[Carta O BERRO] "Hitler ganhou a guerra" de Walter Graziano - Capítulo 1. NASH : A PONTA DO NOVELO

Vanderley Caixe vanderleycaixe em revistaoberro.com.br
Sexta Janeiro 22 18:56:05 FNT 2010


Carta O Berro...................................................................................................................repassem


 

1.                NASH: A PONTA DO NOVELO

 

 

A guerra é a paz. A liberdade é a escravidão. A ignorância é a força.

 

George Orwell.

Teoria e prática do coletivismo oligárquico.

 

Capítulo 9. Parte 2. 1984.

 

 

Quem não acredita, sem quase nenhum questionamento, no velho ditado que afirma que "a História é escrita pelos vencedores"? Mais ainda, costuma-se repetir essa frase o tempo todo. No entanto, em poucas ocasiões se tem uma exata idéia de até que níveis de pro­fundidade isso pode chegar a ser verdade. Existe outra frase famosa, que também faz parte do repertório popular. Vale a pena colocar am­bas em jogo dialético. Trata-se daquele velho ditado que assegura que "a realidade supera a ficção". Se estamos de acordo que ambas as frases geralmente estão corretas, não nos resta alternativa além de pensar que a História - por mais doloroso que isso possa ser - é somente o que desejaríamos que tivesse acontecido. Ou seja, algo distante do que realmente aconteceu. E, mais ainda, é somente o que aqueles que a escreveram, ou a escrevem, desejariam que tives­se acontecido, mediante a distorção de fatos ocorridos na realidade. Muitas vezes, para os vencedores é necessário interpretar de forma modificada os fatos, silenciar sobre as espinhosas questões ocorridas ou, inclusive, gerar a História a partir do nada. Precisamente por isso, é bem possível pensar, seguindo até as últimas conseqüências o jogo dialético dessas duas verdades populares, que, se algo não está escrito nos meios de comunicação de massa ou em abundante bibliografia e não faz parte do "saber majoritário", então não ocorreu, não aconteceu, não é verdade. A versão de um fato divulgada pelos meios de comunicação de massa é precisamente o que se conhece como História.

Comecei a ter uma idéia cabal de tudo isso por causa de um acon­tecimento trivial, casual, cotidiano, que foi ter ido ao cinema para ver um filme. O filme em questão era nada menos que Uma mente bri­lhante, a obra protagonizada por Russell Crowe, que ganhou o Oscar de melhor filme de 2001, em março de 2002. Na realidade, trata-se de um duplo prêmio, porque a história narra a vida do matemático John Nash, que em 1994 obteve o Prêmio Nobel de Economia por suas descobertas a respeito da denominada "Teoria dos Jogos".

Apesar de o filme ter características altamente emotivas, de­vido à mescla de realidade e fantasia que o roteiro mostrava sobre a vida de Nash, um detalhe do mesmo não podia passar inadvertido por nós que exercemos a profissão de economistas. Trata-se somente de um detalhe, de um instante, de apenas um momento do filme em que o protagonista afirma que descobriu, literalmente, que Adam Smith - o pai da Economia - não tinha razão quando, em 1776, na sua obra A riqueza das nações, esboçou a sua tese principal - e base de toda a teoria econômica moderna - de que o máximo nível de bem-estar social é gerado quando cada indivíduo, de forma egoísta, persegue o seu bem-estar individual e nada mais do que isso. Na cena seguinte do filme, o decano da Universidade de Princeton, Mr. Herlinger, obser­va atônito os desenvolvimentos matemáticos mediante os quais Nash expõe esse raciocínio acerca de Adam Smith e declara que, com ele, mais de um século e meio de teoria econômica se desvanecia.

Como economista, devia fazer-me uma pergunta: tratava-se de uma verdade ou de uma idéia maluca do roteirista do filme? Comecei a investigar, e o melhor é que se tratava... de uma verdade. Pois bem, o que chama muito poderosamente a atenção é que essas expressões vertidas no filme tenham passado despercebidas para milhares e mi­lhares de economistas. Para o público comum, que não passou anos inteiros estudando Economia, pode não chamar a atenção e até mes­mo parecer natural escutar que alguém descobriu que Adam Smith não tinha razão na sua tese quanto à panacéia que significava o indi­víduo para qualquer tipo de sociedade. Contudo, para um economista, não pode escapar, se este tem uma posição realmente científica, a real dimensão do que significaria a demolição do individualismo e da li­vre concorrência como base central da teoria econômica.

É necessário reforçar que Nash descobre que uma sociedade ma­ximiza seu nível de bem-estar quando cada um de seus indivíduos age em favor do seu próprio bem-estar, mas sem perder de vista também o dos demais integrantes do grupo. Ele demonstra como um compor­tamento puramente individualista pode produzir em uma sociedade uma espécie de "lei da selva" na qual todos os membros acabam por obter menor bem-estar do que poderiam. Com essas premissas, Nash aprofunda as descobertas da Teoria dos Jogos, descoberta na década de 1930 por Von Neumann e Morgestern, gerando a possibilidade de mercados com múltiplos níveis de equilíbrio segundo a atitude que tenham os diferentes jogadores, segundo haja ou não uma autoridade externa ao jogo, segundo haja ou não cooperação entre os diferentes jogadores. Dessa maneira, Nash ajuda a gerar todo um aparato teó­rico que descreve a realidade de forma mais acertada do que a teoria econômica clássica e que tem usos múltiplos em economia, política, diplomacia e geopolítica, a tal ponto que pode explicar e incluir o mais sangrento de todos os jogos: a guerra.

