[Carta O BERRO] Em 13 de março de 1900 nascia Gregorio Bezerra . GREGÓRIO BEZERRA: O CENTENÁRIO DE UM VALENTE

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Sábado Março 14 16:05:00 BRT 2009


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Em 13 de março de 1900 nascia Gregorio Bezerra



 “Mas existe neste terra
 
 muito homem de valor
 
 que é bravo sem matar gente
 
 mas não teme matador,
 
 que gosta de ser gente
 
 e que luta a seu favor, como Gregório.

 
GREGÓRIO BEZERRA: O CENTENÁRIO DE UM VALENTE


 
Sérgio Augusto Silveira
 
 Há 17 (hoje 26 anos) morria em São Paulo aquele que, já em vida, passou a 
 ser
 considerado como um dos maiores heróis populares da política brasileira,
 Gregório Bezerra. No dia 13 deste mês, Gregório, que morreu aos 83 anos
 depois de uma vida de militância comunista contra o capitalismo e as
 ditaduras no País desde os anos 30, completaria 100 anos de nascimento. Este
 centenário vem sendo comemorado desde o ano passado, quando mereceu uma 
 placa
 na calçada do monumento Tortura Nunca Mais, no Recife, por iniciativa da
 Associação Pernambucana de Anistiados Políticos, partidos de esquerda e ex-
 colegas do PCB, como o ex-vereador Roberto Arrais.
 
 O mito em torno de sua figura, capaz de mobilizar entidades, inspirar
 escritores e até disputa pela ‘paternidade’ das comemorações do seu
 centenário, deve-se ao seu exemplo de firmeza no cumprimento das missões que
 recebia do PCB, ao enfrentar 20 anos de prisão, as torturas da polícia e do
 Exército e a discriminação no partido. Gregório organizou e pôs em
 funcionamento pelo menos uma centena de sindicatos rurais de orientação
 marxista em quase todos os Estados. Seu exemplo é reconhecido até pelos
 antigos inimigos ideológicos. Quem o conheceu de perto no corpo a corpo da
 militância, vê mais uma razão para o carisma: seu discurso coloquial de 
 velho
 camponês e de imediata comunicação com o povo. Esta foi sua grande arma,
 temida pelos governos que se sucederam até o regime dos generais, derrubado
 em 1985.
 
 Integrante do Comitê Central do PCB, ao lado do lendário chefe comunista no
 País, Luiz Carlos Prestes, Gregório sempre disse que “um revolucionário deve
 ser, antes de tudo, um audacioso”, e deu exemplo disto quando, no Recife,
 deflagrou o movimento de insurreição planejado pela Aliança Nacional
 Libertadora para assumir o poder, tomando de assalto o CPOR, do qual era
 sargento-instrutor. o movimento fracassou, ele ficou preso 10 anos até o
 final da ditadura Vargas, em 1945, mas o sargento criou fama, principalmente
 em suas ações para organizar e trazer para o partido os trabalhadores do
 campo. Com este discurso, Gregório sai, em 1946, candidato a deputado 
 federal
 constituinte pelo PCB legalizado. É eleito com a maior votação na Região
 Metropolitana. Os trabalhadores, assim como parte da classe política, têm,
 até hoje, um juízo dúbio acerca deste líder, ora evitando falar em seu nome
 devido ao estigma de comunista, ora vendo nele uma espécie de Robin Hood.
 
 Gregório sensibilizou de fato o Recife e o País para o seu nome no momento 
 em
 que foi vítima de tortura em público, logo após o golpe de 1964, quando, aos
 64 anos, foi preso e arrastado por um destacamento militar, acorrentado e
 espancado nas ruas do bairro de Casa Forte. A cena chocou a cidade. Mas o
 calvário de Gregório aconteceria também em suas fileiras, já que o Comitê
 Central do PCB o hospedou, mas nunca reconheceu sua capacidade de decidir e
 projetar ações políticas, vendo nele um velho camponês experiente,
 disciplinado, mas simplório, pronto apenas para cumprir tarefas. Nascido no
 município de Panelas, no Agreste pernambucano, paupérrimo, menino de rua que
 teve mais tarde só a instrução recebida no Exército e a doutrinação
 partidária, Gregório não era um intelectual como Prestes. Esta simplicidade 
 o
 fez ser o preterido até no uso do microfone nos comícios, esquecido por quem
 se dizia seu aliado, a ponto de ser forçado a assumir uma candidatura errada
 nas eleições de 1982. Filiado ao PMDB, após acusar o PCB de desvio 
 direitista
 e sair da legenda, concorreu a deputado federal, obtendo apenas 12.156 votos
 sendo uma vítima do grande confronto que começava entre Jarbas Vasconcelos e
 Miguel Arraes. Ambos se desafiavam para ver quem seria mais votado, o nisso
 concentraram mais de 350 mil votos.
 
