[Carta O BERRO] A POLÍTICA DOS EUA NA BOLÍVIA

Vanderley Caixe vanderleycaixe em revistaoberro.com.br
Segunda Setembro 15 19:38:04 BRT 2008




Carta O Berro................................................................................repassem


      Venezuela reitera oferta de apoio militar a Morales 
     
            Claudia Jardim
            De Caracas para a BBC Brasil 
           
           


            
            Chávez insiste em ajuda militar que Morales rejeita 
      O governo da Venezuela exercerá seu "direito à rebelião" para restituir o governo legítimo de Evo Morales em caso de um golpe de Estado na Bolívia - apesar da rejeição das Forças Armadas bolivianas à idéia -, disse o ministro das Relações Exteriores venezuelano, Nicolás Maduro.
      "O direito internacional estaria sendo violado e teríamos não só o direito, mas o dever de atuar para preservar o respeito às regras internacionais", afirmou Maduro. 

      Em entrevista à BBC Brasil, o chanceler venezuelano afirmou que as Forças Armadas bolivianas não souberam interpretar a oferta de apoio armado do presidente Hugo Chávez, principal aliado de Morales na região, ao país vizinho. 

      Ele acrescentou que a América Latina não ficaria de braços cruzados se Morales fosse derrubado. "Já foi o tempo em que os EUA promoviam golpes e os demais países assistiam sem reagir." 

      Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Nicolás Maduro à BBC Brasil:

      BBC Brasil - O comandante-chefe das Forças Armadas da Bolívia, Luis Trigo, rejeitou a oferta do presidente Hugo Chávez de intervir militarmente no país no caso de um golpe de Estado. Qual a opinião do governo venezuelano a respeito?
      Nicolás Maduro- Que bom seria se esse militar se pronunciasse contra a ingerência histórica e atual dos EUA na Bolívia e acompanhasse com lealdade o presidente Evo Morales. Estamos em um contexto histórico de união e de afronta a qualquer perigo que coloque em risco nossas Repúblicas. Considero que foi um erro de interpretação deste general, que não entendeu o chamado solidário do presidente Chávez em apoio à Bolívia. 

      BBC Brasil - Qual seria a reação do governo venezuelano se Evo Morales fosse derrubado?
      Maduro - Evo Morales foi eleito democraticamente e há um mês foi ratificado com mais de 67% dos votos em um referendo. Não toleraríamos um golpe de Estado contra esse governo. Toda a América Latina sairia a defender o povo da Bolívia, assim como no século 19, quando nossos heróis libertaram nosso continente do domínio espanhol. 

      BBC Brasil - Mas estamos no século 21 e a legislação internacional prevê a inviolabilidade territorial dos Estados. Uma ação do governo não poderia ser interpretada como ingerência?
      Maduro - Se Evo Morales fosse derrubado por esses grupos violentos apoiados pelos EUA, o direito internacional estaria sendo violado e teríamos não só o direito, mas o dever de atuar para preservar o respeito às regras internacionais, aos governos legítimos e ao direito à vida de nossos povos. Não ficaremos de braços cruzados. Já foi o tempo em que os EUA promoviam golpes e os demais países assistiam sem reagir. A oligarquia boliviana que não se equivoque: se tentarem um golpe, exerceremos nosso direito à rebelião. Somos o mesmo povo. 

      BBC Brasil - O senhor acredita que há uma possibilidade real de golpe de Estado na Bolívia?
      Maduro- Está a caminho um plano de golpe parecido com o que promoveram contra Jean Bertrand Aristide, no Haiti, ou Juan Domingo Perón, na Argentina, que eram governos essencialmente populares. Mas o governo dos EUA conseguiu incorporar cenários de violência, de racismo, para logo derrubá-los. 

      BBC Brasil- Na Bolívia as organizações separatistas que se opõem a Evo Morales estão à frente das manifestações.
      Maduro - Obviamente a oligarquia racista boliviana é o principal fator nesse cenário de desestabilização. Mas nenhum desses grupos moveria um dedo contra um governo com tamanho apoio popular como o de Evo se não tivessem o apoio político, financeiro e de planejamento do governo dos EUA. Disso não há que duvidar. 

