[Carta O BERRO] "A chacina de Gaza. A posição do Hizbóllah" [Amal Saad-Ghorayeb,
Vanderley Caixe
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Quarta Janeiro 14 19:07:20 BRST 2009
Carta O Berro..........................................................................repassem
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From: Beatrice
A chacina de Gaza. A posição do Hizbóllah
Amal Saad-Ghorayeb, The Electronic Intifada, 11/1/2009 - http://electronicintifada.net/v2/article10163.shtml
Amal Saad-Ghorayeb, cientista social e analista político, é professor da American University, em Beirute.
É autor de Hizbullah: Politics and Religion. Trabalha atualmente na pesquisa para outro livro
sobre as alianças regionais entre Iran, o Hizbóllah, o Hamás e a Síria (IB Taurus), a ser publicado em 2010.
Enquanto Israel consome-se no esforço para aterrorizar os palestinenses, na tentativa de reduzi-los à total submissão, observadores da política na Região começam a perguntar-se por que o Hizbóllah ainda não interveio militarmente no socorro ao Hamás.
Para responder essas perguntas é preciso conhecer os impedimentos que cercam o Hizbóllah, tanto quanto as circunstâncias nas quais esses impedimentos não impedirão que o Hizbóllah intervenha. A pergunta que se tem de fazer não é se o Hizbóllah agirá. A pergunta é: quando agirá?
No pé em que estão as coisas hoje, o Hizbóllah não está em posição de poder auxiliar militarmente o Hamás, por exemplo, abrindo uma outra frente de combate com Israel. Em primeiro lugar, o Hizbóllah e seus apoiadores ainda não se recuperaram completamente do impacto devastador da resistência contra Israel, que atacou o Líbano em julho de 2006. Uma ofensiva do Hizbóllah contra o norte de Israel seguramente enfrentaria força "desproporcional" e seria como cair numa armadilha para a qual Israel tenta atrair o grupo há meses. À parte a destruição e a devastação, outra vez o Hizbóllah enfrentaria forte pressão interna no sentido do desarmamento, e, possivelmente, enfrentaria também outra onda de conspirações e agressões e atentados, organizadas fora da Região, que arrastaria o movimento para outra espécie de guerra civil, como aquela em que o movimento viu-se envolvido em maio de 2008.
Qualquer ação armada do Hizbóllah, agora, não apenas seria internamente contraproducente para o próprio Hizbóllah quanto seria contraproducente também para o Hamás, que luta também para legitimar-se como força política de manifestação dos interesses legítimos dos palestinenses, e não tem interesse em mostrar-se aliado um grupo tão marcadamente apresentado no ocidente como "fundamentalista" e "terrorista". O apoio militar, nesse caso, é politicamente pouco interessante também para o Hamás.
Além do mais, até agora o Hamás tem conseguido resistir ao massacre imposto por Israel, sem ter sofrido qualquer abalo na hierarquia organizacional ou em sua infra-estrutura militar. Nessas circunstância, o Hizbóllah ainda não viu como indispensável ou urgente qualquer tipo de intervenção direta.
São duas as precondições para que o Hizbóllah engaje-se diretamente na luta contra Israel.
Primeiro, o Hizbóllah intervirá, em socorro ao Hamás, se o Hamás for realmente ameaçado de destruição, em situação que os analistas regionais considerem além de qualquer possibilidade de reestruturação a curto prazo. Esse tipo de situação pode configurar-se, por exemplo, se a infra-estrutura militar rizomática do grupo sofrer abalo significativo, de modo que realmente reduza sua capacidade militar - o que ainda não aconteceu; ou se a rede de comando do grupo for abalada; o que também ainda não aconteceu.
Segundo, o Hizbóllah intervirá, também, se o Hamás ficar em posição tão enfraquecida a ponto de ter de aceitar qualquer cessar-fogo incondicional, na linha da proposta de França-Egito, o que enfraquecerá o Hamás (politicamente e militarmente), na medida em que significará aceitar todas as exigências de Israel. Nesse caso, o Hizbóllah sentir-se-á obrigado a intervir.