 Alto, rosto avermelhado, olhos verdes e fala compassada, Gregório tinha uma
 forte compleição física, que o ajudou a resistir aos maus tratos. Casado com
 uma mulher também de origem camponesa, dona Maria, Gregório teve um casal de
 filhos que não herdaram seu ímpeto político, e ainda tem parentes em sua
 cidade natal, a exemplo de seu sobrinho João Alves dos Santos, de 80 anos,
 agricultor. E de sua sobrinha Aurelino Azevedo, que faz questão de orientar
 seus alunos, no colégio estadual Gregório Bezerra, em Panelas, sobre quem 
 foi
 o “Homem de ferro e flor”, na expressão do poeta maranhense Ferreira Gullar.
 De ferro mas frustrado em certos momentos, como confessou ao jornalista
 Geneton Morais Neto, em 1983. “Em 1964, a frustração foi tamanha, pois a
 massa camponesa estava pronta para agir e repelir o golpe militar 
 terrorista.
 Mas não tínhamos armas. Ainda tentei buscar armas no Palácio das Princesas.
 Desgraçadamente, quando cheguei Arraes já estava preso. Voltei de mãos 
 vazias
 ao campo, para desfazer todo um trabalho de conscientização da massa
 camponesa para o confronto. Meu problema não foi o sofrimento, mas a
 frustração”. E mais adiante: “Não me arrependo. Tenho plena consciência de
 que meus atos revolucionários foram justos e oportunos. O que posso ter
 feito, e aí faço autocrítica, é que sempre fui tarefeiro, não tinha boa
 formação teórica”.
 
 
 Advogada lembra trajetória de lutas do líder comunista
 
 A estudante concluinte de Direito e professora, Mércia Albuquerque, passava
 pela praça de Casa Forte, no dia dois de abril, logo após o golpe militar de
 1964, justo no momento em que um homem idoso estava sendo arrastado na rua e
 espancado por um coronel e vários sargentos, sob o olhar horrorizado dos que
 passavam. “Naquele momento eu decidi que iria defender aquele homem que
 estava sendo torturado em público. E foi o que fiz”, conta Mércia, que se
 tornou advogada de presos políticos e, em especial, de Gregório Bezerra, com
 quem aprendeu a dimensão dos problemas políticos e sociais brasileiros. Hoje
 titular da Ouvidoria da Secretaria de Justiça do Estado, ela sofreu maus
 tratos e foi jogada no xadrez, mesmo gestante, várias vezes, por defender os
 inimigos do novo regime.
 
 “Quando eu vi aquela cena, lá em Casa Forte, com o coronel Darcy Villoc 
 Viana
 (o oficial que comandou a prisão de Gregório) gritando ensandecido e
 ameaçando o ancião, enquanto soldados muito jovens arrastavam aquele homem
 cambaleando, eu senti que deveria deixar minha profissão de professora de
 menores abandonados e passar a fazer algo por aquele homem torturado”, 
 lembra
 a advogada.
 
 Ela localizou Gregório no Parque de Motomecanização, um quartel em Casa
 Forte. “Ele estava numa cela, com os pés queimados por soda cáustica e a
 cabeça quebrada. O coronel Villoc disse que eu era uma atrevida. E
 falou: “Com este ferro eu espanquei seu cliente. O que a senhora acha?”. Eu
 respondi: “O senhor tem a força, mas...”. aí ele falou: “Mas o quê?”. E eu
 disse: “Mas mesmo! Posso ir?”. E ele falou: “Dane-se!”. Para ela, naquele
 momento o País vivia “uma síndrome de sangue”.
 
 Passados 36 anos daquelas cenas, Mércia ainda lembra com emoção, assistindo 
 à
 movimentação das comemorações dos 100 anos de seu amigo e ex-cliente. “Todos
 temiam aproximar-se de mim porque eu defendia os presos políticos”, revela,
 fazendo questão de mencionar o então escrivão da Vara de Homicídios, Décio
 Magalhães que, em 1967, aceitou, com riscos, levar para casa as razões de
 defesa de Gregório, rascunhadas por ela, para datilografar. Ainda sem
 experiência profissional, Mércia pedia ajuda dos advogados Rui Antunes e
 Cláudio César Andrade. Eles iam para uma granja, de madrugada para não serem
 vistos pela férrea vigilância policial, onde preparavam as petições. Naquele
 momento, Gregório estava doente da próstata e tinha sido removido para o
 hospital onde hoje é o Ipsep. Conta que havia policiais com metralhadora
 apontando para ela até dentro do quarto do paciente. “Eles queriam ficar até
 dentro da sala de cirurgia, mas o coronel-médico César Montezuma os 
 expulsou.
 Eu rendo homenagens ao falecido coronel”.
 