      BBC Brasil - Depois da expulsão do embaixador dos EUA em Caracas e da idêntica resposta do governo dos EUA, qual é a situação política e diplomática neste momento entre os dois países. Há possibilidade de ruptura das relações?
      Maduro - Estamos revendo as relações e reagiremos de acordo com a atuação do governo dos EUA. Estamos vivendo o pior momento das relações dos EUA com a América Latina e o Caribe. Esperamos em algum momento que os EUA façam uma retificação histórica, recomponha sua política e respeite os países da região. 

      BBC Brasil- O que levou o governo a expulsar o embaixador dos EUA Patrick Duddy?
      Maduro - Tivemos que atuar com firmeza frente às tentativas descaradas de desestabilização e de violência que o governo dos EUA apóia na Bolívia e frente à participação de representantes do governo dos EUA na conspiração contra o presidente Chávez ao longo desta década, particularmente em uma tentativa de golpe e magnicídio (assassinato de pessoa ilustre) que recentemente estava sendo planejada por militares venezuelanos e que tornamos pública. 

      BBC Brasil - O governo venezuelano tem provas disso?
      Maduro - (Em situações como essa) sempre está as mãos do embaixador dos EUA. Sabemos que funcionários (da embaixada) se reuniram com as pessoas que pretendiam realizar o complô, eles viajam permanentemente aos EUA. Nas próximas semanas serão reveladas essas provas, assim como aconteceu no golpe de 2002 contra o presidente Chávez. Denunciamos antes e durante o golpe, e ao final, nos documentos desclassificados do governo dos EUA, apareceram as provas que nós haviamos denunciado. 

      BBC Brasil - Em consequência da escalada da crise entre Venezuela e EUA, haveria alguma possibilidade de que os EUA, que é o principal comprador do petróleo venezuelano, deixasse de comprar o produto de seu país? Quais seriam as consequências?
      Maduro - Isso para eles é impossível, eles não têm como fazer isso. Se fizessem, nós tranqüilamente colocaríamos nosso petróleo no mercado internacional. Sobra mercado no mundo para colocar o petróleo venezuelano. 

      BBC Brasil - As relações entre EUA e Venezuela chegaram a seu pior momento, ao mesmo tempo em que o governo venezuelano estreita a cooperação militar com a Rússia. O senhor considera que está ocorrendo uma reedição da Guerra Fria?
      Maduro - A Guerra Fria correspondia a um mundo bipolar. Hoje estamos frente a um mundo multipolar, que quer paz, soberania e respeito do direito ao desenvolvimento econômico autônomo e livre. Uma pequena parte do mundo, que é a elite que governa aos EUA, é que quer manter um sistema unipolar de dominação. Não há nenhuma Guerra Fria, há uma grande luta quente por nascer e viver em um mundo multipolar, sem impérios. 

      BBC Brasil - Qual é a mensagem que o governo pretende enviar aos EUA ao aceitar a realização de uma manobra naval conjunta com a Rússia no Caribe?
      Maduro - Estamos mostrando que a América Latina e o Caribe deixaram de ser o quintal dos EUA. Antes somente os EUA podiam realizar manobras militares na região. Agora isso acabou. Somos independentes e podemos estabelecer cooperação com qualquer país, para compartilhar tecnologia. Os EUA tentaram nos bloquear militarmente quando decidiram não vender-nos armas, mas nós fomos capazes de superar este bloqueio tecnológico e hoje temos cooperação com outros países. 

      BBC Brasil - O presidente Hugo Chávez reitera que os EUA poderiam agredir a Venezuela para tentar derrubá-lo e controlar o petróleo venezuelano. Se essa incursão militar ocorresse, seu governo pensa em contar com ajuda militar da Rússia?
      Maduro - Para defender nosso território basta o nosso povo. 

      BBC Brasil - Qual a relação das manobras navais que serão realizadas pelo governo venezuelano e russo no Caribe, em novembro, com a crise no Caucaso e a presença da frota naval norte-americana no mar Negro, fronteira sul da Rússia?
      Maduro - Não há relação direta. Um exercício conjunto deste tipo não se resolve do dia para a noite e o exercício militar já havia sido discutido há meses, antes mesmo do conflito no Cáucaso. Além disso, há alguns anos já vínhamos fortalecendo a cooperação com a Rússia na área militar. 