Nessas específicas circunstâncias, do ponto de vista do Hizbóllah, a necessidade de intervir em socorro ao Hamás superará qualquer custo político que a ação implique, interno ou externo. Para esse cálculo estratégico, o Hizbóllah considera (i) a responsabilidade moral que o grupo tem em relação aos palestinenses chacinados por Israel e (ii) a consciência de que Hizbóllah e Hamás partilham um mesmo destino estratégico, como movimentos de resistência à ocupação da Palestina e à ação predatória de Israel em todo o Oriente Médio.
Nas palavras do secretário geral do Hizbóllah, Hassan Nasrállah, em 16/7/2008:
"[a resistência] é projeto de ação e o movimento de resistência a Israel são um mesmo movimento, seguem um mesmo curso, têm um mesmo destino, um mesmo objetivo, apesar de haver várias linhas, partidos, grupos, crenças, seitas e tendências intelectuais e políticas. Os movimentos da resistência nessa região, especialmente no Líbano e na Palestina, são movimentos complementares; são movimentos contíguos e complementares; complementam-se um, o outro."
Como o Hizbóllah vê o conflito em Gaza
O imperativo moral e estratégico para agir contra Israel e a favor do Hamás é corolário do modo como o Hizbóllah analisa a guerra em Gaza: como mais um episódio da guerra inclusiva movida pela coalizão em que se reúnem os países árabes "moderados" e EUA-Israel, contra a jabhit al-mumana'a ( = "Frente de resistência militar e política") formada por Iran, Síria, Hizbóllah e Hamás.
Por essa análise e conforme essa narrativa, os eventos a que se assiste hoje em Gaza são continuação da guerra de julho de 2006 - o que (i) Israel já admitiu e (ii) explica a violência selvagem dos ataques contra Gaza.
Israel já disse que um dos motivos do atual massacre de Gaza seria restaurar o poder de contenção e recuperar a imagem do exército, muito seriamente abalados em julho de 2006. Para confirmar o acerto de sua análise, o Hizbóllah observa que a posição que os regimes árabes ditos "moderados" assumiram em relação a Gaza é quase idêntica à posição que assumiram em julho de 2006. De fato, o papel dos regimes árabes "moderados" mudou, apenas, de um "silêncio" e de uma "colaboração" ocultados com Israel, na guerra de julho, para abertas e declaradas "cooperação" e "parceria" com o Estado sionista, agora, na guerra contra Gaza.
Essa análise parece acertada. O apoio de alguns governos árabes, sobretudo de Mubarak, do Egito, às campanhas militares de Israel tornou-se tão flagrante, que até o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (conhecido por suas simpatias por EUA e Israel) reclamou, dia 29/12, depois de iniciada a agressão militar contra Gaza, de os governos árabes "não estarem fazendo o necessário" para auxiliar os palestinenses de Gaza; ao mesmo tempo, diplomatas israelenses e grande parte da imprensa continuaram a criar embaraços para os aliados árabes de Israel, tantos foram os elogios por os árabes, afinal, terem claramente assumido publicamente "um relacionamento" com Israel.
Considerada a extensão da colaboração entre alguns regimes árabes e Israel, nas recentes (des)aventuras militares de Israel, e considerada a horrenda selvageria do ataque a Gaza, o episódio em curso - a chacina de Gaza - está sendo avaliada como particularmente significativa, em termos de avaliação estratégica, e muito grave, no contexto do conflito em todo o Oriente Médio, na medida em que (i) é ataque militar contra um governo eleito (do Hamás); e (ii) é ataque militar direto aos que defendem a criação de um Estado da Palestina (nas palavras de Nasrállah, dia 29/12: "é ataque militar direto contra o destino da Palestina").
