". Para Ruy, Rebeliões da Senzala
é, talvez, “o primeiro estudo onde a história do escravo (e do negro) brasileiro
é colocada no seu justo lugar de história do povo brasileiro, e não de um
segmento populacional à parte, específico e segmentado”, pois o livro “reata,
assim, a história do povo brasileiro de nossos dias com a história daqueles que,
antes de 1888, mourejavam sob o instituto infame e desumano que foi a
escravidão”.[7]</P>
<P>Nesta obra de Clóvis Moura podemos compreender o fundamento da sociedade
escravista, não apenas pela dominação dos senhores sobre os escravos, mas a sua
essência: de que, como o próprio autor considerou na conclusão de Rebeliões: “as
revoltas dos escravos, como apresentamos neste livro, formaram um dos termos de
antinomia dessa sociedade”. Ou seja, não há como entender a dominação do modo de
produção escravista no Brasil sem estudar o seu antônimo, a resistência de
classe perpetrada pelos próprios escravos. Para Moura, que alarga esse
entendimento mais ainda, as revoltas não foram apenas um dos termos dessa
antinomia. Pelo contrário, “foram um dos seus elementos mais dinâmicos, porque
contribuíram para solapar as bases econômicas desse tipo de sociedade”, criando
“as premissas para que, no seu lugar, surgisse outro tipo” de sociedade. Assim,
completa o autor, “as lutas dos escravos, ao invés de consolidar, enfraqueceram
aquele regime de trabalho, fato que, aliado a outros fatores, levou o mesmo a
ser substituído pelo trabalho livre”.[8]</P>
<P>É justamente esta a inovação central da obra de Clóvis Moura, em
contraposição a uma historiografia tradicional que apenas apresenta o escravo
como elemento positivo da sociedade escravista, no qual o escravo aceitou
passivamente a sujeição que lhe era imposta pelos senhores de escravos. Para
Moura, mesmo quando a resistência era passiva, ela contribuía, no geral, para a
luta contra a própria escravidão.</P>
<P>Para Clóvis Moura, esta resistência veio de várias formas: as formas
passivas: a) o suicídio, a depressão psicológica (o banzo); b) o assassínio dos
próprios filhos ou de outros elementos escravos; c) a fuga tradicional; d) a
fuga coletiva; e e) a organização de quilombos longes das cidades; as formas
ativas: 1) as revoltas cotidianas pela tomada do poder; 2) as guerrilhas nas
matas e estradas; 3) a participação em movimentos não escravos; 4) a resistência
armada dos quilombos às invasões repressoras; e 5) a violência pessoal ou
coletiva contra senhores ou feitores.[9]</P>
<P>Para José Carlos Ruy, ao aprofundar o conhecimento de nosso passado, e
demonstrar que a história da história da escravidão faz parte do fio contínuo da
história de nosso povo, a obra de Clóvis Moura aprofundou, também, e inovou o
pensamento marxista e contribuiu para aprofundar a consciência socialista e o
anti-preconceito das gerações seguintes de historiadores e militantes do
movimento revolucionário e anti-racista brasileiro. Para o autor, “uma dessas
inovações é a lição fundamental, aprofundada nas obras que vieram depois de
Rebeliões da Senzala, de que, em sociedades como as nossas, os conceitos de
classe e raça são inseparáveis para a compreensão da situação das classes
dominadas”, pois. elas “imbricam-se, e conferem características próprias às
relações de dominação em nossas sociedades”. </P>
<P>Por outro lado, continua Ruy, Rebeliões da Senzala “preparou também o
rompimento com os esquemas fossilizados do oficialismo marxista e eurocêntrico
de então, que impunham uma evolução das sociedades obrigatoriamente em cinco
estágios sucessivos - comunidade primitiva, escravismo, feudalismo, capitalismo
e socialismo”. Na obra foi demonstrado o nosso passado escravista colonial, de
onde o modo de produção capitalista emergiu, depois de uma lenta transição, da
desagregação do escravismo - e não do feudalismo, como na versão clássica
européia. </P>
<P>Ruy salienta que Rebeliões da Senzala mostrou que a complexidade da formação
social brasileira teve influências externas que interagiram com a dinâmica
interna, fazendo com que nossa história resultasse da combinação deste processo
colonial e neocolonial (e imperialista, hoje), com os interesses que dominam
nossa sociedade até os dias atuais.</P>
<P>Finalmente, como enfatiza José Carlos Ruy, o conjunto da obra de Clóvis
Moura, se sintetiza “na rebeldia escrava, na consideração da ação dirigida
contra a manutenção do escravismo como principal elemento para a compreensão das
contradições fundamentais não só daquele modo de produção, como do capitalismo
que o sucedeu, e das formas políticas que, sobreviventes do passado, estão ainda
baseadas num autoritarismo gerado e nutrido no domínio da senzala pela
casa-grande”. </P>
<P>Este domínio desembocava no conflito, sendo este “parte cotidiana da vida do
escravo”, podendo “variar de grau e intensidade, de pequenas resistências
diárias no trabalho, à morte de feitores e senhores ou à rebelião aberta, e sua
eclosão quebrava todos os véus, dilacerava os disfarces que a negociação
construía, opondo as duas facetas contraditórias e inconciliáveis daquela
relação, o senhor e o escravo”. </P>
<P>Com esta lógica argumentativa, que explicita o processo real de nossa
formação histórica, desfaz-se o mito da negociação para o fim da escravidão.
