[Carta O BERRO] Solidariedade a Leopoldo Paulino vítima de ataques pela imprensa por parte do delegado torturador Renato Ribeiro Soares.
Vanderley Caixe
vanderleycaixe em revistaoberro.com.br
Segunda Abril 13 19:08:06 BRT 2009
Carta O Berro.............................................................................repassem
Solidariedade a Leopoldo Paulino vítima de ataques pela imprensa por parte do delegado torturador Renato Ribeiro Soares.
No dia 28 de Março 2009, o Jornal “A Cidade” de Ribeirão Preto trouxe vasta matéria com o delegado de polícia aposentado Renato Ribeiro Soares,forma que encontrou aquele periódico para relembrar o aniversário de 45 anos da ditadura militar no nosso país.
O delegado Renato notabilizou-se, em 1969, por comandar as prisões políticas em Ribeirão Preto e região, época em que perto de 500 pessoas foram presas e violentamente torturadas.
Renato comandou a invasão do orfanato “Lar Santana” e prendeu pessoalmente a diretora daquele estabelecimento, Madre Maurina Borges, que foi barbaramente torturada, Renato Ribeiro Soares, juntamente com seu subordinado delegado Miguel Lamano foram, na época excomungado pela Igreja Católica, em virtude das violências praticadas contra presos políticos.
Na entrevista citada ele investe contra o companheiro Leopoldo Paulino, seguramente por Leopoldo sempre relembrar esses fatos em sua militância, no livro, filme e no Projeto Cultural Tempo de Resistência, o que, certamente incomoda aquele policial.
No dia 28 de Fevereiro do ano passado, o Fórum Permanente dos Ex-presos e Perseguidos Políticos de São Paulo realizou, na Câmara Municipal de Ribeirão Preto, ato de desagravo com o companheiro Leopoldo, em virtude de declarações feitas contra ele pelo mesmo Renato Ribeiro Soares.
Dessa forma, nós cidadãos brasileiros, que lutamos pela abertura dos arquivos da Ditadura e pelo julgamento dos torturadores e assassinos da Ditadura Militar, manifestamos nossa solidariedade ao companheiro Leopoldo Paulino, mais uma vez vítima da agressividade do delegado Renato Ribeiro Soares.
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Presidente Comissão de Anistia
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Fórum de Ribeirão Preto
Promotoria de Ribeirão Preto
Tribuna de Justiça de São Paulo
Procuradoria Geral da Justiça do Estado de São Paulo
Grupo Tortura Nunca Mais
CONDEPE
Entrevista Renato Ribeiro Soares
Sabado, 28 de Março 2009 - 16h4
Dr. Renato conta tudo sobre o auge da Ditadura em RP
J.F.PIMENTA
Renato Ribeiro Soares, 82 anos, filho de fazendeiros, é o caçula de uma família de 14 filhos. É também o delegado-chefe que comandou a polícia, em Ribeirão Preto, no auge da repressão política, durante o período de exceção do golpe militar. Quarenta anos depois, lembra que a pior época foi provocada pelo AI-5 e admite que houve tortura. Mas nega que tenha torturado. Afirma que “nunca encostou o dedo” em um preso político. E garante: não se arrepende de nada. Mesmo porque, depois de ter sido excomungado pela prisão de Madre Maurina, foi reintegrado à Igreja Católica pelo ato que tornou nula a excomunhão, em 1978. Sobre a polícia de hoje, não tem papas na língua: “é uma vergonha”, resume.
Hélio Pellissari – O senhor está com quantos anos?
Renato Ribeiro Soares – Vou fechar 83 anos agora em junho.
Hélio – O senhor é da região. Nasceu onde?
Renato – Em Igarapava. Aliás, estou querendo renunciar à minha cidadania de Igarapava em razão da vergonha de cinco vereadores presos agora. Aí eu ficaria com o título só de cidadão ituveravense.
Sidnei Quartier – Se o senhor fosse o delegado do caso, o que o senhor faria?
Renato – Com esses vereadores, eu confesso, evidentemente teria de apurar rigorosamente e processá-los. Eu nunca dei moleza em lugar nenhum.
Hélio – O senhor se formou onde?