Dado que o Hamás manifesta a causa da defesa de um Estado da Palestina e, assim, define a identidade política de seus aliados regionais, o conflito em curso, em Gaza, põe em disputa e sob ataque não só essa causa mas a causa de todos os grupos que trabalham nos movimentos de resistência a Israel. Nasrallah foi muito claro quanto a isso, em sua fala de 28/12:
"O que está acontecendo em Gaza terá repercussões não só sobre Gaza e a Palestina, mas para toda a umma [termo usado para fazer referência a uma "nação árabe" em contexto nacionalista e secular e, também, a toda a comunidade muçulmana em todo o planeta]. Temos de continuar a trabalhar. Não basta uma manifestação aqui, um comício ali. Todos temos de lutar para nos defender e defender os pobres."
A estratégia regional do Hizbóllah, no conflito de Gaza
Para o Hizbóllah, o ataque de Israel a Gaza era previsível e estava sendo esperado desde que Israel passou a violar repetidamente o acordo de cessar-fogo que assinara com o Hamás, acordo que, um mês antes de que expirasse, o Hamás anunciou que não renovaria. Parece muito evidente que o Hizbóllah já previa que Israel atacaria Gaza; parece muito evidente também que já operava associado ao Hamás, já há algum tempo.
Sinal de que houve essa coordenação de movimentos, Nasrállah falou pela televisão no dia 15/12, com o claro objetivo de começar a mobilizar apoio popular para uma campanha "sem prazo para terminar" para pôr fim ao bloqueio de Gaza e que seria lançada dia 19/12, vários dias antes de começar o assalto israelense contra Gaza. Não há como pensar em coincidência: dia 14/12, cinco dias antes, Khaled Meshall, líder político do Hamás, declarou formalmente o fim do pacto de cessar-fogo, que Israel, como se sabe, sempre violou e jamais respeitou.
Além dessa coordenação política, o Hizbóllah muito provavelmente ajudou o Hamás a preparar-se para enfrentar o ataque de Israel, seja por fornecer armas e treinamento, seja por contribuir no trabalho de planejamento militar estratégico. Os especialistas do Hizbóllah confiam muito na competência organizacional e estratégica do Hamás, o que não deriva de qualquer tipo de 'solidariedade' política e deriva, exclusivamente, de profundo conhecimento sobre o modo como o Hamás organizou-se, desde o início.
Também aí, nada há de adivinhação. É conclusão a que se pode chegar facilmente, a partir do que disse à imprensa Muhammad Raad, líder do bloco parlamentar do Hizbóllah em Beirute, dia 2/1/2009: "Israel se surpreenderá com o alcance dos Qassams que estão sendo fabricados em Gaza." O mesmo argumento já transparecia nas declarações de Nasrállah, em março de 2002, quando confirmou que os três combatentes capturados na Jordânia, quando contrabandeavam armas para a Cisjordânia, eram, sim, militantes do Hizbóllah. Na mesma ocasião, Nasrállah disse também que "é dever de todos contribuir como for possível para a defesa dos palestinenses, também com armas. Se houver crime aí, mais crime sempre haverá em os EUA armarem Israel, como sempre armaram, até os dentes."
A luta de resistência do Hamás também parece exibir a 'marca registrada' das táticas militares que o Hizbóllah usou na guerra de julho (abrigos subterrâneos interligados por túneis, e os foguetes, usados mais como instrumentos táticos e de propaganda, do que por algum poder de ataque, que os foguetes não têm). Tudo isso sugere que as forças militares do Hamás tenham sido longa e atentamente treinadas pelo Hizbóllah. Nasrállah chegou bem perto de admiti-lo, dia 31/12, quando disse que "a resistência em Gaza aproveitou, muito melhor do que o governo de Israel, essas lições [da guerra de julho]."
Mais do que apenas receber treinamento militar, as estratégias militares do Hamás parecem considerar todas as lições da "nova escola" criada por Imad Mughniyeh, estrategista militar do Hizbóllah, assassinado em atentado (e que, pessoalmente, disse várias vezes que treinara e equipara vários grupos da resistência palestinense, ao longo dos anos). Essas estratégias combinam táticas convencionais e não-convencionais da tradicional guerra de guerrilhas, concebidas tanto para libertar territórios ocupados quanto para protegê-los contra agressão.