Tudo isso pode parecer difícil de entender. Mas não é. No fun­do, se pensarmos bem, as descobertas de Nash implicam uma verdade indiscutível. Por exemplo, tomemos o caso do futebol. Suponhamos uma equipe em que todos os seus jogadores tentem brilhar com luz própria, jogar como atacantes e fazer o gol. Mais do que companhei­ros, serão rivais entre si. Uma equipe com essas características será presa fácil para qualquer outra que aplique uma mínima estratégia lógica: que os onze integrantes se ajudem entre si para vencer o rival. Qual o leitor acha que vai ser a equipe ganhadora? Mesmo que a pri­meira equipe tenha os melhores jogadores, é provável que naufrague e que, inclusive, até os membros da segunda equipe joguem, ou pa­reçam jogar, melhor individualmente. É isso, nem mais nem menos, o que Nash descobre, em contraposição a Adam Smith, que sugeriria que cada jogador "fizesse só o seu melhor".

Apesar de tratar-se de um conceito muito básico, em geral pra­ticamente nada da Teoria dos Jogos é ensinado aos economistas, quase nada há escrito em outro idioma que não seja o inglês e, obviamente, o pouco que se ensina nos cursos de graduação e pós-graduação o é feito sem que se formule o esclarecimento prévio de que, ao se traba­lhar com a Teoria dos Jogos, se usa um instrumental mais sofisticado e mais próximo da realidade do que com a teoria econômica clássica. A tal ponto chega essa distorção (cheguei a duvidar já no início se não se tratava de uma manipulação), que se silencia que a grande teoria de Smith fica, na realidade, anulada pela falsidade de sua hipótese básica, coisa demonstrada por Nash.

No curso de Economia, na Argentina e em uma vasta quantida­de de países, tanto nas universidades privadas como nas públicas, con­tinua-se ensinando desde o primeiro dia até o último que Adam Smith não só é o pai da Economia, mas que, além disso, estava certo quanto à sua hipótese acerca do individualismo. Os argumentos que são uti­lizados para explicar que ele supostamente tinha razão baseiam-se geralmente em desenvolvimentos teóricos anteriores às descobertas de Nash e em certas evidências empíricas percebidas não sem uma alta dose de arbitrariedade. O resultado disso é que se contamina a teoria econômica - que deveria constituir uma ciência - com uma visão ideológica, o que institui nela exatamente o contrário do que de­veria ser uma ciência. Muitos dos professores que dia a dia ensinam Economia aos seus alunos nem sequer foram informados de que faz mais de meio século alguém descobriu que o individualismo, longe de conduzir ao melhor bem-estar de uma sociedade, pode produzir um grau menor, e muitas vezes sensivelmente menor, de bem-estar geral e individual do que aquele que se poderia conseguir através de outros métodos de ajuda mútua.

Como isso pode ser explicado então? Como é que viemos a sa­ber, através de um filme, que o pressuposto básico, fundamental, da ciência econômica é uma hipótese incorreta? Pior ainda, as descobertas de Nash foram efetuadas no princípio da década de 1950, há mais de meio século já, e foram feitas nada menos do que em Princeton, não em algum lugar isolado do planeta, sem conexões acadêmicas com o resto dos economistas, dos professores e dos profissionais da economia e das finanças, fatores que devem aumentar o grau de surpresa.

Qual é o papel que poderíamos esperar das mentes mais bri­lhantes de uma ciência, se, de repente, alguém descobre matematica­mente que o próprio embasamento fundamental dessa ciência é in­correto? Seria possível supor que, em tal caso, todos teriam que frear os desenvolvimentos das teorias que vêm sustentando ou gerando e das idéias sobre as quais estão trabalhando, para começar a repen­sar as bases fundamentais da teoria, admitindo que, na realidade, se sabe muito menos do que se acreditava saber até o aparecimento da descoberta. Assim, teria início um trabalho para dotar de novas bases e novos fundamentos a ciência cuja premissa fundamental acaba de ruir. Essa seria a lógica, sobretudo se levarmos em conta que, no que diz respeito à Economia, a riqueza, o trabalho e a vida diária de mi­lhões e milhões de pessoas são de fato alterados em função das con­clusões de uma teoria, dos conselhos que a partir dela os economistas podem dar e das medidas que finalmente são tomadas por governos e empresas. Os efeitos sobre a humanidade podem ser maiores do que no caso de outras ciências. Quando são feitas recomendações econômicas, atinge-se direta ou indiretamente o destino de milhões de pessoas, o que deveria impor o cuidado e a prudência, não só naqueles que elaboram as políticas econômicas, mas também naqueles que opinam e aconselham.