Renato – Eu me formei na Universidade do Paraná, em Curitiba. A gente se preparou para o vestibular, porque a nossa intenção era prestar na São Francisco (Faculdade de Direito do Largo São Francisco) em São Paulo, mas acontece o seguinte, na São Francisco tinha um examinador que só conversava em latim. A vida era muito difícil naquela época. Nós éramos sete elementos de Ribeirão Preto, para onde vim em 1943, e prestamos em Curitiba e passamos nos sete primeiros lugares. Eu me formei em 1950, logo depois eu estava advogando lá em Igarapava.
Sidnei – O senhor voltou para lá?
Renato – Voltei. Meu pai me pediu que eu ficasse em Igarapava, porque ele estava muito doente. Isto foi em dezembro de 1950. Seis meses depois, ele faleceu. Eu comecei advogando lá em Igarapava, tanto é que a minha inscrição na OAB (hoje a inscrição na OAB passa dos 300 e tantos mil) é 6.877.
Sidnei – O senhor se tornou delegado quando?
Renato – Em Igarapava, fiquei conhecendo dois excelentes delegados. Um de Igarapava e um de Batatais, duas figuras extraordinárias. E eles acabaram me botando isso na cabeça, de ser delegado de polícia. Minha primeira delegacia em 52 foi Rifaina, de Rifaina eu vim para Guará, de Guará eu fui para Pedregulho, de Pedregulho para Ituverava, de Ituverava, em dezembro de 63, eu fui comissionado em classe superior em Ribeirão. Porque em Ituverava eu era 4ª classe. Assumi no dia 26 de dezembro de 63 como diretor do Cadeião, na Duque de Caxias, em Ribeirão, e era diretor da Rádio Patrulha.
Sidnei – Tinha o jipinho preto e branco ainda?
Renato – Exatamente. E o regime de trabalho [no cadeião] era duro, não tinha esse negócio de queimou o colchão dá outro. Eram tratados com rigor. Tanto é que quando eu tive a primeira rebelião na Duque de Caxias, eu fui buscar o juiz e o promotor. “Mas, doutor, o senhor nos buscou para quê?”, me perguntaram? Busquei para vocês verem como está isto aqui, depois vocês vão ver como é que fica. Acabou a rebelião, acabou a bagunça. Eu permaneci em Ribeirão até final de 66, quando eu fui promovido à segunda classe. Porque naquela época as delegacias regionais era todas de segunda classe, com exceção de Ribeirão e Campinas, que eram de primeira. Mas em dezembro de 66, princípio de 67, fui promovido à segunda classe e fui ser regional de Presidente Prudente. Alias foi a cidade que eu trabalhei menos tempo e a que eu mais gostei, eu recebi apoio da população! Eu levei uma experiência de três anos de Ribeirão. Me mudei de Ribeirão para Prudente, acertei a situação dos meus filhos, de minha esposa que era professora, mas seis meses depois fui chamado em São Paulo pelo secretário da Segurança.
Sidnei – Quem era o secretário?
Renato – Sebastião Ferreira Chaves, coronel Sebastião Ferreira Chaves, que era do corpo permanente da ESG – Escola Superior de Guerra. Ele disse: “vou transferi-lo”. Eu perguntei, o senhor pode me dizer o que há? “Não há nada, é que foi criada a regional de São Carlos. E estou trazendo o senhor para São Carlos porque eu não atendo político e em São Carlos tem pedido do presidente da Câmara Federal, deputado Pereira Lopes, do deputado Antonio Donato, do deputado Vicente Bota e do prefeito. Cada um tem um candidato a regional e eu não atendo político. Então é o senhor que vai para lá”. Então eu falei: vou enfrentar uma parada dura! E ele: “o senhor prepare um discurso curto e grosso. O senhor dá o recado de como vai ser a administração e eu vou lá lhe dar a posse”. Foi a primeira vez que um secretário de Segurança saiu de São Paulo para dar posse a um delegado no Interior. E assim foi, até que assumiu como secretário da Segurança o professor Hely Lopes Meirelles [1917-1990], que era o homem mais entendido em direito administrativo. Aí ele me chamou um dia: “o senhor vai perder São Carlos”. E eu: o senhor pode me dizer se houve algum problema? “Não houve problema nenhum, o senhor é segunda classe aqui, mas eu vou mandar o senhor para Ribeirão Preto, comissionado em primeira, porque eu preciso atender o pedido de uma pessoa que o senhor nem conhece. Eu sou sobrinho do Gutemberg Meirelles, e ele me pediu a volta do senhor para Ribeirão Preto”. Aí ele me mandou para cá. E logo em seguida estoura o problema de terrorismo e subversão em Ribeirão!