A estratégia do Hizbóllah, em relação ao Egito
O Hizbóllah não coordenou sua atividade no conflito de Gaza apenas com o Hamás; coordenou-a também com o Iran. Indicação clara dessa coordenação foi o fato de a campanha iraniana contra o Egito, por ter fechado a passagem de Rafah, ter sido lançada poucos dias antes de Nasrállah ter sugerido que o Cairo chamasse de volta o seu representante diplomático em Teeran. Dia 12/12, o aiatolá Ahmad Khatami, membro do 'conselho de aiatolás', muito fortemente ligado ao supremo líder religioso do Iran, Imam Khamenei, esbravejou contra os governos árabes, em linguagem e tom que fazem lembrar o revolucionário discurso de Khomeini dos anos 80s: "Esqueçam o silêncio. São colaboracionistas. Colaboram com Israel."
Referindo-se nominalmente ao Egito, e à colaboração com Israel no bloqueio de Gaza, Khatami perguntou: "que fim levou seu islamismo? Que fim levou sua idéia de humanidade?" Na mesma linha, na fala de 28/12, mas mais incisivo, Nasrállah rejeitou que houvesse algum "silêncio" dos governos árabes; para ele, não se tratava de "silêncio", mas de declarada "parceria" com Israel. Como Khatami, Nasrállah também se referiu direta e nominalmente ao Egito, dizendo que, se mantiver fechada a passagem de Rafah, "também será parceiro do crime, parceiro de assassinatos e de assassinos, parceiro dos carrascos da tragédia de Gaza." Nesse ponto, o líder do Hizbóllah convocou "os milhões" de cidadãos egípcios a tomar as ruas e manifestar sua vergonha, seu ultraje, para pressionar o governo de Mubarak; ao mesmo tempo, conclamou o exército egípcio a pressionar o governo no sentido de abrir a passagem de Rafah - operação que, na prática, 'fura' o bloqueio que Israel impôs a Gaza.
Há quem veja a catarata verbal de Nasrállah contra o governo de Mubarak como pouco mais que tática diversionista ou compensatória, para desviar a atenção ou compensar o que, para esses analistas, seria apenas inação do Hizbóllah. Esse tipo de análise, contudo, não avalia adequadamente a evidência de que esse tipo de ataque direto a um governo árabe é muito raro nas falas de Nasrállah. Desde os anos 80, já há quase trinta anos portanto, o Hizbóllah não atacava de forma tão explícita um governo árabe, nem identificava algum governo árabe como inimigo. Nem durante a guerra de julho, quando foi muito clara e muito extensa a cumplicidade entre Israel e governos árabes, Nasrállah jamais conclamou massas árabes a pressionar governos árabes; e, desde então, as relações entre o Hizbóllah e aqueles regimes manteve-se estável. Naquele momento, o Hizbóllah claramente não desejava queimar pontes com os regimes árabes nem dar-lhes munição para os discursos anti-xiitas, que fariam crescer as tensões entre xiitas e sunitas. Dada a situação que se configurou em Gaza, de chacina e massacre, tudo leva a crer que o Hizbóllah entendeu que não é hora para luvas e procedimentos diplomáticos. Em fala do dia 7/1/2009, Nasrállah disse que, embora o Hizbóllah não visse como inimigos os governos que o traíram na guerra de julho "consideraremos como inimigos os que colaborem para o massacre de Gaze e dos palestinenses."
A política do Hizbóllah mudou; e a ação coordenada com o Iran é, quanto a isso, sinal de que está em curso uma estratégia comum, Iran-Hisbóllah, para expor a cumplicidade entre Israel e o governo de Mubarak, com vistas a obter a abertura da passagem de Rafah e o fim do bloqueio de Gaza.