 Sabe-se que, antes mesmo de ser preso, Gregório esteve escondido durante um
 dia numa usina, enquanto aconteciam centenas de prisões no Recife e no 
 campo.
 Passadas três décadas daquela noite, a advogada, que sabe detalhes contados
 por seu cliente, evita revelar quem foi o usineiro que escondeu o líder
 comunista. Indagada a respeito, ela limita-se a dizer: “Este usineiro foi um
 político muito importante no Estado, é vivo e às vezes se fala nele”.
 
 Segundo Mércia Albuquerque, a vida de Gregório esteve por um foi também 
 antes
 de ser entregue ao Exército. Conta que o capitão PM Álvaro Rêgo Barros
 prendeu Gregório na Usina Pedrosa, em Ribeirão, mas, no caminho, o usineiro
 José Lopes Siqueira, acompanhado de pistoleiros, exigiu que o oficial lhe
 entregasse o pistoleiro. Era para trucidá-lo no canavial. O capitão não
 aceitou. Quase houve tiroteio, mas Rêgo Barros venceu a parada e, como diz
 Mércia, “ele não sujou as mãos com o sangue da história”.
 
 A advogada diz que nunca comungou da mesma ideologia de seu cliente, mas
 reconhece que “tratava-se de um líder autêntico, que assumiu corajosamente
 suas posições, ainda que isso tenha sido causa de muitas privações e
 sofrimentos”. Revela que ele sempre foi o remediador nos confrontos entre os
 presos. Respeitava a todos, independente de facção. E mais, revela
 Mércia: “As mulheres se apaixonavam por ele. Médicas, advogadas lhe mandavam
 cartas. Eu recebia e as rasgava. Achava que a mulher dele, Maria da Silva
 Bezerra (dona Maroca) não podia ser maculada. Um dia Gregório descobriu que
 eu rasgava as cartas. Continuei rasgando. A esposa dele, uma camponesa
 maternal, sempre deu todo apoio a ele, criou os filhos Jandira e Jurandir 
 com
 dignidade. Eu contei a ela sobre as cartas. Hoje eu me arrependo de as ter
 rasgado”.
 
 Mércia conta que, em 1969 na Casa de Detenção, disse a Gregório que ele se
 preparasse para sair, pois era um dos presos que iam ser trocados pelo
 embaixador dos Estados Unidos, Burke Elbrick, sequestrado pela guerrilha
 urbana. Gregório, que já estava com 69 anos, não aceitou ser solto, dizendo
 que a decisão era do partido. A advogada disse que ele não poderia 
 prejudicar
 outros presos que estavam na lista. Ele, então, seguiu para o exílio.
 
 
 CRONOLOGIA
 
 
 1900 – Nasce Gregório Lourenço Bezerra, no dia 13 de março, no sítio Mocós,
 município de Panelas, no Agreste pernambucano. Aos quatro anos começa a
 trabalhar na roça, aos oito fica órfão de pai e mãe e aos 10 vira empregado
 de senhor de engenho.
 
 1911 – Revolta-se contra os maus tratos e foge para o Recife, onde vira
 menino de rua. No ano seguinte, começa a trabalhar como gazeteiro.
 
 1916 – Como ajudante de pedreiro começa a participar do sindicato. No ano
 seguinte, acusado de agitação, é preso na Casa de Detenção do Recife, onde
 passa quatro anos e oito meses.
 
 1922 – É libertado, enquanto no Rio de Janeiro era fundado o PCB.
 
 1923 – Gregório entra no Exército, no antigo 21º Batalhão de Caçadores. É
 transferido para a 1ª Cia. de Carros de Assalto, no Rio. Conhece Luiz Carlos
 Prestes.
 
 1925 – Alfabetiza-se matriculando em curso noturno.
 
 1930 -  Filia-se ao PCB.
 
 1935 – Instrutor de educação física do CPOR, no Recife, o sargento Gregório
 participa da Aliança Libertadora Nacional (ALN), toma de assalto o quartel 
 do
 CPOR. O plano fracassa e Gregório é preso.
 
 1945 – Depois de passar pelas prisões de Fernando de Noronha e Ilha Grande,
 Gregório é libertado no processo de redemocratização e decretação da 
 Anistia.
 É eleito deputado federal constituinte pelo PCB, o mais votado no Recife e o
 segundo no Estado.
 