Portanto, a descoberta de Nash sobre a falsidade da teoria de Adam Smith deveria ter colocado a comunidade dos economistas no planeta inteiro em estado de alerta e emergência. Isso, é claro, não ocorreu, em boa medida devido ao fato de que só um reduzido número de profissionais da Economia se inteirou no início dos anos 50 da verdadeira profundidade das descobertas de Nash.

Pode-se pensar, então, que um saudável revisionismo seria uma verdadeira atitude científica diante do acontecido. Entretanto, nada disso ocorreu nem ocorre na Economia. Os economistas, não só nos cursos de graduação, mas também nos de pós-graduação, tanto na Ar­gentina como no exterior, não recebem informação nenhuma sobre o fato de que a base fundamental da Economia é uma hipótese demons­trada como incorreta, nada menos que a partir da própria matemática. Além de carecer de qualquer informação nesse sentido, são transmi­tidas enormes doses de teorias e modelos econômicos desenvolvidos desde a década de 1950, precisamente quando essa incorreção já era conhecida em pequenos e influentes núcleos acadêmicos, os quais não só entronizam a premissa básica do individualismo smithsoniano, como também tentam universalizar para todo período do tempo e do espaço os desenvolvimentos econômicos clássicos e neoclássicos iniciados pelo próprio Smith.

Quem acredita que isso não tem conseqüências se engana gra­vemente. Teríamos que perguntar, por exemplo, se a própria globa­lização teria sido possível, na sua atual dimensão, se as descobertas de Nash tivessem tido a repercussão que mereciam, se os meios de comunicação as tivessem difundido e se muitos dos economistas con­siderados os de maior prestígio em todo o mundo, muitas vezes fi­nanciados por universidades norte-americanas que devem a sua exis­tência a grandes empresas do setor privado, não as tivessem deixado esquecidas no armário. Se tivesse ocorrido em seu devido momento um revisionismo profundo a partir das descobertas de Nash, talvez tivésse­mos hoje estados nacionais muito mais fortes, reguladores e poderosos do que os que temos, depois de uma década de globalização.

Um ponto central que deve ser levado em conta - e que iden­tifiquei pouco depois de começar a pesquisar o tema - é o de que, de forma praticamente simultânea às descobertas de Nash, dois econo­mistas, Lipsey e Lancaster, descobriram o denominado "Teorema do Segundo Melhor". Essa descoberta enuncia que, se uma economia, devido às restrições próprias que ocorrem no mundo real, não pode funcionar no ponto máximo de plena liberdade e concorrência perfei­ta para todos os seus atores, então não se sabe a priori o nível de re­gulação e intervenções estatais de que o país necessitará para funcio­nar da melhor maneira possível. Em outras palavras, o que Lipsey e Lancaster descobriram é que é possível que um país funcione melhor com uma maior quantidade de restrições e interferências estatais do que sem elas. Ou seja, que bem poderia ser necessária uma atividade estatal muito intensa na economia para que tudo funcione melhor. O que se pensava até o momento era que, se o máximo era inalcançável porque o "mundo real" não é igual ao frio mundo da teoria, então o ponto imediatamente melhor para um país era o da menor quantidade de restrições possíveis para o funcionamento da plena liberdade eco­nômica. Pois bem, Lipsey e Lancaster derrubaram há mais de meio sé­culo esse preconceito. Como conseqüência direta disso, reaparecem no centro da cena temas como tarifas para a importação de bens, subsídios à exportação e a determinados setores sociais, impostos diferenciados, restrições ao movimento de capitais, regulamentações financeiras, etc.

Como a Teoria dos Jogos, o Teorema do Segundo Melhor qua­se não é explicado aos economistas em universidades públicas e pri­vadas. Mesmo quando suas implicações são enormes, geralmente o tema já é dado como aprendido em somente uma aula - em apenas uma meia hora - e passa-se a outro assunto. Fica parecendo quase uma "esquisitice" exótica inserida nos programas de ensino, uma curiosidade para a qual não se costuma dar muita importância. Erro crasso.

Um caso típico é o da ex-União Soviética. Gorbachov, em seu momento, decidiu desregular, privatizar e abrir a economia, eliminan­do rapidamente a maior quantidade possível de barreiras à livre con­corrência. Não deu certo. Longe de progredir rapidamente, a econo­mia russa caiu em uma das piores crises de sua história. Se tivessem sido aplicados os postulados de Lipsey e Lancaster, teria havido mais cautela e, muito provavelmente, as coisas não teriam saído tão mal.

Se combinássemos as descobertas de Nash, Lipsey e Lancas­ter, o que obteríamos é que não se pode estabelecer a certa distância, e de antemão, o que é melhor para um determinado país, mas sim que isso dependerá de uma grande quantidade de variáveis. Portanto, toda universalização de recomendações econômicas é incorreta. Não se pode dar o mesmo conselho econômico (por exemplo, privatizar, desregular ou eliminar o déficit fiscal) para todo país e em todo mo­mento. No entanto, isso é precisamente o que se vem fazendo cada vez com mais intensidade, sobretudo desde a década de 1990, quan­do, ao ritmo da globalização, foram encontradas receitas que têm sido ensinadas como universais, como verdades reveladas, que todo país deve sempre aplicar.