      BBC Brasil - E indiretamente os fatos estão relacionados?
      Maduro - Indiretamente... eu deixo aberto à interpretação. 

      Bolívia: A Guerra do Gás Continua

       

      Dr. Carlos Walter Porto-Gonçalves[1]

      Ms. Marcelo Câmara[2] 

       

      Em outubro de 2003 a Bolívia se via diante de amplas mobilizações callejeras que se aglutinaram em função da manifesta vontade do governo de então - Gonzalo Sánchez de Lozada - de exportar o gás boliviano pelo Chile, episódio que ficou conhecido como Guerra del Gás. Somente um homem que fala um espanhol com forte sotaque inglês, ou melhor, norte-americanizado, como o Sr. Goni de Lozada, seria capaz de fazer uma proposta daquele teor, ignorando não só o tempo de longa duração da história do povo boliviano que remete à perda de território para aquele país vizinho, como mostrava completa ignorância com o tempo de curta duração que, em 2000, mobilizara amplas camadas do país contra a privatização da água em Cochabamba, na chamada Guerra del Água. A ignorância, misto de soberba e onipotência, que tão bem caracteriza a tradicional classe/etnia dominante criollo/mestiza boliviana não se apercebia que o conjunto de políticas iniciado pelo mesmo Goni de Lozada, em 1985, no perfeito receituário recomendado pelo Banco Mundial e o FMI, estava desabando. A quebra do setor mineral do país com o desmonte das empresas estatais fragilizaria um dos principais pólos de resistência popular no país, a histórica COB - Central Obrera Boliviana - mas engendraria um dos fenômenos de novo tipo que vem marcando o país, e para o qual as ciências sociais não têm um nome para caracterizar o processo, qual seja, a recampenização desse proletariado mineiro que agora se dispersava. Trata-se, na verdade, da reterritorialização camponesa desse proletariado em dispersão, sobretudo pelos vales do Chapare, quando passam a se dedicar em grande parte ao cultivo de coca. E na Bolívia, assim como no Equador, Peru, México, Guatemala, Paraguai e sul do Chile, o conceito proposto por Darci Ribeiro de indigenato, qual seja, um campesinato etnicamente diferenciado, tem enormes implicações sociais e culturais e, cada vez mais, políticas. A geografia social boliviana, assim como a equatoriana, nos ajuda a entender a força do indigenato insurgente, conforme nos ensina o antropólogo Xavier Albó, na medida em que ao mesmo tempo em que parte dos antigos mineiros que se reterritorializam enquanto camponeses seguem mantendo importantes relações com as matrizes culturais dos povos originários e com as populações urbanas em função das relações socioespaciais mantidas entre as cidades com o altiplano. O melhor exemplo disso é a população de El Alto, cidade onde está localizado o aeroporto que dá acesso à capital La Paz, que dos seus 90 mil habitantes, em 1976, tem, hoje, aproximadamente 900 mil habitantes, em sua grande maioria indígena, que mantêm fortes vínculos com o vasto altiplano boliviano onde os ayllus, unidades territorial tradicional, mantém-se enquanto propriedade familiar-comunitária e estrutura sócio-política vigente (binômio tupus-ayllus). Na própria cidade de El Alto é marcante a reinvenção de instituições dos povos originários como é o caso das Juntas Vecinales, estruturas de perfil organizativo onde são nítidas as memórias dessa cultura organizacional. 