Sidnei – Em 68 saiu o Ato Institucional número cinco, não é?
Renato – É. Foram extintas as delegacias regionais e transformadas em seccionais. O professor Hely me promoveu à primeira classe e eu fui o primeiro delegado seccional de Ribeirão.
Hélio – Isto no final de 68?
Renato – Final de 68, começo de 69. E fui seccional de 69 até 74 , quando foram criadas as regionais novamente e eu fui para classe especial e fui para a Regional.
Sidnei – E neste período o senhor enfrentou muita turbulência aqui?
Renato – O meu delegado de Ordem Política e Social, chamava-se Salim Nicolau Mina. Um homem de uma honradez! E particular amigo daquele espírita de Uberaba, Chico Xavier. Nós tivemos que fazer a prisão da madre [Madre Maurina, acusada de subversão pelos militares]. Naquele dia, este delegado [Salim Mina] falou: “nós vamos lá na faculdade prender o Leopoldo Paulino”, que era o homem das bombas incendiárias, na Coca-Cola, Correios e Telégrafos, as últimas foram as [bombas] incendiárias nas Lojas Americanas. Falei para ele: lá na faculdade não, você pode prender na casa dele, você pode prender na rua, mas lá dentro da faculdade não. Você esqueceu que nós fizemos um curso de Direito? Mas a notícia da prisão dele vazou, por um elemento da Polícia Militar, que eu não vou declinar o nome e que era colega de faculdade dele. Então vazou e o senhor Leopoldo Paulino fugiu para o Chile e lá permaneceu até que Figueiredo desse a anistia geral e ele voltasse para cá.
Sidnei – Mas voltando àquela época, a madre Maurina ficou presa?
Renato – Ficou, ficou. Ficou presa lá em Cravinhos.
Hélio – E por que ela foi presa, de onde veio a ordem?
Renato – O problema é o seguinte. Eu acho que o único erro que Madre Maurina cometeu, ela não era subversiva nada, foi um grupo de esquerda que começou a frequentar e a usar o colégio lá [Lar Santana], e quando a coisa estourou, ela deveria ter entregue as coisas e ela resolveu queimar as coisas, então prejudicou a apuração da verdade, certo? Te falei do delegado Nicolau Mina, porque este famigerado vereador, que nem se reelegeu, que se chama Leopoldo Paulino, quando este homem [foi escolhido] como presidente da Câmara, tinha sido dado para uma rua o nome dr. Salim Nicolau Mina. Ele [Paulino]assumiu como presidente da câmara, retirou uma coisa que tinha sido votada, fazendo a alegação mais absurda do mundo. Que se tratava de um delegado torturador! E foi feita uma reunião e [Paulino]trouxe uma série de desagravos. Muito bem, no ‘desagravo’ só tinha um elemento que foi preso em Ribeirão Preto, o resto era tudo gente de fora. E este elemento de Ribeirão Preto que foi preso esteve lá e não se manifestou, é um advogado etc.
Sidnei – A prisão da madre Maurina deu problemas para o senhor?
Renato – Deu. Tanto que eu fui excomungado.
Quando o arcebispo era dom Frei Felício César da Cunha Vasconcelos, eu fui convidado para uma missa na igreja na Prudente de Morais. Como chama aquela igreja?
Sidnei – São Benedito.
Renato – Fui eu e um dos meus filhos, o Júnior, e foi um outro colega, com a esposa e duas filhas. Eu tinha recebido um convite por ofício e lá compareci. Aí eles começaram a protelar o início da missa. Quando foi na hora do sermão, o padre leu a bula da excomunhão. Eu assisti de pé junto com meu filho e o colega que estava com a esposa e as duas filhas também assistiu de pé. Devem ter sentido que fizeram a coisa errada, tanto é que retiraram a minha excomunhão depois.
Hélio – Quantos anos depois foi retirada sua excomunhão?
Renato – Alguns anos depois.