Pode parecer estranho, mas provavelmente não o seja: uma descoberta fundamental e que teria mudado a história da teoria eco­nômica e até teria dificultado a aparição da globalização não teve pra­ticamente nenhuma difusão fora de um muito reduzido núcleo de eco­nomistas acadêmicos residentes nos Estados Unidos, fato pelo qual se impôs a ideologia falsa com que muitos governos, em muitos casos sem sabê-lo, tomam decisões econômicas. Enquanto essas teorias não recebiam o grau de atenção adequado por parte dos economistas, dos arquitetos de políticas governamentais e da população em geral, as teorias desenvolvidas na Universidade de Chicago começaram a ob­ter, naquele mesmo momento, a partir das décadas de 1950 e 1960, uma grande difusão nos meios de comunicação. Nada menos que a mesma instituição que tinha acolhido em sua sede o italiano Enrico Fermi, com o fim de que desenvolvesse a bomba atômica, financiou em matéria econômica Milton Friedman, também Prêmio Nobel de Economia, que começou a desenvolver nos mesmos anos 1950 a de­nominada "Escola Monetarista". Depois de mais de uma década de estudos, Friedman e seus seguidores chegam à conclusão de que a atividade do Estado na economia deve ser reduzida a só uma premis­sa básica: emitir dinheiro no mesmo ritmo em que a economia está crescendo. Ou seja, se um determinado país cresce naturalmente a uma taxa de 5% ao ano, para Friedman, seu Banco Central deve emitir moeda nesse mesmo ritmo. Se, ao contrário, cresce naturalmente 1% ao ano, deve emitir moeda só no ritmo de 1% ao ano. A lógica intrínseca desse raciocínio é a de que o dinheiro serve como lubrificante da eco­nomia real. Portanto, se de forma natural uma economia cresce muito rapidamente, ela necessita que o Banco Central do referido país gere mais meios de pagamento do que se estivesse estancada. No fundo, a recomendação de Milton Friedman é a de que cada país mantenha uma relação constante entre quantidade de dinheiro e o PIB. Qualquer outra política econômica estatal é desaconselhada por Friedman.

A Escola Monetarista teve um enorme grau de difusão em todo o mundo, mesmo que os bancos centrais dos principais países desen­volvidos jamais tenham aplicado os conselhos de Friedman, com a única exceção de Margaret Thatcher. A primeira-ministra britânica, depois de um breve período de alguns meses empregando as polí­ticas monetaristas na Inglaterra, precisou ganhar uma guerra (a das Malvinas) para recuperar a popularidade perdida pelos desastrosos resultados de tais políticas, que tinham elevado o desemprego na In­glaterra a níveis poucas vezes vistos - nada menos que 14% -, sem ao menos acabar com a inflação. Foi o único e muito breve caso de aplicação das receitas desta escola em países desenvolvidos. No en­tanto, as pressões para que nações em vias de desenvolvimento, como a Argentina, apliquem estas políticas sempre têm sido muito fortes.

Cabe esclarecer que há geralmente dois tipos de pessoas para as quais as fórmulas de Friedman têm sido de uma atração pouco me­nos do que irresistível: trata-se de teóricos da economia em primeiro lugar e, em segundo, de grandes empresários. Mas ambos por motivos diferentes. Para muitos economistas teóricos, a atração que as teorias de Friedman produziam provinha da simplicidade de sua recomenda­ção: "Emita moeda no ritmo em que você cresce". Além disso, o ca­ráter universal dessa premissa básica aproximava, na mente um tanto "distorcida" de muitos profissionais na matéria, a economia das ciên­cias exatas: a Física e a Química, objetivo que muitos dos economis­tas mais renomados do século XX têm perseguido, na crença de que uma ciência é mais séria se consegue encontrar fórmulas de aplicação universal ao estilo do que a lei da gravidade é na Física.

Milton Friedman parecia proporcionar precisamente isso: uma lei de aplicação universal ao campo econômico. Até poderíamos discu­tir se essa miragem perseguida por muitos economistas não é no fun­do nada mais do que um perigoso reducionismo, dado que as ciências sociais não se movem segundo os mesmos parâmetros que as ciências exatas.

Mas nem todos os que foram atraídos pelas teorias de Friedman o faziam por esse motivo: uma boa parte do establishment via na geração e na aplicação desse tipo de teorias a possibilidade de derrubar um grande número de travas e regulamentações estatais em muitos paí­ses, podendo assim alargar a sua base de negócios a zonas do planeta que permaneciam alheias à sua atividade. Isso explica o alto perfil que alcançaram as teorias monetaristas - apesar de estarem fundadas nos incorretos pressupostos de Adam Smith antes mencionados - e a sua presença constante nos meios de comunicação, muitas vezes propriedade desse mesmo establishment.