Esses objetivos servem também ao objetivo maior de abalar os alicerces da aliança Egito-Israel, objetivo que, por sua vez, visa a enfraquecer a posição regional de Israel. Pelo que se pode observar, esse tipo de estratégia foi considerada necessária, dado o "abraço público" entre Egito e Israel, nos termos usados por um jornalista israelense (Haaretz, 9/1). Diferente do que houve na guerra de julho, quando Egito e outros governos árabes "moderados" limitaram-se a culpar o Hizbóllah por agressões cometidas por Israel, dessa vez o Egito sequer se deu o trabalho de fingir neutralidade, ao mesmo tempo em que buscava auferir alguma vantagem da campanha de Israel contra o Hamás. Na guerra de Gaza, o Egito não pode nem desempenhar o papel de mediador-conspirador, porque, de fato, é parte do conflito.
É sabido de todos que o Egito teve conhecimento antecipado do ataque de Israel a Gaza - e também há quem diga que 'encomendou' o ataque.
A indicação mais palpável de que há objetivos comuns, entre Egito e Israel, na guerra de Gaza, é a insistente recusa, do Egito, de abrir a passagem de Rafah, recusa que, de fato, é o movimento que, hoje, mantém o bloqueio a Gaza. O Hizbóllah e seus aliados consideram que a abertura de Rafah é a questão crucial para avaliar o futuro da guerra de Gaza.
Como Nasrállah explicou, dia 28/12: "Hoje, o Egito é o xis da questão do que acontecerá em Gaza. Se a passagem for aberta, e a população de Gaza puder receber água, alimentos, remédios, dinheiro e eventualmente armas, Israel será novamente derrotada, como já foi derrotada no Líbano." A importante experiência histórica do Hizbóllah comprova que o grupo não erra, nesse tipo de avaliação estratégica. Quando a Síria abriu uma passagem de fronteira para o Líbano, permitindo o movimento de alimento, armas e refugiados, o Hizbóllah desencadeou as ações que determinaram seu sucesso militar naquela operação, em 2006. No caso de Rafah, a abertura da fronteira é considerada ainda mais crucialmente importante, não só porque criará uma linha de suprimento para o Hamás mas, sobretudo, porque criará uma linha de sobrevivência para toda a população de Gaza, que enfrenta sítio que já está sendo comparado, sem exagero, aos mais cruéis sítios das mais cruéis guerras de todos os tempos.
Embora a estratégia de Nasrállah não tenha sido suficiente para persuadir Mubarak a abrir a passagem de Rafah, serviu para criar-lhe enormes problemas domésticos e regionais, e reduziu o papel do Egito, que deixou de poder continuar atacando e passou a ter de defender-se, superocupado com produzir contra-argumentos, todos insatisfatórios até agora, para responder às principais acusações do Hizbóllah, além de ter de ocupar-se, também, com mobilizar outros aliados "moderados", os quais tiveram também de passar a defender o Egito.
Além disso, para encobrir os muitos escândalos de corrupção que ameaçam sua estabilidade, o governo egípcio formulou agora uma iniciativa de cessar-fogo, na vã esperança de, assim, restaurar sua já perdida posição de prestígio na Região.
Para os palestinenses (e para a muito ampla maioria de árabes e egípcios) nenhuma ação restaurará o prestígio do Egito, enquanto mantiver fechada a passagem de Rafah. Além do mais, a própria iniciativa de cessar-fogo apresentada pelo Egito serve sobretudo aos interesses de Israel e aos seus objetivos militares, tanto quanto serve aos interesses de Máhmude Abbas, na medida em que visa a restaurar o acordo Fatah-Israel, de 2005, que entregava a supervisão da fronteira de Rafah às forças de segurança do Fatah e a forças européias de supervisão.
Embora o Hizbóllah ainda não se tenha manifestado sobre a proposta encaminhada por França e Egito, o Hamás já manifestou "graves reservas" sobre o mesmo tema; e o Iran rejeitou-a completamente, imediatamente. Pode-se supor, portanto, que o passo seguinte, na estratégia Hisbóllah-Iran, será garantir que o Hamás não seja encurralado até ser obrigado a aceitar a proposta do Egito, o que implicaria enfraquecimento político e militar do Hamás. O Hizbóllah e seus aliados apóiam integralmente o movimento pelo qual o partido Hamás recusa-se a se converter em equivalente islâmico do partido Fatah.
