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<HTML><HEAD><TITLE>Nova pagina 1</TITLE>
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<P align=left><B><FONT face=forte color=#ff0000 size=6>
<MARQUEE scrollAmount=20 scrollDelay=200 width=322>CARTA O BERRO. 
..........repassem.</MARQUEE></FONT></B></P>
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<P class=data align=left><IMG height=59 
src="http://www.vermelho.org.br/imagens/logovermelhonovo.gif" width=175></P>
<P class=data align=left>19 DE NOVEMBRO DE 2008 - 20h12</P>
<H1><FONT color=#ff0000>Clovis Moura: 5 anos sem o "pensador quilombola" 
</H1><FONT color=#000000><B>por Diorge Alceno Konrad*</B><BR><BR>
<DIV id=lead style="FONT-FAMILY: Arial, Verdana; BACKGROUND-COLOR: #efefef" 
align=left>
<P>"Eu aprendi a me conhecer lendo Clóvis Moura. Sou negro e me vi em 
<EM>Brasil: raízes do protesto negro</EM>". (Aílson do Carmo de Souza)</P>
<P>Em 23 de dezembro, faz 5 anos que perdemos Clóvis Moura. De forma antecipada, 
e como parte das reflexões sobre a Semana da Consciência Negra, nada mais 
apropriado do que homenageá-lo. Sua obra e sua militância foram a melhor síntese 
da práxis que uniu a reflexão teórica e a luta por um Brasil de igualdade 
racial.[1]</P></DIV><BR>
<DIV id=imagem><IMG 
src="http://www.vermelho.org.br/ctt/img_upload/clovis-moura.jpg"><BR></DIV>
<DIV id=artigo>
<P><STRONG>Clóvis Moura e a Consciência Negra</STRONG></P>
<P>Desde que Zumbi passou a ser reconhecido como símbolo da luta antiescravista 
brasileira, foi reconsiderada parte de nossa visão de história, não feita por 
heróis, mas tendo o Quilombo dos Palmares como personificação e síntese da luta 
dos negros, nos mais de 300 anos de escravidão em nosso País, e nos quase 500 
anos de luta pela liberdade e contra o preconceito. Foi justamente isto que os 
movimentos negros, independente de suas correntes, resgataram, através do 20 de 
novembro, Dia da Consciência Negra.</P>
<P>Como já afirmou Clóvis Moura, no clássico e pioneiro Rebeliões da senzala: 
quilombos, insurreições, guerrilhas, o quilombo foi a unidade básica de 
resistência do escravo. Parafraseando-o, poderíamos afirmar que Palmares, como o 
maior de todos os quilombos, foi e é a unidade básica simbólica desta 
resistência contra o regime servil. Por outro lado, o quilombola, como afirmou o 
próprio autor nesta sua obra paradigmática, “era o elemento que, como sujeito do 
próprio regime escravocrata, negava-o material e socialmente, solapando o tipo 
de trabalho que existia e dinamizava a estratificação social existente”. No 
quilombo, o agente fundamental do processo histórico passava de escravo a 
quilombola, pois, “quer no seu sentido econômico quer na sua significação 
social, o escravo fugido era um elemento da negação da ordem 
estabelecida”.[2]</P>
<P>Foi também Clóvis Moura, historiador, sociólogo, jornalista e poeta, um dos 
que mais no ensinou sobre a relação entre a escravidão em nosso passado 
histórico e a relação com o racismo contemporâneo.</P>
<P>A identidade étnica da comunidade negra brasileira tem sido uma afirmação e 
uma conquista do movimento negro e de todos os que são comprometidos com suas 
bandeiras. O 20 de novembro (dia da morte de Zumbi dos Palmares), em 
substituição ao 13 de maio (Abolição da Escravatura), representa, há mais de 30 
anos, o salto da consciência pelo resgate da negritude como um processo de 
auto-estima e valorização da cultura afro-descendente no Brasil. E a trajetória 
de resistência de Zumbi e dos quilombolas sempre será um norte para seus 
pósteros, na batalha atual pela consciência negra de homens e de mulheres em 
todos os cantos do Brasil.</P>
<P>Através de seu estudo, compreendemos a contribuição dos negros por sua 
liberdade, conquistada na luta contra um modo de produção escravista implantado 
de fora para dentro, continuada na contraposição a opressão racial, após a 