Sidnei – Entre o senhor e a madre Maurina houve alguma coisa?
Renato – Não. Nunca pus um dedo em um preso político, certo? Nunca. Um elemento de Ribeirão Preto, o senhor deve conhecer de nome, Luciano Lepera.
Sidnei – Jornalista Luciano Lepera, ex-deputado, ex-vereador.
Renato - A última vez que veio uma ordem do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) eu, quase em frente ao jornal A Cidade eu ali estava, e vi o Lepera com um garotão [filho dele]. Encostei e falei com ele, que tinha a ordem de prisão. Ele falou: daqui meia-hora eu posso me apresentar na delegacia? Perfeitamente. Depois fiquei sabendo que estava com aquele garoto, quase mocinho, que ia ser aniversário e ele ia comprar um presente. Eu resolvi, eu não tinha nada contra o Lepera, absolutamente nada! Eu fui levar o Lepera em São Paulo, lá no DOPS. E disse [para os policiais do DOPS]: qual é o problema? Ele é comunista. Há comunistas, vocês estão cansados de saber que ele é, ele foi até cassado. Agora se vocês estão procurando qualquer ato que ele venha praticando na comunidade de Ribeirão Preto, ou na área toda por ali, eu sou o delegado e não sei de nada. O senhor dá [essa declaração] por escrito?, me perguntaram. Já pode pôr o papel na máquina!, respondi. Eu ditei, assinei, e trouxe o Lepera de volta comigo. Eu sempre procurei fazer as coisas da melhor maneira possível. Se não fiz melhor, foi porque não fui capaz.
Sidnei – E havia pressão sobre os delegados naquela época para se “pegar firme”?
Renato – Quem comandava tudo isto era a Oban – Operação Bandeirantes, era a Oban. Ora, houve tortura na época, houve, mas eu não presenciei e nunca pus a mão em um preso político!
Sidnei – Então o senhor desmente a notícia de que a [enfermeira] Áurea Moretti estava sendo torturada, o senhor foi convidado, o senhor entrou e até desmaiou?
Renato – Não houve nada disso de desmaio, de coisa nenhuma. Eu sei que ela foi torturada. Mas não por mim, nem por nenhum agente direto meu! Eu sei. A Áurea Moretti é uma mulher correta, ela tem o seu valor e um grande valor até. E ela efetivamente foi torturada, esta é a realidade. E nós fomos postos nisto. Eu, por exemplo, antes disso, na noite do dia 31 de março para 1º de abril, quando estourou a revolução. Eu era delegado comissionado em 3ª classe, mas diretor da Radiopatrulha, diretor do cadeião, certo. A campainha tocou na minha casa, eu fui atender, era um motorista da [delegacia] regional: “o regional está convocando-o”. Eu disse: perfeitamente. Fui botar a roupa, desci e recebi a seguinte ordem: “estou designando-o para fazer o setor de ordem política e social”.
Hélio – Aqui em Ribeirão Preto em 64?
Renato – 31 de março para 1º de abril.
Sidnei – Quem disse isto para o senhor?
Renato – O regional.
Sidnei – Que eram quem?
Renato – Não vou citar nome, certo? Na hora falei: é verdade isto? E o regional: “algum dia eu brinquei com você?”
Sidnei – O senhor era seccional?
Renato – Não. Depois que a coisa correu. Era do cadeião, Radiopatrulha, plantão, certo? Com quem eu me ligo?, eu perguntei. A resposta: “O senhor se liga com o comandante da 5ª CSM (Circunscrição do Comando Militar)”.
Sidnei – Que era o coronel Charmillot?
Renato – Não, o Charmillot foi muito depois. Não sei se eu tenho certeza, era um coronel que foi comandante do grupo Obúsios de Fortaleza e punido pelo presidente João Goulart, foi mandado para um comando sem tropa. Porque a CSM não tem tropa. Todo o serviço de ordem política que ele foi passando eu fui executando, certo. Até que setenta e poucos dias depois ele foi convocado pelo presidente Castelo Branco, para assumir o SNI [Serviço Nacional de Informação].
Hélio – Qual o nome dele?