O fato de que o establishment dos países desenvolvidos louvasse enormemente essas teorias, ao mesmo tempo em que os governos desses mesmos países desenvolvidos não aplicassem para si as teorias monetaristas, não foi um obstáculo para que muitos dos mais poderosos empresários pressionassem os gover­nantes de países periféricos para que aplicassem as teorias de Milton Friedman. Um caso típico foi o da Argentina da época de Martínez de Hoz, cujo governo aceitou as pressões de boa parte do empresariado financeiro internacional para produzir a política econômica da era militar de Videla-Martínez de Hoz[1].

Enquanto as descobertas de Nash, Lipsey e Lancaster perma­neciam ocultas para o grande público e quase não disseminadas entre os próprios profissionais da Economia, teorias integralmente basea­das nos pressupostos básicos de Adam Smith, e que Nash demonstrou incorretas, como a monetarista de Milton Friedman, não só recebiam uma enorme difusão nos meios de comunicação, como também con­tavam com o beneplácito do establishment e começavam a fazer es­tragos em países tomados como laboratórios, tudo isso apesar de que, ao se basearem integralmente nos pressupostos de Smith, de antemão os principais acadêmicos dos Estados Unidos não podiam desconhecer que se tratava de teorias econômicas fundadas em pressupostos incorretos, fato pelo qual as suas chances iniciais de sucesso eram quase nulas.

Desde os anos 1960 até hoje, a Escola Monetarista e sua fi­lha direta, a Escola de Expectativas Racionais, de Robert Lucas, têm ocupado o centro da cena nas universidades, nos centros de estudos e nos meios de comunicação. A Escola de Expectativas Racionais reduz ainda mais o papel do Estado do que já tinha feito a Escola Mone­tarista. Um país, segundo Lucas, não deve fazer nada mais além de fechar o seu orçamento sem déficit. Se o desemprego é de dois dígi­tos, não deve fazer nada. Se o povo literalmente morre de fome, não deve fazer nada. Um bom ministro - para essa escola - deve deixar no "piloto automático" a economia de um país e só deve se preocupar com que o gasto público esteja integralmente financiado com a arre­cadação de impostos.

Robert Lucas, engenheiro de profissão, também da Universida­de de Chicago, depois de uma década de abstrusos cálculos matemáti­cos, baseados integralmente na hipótese fundamental de Adam Smith, chega à conclusão de que qualquer país, em qualquer momento, nem sequer deve emitir dinheiro ao ritmo que cresce. Desse modo, até a regra de ouro de Milton Friedman é abolida por essa escola cujo auge intelectual se localizou na década de 1980. A hipótese fundamental de Robert Lucas é a de que o ser humano possui perfeita racionali­dade e toma suas decisões econômicas com base nela. Essa hipóte­se psicológica foi duramente criticada, mas Lucas e seus seguidores escudaram-se no raciocínio de que não era necessário que cada um dos operadores econômicos fosse perfeitamente racional, mas apenas que a média dos operadores econômicos se comportasse com perfeita racionalidade para que as suas teorias fossem válidas.

Isso implica transformar a hipótese psicológica da perfeita ra­cionalidade em uma hipótese sociológica: supõe-se que os desvios na racionalidade humana, em uma sociedade, se compensam entre si. Trata-se, como se vê, de um pressuposto exótico, estranhíssimo, mas, ao mesmo tempo, tão central na teoria de Lucas que, se for derrubado, nada nela permanece de pé. É estranho que isso tenha ocorrido, sobre­tudo à luz das descobertas de outro economista, Gary Becker (Nobel cm 1992), que descobriu matematicamente que as preferências indi­viduais não são agregáveis (ou seja, não se pode obter uma função de preferências sociais a partir da adição das individuais, dado que estas últimas não podem ser somadas). Com essa descoberta, Becker lan­çou um verdadeiro míssil a toda a denominada "teoria da utilidade", que é a base subjacente nas teorias econômicas de Chicago, e termina de derrubar todo o aparato teórico de Chicago e muito mais.

Apesar disso, e como com Nash e Lipsey, os "cientistas" que estavam criando as escolas de Chicago não parecem ter acusado re­cibo nenhum. Para Lucas, todas as sociedades do mundo, a qualquer momento, tomam as suas decisões econômicas com perfeita raciona­lidade. As decisões de consumo, poupança e investimentos são feitas, segundo Lucas, sabendo-se perfeitamente bem o que é que o governo está fazendo em matéria econômica. Portanto, para Lucas e os seus seguidores, qualquer iniciativa estatal para mudar o rumo natural com o qual uma economia se move não só é inútil, mas também contrapro­ducente. É assim que Lucas e os seus seguidores chegaram à conclu­são de que o melhor que pode fazer qualquer governo do mundo em qualquer momento, em matéria econômica, é não realizar nada que não seja manter o equilíbrio fiscal.