A prontidão do Hizbóllah, para intervir militarmente
Alguns analistas sugeriram que haveria divisões internas no Hizbóllah, relativas às circunstâncias sob as quais o Hizbóllah daria ajuda militar ao Hamás. Essas análises não parecem plausíveis. Como já se disse aqui, não cabe supor que o Hizbóllah tenha sido surpreendido pelo ataque israelense e é altamente implausível que os estrategistas do Hizbóllah e as lideranças políticas tenham sido apanhadas no contrapé e, de repente, tenham sido colhidas por divisões internas que as pressionassem a tomar qualquer tipo de iniciativa não planejada. A concepção estratégica fundamental da ideologia do Hizbóllah, de defender o Hamás e a população palestinense contra agressões israelenses é, necessariamente, questão de fundo, sobre a qual jamais houve qualquer divisão e é perfeitamente consensual dentro do partido.
Além disso, as lideranças políticas do partido não se comprometeram publicamente com qualquer política de contenção, nem é provável que o tivessem feito nos bastidores, como tentaram argumentar alguns funcionários do Líbano no campo adversário de 14 de março. Quando Saad Hariri, líder da maioria parlamentar no parlamento libanês, anunciou, no início de janeiro, que Saeed Jalili, chefe do Conselho de Segurança Nacional do Iran, lhe garantira que o Hizbóllah não reagiria ao ataque de Israel a Gaza, Nasrállah imediatamente o ridicularizou, por estar oferecendo "garantias grátis" a Israel. De fato, eu mesmo, que aqui escrevo, em contato com fonte confiável na embaixada do Iran no Líbano, soube que Jalili jamais deu qualquer tipo de "garantia" a Hariri.
A razão, então, para essa ambiguidade construtiva do Hizbóllah, e venha ou não a intervir militarmente na guerra de Gaza, parece bem clara: embora até aqui o Hizbóllah tenha-se mantido à margem do conflito direto, é altamente improvável que continue assim no caso de haver risco real de o Hamás entrar em colapso.
Se se sabe que a causa dos palestinenses é central na estratégia do Hizbóllah, considerada, por sua vez, como crucialmente decisiva na resistência contra o projeto EUA-Israel na Região, o Hizbóllah em nenhum caso permitirá que o Hamás seja esmagado, seja militarmente seja politicamente - o que seria resultado inevitável, no caso de o Hamás ser encurralado para uma posição em que seja obrigado a assinar algum acordo humilhante de cessar-fogo, que enfraqueceria muito e eventualmente destruiria o movimento. Nesse contexto é que se devem interpretar os discursos mais recentes do Hizbóllah, de que "jamais abandonará a defesa dos palestinenses".
Outra indicação de que o Hizbóllah está pronto para oferecer apoio militar ao Hamás apareceu também na fala de Nasrállah do dia 29/12, dia santificado para os Muçulmanos, o Dia da Ashura ("Décimo Dia"), fala que ainda não foi suficientemente analisada no ocidente, dentre outros motivos porque não foi sequer divulgada no ocidente: "Espero que todos os aqui reunidos hoje (...) estejam sempre prontos a responder a qualquer chamado, convocação, decisão." Embora se possa ler aí que os seguidores do Hizbóllah's estivessem sendo convocados para defender o próprio direito de defender-se em caso de agressão de Israel ao Líbano, também se pode argumentar que o Hizbóllah não precisa convocar seus partidários, que já tantas vezes demonstraram prontidão e rapidez de resposta, em casos em que se tratou de defender o próprio direito de defesa. Além do mais, o Hizbóllah não tem qualquer tradição de formular estratégias e posições de autodefesa; a autodefesa é entendida como direito não-negociável nem discutível e, muito mais importante, como dever do Hizbóllah.