Renato – Eu não vou citar nome, certo? Aí ele disse assim para mim: “estou indo embora para Brasília, convocado pelo Presidente da República, estou convidando-o para ir para Brasília comigo”. Respondi: Coronel, o senhor me honra muito com o seu convite, mas eu sou da esfera estadual, o senhor é da esfera federal, e eu tenho filhos, tenho mulher tudo por aqui. E não fui.
Hélio – O senhor lembra de quantas pessoas foram consideradas subversivas? Segundo o senhor em 69 teve uma série de problemas em Ribeirão?
Renato – Isso. Foi em 69 que teve o problema de terrorismo e subversão.
Sidnei – Depois do AI-5?
Renato – Exato, até então, pelo comando da CSM, que era era um homem muito culto e equilibrado. E alguns serviços que se mandou fazer, inclusive, eu fiz uma prisão na época de um advogado e de um médico, por determinação de lá, mas em seguida eu informei ao coronel de quem se tratava. E ele: “Pode liberá-los”. Então ele era um homem assim, determinado. Agora, em 69 a coisa foi feia. Aí foram bombas incendiárias nos Correios e Telégrafos, na Coca-Cola.
Sidnei – Em Ribeirão Preto foram presos quantos, em 69 e 70, pela acusação de subversão?
Renato – Não foi muita gente não.
Sidnei – E eles eram encaminhados ao DOPS em São Paulo?
Renato – Depois é que iam para o DOPS, é isso aí.
Sidnei – O senhor disse que não prendeu o Leopoldo Paulino porque não quis invadir a Faculdade. Mas a madre Maurina foi presa no convento, na escola?
Renato – Foi. Mas lá não era convento. Era uma escola. Não era convento.
Sidnei – O senhor acha que fez a coisa certa?
Renato – Eu acho. O que eu tive de fazer eu fiz. Posso até ter errado, mas involuntariamente, porque ninguém é perfeito.
Sidnei – O senhor conheceu o delegado Sérgio Paranhos Fleury?
Renato – Conheci, ele veio aqui em Ribeirão Preto. Ele é que chefiava a coisa toda na época da Oban.
Sidnei – E o senhor também mantinha relação próxima com o coronel Erasmo Dias?
Renato – Mantive, aliás tenho relacionamento com ele até hoje, um dos secretários de Segurança que me prestigiaram muito. A tal ponto que vou dizer, que se eu tive algum sucesso na polícia de Ribeirão Preto eu devo isto, principalmente, ao relacionamento com o coronel Erasmo, porque a Polícia Civil sempre teve falta de pessoal, a tal ponto que eu cheguei a ter 20 homens da PM à paisana trabalhando comigo, pela ajuda do coronel Spanó, que era uma figura extraordinária, de grande valor.
Sidnei – O coronel Erasmo Dias era linha dura?
Renato – Linha dura. Eu descobria um delegado bom em um lugar, que eu sabia qual era a linha de conduta e tal. Pedia consulta para ver se ele quer vir para Ribeirão. Coronel Erasmo: “ele aceita”. E eu consegui fazer uma equipe. Não sei se o senhor conheceu o Cocito Hipólito.
Sidnei – O delegado Spadafora trabalhou com o senhor?
Renato – Trabalhou, ele foi delegado nas cidades que eu trabalhei.
Sidnei – Quem mais trabalhou com o senhor naquela época aqui?
Renato – O doutor Anivaldo Registro também trabalhou comigo.
Sidnei – Hoje se o senhor pudesse encontrar uma pessoa que o senhor prendeu naquela época e pudesse se desculpar por algum excesso, o senhor faria?
Renato – Como não? Aliás, este advogado, que eu não citei o nome e que eu prendi, é meu particular amigo hoje. Esta é a realidade.
Hélio – O senhor disse que na época não torturou ninguém e não participou de nenhuma tortura. Como então surgiu esta imagem que o senhor tem de torturador?
Renato – Não ficou esta imagem de que eu torturei não. Não ficou nem através dos inimigos como o Leopoldo Paulino. O problema é o seguinte, você exerce uma chefia num período difícil e tudo o que vai acontecendo de bom ou de ruim vão debitando na sua conta. Esta é a realidade. Eu, por exemplo, um militar falou para mim: “o arcebispo gostaria de falar com o senhor”. Era o dom Frei Felício. Mas eu não vou lá no palácio Episcopal, respondi. A pessoa falou: “o senhor também não vai querer que ele venha na delegacia” (risos). Tudo bem, mas o militar perguntou, se na minha casa for marcado um encontro com ele o senhor vai? Perfeitamente, não tem problema nenhum.