abolição até os dias atuais. A aproximação de momentos históricos aparentemente 
tão distantes, 1695 (a morte de Zumbi) e a atualidade (sua eterna ressurreição 
histórica e política) têm como significado a luta pela liberdade e contra a 
discriminação racial, luta absolutamente atemporal. Este significado envolve 
todos aqueles que buscam, efetivamente, uma sociedade onde a igualdade não seja 
apenas preceito legal, mas concretude histórica. No processo de luta pela 
igualdade social e contra a discriminação étnica, os quilombos se constituíram 
no símbolo dos refúgios criados pelos negros para fugir das desigualdades, da 
impiedade com que eram tratados pela sociedade. </P>
<P>A história, enquanto processo, não existiria se não fosse pela mudança. Mas 
no Brasil, os processos de mudanças são incompletos. A luta contra a escravidão 
não resultou na igualdade racial. Pelo contrário, a exploração econômica e 
social do escravo, justificada e construída pela discriminação cultural e 
étnica, resultou no racismo passado e presente, como forma de manutenção 
ideológica da dominação de classe, que o fim da escravidão não extinguiu.</P>
<P>O fim da escravidão no Brasil aprofundou a existência dos sem-teto e 
sem-terra, de maioria negra. O fim da escravidão no Brasil perpetuou a dominação 
de uma classe dominante de maioria branca, que transformou o trabalho 
assalariado, um avanço histórico, em novas formas de discriminação, colocando os 
descendentes de escravos nos salários mais baixos - quando tiveram acesso a ele, 
no desemprego, no subemprego. Esta é a herança mais perversa do "medo branco" 
(termo apropriadamente referendado pela historiadora Célia Marinho de Azevedo), 
em relação à maioria negra do Brasil, a fim de que esta não tivesse, com o fim 
da escravidão, a igualdade social, econômica, política e cultural.</P>
<P>Ainda temos muito a refletir em termos de consciência negra.&nbsp; A 
consciência é um processo de construção coletiva e social que reflete sob o 
ponto de vista individual. No Brasil, as idéias dominantes e oficiais ainda são 
as idéias da classe dominante, hegemonicamente racistas, preconceituosas e 
excludentes, mesmo que em tese afirmem o contrário. Portanto, resgatar a 
história de Palmares, de João Cândido e da Revolta da Chibata, do Massacre dos 
Lanceiros Negros, em Porongos, durante a Revolução Farroupilha, e de tantas 
outras formas e exemplos de resistência antiescravista e contra o preconceito 
racial enraizado no Brasil, faz parte desta reflexão. Reflexão para a ampliação 
da consciência negra, em particular, e da consciência de todos, em geral. No 
rumo da construção de uma sociedade na qual a discriminação e o preconceito 
étnico, bem como a exploração social e econômica (também fundada na 
discriminação e no preconceito), sejam parte do passado de nossa história.</P>
<P>Boa parte disso aprendemos com as obras e os estudos de Clóvis Moura.[3]</P>
<P><BR><STRONG>Clóvis Moura: engajamento como parte da práxis</STRONG> </P>
<P>Clóvis Steiger de Assis Moura nasceu em 10 de julho de 1925, em Amarante, no 
Piauí. Jornalista, historiador, poeta, sociólogo, professor e escritor.</P>
<P>Membro de uma família de classe média-baixa, filho de mãe branca e pai negro 
tem, entre seus antepassados, um barão do Império prussiano, seu bisavô 
Ferdinando Von Steiger; pelo lado paterno, a escrava Carlota, sua avó e escrava 
de seu avô, senhor de engenho do Nordeste açucareiro. Clóvis, ainda criança, 
mudou-se com a família para Natal (RN), onde residiu de 1935 a 1941. Ali, a 
partir da Insurreição Comunista de 1935, passou a simpatizar com as idéias da 
esquerda. Iniciou seus estudos num colégio de padres maristas, o Colégio Santo 
Antônio. Ainda muito jovem fundou, à revelia dos irmãos maristas, o Grêmio 
Cívico-Literário "12 de Outubro", onde eram realizadas reuniões semanais para 