      Um hibridismo explosivo então se configura quando uma cultura político-sindical operária - como a rica tradição dos mineiros bolivianos - se encontra com a coca e, assim, com uma história de longuíssima duração que remete à ancestralidade indígena atualizada por meio desse campesinato cocalero que, por sua vez, está frente a frente com a intervenção imperialista estadunidense que, desde os anos oitenta, tenta impor a erradicação da coca. Uma declaração do então embaixador estadunidense Manuel Rocha, em abril de 2001, dá o tom da intervenção: "Bolívia es el país em la región (andina) que mejor cumplió en la lucha contra el narcotráfico; (en Washington) están admirados de lo que pasó em estos tres años en Bolívia" (La Razón, 18/04/2001, p.Política, 3-A). Admiracion esta que não só ignora as relações ancestrais dos povos andinos com a folha de coca, como se mostra especialmente insensível às dramáticas conseqüências dos programas de erradicação para o campesinato chapareño. A exigência estadunidense por "Coca Cero", negando a reivindicação do indigenato cocalero que exigia a legalidade de parte do cultivo de coca que alegava não se vincular aos circuitos da narcoburguesia boliviano-estadunidense, mas sim à cultura ancestral quéchua/aymara e aos hábitos tradicionais de consumo, ensejará uma resposta de Evo Morales que afirmará que "cuando hablan de Coca Cero es como si estuvieran hablando de cero de quechuas-aymaras. Es el genocídio!".  Num país em que mais de 60% da população é indígena pode-se dizer que a arrogante declaração do embaixador dos EEUU adicionava um elemento imperialista a um movimento já em si contundente, e começava-se, aí, a construir uma liderança nacional em torno do indígena na Bolívia com forte caráter anti-imperialista.  

      Acompanhando um processo em curso em toda a América Latina onde a resistência contra as políticas neoliberais acabou por derrubar cerca de 20 governos desde 1989, a Bolívia terá num original movimento indígena o eixo em torno do qual um longo e exitoso processo de resistência se ensejará. O movimento indígena boliviano é original na medida em que se mostra visível antes do grande 1° de janeiro Zapatista de 1994, pois já em 1990 organiza, desde as Terras Baixas do Oriente, a Marcha pela Dignidade e pelo Território. É interessante notar que até mesmo a palavra dignidade que terá grande força no ideário zapatista constava explicitamente nos cartazes do movimento indígena boliviano, aliás mesmo título dado pelos indígenas equatorianos que também organizam sua Marcha pela Dignidade e pelo Território em 1990. O movimento indígena boliviano não só foi o primeiro a se manifestar, tornando-se nacionalmente visível, como será o primeiro a dar forma nacional às suas lutas elegendo Evo Morales em 2005. 

      A truculência histórica da classe/etnia dominante na Bolívia se encarregaria de oferecer os ingredientes de sofrimento com os massacres que se seguiram às mobilizações callejeras pela reapropriação social do gás em 2003 com dezenas de bolivianos sendo assassinados pelas forças militares a mando do então Presidente Goni de Lozada.

      Desde 2006, quando Evo Morales tomou posse e, sobretudo depois que o amplo movimento social conseguiu maioria na Constituinte através de seu "Instrumento para la Soberanía de los Pueblos" - que é o MAS - Movimento Al Socialismo - que os setores retrógrados das classes/etnias dominantes bolivianas vêm fazendo de tudo para inviabilizar o processo democrático de mudança em curso no país, seja por meio de autonomias separatistas, seja com questões como a mudança da capital e a conseqüente inviabilização dos trabalhos da Constituinte, mas também, sobretudo, com o maciço uso da máquina midiática que desqualifica todos os dias, o dia todo, toda e qualquer medida governamental. 

      Cabe aqui recordar o fato de que um dos impasses cruciais nas discussões na Assembléia Constituinte foi a exigência, pela oposição, da necessidade de um mínimo de 2/3 dos votos dos constituintes para a aprovação da Carta Magna, como requisito supostamente essencial para um resultado democrático que contemplasse a vontade das minorias e aprovasse a nova constituição amplamente discutida. Essa mesma oposição, em um passado não muito distante no qual o papel oposição não lhes cabia, se regozijava no parlamento aplicando aquilo que ficou conhecido como "rodillo parlamentário", um sistema de composição de alianças esdrúxulas e/ou improváveis para a composição de 50% mais um dos votos das câmaras no parlamento, aprovando o que lhes fosse de interesse. Num interessante sinal dos tempos, hoje, quando já não são mais capazes de compor uma maioria simples que lhes atenda os desejos, tornaram-se ardorosos defensores da democracia das minorias.  