É difícil entender como é que essas idéias, estranhas certamen­te, monopolizaram a atenção de economistas e dos meios de comuni­cação da maneira como aconteceu. No caso específico da Argentina, pertencer à corrente da Escola de Expectativas Racionais durante os anos 1980 e 90 transformou-se, diretamente, em uma moda inesca­pável para muitos economistas. Qualquer economista que não per­tencesse a essa corrente e que a renegasse era visto pouco menos que como um dinossauro. Ninguém se perguntava, e é muito estranho que tenha acontecido assim, como a teoria econômica de todo o planeta podia estar nas mãos de um engenheiro que se pôs a esboçar teorias psicológicas (disciplina muito distante da engenharia), embora fosse extremamente especializado em matemática. Mas aconteceu assim. Ninguém sabe muito bem, tampouco, de onde saiu o argumento de que a média de qualquer sociedade se comporta de maneira perfei­tamente racional. Se nos detivéssemos para pensar um minuto sobre tudo isso, poderíamos chegar facilmente à conclusão de que, se essas teorias eram levadas a sério por muitos daqueles que eram conside­rados os mais idôneos profissionais em economia, foi exclusivamen­te porque tinham sido elaboradas em uma universidade considerada de muito prestígio. Sem o selo de Chicago, as teorias de Lucas provavelmente haveriam causado hilaridade e teriam mandado o engenheiro construir pontes ou edifícios, em vez de tentar expli­car como funciona a economia mundial e a psique média de toda uma sociedade. Para Lucas, então, se os governos não se meterem com a economia, esta atingirá muito facilmente o pleno emprego: é tudo uma questão de os governantes suspenderem todo tipo de restrições à concorrência perfeita e cuidarem para que não haja déficit fiscal. Nada mais do que isso, e, de forma mágica, chega-se ao pleno emprego.

E não só ao pleno emprego, mas também aos melhores salários possíveis para a massa trabalhadora, de qualquer país do mundo, em qualquer momento. As implicações disso são, no fundo, grotescas: Lucas quer-nos fazer acreditar que a taxa de crescimento demográfico em qualquer país iguala, em pouco tempo, a taxa de geração de em­prego. O que é o mesmo que dizer que as pessoas optam por se repro­duzir no mesmo ritmo em que são publicados anúncios de emprego em busca de operários e empregados nos jornais. Como se vê, trata-se de uma verdadeira aberração, de imenso porte, se levarmos em conta que, além disso, essa crença é transformada em postulado universal. Não é difícil entender por que, com base em Robert Lucas, chegamos a uma conclusão tão disparatada se considerarmos que o engenheiro parte de hipóteses equivocadas ao fundamentar-se tanto no individualismo de Adam Smith, como em hipóteses psicológicas sui generis.

Entretanto, haveria uma forma de pensar que Lucas podia ter algo de razão. Isso se dá se consideramos a existência humana com um critério malthusiano: Thomas Robert Malthus, ensaísta inglês da primeira metade do século XIX, pensava que, enquanto as populações humanas se multiplicavam em uma proporção geométrica, os meios de subsistência só o faziam em uma proporção aritmética. Portanto, a superpopulação era, para Malthus, o pior perigo que ameaçava o pla­neta. Dessa maneira, as guerras, a fome ou as epidemias eram méto­dos "saudáveis" para corrigir o problema da superpopulação. Apesar disso, o tempo não deu razão a Malthus e a população mundial tem crescido incrivelmente nos últimos séculos. Mesmo assim, o esta­blishment norte-americano acredita com fervor nas idéias malthusianas. Basta apontar que o presente dado pelo presidente George Bush ao presidente argentino Kirchner, na visita deste a Washington DC, não foi outro senão a principal obra de Malthus, chamada Um ensaio sobre o princípio da população, do ano de 1798.

O corolário da obra de Lucas é, então, a afirmação de que, de forma universal, a taxa de crescimento demográfico iguala a taxa de geração de emprego. Portanto, dado que a taxa de crescimento demo­gráfico não é outra coisa além da taxa de natalidade menos a taxa de mortalidade, que esta última é rapidamente variável e que as pessoas morrem à medida que desaparece o emprego, ou vivem mais se lhes é oferecido trabalho, poderíamos nos localizar quase sempre em uma espécie de "pleno emprego", segundo Lucas. Se temos uma filosofia malthusiana, é obviamente muito mais fácil acreditar na Escola das Expectativas Racionais.

Por que o establishment, a elite norte-americana, crê em Malthus, mesmo quando a realidade demonstrou que ele não es­tava certo? Porque calculam que é só uma questão de tempo até que Malthus se mostre correto. Como a energia do planeta está baseada em recursos não renováveis, o que boa parte do establishment anglo-americano pensa é que, à medida que o petróleo se esgote, Malthus começará a ter razão. Se não há energia disponível para transportar os alimentos ou para produzi-los, uma boa parte da população poderia estar destinada a desaparecer. Tudo seria questão de determinar que parte. E, para isso, a elite de negócios norte-americana usa a teo­ria de outro inglês famoso: Charles Darwin. Darwin foi o criador da Teoria da Seleção Natural. Essa teoria predica que as espécies mais aptas, que melhor se adaptam ao meio, sobrevivem e se reproduzem, enquanto que as menos aptas perecem e se extinguem. Aplicar uma combinação das principais teses de Malthus e Darwin às sociedades implica adotar uma posição racista de forma sistemática.

