[Carta O BERRO] Massacre de Santa Maria de Iquique completa cem anos de solidão/ Vejam as músicas mais lindas sobre esse acontecimento pelo grupo Quillapayún HOJE É DOMINGO!
Vanderley Caixe
vanderleycaixe em revistaoberro.com.br
Domingo Janeiro 17 13:40:03 FNT 2010
HOJE É DOMINGO!
Carta O Berro..........................................................................................repassem
Massacre de Santa Maria de Iquique completa cem anos de solidão
Por Alexandre Barbosa
Cem anos de solidão do massacre
O que foi o Massacre de Santa Maria de Iquique
O silêncio da grande mídia brasileira
Conheça a cantata Santa Maria de Iquique
(veja abaixo a Cantata pelo grupo Quillapayún)
Cem anos de solidão do massacre
Indústrias salitreiras: condições desumanas de trabalho.
No cancioneiro do grupo chileno Quillapayún há um disco, de 1970, chamado Cantata Popular de Santa Maria de Iquique. São 18 músicas que contam a história do massacre da Escola Domingo Santa Maria, em 1907, em que 3.600 operários salitreiros chilenos foram assassinados como resposta dos "negociadores" diante da greve de uma das atividades mais importantes do país e na época já controlada por estrangeiros, principalmente ingleses.
Triste coincidência, na obra Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, há o relato de um acontecimento parecido. Na fictícia Macondo de Cem Anos de Solidão, acontece o massacre de mais de três mil trabalhadores (3.600 de acordo com a Cantata) que negociavam o fim da greve na Companhia Bananeira, também controlada por norte-americanos. No romance, o episódio foi escondido de todos. Os corpos foram jogados nos vagões de um trem e nunca mais apareceram. Ninguém acreditou no depoimento do único sobrevivente e foi como se o massacre não tivesse acontecido. Da mesma forma, o assassinato dos grevistas chilenos não consta dos principais conteúdos escolares, apesar de sua importância e relevância, e muito menos nas páginas dos periódicos brasileiros.
Em suas memórias, García Márquez diz que o episódio do massacre dos trabalhadores bananeiros foi inspirado numa história que ele ouvia quando era criança e que, da mesma forma, era só comentado pelos mais velhos, mas não havia outro registro. Mais uma vez comprovando o universalismo de Cem Anos de Solidão, a realidade latino-americana é espelhada nas páginas do livro.
O sociólogo Emir Sader aponta o massacre de Iquique como o primeiro de uma série de acontecimentos que fizeram o mundo conhecer a América Latina. Na seqüência vieram a Revolução Mexicana, a Reforma Universitária de Córdoba, a Revolução Cubana, além do reconhecimento internacional da literatura com os prêmios Nobel de Gabriela Mistral, Miguel Angel Astúrias, Pablo Neruda e Gabriel García Márquez.
Destes importantes fatos, muitos continuam "empoeirados", esquecidos pela Academia e, sobretudo, pela mídia, abandonados nos baús históricos. Felizmente, há focos de resistência na América Latina: em 1970, o grupo Quilapayún grava a Cantata Santa Maria de Iquique, cuja primeira canção se inicia com o verso: "Señoras y Señores venimos a contar aquello que la historia no quiere recordar". Os registros do assassinato dos trabalhadores salitreiros estão somente nas páginas da imprensa proletária, na linha do tempo construídas por partidos de esquerda (os que ainda existem) e nos textos de intelectuais e militantes ligados à América Latina.
No dia 21 de dezembro de 2007, o massacre completou 100 anos. No Chile foram organizados uma série de atos que tiveram repercussão até na Europa, menos aqui no Brasil. A indústria jornalística não deu uma só linha sobre os atos, muito menos trouxe a memória os tristes episódios. Apenas a imprensa alternativa, com destaque para a Revista Fórum, n° 57, publicou material sobre o tema. O site latinoamericano reproduz trecho da reportagem de Maurício Ayer, da Revista Fórum, mostra fotos do ato celebrado no Chile e traz a versão original da Cantata Santa Maria de Iquique.
topo
O que foi o massacre de 1907
(reprodução e adaptação da reportagem "Aos mortos do Iquique" de Maurício Ayer, revista Fórum, n° 57, dezembro de 2007. Clique aqui para ver o site da Fórum)
"Senhoras e senhores, viemos contar
aquilo que a história não quer recordar"
Foi em dezembro de 1907, em Iquique, cidade portuária do Norte chileno, responsável naquele tempo pelo escoamento da produção de salitre das minas da região.