Cenários de intervenção
Embora qualquer ação armada do Hizbullah atraia sobre o movimento a ira mais cega de Israel, não se pode dizer que haja qualquer dificuldade radical em o Hizbóllah atrair para essa estratégia o apoio popular dos xiitas; bastaria, para tanto, que, além de apresentar alguma ação armada contra Israel como estrategicamente interessante (porque abriria outra frente de combate que Israel teria de enfrentar), o Hizbóllah a apresente como movimento de legítima autodefesa. Israel tem fornecidos inúmeros pretextos ao Hizbóllah, na forma de provocações, das quais o Hizbóllah poder-se-á servir, para iniciar guerra, também ele, contra o Estado sionista. Além de Israel ainda continuar ocupando as fazendas de Shebaa e Ghajar, das quais o governo libanês, usando só as vias diplomáticas, ainda não conseguiu retirar as tropas israelenses de ocupação, Israel continua, quase rotineiramente, a sequestrar civis libaneses no setor libanês da Linha Azul. O mais recente desses sequestros aconteceu em dezembro de 2008.
Ainda mais frequentemente, aviões israelenses invadem o espaço aéreo do Líbano, em atos diários e repetidos de violação que contrariam o que determina a Resolução n. 1701, da ONU.
Em julho de 2008, o Hizbóllah protestou abertamente contra essas violações, declaradas "provocativas, inaceitáveis, proibidas e condenáveis", e exigindo que o governo do Líbano e os corpos responsáveis da ONU tomassem as medidas necessárias para pôr fim àquela prática ilegal. Em 31/7/2008, o jornal libanês Al-Akhbar, considerado simpático ao movimento, noticiou que o Hizbóllah planejava tomar "medidas práticas" em resposta àquelas violações. Pela mesma época, vários jornais, em todo o mundo árabe, noticiaram a instalação de bases de lançamento de mísseis anti-aéreos nas montanhas do Líbano, para o objetivo explícito de impedir qualquer violação de seu espaço aéreo por aviões de Israel. Verdadeiras os falsas essas notícias, a verdade é que o Hizbóllah nem precisaria derrubar jatos para protestar contra os atos ilegais de Israel; bastaria pôr-se a disparar foguetes ou mísseis anti-aéreos (ou não) que "acidentalmente" cairiam nas colônias de ocupação do norte de Israel, como já aconteceu no passado.
Alguma resposta ao atentado no qual Israel assassinou Mughniyeh também seria fagulha suficiente para que o Hizbóllah se declarasse em guerra contra Israel. De fato, não pode haver dúvida de que o Hizbóllah responderá àquele atentado, mais dia menos dia, considerando-se o significado político e militar que teve para todo o movimento e lembrando-se que, na fala do dia 14/2/2008, Nasrállah falou sobre "uma guerra aberta" contra Israel. Além disso, uma semana depois, na fala de 22/2/2008, jurou vingança: "Oh, Hajj Imad, juro em nome de Deus que seu sangue não correu em vão." É muito provável que o Hizbóllah tenha reservado o direito de responder àquele atentado em momento em que a resposta sirva a objetivo estratégico e político mais amplo do que reação de 'olho por olho'. Que melhor objetivo político e estratégico poderiam supor que haja, do que quando os palestinenses enfrentam a carnificina selvagem a que o mundo assiste hoje e para salvar o Hamás de algum colapso que esteja iminente?
Em qualquer dos cenários possíveis, o Hizbóllah sempre terá de explicar o timing de qualquer medida defensiva que venha a adotar. Qualquer ataque sempre estará plenamente justificado como "preemptive attack", argumento cuja legitimidade o governo Bush encarregou-se de construir e ensinar ao mundo, no caso de o Hizbóllah definir-se (como os EUA definiram-se) como "os próximos" da linha de fogo de um exército de ataque. No caso de Israel, dificilmente alguém convenceria alguém de que, tendo destruído política e militarmente o Hamás, o Hizbóllah não seria "o próximo" na linha de fogo do exército de Israel.
De fato, Nasrállah já alertou duas vezes (nas falas de 28/12 e de 7/1) sobre o risco de que Israel ataque novamente o Líbano a qualquer momento. Nas duas falas, disse que o Hizbóllah estaria "mais do que preparado" para reagir.