No que diz respeito ao petróleo, elemento central nessa linha de pensamento, muito pouca informação sobre suas quantidades e sua distribuição geográfica e acerca de outros recursos que possam substituí-lo costuma ser divulgada de forma massiva nos meios de comunicação. Pensar em substituir a tecnologia do petróleo por outra, do ponto de vista econômico, apresenta mais de um risco que será necessário correr. Requer pensar com muita antecipação sobre o pa­norama que pode ser ocasionado nos mercados financeiros, dado que um eventual substituto barato do petróleo poderia pôr em um risco elevado a saúde financeira dos enormes conglomerados petroleiros e, portanto, dos mercados financeiros em seu conjunto. Por outro lado, um substituto muito barato e abundante poderia tirar, de forma ime­diata, milhões de pessoas da pobreza.

Voltando à Escola das Expectativas Racionais, apesar de por motivos óbvios nenhum país desenvolvido ter aplicado ou aplicar hoje em dia as teses de Robert Lucas, a Argentina, sim, as aplicou. O chamado "piloto automático", com o qual operavam os ministros Cavallo, Fernández e Machinea, não era nada mais do que a confissão de que o Estado ia lavar as mãos sobre a crise de emprego que a Argentina vivia na década de 1990, e a mensagem que os argentinos recebiam de forma massiva através dos meios de comunicação era a de que, segundo as autoridades e os economistas supostamente in­dependentes, não se devia fazer nada, porque a situação do emprego poderia solucionar-se por si só. Não é por acaso que Robert Lucas vi­sitou a Argentina em 1996 - convidado de forma especial pela princi­pal usina da Escola de Expectativas Racionais da Argentina: o CEMA (Centro de Estudos Macroeconômicos da Argentina) - e até conheceu o então presidente Menem na residência presidencial de Olivos, o que mostra até que ponto essa verdadeira seita da Economia atingiu profundamente a Argentina.

Quem se perguntar por que na Argentina essas idéias tiveram muito mais aplicação do que em outros países, pode encontrar uma resposta ao alcance da mão: desde a década de 1960, a Argentina pa­deceu cronicamente de altas taxas de inflação e até chegou ao excesso de sofrer duas curtas hiperinflações em 1989. Dado que as teorias de­senvolvidas na Universidade de Chicago, tanto a de Friedman como a de Lucas, vinham etiquetadas como o mais poderoso antídoto contra a inflação, os economistas argentinos adotaram um corte muito mais pronunciado que seus pares de outros países do mundo a favor das teorias de Chicago, sem exercer o pensamento crítico simplesmente porque essas idéias vinham de Chicago. Muitos dos mais conhecidos de nossos economistas inclusive estudaram ali e depois disseminaram na Argentina essas idéias. Não é por acaso, então, que já há vários anos este país ostenta o estranho recorde mundial de desemprego e subemprego, os quais, somados, sustentaram durante longos anos al­garismos superiores a 30%. O curioso nesse caso é que geralmente se ensina nas universidades de todo o mundo que a Escola Monetarista surgiu como uma resposta às altas taxas de inflação que os elevados déficits orçamentários causavam em várias partes do planeta. No en­tanto, se revisarmos a História, observaremos que nos anos 1950 e 60 nos Estados Unidos praticamente não havia inflação e, na maior parte dos países desenvolvidos, as taxas de inflação eram relativamente baixas, de só um dígito anual. Seria necessário questionar, então, a suposta origem antiinflacionária das teorias de Chicago, dado que a inflação não era um problema dos países desenvolvidos no momen­to em que essas teorias começaram a surgir. Assim, permanece por enquanto nebulosa a verdadeira causa dessas teorias, precursoras, na verdade, da globalização. Quando foram concebidas, a inflação só era um problema grave em países em vias de desenvolvimento. Terá sido por acaso um gesto de filantropia do establishment norte-americano para com os países pobres dedicar tantos recursos à geração das "es­colas de Chicago"?

Em resumo, desde pelo menos a década de 1950, a teoria eco­nômica vem sendo conduzida de uma maneira não só muito pouco profissional, como, além disso, anticientífica, quase como se se tra­tasse da astrologia ou de alguma outra disciplina cujas bases fun­damentais não podem ser explicadas racionalmente. Descobertas científicas de grande envergadura, cuja difusão poderia ter mudado a história da globalização e detido suas piores conseqüências, foram cuidadosamente ocultadas até dos próprios economistas, enquanto que teorias baseadas de antemão em hipóteses provadas matemati­camente como falsas foram disseminadas não somente entre os pro­fissionais em Economia, mas também nos meios de comunicação, e até foram aplicadas nos lugares do mundo em que isso tenha sido possível, como na América Latina.