Sidnei – E onde entra o Coronel Charmillot [Décio Luiz Fleury Charmillot] no seu relacionamento aqui em Ribeirão Preto, ele era linha dura também?
Renato – Era. O Charmillot, teve um irmão que veio ser meu delegado aqui em Ribeirão, veio ser meu seccional, Edson Vinícius Charmillot, que depois saiu e foi para São Paulo. Em abril de 83, eu tinha que enfrentar uma briga política em Ribeirão Preto [com o prefeito João Gilberto], mas eu sabia que eu ia apanhar. Para o senhor entrar em uma briga sabendo que vai apanhar, é melhor não entrar. Mas eu estava procurando uma maneira honrosa para não entrar. Foi exatamente no mês de abril de 83. Estava havendo um problema na rua, ali perto do Pinguim, em consequência de coisas que estavam havendo em São Paulo. Então a turma estava com preocupação. Meu delegado de ordem política na época era Ademar Birches Lopes. Padrão de decência e honradez. Ele estava na rua e me mantinha informado. Eu fui convidado pelo secretário do governo da época...
Hélio e Sidnei – João Gilberto Sampaio...
Renato – Eu fui convidado pelo secretário do prefeito, se eu podia ir até a prefeitura, porque o João Gilberto precisava falar comigo, mas ele não podia ir à regional. E eu disse: perfeitamente. Que horas? Às 15 horas. Quinze minutos antes eu subi a escada, me mandaram entrar. Nisto chegou um coronel do exército que era da CSM, certo. E falei: eu fui convidado para vir aqui, ele disse “eu também”. Nisto entrou o prefeito e disse assim: “o comandante da PM chega já, já. Eu os convoquei aqui”. Quando ele falou eu os convoquei, eu levantei do sofá: O senhor está enganado, porque eu fui convidado para vir aqui, mesmo porque não recebo convocação de prefeito! Aí ele disse: “é porque está havendo isto, está havendo aquilo”. Eu disse: o senhor está mal informado. Isto não é verdade e a “sua” verdade não me interessa. Interessa a minha verdade, do meu delegado. Mas o senhor pode ficar tranquilo que o senhor não vai ter dor de cabeça comigo, porque amanhã peço a minha saída daqui. E fui para São Paulo e deixei o cargo de regional. Na época eu tirei de Ribeirão, o dr. Spadafora, porque eu sabia que ia ser perseguido. Tirei o dr. Anivaldo, porque eu sabia que também ia ser perseguido, sabe. Eu fiz polícia desta maneira.
Sidnei – Foi em 83 que o senhor se desligou de Ribeirão?
Renato – Salvo engano até, deve ter sido no dia 11 de abril de 1983. Foi a maneira honrosa até de sair.
Hélio – Voltando ao caso da irmã Maurina, o senhor disse que ela ficou presa em Cravinhos. O senhor ficou sabendo o que tinha acontecido com ela, da denúncia de tortura e estupro?
Renato – No duro, no duro, a madre nunca foi engravidada não. Ela foi para o México e não queria ir, eu sei disso. Mas esta história de filho, não tem história nenhuma de filho da madre não. Isso tudo é mentira. Aqui em Ribeirão Preto, por exemplo, Dom Frei Felício era firme, mas ele foi pressionado...
Sidnei – Por quem?
Renato – Pelos padres, inclusive um hoje que é bispo lá em Santa Catarina.
Hélio – Que se aposentou, dom Angélico Sandro Bernardino.
Renato - Deixa eu pedir para a minha mulher o papel cancelando a excomunhão, é de 78. (ele se levanta e vai buscar o documento e mostra o documento).
Hélio – Foi cancelada em 27 de novembro de 1978.
Renato – Foi.
Sidnei – E o que o senhor sentiu quando foi cancelada a excomunhão, qual foi a sua sensação?
Renato – Eu confesso para o senhor, que foi a mesma coisa de quando eu fui excomungado. O meu Deus não mudou.
Sidnei – Mas abalou a família do senhor?
Renato – (Em tom emocionado) A minha mãe sim. Minha família é muito católica.