discussão de literatura e política. Segundo Moura, o grêmio cresceu e prosperou, 
chegando a possuir quarenta membros, participantes ativos, "cada um com seu 
patrono à maneira da Academia Brasileira de Letras". Comenta, ainda, que "o 
Grêmio contou com sócios honoráveis, como Luís da Câmara Cascudo, Elói de Souza, 
dentre outros autores regionais de renome". Possuiu também um jornal literário 
de nome O Potiguar, sob sua direção, no qual publicou o primeiro de muitos 
artigos sobre o Brasil, este versando sobre a Inconfidência Mineira.</P>
<P>Quando Clóvis Moura e seu irmão se mudaram para Salvador, em 1942, findou-se 
o Grêmio, muito conhecido pelos debates e publicações literárias. Na Bahia, 
Clóvis não chega a graduar-se em Humanidades naquele ano, e ingressou na 
carreira jornalística por meio do jornal O Momento, diário do Partido Comunista 
do Brasil - PCB. É quando há o contato com o PCB, em Juazeiro, que se constitui 
na oportunidade para que ele se aprofundasse nas teorias marxistas e pecebista 
da III e IV Internacionais. Já em 1945 tornou-se militante e, em 1947, elegeu-se 
deputado estadual pelo Partido, mas tem sua candidatura cassada pelo Tribunal 
Eleitoral, devido a uma manobra política proveniente dos partidos de ocasião, em 
torno de um comício no qual estava em Juazeiro, no dia 1º de maio.[4]</P>
<P>Em seguida, transferiu-se para São Paulo, atuando no periódico Notícias de 
Hoje e na Frente Cultural do PCB, ao lado de Caio Prado Jr., Villanova Artigas e 
Artur Neves e outros. Na ruptura dos comunistas, em 1962, foi um dos raros 
intelectuais a acompanhar o PCdoB.</P>
<P>A partir dos anos 1970, destacou-se pela militância junto ao movimento negro 
brasileiro. Participou da criação, em 1975, do Instituto Brasileiro de Estudos 
Africanistas, uma organização voltada ao estudo do racismo no Brasil e que 
promovia cursos, debates, seminários, etc., juntamente com o movimento negro, 
quando este começava a se reorganizar.</P>
<P>Ainda na década de 1970, contribuiu para a construção do Movimento Negro 
Unificado (MNU), escrevendo o programa da entidade.</P>
<P>Em 1980, nos estertores da Ditadura Civil-Militar, depois de anos de 
repressão política, ao analisar os resultados do Censo do IBGE, escreveu que “a 
identidade e a consciência étnicas são profundamente escamoteada pelos 
brasileiros”. Na ocasião,&nbsp; alertava para o fato de que a negação da 
identidade negra demonstrava como o brasileiro fugia da sua verdade étnica, 
procurando, através de “simbolismos de fuga”, situar-se “o mais possível próximo 
do modelo de cor tido como superior”.</P>
<P>Até a sua morte, nos finais de 2003, no combate à imagem de que os 
afro-descendentes teriam sido passivos perante aos suplícios a que foram 
submetidos no País, que Moura obteve o maior reconhecimento. Suas teses foram 
demonstradas seja pelas revoltas escravas, as quais foram muitas, seja pelo 
processo de aquilombamento.</P>
<P>Pouco antes de morrer, estava muito próximo do Movimento dos Trabalhadores 
Sem-Terra (MST), quando produziu uma história de Canudos, símbolo da luta da 
resistência pela terra, além de produzir textos para a luta do movimento. Nos 
últimos anos se considerava um “comunista sem partido”, produzindo ensaios e 
trabalhos para a editora Expressão Popular.</P>
<P>Em toda a sua trajetória, foi um importante estudioso dos movimentos sociais 
brasileiros, particularmente dos movimentos do campo, sem deixar de estender seu 
principal foco para a questão dos negros no Brasil.</P>
<P>Também estudou a Frente Negra Brasileira, criada em 1931 e fechada por 
Getúlio Vargas, no início do Estado Novo (1937-1945). Para Clóvis Moura, esta 
frente, que chegou a ter mais de 70 mil membros ainda está a espera de estudos 
mais consistentes.</P>
<P>Tinha aversão aos estudiosos de gabinete, os quais sempre trataram o povo e 