      Porém, mesmo com todo o apoio da mídia para tentar desestabilizar o governo durante o referendum revocatório, Evo Morales conseguiu ampliar seu apoio popular tendo passado de 53% dos votos com que se elegeu, em dezembro de 2005, para 67%, em agosto de 2008! Mesmo assim, e tendo convidado os seus oponentes ao diálogo, no que foi contestado por parte de algumas lideranças populares que exigiam mano dura, as classes/etnias dominantes acantonadas na Meia Lua, agora Minguante com a derrota em Chuquisaca, resistem e exigem que o Presidente abra mão de uma gestão nacional dos recursos originários - justamente dos hidrocarbunetos - tendo inclusive desencadeado ações terroristas contra instalações da empresa que com tanto sacrifício foi nacionalizada pelas lutas e mortes recentes de bolivianos e bolivianas no ainda vivo Outubro Sangrento da Guerra do Gás de 2003. 

      O interessante é que as classes/etnias dominantes capitaneadas por Santa Cruz tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena num país profundamente fragmentado social e territorialmente, parte do caráter abigarrado da sociedade boliviana, como nos ensina René Zabaleta Mercado: um "Estado aparente", incapaz de articular as diferentes temporalidades/territorialidades existentes no país.

      A unidade nacional que se tenta construir a partir da reapropriação do gás natural, fruto das lutas e do sangue derramado nas ruas de El Alto, tem sua lógica subvertida pela elite lunática ao definir os hidrocarbonetos como recurso praticamente exclusivo daqueles departamentos de onde é extraído, discurso que logra obter um nítido apoio popular nessas regiões, sem que se apercebam de uma lógica inerente a esse processo, qual seja, a de um saudosismo pela ingerência estrangeira na administração desse recurso, afora seu anti-indigenismo histórico.

      A postura de não-enfrentamento direto com que o comandante em chefe das Forças Armadas vem conduzindo o processo, abdicando de prerrogativas legais diante de uma clara tentativa de secessão, deve ser entendida como parte do profundo aprendizado político democrático que o movimento indígena-camponês boliviano experimentou, onde 1952 não é uma data qualquer. A recusa a aplicar as mesmas medidas de força com as quais foram sucessivamente reprimidos ao longo da história boliviana tem seu fundamento na compreensão da importância da construção de um núcleo comum, apropriando-nos aqui da formulação do politólogo Luis Tapia, que seja resultado do diálogo entre os diferentes setores.

      Que não se confunda a disposição incessante ao diálogo com fraqueza. Este governo é herdeiro e tributário de uma luta que bem começou há alguns séculos, quando as botas dos irmãos Cortés tocaram estas terras pela primeira vez. É essa memória radicalizada - não o radicalismo midiáticamente condenado, extremista e inconseqüente - mas o de uma luta que tem raízes profundas, que se expressam na defesa firme que o governo Evo Morales faz daqueles que tiveram sua história negada. E que o exemplo de El Alto insiste teimosamente em não nos deixar esquecer.

      Jallalla Bolivia!

       



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      [1] Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense e Pesquisador do LEMTO - Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades.

      [2] Mestre em Geografia pela UFRGS e Pesquisador do LEMTO - Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades.
       

15/09/2008 


A POLÍTICA DOS EUA NA BOLÍVIA 

Os movimentos de um embaixador especialista em conflitos separatistas 

Deputados bolivianos divulgam documento denunciando as articulações promovidas pelo embaixador dos Estados Unidos na Bolívia, Philip Goldberg, contra o governo de Evo Morales. Considerado um especialista em conflitos separatistas, Goldberg foi enviado a La Paz depois de chefiar a missão dos EUA no Kosovo, onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, depois da Guerra dos Balcãs. 

Marco Aurélio Weissheimer 

Data: 12/09/2008 
Quatro deputados do Movimento ao Socialismo, partido do presidente da Bolívia, Evo Morales, divulgaram um comunicado denunciando ações do governo dos Estados Unidos, por meio de seu embaixador em La Paz, Philip Goldberg, para derrubar o governo eleito do país. César Navarro, Gustavo Torrico, Gabriel Herbas e René Martinez relacionam um conjunto de fatos ocorridos nos departamentos da região leste do país que obedeceriam a uma estratégia fixada pela oposição em conjunto com o embaixador Goldberg. 