As empresas salitreiras, basicamente inglesas, manejavam todo o sistema, inclusive comercial. Os trabalhadores não recebiam dinheiro, apenas fichas, que só eram aceitas em lojas, chamadas de pulperías, pertencentes aos patrões, onde eram obrigados a comprar aquilo que necessitavam. Com o tempo, o poder de compra das fichas foi baixando, mas o valor do soldo se mantinha o mesmo.
Os operários decidiram se organizar, pedir o fim do sistema das fichas e que o soldo subisse para 18 peniques (os pennies, "centavos" da libra esterlina). Além de melhores condições de segurança no trabalho.
"Falamos de uma atividade de extração de salitre em pleno deserto do Atacama, com temperaturas de 30oC durante o dia e -5oC à noite. Falamos de condições de trabalho do princípio do século XX, quer dizer, mínimas condições de segurança e de higiene, moradias precárias. E um trato econômico muito deficiente", explica o sociólogo e historiador Bernardo Guerrero, professor na Universidade Arturo Prat de Iquique.
Como os patrões viviam na Inglaterra, não havia quem os ouvisse. Decidiram então ir a Iquique, onde estavam a aristocracia salitreira, o porto, os bancos e a intendência do governo central de Santiago. Na Cantata, é emocionante ouvir o que seria o relato de um trabalhador dizendo para sua mulher, que carrega o filho no colo, para que confie e vá com ele, pois serão ouvidos em Iquique.
"Descem caminhando ou de trem - homens, mulheres e crianças -, por 80, 90, 100 quilômetros. E praticamente invadem a cidade. São entre dez e 20 mil operários, numa cidade onde vivem 20 mil habitantes", retrata Guerrero.
"Os senhores de Iquique tinham pavor;
era pedir demais ver tanto trabalhador.
Na gente dos pampas não se podia confiar,
podiam ser ladrões ou assassinar.
Enquanto isso as casas eram fechadas,
olhavam somente pelas janelas.
O comércio fechou também suas portas
havia que tomar cuidado com tantas bestas.
Melhor juntar todos em algum abrigo,
andando pelas ruas eram um perigo."
O pânico tomou conta da aristocracia salitreira, e a administração local resolveu concentrar a massa em uma escola, chamada Domingo Santa María, vazia por ser período de férias. Organizou-se um comitê de greve, e líderes como José Brigg e Luis Olea foram negociar com o intendente Carlos Eastman e os salitreiros.
Eastman disse então que iria a Santiago buscar a solução para os conflitos. Era 16 de dezembro. No dia 20, retornou em um navio de guerra, com um destacamento da Marinha e o general Roberto Silva Renard. Os grevistas os receberam no porto com grande festa e aclamações, esperando pela resposta que trariam. Mas naquela noite declara-se estado de sítio, suspendendo-se os direitos civis.
No dia 21 de dezembro, a escola amanhece cercada por canhões e metralhadoras. Os operários se negam a aceitar a exigência de voltarem ao trabalho e esperam por uma resposta das autoridades. Às 15h, o genral Silva Renard ordena o bombardeio da escola e que os operários que sobrassem fossem mortos a golpes de baioneta.
Não há como precisar o número exato de assassinados pois não houve registros e os mortos foram enterrados em valas comuns. Tal qual o relato de José Arcadio Segundo, em Cem Anos de Solidão, ao dizer para sua mãe, Santa Sofía de la Piedad, sobre os mortos que ele viu nos vagões de trem "Eram mais de três mil - foi tudo o que disse José Arcadio Segundo. Agora estou certo que eram todos o que estavam na estação".
No site www.centenariosantamaria.cl é possível ver como o Chile relembrou o massacre. O trajeto dos trabalhadores das minas até o porto de Iquique foi recriado numa passeata. Às 15h e 45, na Escola houve um ato solene com o toque de sirenes que lembrou o momento do assassinato em assa. Na noite de 21 de dezembro, o grupo Quilapayún apresentou a Cantata.
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cantata santa maria de iquique
1
Quilapayun: Cantata...
ilichtorres
9:51
2
Quilapayun: Cantata...
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3
Quilapayun: Cantata...
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Quilapayun: Cantata...
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