os movimentos sociais apenas como objeto de suas pesquisas, de forma distante e 
fria. Ao contrário daqueles, Clóvis Moura fez parte da pesquisa que fazia, sendo 
um ator do processo que estudava ou herdeiro das tradições de lutas que buscava 
compreender. Por isso, a militância dos trabalhadores, dos operários, dos negros 
e dos camponeses o reconhecem como aquele que colocou a sua arte e seu 
conhecimento a serviço da libertação dos oprimidos, sendo um intelectual 
indignado e, ao mesmo tempo, generoso, movido pela razão, mas também pela 
emoção.</P>
<P>Escreveu, entre outros, Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha (1964), 
O preconceito de cor na literatura de cordel (1976), O negro: de bom escravo a 
mau cidadão? (1976), Os quilombos e a rebelião negra (1981), Brasil: raízes do 
protesto negro (1983), Diário da Guerrilha do Araguaia (Apresentação, de 1985), 
Quilombos – resistência ao escravismo (1987), Sociologia do negro brasileiro 
(1988), História do negro brasileiro (1989), As injustiças de Clio: o negro na 
historiografia brasileira (1990), Dialética radical do Brasil Negro (1994), 
Sociologia política da guerra camponesa de Canudos: da destruição de Belo Monte 
ao aparecimento do MST (2000), Os quilombos na dinâmica social do Brasil (2001), 
Dicionário da escravidão no Brasil (2004)[5] e o clássico Rebeliões de senzala, 
editado pela primeira vez em 1959, com reedições em 1972, 1981 e 1988.</P>
<P>Em seus estudos, como bem observou José Carlos Ruy,[6] destacaram-se a 
premissa teórica marxista fundamental: a existência da luta de classes na 
sociedade escravista também existiu luta de classes, abrindo “uma vertente que 
levaria, nos anos seguintes, a um reconhecimento aprofundado da luta escrava e 
sua importância para a dinâmica da sociedade brasileira”, levando ao 
“reconhecimento de que a história do negro no Brasil se confunde com a história 
do povo brasileiro”. Sobretudo com Rebeliões,&nbsp; podemos “compreender como, a 
partir daquelas contradições de nosso passado histórico, o Brasil tornou-se o 
que é hoje”, pois “foi a relevância numérica da escravidão, seu tempo de duração 
e a forma como foi abolida no Brasil que "determinaram a emergência do modelo do 
capitalismo dependente em que vivemos até hoje". Para Ruy, Rebeliões da Senzala 
é, talvez, “o primeiro estudo onde a história do escravo (e do negro) brasileiro 
é colocada no seu justo lugar de história do povo brasileiro, e não de um 
segmento populacional à parte, específico e segmentado”, pois o livro “reata, 
assim, a história do povo brasileiro de nossos dias com a história daqueles que, 
antes de 1888, mourejavam sob o instituto infame e desumano que foi a 
escravidão”.[7]</P>
<P>Nesta obra de Clóvis Moura podemos compreender o fundamento da sociedade 
escravista, não apenas pela dominação dos senhores sobre os escravos, mas a sua 
essência: de que, como o próprio autor considerou na conclusão de Rebeliões: “as 
revoltas dos escravos, como apresentamos neste livro, formaram um dos termos de 
antinomia dessa sociedade”. Ou seja, não há como entender a dominação do modo de 
produção escravista no Brasil sem estudar o seu antônimo, a resistência de 
classe perpetrada pelos próprios escravos. Para Moura, que alarga esse 
entendimento mais ainda, as revoltas não foram apenas um dos termos dessa 
antinomia. Pelo contrário, “foram um dos seus elementos mais dinâmicos, porque 
contribuíram para solapar as bases econômicas desse tipo de sociedade”, criando 
“as premissas para que, no seu lugar, surgisse outro tipo” de sociedade. Assim, 
completa o autor, “as lutas dos escravos, ao invés de consolidar, enfraqueceram 
aquele regime de trabalho, fato que, aliado a outros fatores, levou o mesmo a 
ser substituído pelo trabalho livre”.[8]</P>
<P>É justamente esta a inovação central da obra de Clóvis Moura, em 