Os fatos apontados pelos parlamentares bolivianos são os seguintes:

No dia 13 de outubro de 2006, os Estados Unidos enviam a Bolívia, como embaixador, Philip Goldberg, um especialista em fomentar conflitos separatistas. Entre 1994 e 1996, foi chefe da secretaria do Departamento de Estado para assuntos da Bósnia (durante a guerra separatista dos Bálcãs). Entre 2004 e 2006, Goldberg foi chefe da missão dos EUA em Pristina (Kosovo), onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, marcada por uma luta que deixou milhares de mortos.

Segundo os deputados, Philip Goldberg foi enviado a Bolívia com a missão de desestabilizar o governo de Evo Morales, principalmente incentivando o separatismo das regiões orientais. Na Bolívia, depois do triunfo de Evo Morales na eleição de 18 de dezembro de 2005, os partidos tradicionais e as elites sofreram um duro golpe, Goldberg se encarregou de reorganizá-los e de construir um caminho conspirativo para desgastar o novo governo.

Plano midiático de desinformação
Goldberg organizou uma grande coordenação com empresários do leste, com donos de meios de comunicação e políticos do movimento Podemos para colocar em marcha um grande plano de desinformação com respeito à gestão de Evo Morales, tudo isso dentro do marco de uma intensificação das lutas regionais contra o Estado boliviano. Esse plano de desinformação era constituído pelos seguintes passos:

a) Mostrar que o narcotráfico estava crescendo na Bolívia;
b) Os meios de comunicação precisavam mostrar que Evo estava governando mal e que a inflação, a corrupção e o desgoverno estavam crescendo;
c) Os meios de comunicação também deviam imputar ao governo a responsabilidade pela violência no país. Começou a ser difundido aí o conceito de que "Evo dividia a Bolívia".

Consolidados esses passos, Goldberg reúne-se, na primeira semana de maio, com Jorge Quiroga e acertam a aprovação, no Senado, do referendo revogatório.

Eles estavam convencidos que Evo Morales não conseguiria obter mais de 50% dos votos e, uma vez deslegitimado nas urnas, a oposição e os prefeitos da chamada "Meia Lua" pediriam a renúncia do presidente por "ilegítimo, mau governante e por dividir a Bolívia". No entanto, os prefeitos dos departamentos (equivalentes a governadores) não foram consultados sobre este plano e acabaram se opondo a ele, por achar que não daria certo. No dia 23 de junho, reúnem-se em Tarija e elaboram um pronunciamento escrito para rechaçar o referendo revogatório. Dias antes, em 17 de junho, Philip Goldberg viajou para os EUA, alegando uma suposta crise diplomática.

O objetivo real de sua viagem, dizem os deputados, foi definir um plano, junto a agências publicitárias, para desenvolver uma guerra suja que pudesse causar a derrota de Evo no referendo. No dia 2 de julho, Goldberg regressou a La Paz e, imediatamente, reuniu-se com cada um dos prefeitos opositores para convencê-los a aceitar o referendo. No dia 5 de julho, os prefeitos opositores anunciam que aceitam disputar o referendo.

Os donos das grandes empresas de comunicação também participaram deste plano, denunciam os parlamentares. Isso explicaria, por exemplo, porque nos principais programas políticos destes meios as pesquisas sempre apontavam Evo Morales com cerca de 49% dos votos. A tentativa de derrubada do governo pelo voto estava em marcha. Além desta campanha nos programas políticos, também foi executada uma outra no terreno da publicidade. A oposição contratou uma agência de publicidade para elaborar os primeiros spots contra Evo Morales. Ao dar-se conta que os roteiros e o dinheiro vinham dos EUA, esta agência decidiu não produzir mais os comerciais. 

O Plano B do embaixador
O plano para tirar Evo do governo acabou sendo frustrado pelo resultado do referendo. O presidente se legitimou com mais de 67% dos votos e Goldberg passou então a colocar em marcha um Plano B, que incluem greves, bloqueios e ações violentas que buscariam dois resultados alternativos.

1) O conflito se generaliza e obre o leste e parte do oeste do país. A população começa a se cansar, as forças da ordem entram em ação, com muitas mortes. Neste caso, Evo teria que convocar eleições ou deixar o governo depois dos conflitos com mortes. A insistente provocação para que as forças policiais e as forças armadas atuem se encaixa neste plano.