Ensinaram-nos que o sistema de universidades norte-america­no era o mais desenvolvido do mundo, que a sua atitude diante do conhecimento científico era fria e imparcial, que a ciência progredia nessas universidades independentemente de pressões políticas e de conveniências econômicas e empresariais. Como isso pode ter ocor­rido, então? Um detalhe não tão pequeno que se deve levar em conta é o fato de que as duas escolas mencionadas se originaram, se de­senvolveram e se expandiram a partir da Universidade de Chicago, recebendo fortes doses de financiamento dessa instituição. O finan­ciamento não se restringiu somente a pagar os elevados salários dos pesquisadores que desenvolviam as teorias monetaristas e a fomentar expectativas racionais nesse recinto acadêmico, mas também bancou a custosa campanha de difusão dessas idéias nos meios de comunica­ção. É necessário levar em conta que, ainda que alguém possa chegar a uma descoberta do tipo "a pólvora econômica", sem o dinheiro su­ficiente para disseminar essa idéia nos meios de comunicação, não há nenhuma maneira de que o saber em questão se torne de conheci­mento público.

É evidente, então, que houve poderosos interesses por trás das teorias da denominada Escola de Chicago, teorias que, por sua vez, constituíram o embasamento para o que hoje é a globalização, mes­mo que se tratasse, nada mais, nada menos, de um saber falso. Que interesses estão por trás da Universidade de Chicago? Pois bem, ela foi fundada pelo magnata do petróleo John D. Rockefeller, criador, além disso, do maior monopólio petrolífero do mundo: a Standard Oil. Essa instituição de estudos superiores tem sido desde sempre um baluarte da indústria petroleira. Mas o controle de uma alta casa de estudos como a Universidade de Chicago por si só não teria bastado, no meio de um contexto intelectual muito independente, para impor as idéias de Milton Friedman e Robert Lucas da maneira como foi feito. Se tivesse havido um contexto intelectual realmente indepen­dente, teriam aparecido fortes críticas aos pressupostos psicológicos e sociológicos que o engenheiro Lucas introduzia em suas teorias. Por que, então, o nível de críticas que recebeu a Escola de Expectativas Racionais não chegou a ser muito importante? Pois bem, a indústria petroleira não só fundou a Universidade de Chicago, como também controla, de forma direta ou indireta, pelo menos as universidades de Harvard, Nova York, Columbia e Stanford e está presente em muitas outras universidades. É comum que muitos dos diretores desses cen­tros de estudos superiores alternem tarefas em empresas petrolíferas ou em instituições financeiras muito relacionadas com tal setor.

Precisamente por isso, não nos deve chamar tanto a atenção que as teorias clássicas da Economia e as suas derivadas (Friedman, Lucas, etc.) dêem praticamente um tratamento uniforme a todos os mercados, de todos os bens, em todos os países e em todos os mo­mentos, sem fazer distinção entre eles. Por quê? Há bens que podem ser produzidos e outros cuja capacidade de produção é limitada: há recursos renováveis e outros não renováveis. O petróleo é, especifi­camente, um recurso não renovável, fato pelo qual seu mercado tem características especiais. Apesar disso, é uma questão que escapa ao tratamento que lhe é dado usualmente na teoria econômica. A quan­tidade de petróleo que há na Terra é finita e limitada. Mais ainda quando se leva em conta que, em se tratando da principal fonte de energia utilizada hoje no planeta, uma eventual escassez brusca não poderia ser contornada mediante o uso de outras fontes de energia, pelo menos de forma rápida. Portanto, os efeitos do que ocorre no mercado petroleiro podem transferir-se com fenomenal rapidez aos outros mercados. Mas os defeitos da Escola de Chicago não se resu­mem a desconhecer esse fato e a negar as descobertas de Nash, Lipsey e Lancaster. Chama a atenção o fato de que o próprio produto, de características particulares e cuja exploração permitiu a fundação da própria universidade e o controle de outras tantas, é um bem que não foi tratado na teoria de uma maneira especial - já que é um recurso não renovável - por Friedman e Lucas, que tampouco levam em conta que precisamente o petróleo é o bem cujo mercado ostenta o maior nível de cartelização do mundo. Paradoxalmente, então, aqueles que tentaram exercer um verdadeiro oligopólio no estratégico mercado da energia fomentaram a criação e a difusão de teorias econômicas baseadas na livre concorrência, na ausência de regulamentações estatais, no paraíso do consumidor e na concorrência constante entre si de uma enorme gama de produtores que só têm em teoria um lucro exíguo a ganhar.

Agora começava a ficar mais claro para mim por que, e devido a quem, a principal descoberta de Nash tinha permanecido oculta e, ao mesmo tempo, aparecia como um enigma a verdadeira situação do mer­cado petroleiro, sobretudo à luz das guerras ocorridas no século XXI.

 

 

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[1] Em idas de Martínez de Hoz aos Estados Unidos e em viagens à Argentina de David Rockefeller este teria dado ordens pessoalmente sobre as linhas básicas que a economia argentina deveria observar. Trata-se do mesmo personagem que parabenizou o ex-presidente De Ia Rúa pela nomeação de Domingo Cavallo para o Ministério da Economia em 2001, expressando à imprensa o seu beneplácito com a frase: "Cavallo sabe que se deve apertar o cinto".



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