Desfaz-se o mito da democracia racial, construída nos tempos coloniais e
escravistas, tão ao gosto das análises freyreanas de nossa classe dominante.
Desfaz-se o mito da passividade dos segmentos sociais dominados. Desfaz-se o
mito de uma historiografia comprometida com o status quo. </P>
<P>O significado da obras de Clóvis Moura nos faz entender melhor, porque o
intelectual, jornalista, historiador, poeta, sociólogo, professor e escritor,
autor de Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas, se tornou
um marco como intérprete do pensamento social brasileiro, sendo parte da
pesquisa que fazia, o que o fez juntar-se aos trabalhadores, aos operários, aos
negros e camponeses, colocando seu conhecimento para a libertação de todos os
oprimidos, em especial para a continuidade da construção da consciência negra em
nosso País.</P>
<P><STRONG>Notas</STRONG></P>
<P>[1] As reflexões apresentadas abaixo contém extratos do seguinte artigo:
KONRAD, Diorge Alceno. Na senzala a resistência, no quilombo a liberdade: a obra
de Clóvis Moura. In: SANTOS, Júlio Ricardo Quevedo dos; DUTRA, Maria Rita Py
(orgs.). Nas trilhas da negritude: consciência e afirmação. 1ª ed. Porto Alegre:
Martins Livreiro, 2007, p. 115-133. </P>
<P>[2] Estas considerações conclusivas não são apresentadas na primeira edição
de Rebeliões de senzala, lançada peal Edições Zumbi, em 1959. Conferi-las em
MOURA, Clóvis. Rebeliões de senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas. 4 ed.
Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988, p. 269 e 271.</P>
<P>[3] Tive a honra de conhecer Clóvis Moura em Porto Alegre, em 1994, em
lançamento-debate de sua obra Dialética radical do Brasil Negro. Tornei a
revê-lo no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, em 1999, no
Seminário “40 anos de Rebeliões de senzala”, o qual teve a participação também
de Soraya Moura, José Carlos Ruy, Octávio Ianni, Robert Slenes, Élide Bastos,
Ângela Figueiredo, Sílvia Hunold Lara e Lívio Sansone.</P>
<P>[4] Informações mais desenvolvidas sobre a trajetória de Clóvis Moura podem
ser encontradas em MESQUITA. Érika. Clóvis Moura (1923-2003). In. Afro-Ásia, n.
31, Salvador, UFBA, p. 337-56. Cf. o texto na íntegra em <A
href="http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/770/77003111.pdf"
target=_blank>http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/770/77003111.pdf</A>. Acesso
em 6/09/2007. Da mesma autora também pode ser consultado o artigo “Clóvis Moura
e a sociologia da práxis”. In. Estudos Afro-Asiáticos, vol. 25, n. 3. Rio de
Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2003. Disponível em: <A
href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-546X2003000300007&script=sci_arttext"
target=_blank>http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-546X2003000300007&script=sci_arttext</A>.
Acesso em 2/05/2005.</P>
<P>[5] No Dicionário, Clóvis Moura destacou mais de 800 verbetes. Esta obra é o
resultado de mais de 30 anos de pesquisa, revelando os aspectos do Brasil
escravocrata e do Brasil escravizado, auxiliando a entender parte da luta e da
cultura brasileira que dura mais de 4 séculos.</P>
<P> </P>
<P>[6] Estudioso da obra de Clóvis Moura, José Carlos Ruy foi seu amigo durante
longos anos e companheiro de movimentos políticos e sociais desde a época da
resistência contra a Ditadura Civil-Militar, até o falecimento do autor,
ocorrido no final de 2003, quando tinha 78 anos.</P>
<P> </P>
<P>[7] Ver as opiniões desenvolvidas por José Carlos Ruy no artigo Clóvis Moura
investigava o passado histórico para compreender melhor as lutas do presente,
publicada na Revista Espaço Acadêmico, n. 32, jan. 2004. Disponível em <A
href="http://www.espacoacademico.com.br/032/32cruy.htm"
target=_blank>http://www.espacoacademico.com.br/032/32cruy.htm</A>. Acesso em
2/05/2005.</P>
<P> </P>
<P>[8] As considerações acima se encontram em MOURA, Clóvis, op. cit., 1988, p.
269.</P>
<P> </P>
<P>[9] Idem, p. 273.<BR></P></DIV><BR>
<DIV id=fonte><BR>
<HR SIZE=1>
<DIV id=autor><IMG src="http://www.vermelho.org.br/ctt/img_upload/aut_54.jpg"
align=left>
<P><STRONG>*Diorge Alceno Konrad</STRONG>, Doutor em História Social do Trabalho
pela UNICAMP</P></DIV></DIV></FONT></FONT></FONT></DIV></BODY></HTML>