Hélio - Nestes nove anos, até o cancelamento da excomunhão, o senhor continuou frequentando a igreja?
Renato – Não mudou nada.
Sidnei – O senhor podia entrar na Igreja?
Renato – Quando Frei Felício César da Cunha Vasconcelos morreu, e ele está sepultado na Catedral, eu fui lá.
Sidnei – Mesmo excomungado?
Renato – (faz silêncio por alguns segundos) Minha linha de conduta, eu vou dizer para o senhor, eu não vim aprender na polícia. A minha formação é formação de família, vou mostrar uma foto. (Ele vai até a parede onde estão as fotos de família). São 14 irmãos, mas a minha irmã mais velha eu não conheci.
Hélio – O pai do senhor fazia o quê?
Renato – Meu pai era um trabalhador. Que criou 14 filhos e eu tive sete irmãos pretos, que ele criou de um empregado. Sempre na lavoura, sítio e depois fazenda. Sempre no trabalho.
Hélio – O senhor está com 82 anos. Tem alguma coisa nestes 82 anos de vida que o senhor tenha feito ou deixado de fazer que o senhor se arrepende?
Renato – (Emocionado, ficou em silêncio por cerca de 40 segundos). Eu não tenho nada para me arrepender. A única coisa que eu posso dizer é que eu poderia ter feito mais. Mas se não fiz mais foi porque não fui capaz.
Sidnei – O senhor não se arrepende nem a mais, nem a menos, acha que cumpriu apenas a lei?
Renato – Eu acho que sim. E digo mais para o senhor, é muito fácil. Se o dr. Renato tivesse tido alguma conduta irregular chefiando a polícia, o senhor não tenha dúvida de que eu estaria sendo bombardeado. E digo mais: só não escrevo um livro, publicando todas as verdades, porque eu não tenho condições econômicas, não para publicar o livro. Eu não tenho condições econômicas para continuar a briga com a esquerda.
Sidnei – Qual a sua opinião hoje sobre a Polícia?
Renato – Uma vergonha.
Dos Leitores
Sabado, 4 de Abril 2009 - 21h54
Resposta ao delegado
A edição de 29 de março estampou entrevista do delegado aposentado Renato Ribeiro Soares sobre a ditadura militar. Quero manifestar minha satisfação pessoal em ler que aquele policial declarou ser meu inimigo. Preocupado ficaria se dissesse que faz parte do meu rol de amizades. Na verdade, o delegado foi responsável pelas prisões ilegais e torturas em Ribeirão em 1969. Torturador não é somente aquele que espanca, estupra, pendura no pau-de-arara ou gira a máquina de choque elétrico. Também é co-autor de tortura aquele que invade domicílios, dirige os interrogatórios, assiste às sessões de tortura e efetua prisões para entregar suas vítimas aos algozes. Escrevo para restabelecer a verdade escamoteada pelo delegado, muito embora entenda os que, como ele, mentem para encobrir sua verdadeira participação naquele período, pois sentem vergonha do passado. Como tenho orgulho de meu passado, escrevi o livro Tempo de Resistência, narrando o que se passou na época. Assim, não é verdade que o então delegado tenha impedido a invasão da Faculdade de Direito para me prender, até porque, dias antes, comandados seus invadiram aquele estabelecimento e retiraram da sala, à força, o estudante Rubens Rabello. Não é verdade que alguém da PM tenha me avisado do “vazamento” de minha iminente prisão. Os fatos se deram conforme meu relato na obra citada. Não é verdade que eu tenha permanecido no Chile até a anistia. Regressei ao Brasil em julho de 1974 e a Ribeirão em outubro de 1977. A certidão do serviço de inteligência do governo confirma minhas afirmações. Não é verdade que o delegado tenha solicitado sua transferência de Ribeirão. Ocorre que o governador Franco Montoro, em 1983, assim que tomou posse, extinguiu o Deops e transferiu para a capital, para serviços burocráticos, os policiais envolvidos em tortura. Resta lembrar que o delegado Renato, com seus comandados, invadiu pessoalmente o orfanato Lar Santana, na Vila Tibério, e prendeu a Madre Maurina, que foi submetida a torturas.
Leopoldo Paulino, diretor do Fórum dos Ex-presos e Perseguidos
Políticos de São Paulo
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