 1946 – Gregório é preparado para ser candidato a prefeito do Recife. 
 Prevendo
 a vitória comunista, a Câmara dos Deputados aprova intervenção no Recife,
 Santos, São Paulo e Rio.
 
 1947 – O PC é posto na ilegalidade, Gregório é preso, com outros membros do
 partido. É solto no Recife, depois de quase dois anos.
 
 1964 – Novamente preso, no dia dois de abril, logo após o golpe militar.
 
 1967 – Gregório é condenado a 19 anos de prisão. É levado para a Casa de
 Detenção.
 
 1969 – É libertado junto com outros presos políticos em troca do embaixador
 norte-americano Burke Elbrick. Exila-se inicialmente no México, onde já
 estava o fundador das Ligas Camponesas, Francisco Julião. Inicia seu exílio
 em Moscou.
 
 1979 – É decretada a Anistia e Gregório retorna ao Brasil.
 
 1980 – Juntamente com Prestes, Gregório sai do PCB acusando o partido
 de “desvios direitistas”.
 
 1982 – Candidata-se a deputado federal em Pernambuco e é derrotado, obtendo
 apenas 12.156 votos.
 
 1983 – Cardíaco, tem uma crise e é levado a São Paulo, onde falece.
 
 
 DEPOIMENTOS
 
 Arquiteto Oscar Niemeyer (PCB), autor do projeto do Memorial a
 Gregório: “Gregório
 
 Ferreira Gullar, poeta, autor do poema “História de um valente” exaltando
 Gregório: “Das figuras revolucionárias que conheci e que queriam mudar o
 Brasil, Gregório era o que representava o povo humilde. Ele acendeu a
 consciência de que é necessário mudar o Brasil. Nenhum outro revolucionário
 brasileiro representou tão bem as camadas mais distantes dos problemas
 políticos e ideológicos, ele que nasceu na roça e aprendeu a cortar cana.
 Ele, na sua biografia, canta a alegria quando começa a chover. Ele é um
 exemplo para todo jovem. Este tem que saber que houve, no Brasil, este homem
 e há na nossa história. Assim, ele é permanente, porque representa o passo
 adiante da consciência humana que é a liberdade. Não vejo ninguém 
 comparável,
 hoje, a Gregório”.
 
 Os versos célebres dedicados por Ferreira Gullar ao líder comunista,
 constantes do poema “A história de um valente”:
 
 “Mas existe neste terra
 
 muito homem de valor
 
 que é bravo sem matar gente
 
 mas não teme matador,
 
 que gosta de ser gente
 
 e que luta a seu favor, como Gregório.
 
 
 Ex-governador e presidente nacional do PSB, Miguel Arraes: “Conheci Gregório
 Bezerra em 1934, quando eu tinha 17 anos e fazia serviço militar no tiro de
 Guerra do Recife. Ele era sargento e foi meu instrutor. Depois nos
 encontramos em muitos momentos das lutas políticas que travamos ao longo
 desses anos todos. Embora pudéssemos ter divergências pontuais quanto às
 táticas, sabíamos ter em comum a convicção de que era preciso afirmar a
 dignidade de nosso povo e lutar contra a injustiça e a opressão. Guardo dele
 principalmente a lembrança de sua simplicidade e da força com que defendia
 suas convicções. Vítima da tirania que prende e tortura, nunca vacilou na
 afirmação do que acreditava. Sua característica mais marcante era a coragem 
 e
 a convicção”.
 
 Luiz Carlos Prestes Filho, coordenador do projeto artístico comemorativo do
 Centenário: “O exílio teve um lado feliz para mim. Convivi com Gregório nove
 anos. Ele era pessoa frequente na nossa casa, a partir de junho de 1970.
 Presenciei uma coisa magnífica: um homem que já tinha 70 anos participando
 das aulas de russo com as crianças. Aprendeu a língua. Importante foi a
 atuação dele em defesa dos direitos humanos, viajando pela Europa e dando
 depoimentos à Anistia Internacional. Tinha mais vigor que muitos jovens. Ele
 não dava chance da gente ficar triste e desanimado. Viajava com um 
 passaporte
 cubano. Jornalistas russos perguntaram a ele sobre qual a coisa da vida
 brasileira da qual mais sentia saudade, e ele respondeu, “sinto mesmo é
 saudade de comer jaca”.
 
 
 Transcrito do JORNAL DO COMÉRCIO – Recife, 12.03.2000

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Sua Memória em 4 volumes
 
 
 
 


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