contraposição a uma historiografia tradicional que apenas apresenta o escravo 
como elemento positivo da sociedade escravista, no qual o escravo aceitou 
passivamente a sujeição que lhe era imposta pelos senhores de escravos. Para 
Moura, mesmo quando a resistência era passiva, ela contribuía, no geral, para a 
luta contra a própria escravidão.</P>
<P>Para Clóvis Moura, esta resistência veio de várias formas: as formas 
passivas: a) o suicídio, a depressão psicológica (o banzo); b) o assassínio dos 
próprios filhos ou de outros elementos escravos; c) a fuga tradicional; d) a 
fuga coletiva; e e) a organização de quilombos longes das cidades; as formas 
ativas: 1) as revoltas cotidianas pela tomada do poder; 2) as guerrilhas nas 
matas e estradas; 3) a participação em movimentos não escravos; 4) a resistência 
armada dos quilombos às invasões repressoras; e 5) a violência pessoal ou 
coletiva contra senhores ou feitores.[9]</P>
<P>Para José Carlos Ruy, ao aprofundar o conhecimento de nosso passado, e 
demonstrar que a história da história da escravidão faz parte do fio contínuo da 
história de nosso povo, a obra de Clóvis Moura aprofundou, também, e inovou o 
pensamento marxista e contribuiu para aprofundar a consciência socialista e o 
anti-preconceito das gerações seguintes de historiadores e militantes do 
movimento revolucionário e anti-racista brasileiro. Para o autor, “uma dessas 
inovações é a lição fundamental, aprofundada nas obras que vieram depois de 
Rebeliões da Senzala, de que, em sociedades como as nossas, os conceitos de 
classe e raça são inseparáveis para a compreensão da situação das classes 
dominadas”, pois. elas “imbricam-se, e conferem características próprias às 
relações de dominação em nossas sociedades”. </P>
<P>Por outro lado, continua Ruy, Rebeliões da Senzala “preparou também o 
rompimento com os esquemas fossilizados do oficialismo marxista e eurocêntrico 
de então, que impunham uma evolução das sociedades obrigatoriamente em cinco 
estágios sucessivos - comunidade primitiva, escravismo, feudalismo, capitalismo 
e socialismo”. Na obra foi demonstrado o nosso passado escravista colonial, de 
onde o modo de produção capitalista emergiu, depois de uma lenta transição, da 
desagregação do escravismo - e não do feudalismo, como na versão clássica 
européia. </P>
<P>Ruy salienta que Rebeliões da Senzala mostrou que a complexidade da formação 
social brasileira teve influências externas que interagiram com a dinâmica 
interna, fazendo com que nossa história resultasse da combinação deste processo 
colonial e neocolonial (e imperialista, hoje), com os interesses que dominam 
nossa sociedade até os dias atuais.</P>
<P>Finalmente, como enfatiza José Carlos Ruy, o conjunto da obra de Clóvis 
Moura, se sintetiza “na rebeldia escrava, na consideração da ação dirigida 
contra a manutenção do escravismo como principal elemento para a compreensão das 
contradições fundamentais não só daquele modo de produção, como do capitalismo 
que o sucedeu, e das formas políticas que, sobreviventes do passado, estão ainda 
baseadas num autoritarismo gerado e nutrido no domínio da senzala pela 
casa-grande”. </P>
<P>Este domínio desembocava no conflito, sendo este “parte cotidiana da vida do 
escravo”, podendo “variar de grau e intensidade, de pequenas resistências 
diárias no trabalho, à morte de feitores e senhores ou à rebelião aberta, e sua 
eclosão quebrava todos os véus, dilacerava os disfarces que a negociação 
construía, opondo as duas facetas contraditórias e inconciliáveis daquela 
relação, o senhor e o escravo”. </P>
<P>Com esta lógica argumentativa, que explicita o processo real de nossa 
formação histórica, desfaz-se o mito da negociação para o fim da escravidão. 
Desfaz-se o mito da democracia racial, construída nos tempos coloniais e 
escravistas, tão ao gosto das análises freyreanas de nossa classe dominante. 