Fato é que as ameaças de Israel ao Líbano não começaram com a guerra de Gaza; já há mais de um ano, não há discurso oficial do governo de Israel que não inclua ameaças ao Líbano.
O Hizbóllah, como exército em prontidão
O Hizbóllah começou a responder àquelas ameaças não só com contra-ameaças mas, também, com um novo tipo de discurso em que dá destaque ao objetivo de erradicar Israel da Região, se Israel insistir em definir-se como Estado sionistas. Nesse novo discurso, há clara referência a "destruir o exército israelense". A associação direta entre a sobrevivência de Israel como Estado e a capacidade de contenção do exército israelense não é nova, nos discursos políticos do Hizbóllah, mas, como Nasrállah explicou detalhadamente na fala de 22/2/2008, a novidade está em atacar diretamente o exército e sua "capacidade remanescente de contenção", como meio para mudar radicalmente a posição estratégica de Israel na Região.
No primeiro aniversário da guerra de julho, dia 14/8/2007, Nasrállah surpreendeu simultaneamente, tanto seus apoiadores quanto Israel, ao "prometer" uma "grande surpresa" em qualquer eventual próximo confronto militar com Israel, que "poderá mudar o rumo da guerra e todo o destino da Região" e que poderia levar o Hizbóllah a "uma vitória histórica e decisiva". O Hizbóllah não apenas conseguiria destruir toda a "capacidade remanescente de contenção" do exército israelense como, além disso, seria vitória rápida em guerra rápida: "Qualquer nova guerra será fácil e a vitória virá rápida" - disse Nasrállah, dia 24/8/2008.
Ao mesmo tempo em que vários analistas conjecturaram que as ameaças de Nasrállah sugeririam que o Hizbóllah teria comprado armas avançadas (mísseis anti-aéreos, por exemplo), nada impede que se conjecture (idéia que não invalida a conjectura acima) que o Hizbóllah tenha desenvolvido outros métodos e estratégias que impliquem número muito maior de combatentes do que antes. Dia 14/2/2008, Nasrállah disse que "Em qualquer guerra futura não haverá apenas um Imad Mughniyeh à espera de Israel, nem haverá apenas algum poucos milhares de combatentes. O Imad Mughniyeh deixou-nos a herança de dezenas de milhares de combatentes-mártires treinados, equipados e prontos." Dez dias depois, dia 24/8/2008, Nasrállah disse que esses combatentes lutariam "por método de luta sem precedentes", o qual, disse, "Israel jamais viu desde que aqui se implantou".
Independente de o quanto o Hizbóllah esteja preparado ou pronto para a guerra, e de qual seja seu real potencial para destruir a capacidade de contenção do exército israelense, fato indiscutível é que, para o movimento e para seus apoiadores e aliados, o objetivo de destruir o regime sionista em Israel deixou de estar confinado no plano exclusivamente ideológico e passou a incluir o plano muito objetivo dos interesses e movimentos estratégicos. A segurança de todos os regimes exige que a perpétua ameaça que Israel representa para todos, na Região, seja neutralizada de uma vez por todas.
Embora essa lógica possa parecer retrocesso aos anos 50 e 60, o novo pensamento do Hizbóllah é em tudo muito semelhante à noção de "troca de regime" e à proposta conhecida como "Solução de Um Estado", que integra as propostas que os EUA têm elaborado e que, na Região, já deslocaram e substituíram as idéias de "atirar os judeus (ou os árabes, conforme o lado) no mar" - presentes, no passado, tanto no fanatismo sionista, quanto no fanatismo anti-sionista quanto, também, no fanatismo árabe e no fanatismo anti-árabe.
Se a guerra de Gaza serviu para alguma coisa, ela serviu para levar essa lógica até a consciência política do mundo árabe e muçulmano. E, quanto a isso, o Hamás e o Hizbóllah estão vários passos à frente do exército de Israel e seus comandantes políticos que, no massacre de Gaza, já deram provas suficientes de que são ou completamente incompetentes ou completamente amorais ou completamente loucos.
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