2) Caso não ocorra o cenário anterior, a oposição contaria ainda com uma segunda possibilidade: uma vez desalojada a polícia e o Estado Nacional das regiões, em meio à violência, Goldberg oferece aos prefeitos opositores a vinda de mediadores internacionais, inclusive tropas da ONU para concretizar o separatismo dos quatro departamentos rebeldes, como fez no Kosovo.

Seguindo esse plano, Goldberg viajou a Sucre e se reuniu com a prefeita Savina Cuellar, que pediu a renúncia do presidente. No dia 21 de agosto, o embaixador encontrou-se clandestinamente com o prefeito de Santa Cruz, Rubén Costas, e com quatro congressistas norte-americanos. No dia 25 de agosto, mais uma reunião com Rubén Costas. Paralelamente, a oposição rejeitou o chamado de diálogo feito pelo governo e, no dia 24 de agosto, convocou uma greve geral. Seguindo a linha proposta por Goldberg, denunciam ainda os parlamentares do MAS, os prefeitos impuseram um plano de desgaste de médio prazo, incluindo destruição de instituições públicas e provocações à polícia e às forças armadas.

Na mesma linha golpista, em Santa Cruz e em Tarija começou-se a falar de federalismo e até de independência. Como o empresariado cruceño estava mais interessado na Feira de Santa Cruz (que deve iniciar no dia 19 de setembro) que nas greves e bloqueios, o Departamento de Estado convocou Branco Marinkovic para uma conversa nos EUA. No dia 1° de setembro, em um pequeno avião Beechcraft, matrícula C-90A, Marinkovic viajou aos Estados Unidos onde o convenceram de que o plano estava em sua trama final e que era preciso jogar-se todo nele. No dia 9 de setembro, horas depois do regresso de Marinkovic a Santa Cruz, iniciam protestos violentos, com invasão e queima de instituições públicas e novas agressões às forças armadas e à polícia.

Este é o plano golpista que está em marcha com o apoio da embaixada dos EUA, dizem os deputados. Foram essas razões, asseguram, que levaram o governo boliviano a pedir sua saída do país. Eles manifestam confiança que esse plano fracassará porque o governo de Evo Morales segue controlando o conflito, com paciência e dentro da legalidade, mantendo-o em sua dimensão regional. "A violência gerada por grupos impulsionados por este plano golpista é a forma pela qual os setores conservadores mostram sua decisão de acabar com a democracia, já que ela não serve mais aos seus interesses", concluem. 



----- Original Message ----- 
From: Boletim Brasil de Fato 
To: boletimbdf at listasbrasil.org 
Sent: Monday, September 15, 2008 3:30 PM
Subject: [Brasil de Fato] Boletim Especial: Crise na Bolívia


             
             

           
              DESTAQUES 

            Fragmentação
            "A Bolívia corre um risco grave de iugoslavização"
            Para sociólogo, a elite do oriente, apoiada pela embaixada dos EUA e contando com grupos armados contratados por latifundiários bolivianos, brasileiros e estadunidenses, está agindo para promover a divisão do país 
            Escreve Igor Ojeda, correspondente do Brasil de Fato em La Paz

            Processo
            Justiça processa governador de Pando por genocídio 
            Promotor geral abriu processo contra Leopoldo Fernández, acusando-o de promover massacre de camponeses, no dia 11

            Massacre
            Governador boliviano acusado de chacinar 30 camponeses 
            O massacre camponês mais mortífero da história da Bolívia desde a democratização de 1980 teria sido obra de pistoleiros a soldo de Leopoldo Fernández. Para o governo de Evo Morales, o governador colocou-se ''à margem da lei''

            Testemunhos
            "Dispararam contra as crianças" 
            Vítimas do massacre ocorrido no departamento amazônico de Pando, dia11, relatam violência cometida por grupos armados contra camponeses

            Análise
            Bolívia: A Guerra do Gás Continua
            Carlos W.Porto-Gonçalves e Marcelo Câmara
            O interessante é que as classes/etnias tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena

           
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