Desfaz-se o mito da passividade dos segmentos sociais dominados. Desfaz-se o 
mito de uma historiografia comprometida com o status quo.&nbsp;</P>
<P>O significado da obras de Clóvis Moura nos faz entender melhor, porque o 
intelectual, jornalista, historiador, poeta, sociólogo, professor e escritor, 
autor de Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas, se tornou 
um marco como intérprete do pensamento social brasileiro, sendo parte da 
pesquisa que fazia, o que o fez juntar-se aos trabalhadores, aos operários, aos 
negros e camponeses, colocando seu conhecimento para a libertação de todos os 
oprimidos, em especial para a continuidade da construção da consciência negra em 
nosso País.</P>
<P><STRONG>Notas</STRONG></P>
<P>[1] As reflexões apresentadas abaixo contém extratos do seguinte artigo: 
KONRAD, Diorge Alceno. Na senzala a resistência, no quilombo a liberdade: a obra 
de Clóvis Moura. In: SANTOS, Júlio Ricardo Quevedo dos; DUTRA, Maria Rita Py 
(orgs.). Nas trilhas da negritude: consciência e afirmação. 1ª ed. Porto Alegre: 
Martins Livreiro, 2007, p. 115-133. </P>
<P>[2] Estas considerações conclusivas não são apresentadas na primeira edição 
de Rebeliões de senzala, lançada peal Edições Zumbi, em 1959. Conferi-las em 
MOURA, Clóvis. Rebeliões de senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas. 4 ed. 
Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988, p. 269 e 271.</P>
<P>[3] Tive a honra de conhecer Clóvis Moura em Porto Alegre, em 1994, em 
lançamento-debate de sua obra Dialética radical do Brasil Negro. Tornei a 
revê-lo no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, em 1999, no 
Seminário “40 anos de Rebeliões de senzala”, o qual teve a participação também 
de Soraya Moura, José Carlos Ruy, Octávio Ianni, Robert Slenes, Élide Bastos, 
Ângela Figueiredo, Sílvia Hunold Lara e Lívio Sansone.</P>
<P>[4] Informações mais desenvolvidas sobre a trajetória de Clóvis Moura podem 
ser encontradas em MESQUITA. Érika. Clóvis Moura (1923-2003). In. Afro-Ásia, n. 
31, Salvador, UFBA, p. 337-56. Cf. o texto na íntegra em <A 
href="http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/770/77003111.pdf" 
target=_blank>http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/770/77003111.pdf</A>. Acesso 
em 6/09/2007. Da mesma autora também pode ser consultado o artigo “Clóvis Moura 
e a sociologia da práxis”. In. Estudos Afro-Asiáticos, vol. 25, n. 3. Rio de 
Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2003. Disponível em: <A 
href="http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-546X2003000300007&amp;script=sci_arttext" 
target=_blank>http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-546X2003000300007&amp;script=sci_arttext</A>. 
Acesso em 2/05/2005.</P>
<P>[5] No Dicionário, Clóvis Moura destacou mais de 800 verbetes. Esta obra é o 
resultado de mais de 30 anos de pesquisa, revelando os aspectos do Brasil 
escravocrata e do Brasil escravizado, auxiliando a entender parte da luta e da 
cultura brasileira que dura mais de 4 séculos.</P>
<P>&nbsp;</P>
<P>[6] Estudioso da obra de Clóvis Moura, José Carlos Ruy foi seu amigo durante 
longos anos e companheiro de movimentos políticos e sociais desde a época da 
resistência contra a Ditadura Civil-Militar, até o falecimento do autor, 
ocorrido no final de 2003, quando tinha 78 anos.</P>
<P>&nbsp;</P>
<P>[7] Ver as opiniões desenvolvidas por José Carlos Ruy no artigo Clóvis Moura 
investigava o passado histórico para compreender melhor as lutas do presente, 
publicada na Revista Espaço Acadêmico, n. 32, jan. 2004. Disponível em <A 
href="http://www.espacoacademico.com.br/032/32cruy.htm" 
target=_blank>http://www.espacoacademico.com.br/032/32cruy.htm</A>. Acesso em 
2/05/2005.</P>
<P>&nbsp;</P>
<P>[8] As considerações acima se encontram em MOURA, Clóvis, op. cit., 1988, p. 
269.</P>
<P>&nbsp;</P>
<P>[9] Idem, p. 273.<BR></P></DIV><BR>
<DIV id=fonte><BR>
<HR SIZE=1>

<DIV id=autor><IMG src="http://www.vermelho.org.br/ctt/img_upload/aut_54.jpg" 
align=left> 
<P><STRONG>*Diorge Alceno Konrad</STRONG>, Doutor em História Social do Trabalho 
pela UNICAMP</P></DIV></DIV></FONT></FONT></FONT></DIV></BODY></HTML>